domingo, 27 de novembro de 2022

O Bem não é só espiritual

 

A espiritualidade não é separável do Bem. O bem aqui refere-se a um conjunto de sentimentos, virtudes e práticas: receptividade, veracidade, amor, amizade, esperança, solidariedade... 
O bem existe, em cada pessoa, em níveis maiores ou menores. E pode ser expresso, pensado e praticado. A expressão é sua exposição, o pensar é sua renovação e o praticar é laborar/ trabalhar e cuidar. 
O bem então deve orientar todos saberes. A religião, a filosofia e a ciência... 

A religião, ou mais atualmente a espiritualidade, deveria ser a expressão do bem que é aproximadamente os sentimentos citados no início do texto. Uma forma de expressar tais sentimentos é amizade. É claro que não se trata de uma amizade superficial ou interesseira, pois a espiritualidade e a religiosidade lidam com o sentir e o sentimento, de maneira profunda e/ ou ampla. 
Esta amizade espiritualizada é uma amizade com o Todo, com a criação... No cristianismo é chamada de amor a Deus e ao próximo como a si mesmo. Ou seja, a verdadeira religião ou verdadeira espiritualidade deveria fomentar a expressão de bons sentimentos. Sendo assim deveria propagar: 
receptividade e criatividade ao invés de impor visões de mundo; 
 amizade e devoção ao bem ao invés de orgulho, clubismo e rivalidade; 
tolerância, misericórdia e esperança ao invés de intolerância, paranoia e ódio; 

A filosofia por sua vez trata da amizade pelo saber, que não é apenas o "amor ao saber" que poderia significar o "gostar de estudar", mas também abrange uma postura de estudar para gostar, ou seja, para propagar o amor e o bem. 
Esta postura de propagar o bem, dá a função à filosofia de difundir a equidade e a liberdade de pensamento. Trata-se de dar chance a todos estudarem o que quiserem e evitar que determinados pensamentos individuais (ideologias excludentes, ou eugenistas, violentas etc) se imponham à sociedade de maneira opressiva. 
O saber filosófico também deve fomentar o progresso, repensando as bases e os métodos de construção de conhecimento.
Por fim a filosofia deve propagar o zelo e atenção ao pensamento. Isto não é apenas uma auto-consciência, mas também o cuidado para que uma forma de pensamento/ ideologia não se espalhe de maneira mentirosa como as manipulações e a boataria (fake news etc). 

Finalmente a ciência deveria trabalhar estudando e resolvendo as questões da vida terrena: A saúde dos seres vivos e todas suas áreas correlacionadas (zoologia, botânica, genética, bioquímica, medicina, fisioterapia, nutrição etc). Deveria se preocupar com o bem-estar dos seres vivos, com o meio-ambiente, desde a utilização de seus recursos até sua preservação (o que abrange as áreas da astronomia, astrofísica, física, geofísica, geologia, mineralogia, geoquímica etc). Por fim deveria estudar e cuidar da gestão da natureza e da civilização com suas relações sociais (através das áreas da sociologia, economia, política, gestão ambiental, agronomia etc). 
Obviamente, assim como existem fenômenos que devem ser estudados por mais de uma área da ciência (multidisicplinar etc), também haverão alguns temas "transitando" entre os saberes científicos/ filosóficos/ religiosos. O que mostra a importância de se pautar pelo bem em todos os saberes.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

O que é superior?

 

Os termos super, ultra e hiper se referem a coisas que supassam, transcendem, vão além. Que coisas? Vão além de que? Qualquer coisa que vá além do que podemos imaginar, entender ou sentir é um exemplo. 
 Aqui vou recontar de um modo diferente as experiências de êxtase que tive. Sem ordem cronológica do ponto de vista deste terráqueozinho, mesmo porque ordem cronológica está submetido à curvatura-espaço tempo e o que eu vi e senti possivelmente está além das 3 dimensões que vivemos. Mas, antes vou citar o trecho do evangelho de João, onde Jesus ensina a um judeu proeminente sobre como ocorre a condenação da alma (quando a hora chegar, certamente com a morte do corpo) 
 "Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. (...) E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas." 
 Alma ou espírito estão muito mais para sentimento, pensamento e lembranças - não há cérebro nem orgãos sensoriais como olhos ou ouvidos, nem boca para falar ou calar porque não há corpo. 
 Os espíritos mais próximos de Deus são puros, certamente o que as religiões cristãs chamam de anjos. Eles estão relacionados de alguma forma com a luz, por isso não se trata só de uma maneira de Jesus falar. Os relatos das pessoas que viram "bons espíritos, anjos ou uma das moradas de Cristo" geralmente envolvem uma descrição sobre um lugar luminoso, uma luz etc (os meus relatos inclusos). 
 Aqui seguem as definições mais aceitas sobre a luz hoje em nossa limitada visão de habitantes deste pífio planeta na vastidão infinita do espaço é: A luz é um tipo de onda eletromagnética visível, formada pela propagação em conjunto de um campo elétrico e um magnético. A velocidade da luz é absoluta e tem sempre o mesmo valor, não importa se a medimos em um laboratório fixo na Terra ou em uma nave espacial viajando a grandes velocidades. 
 Convenhamos, se houve um ser humano que entendeu mais de física do que a maioria, foi Albert Einstein. Sua teoria da relatividade foi entendida por uma maioria ou por um grupo de pensadores mais influentes, como se fosse uma teoria apenas do campo (disciplina) da física. Porém, ao propor esta teoria que indica que a curvatura espaço-tempo é relativa e a velocidade da luz é absoluta, Einstein praticamente deu um modelo ontológico à humanidade, ou seja, uma área da filosofia que estuda a existência e foi debatida por décadas como base teórica (filosófica) para as ciências. Trata-se então, em prática, de um novo modelo científico que pode e deve substituir o velho modelo iluminista e antropocêntrico de pensadores dos século 17 e 18, como Isaac Newton etc. Não à toa, uma década após Albert Einstein na 2ª década do século 20, o biólogo húngaro, Ludwig von Bertalanffy, chegou à uma conclusão parecida com a de Einstein, ao perceber que campos de estudos biológicos como a medicina, estavam cada vez mais segmentados (separados), dificultando o entendimento do corpo humano por exemplo. 
 Oras, então toda a ciência anterior a esses dois caras foi imprestável? O que isso tem a ver com a luz, com o êxtase espiritual ou com Deus? 
 Primeiramente, a ciência anterior à Einstein e Bertalanffy não foi imprestável. Ela descobriu muitas coisas dentro das limitações de sua base teórica e de seus métodos de investigação. Em segundo lugar, tem tudo a ver com a luz, ao menos para quem crê que só existe luz dentro das 3 dimensões onde existimos... Inserida na curvatura espaço-tempo, se é que é válido expressar assim. Porém existem dúvidas sobre grandezas como o espaço-tempo, a luz e principalmente, sua velocidade, assim como existem dúvidas sobre um monte de outros assuntos da física, a "nível macro cósmico e microscópico" (não gosto destes últimos termos, mas entendo pouco de física, e esta disciplina não é o foco aqui). O "X" da questão é: A mente existe e não conseguiram evidências que ela seja apenas efeitos eletroquímicos nem nada detectável por nossos 5 sentidos humanos. 
 Então a mente, ou é algo insubstancial, inexplicável como algo completamente além de nossa compreensão, ou é algo muito sutil, que transcende o corpo de alguma forma. É com ela que alcançamos "a luz que existe além do espaço-tempo". Porém a mente não é só a parte racional, vinculada somente ao cérebro - somos sentimentos, vinculados ao coração, como é possível notar em alguns efeitos psicossomáticos. E sentimentos são algo de grande importância nestas experiências transcendentais. 
 Oras, o Criador fez todo universo num movimento de retração ou de expansão? De ódio ou de esperança? Obviamente, de expansão, de esperança. 
 Quando eu tive minha segunda experiência de êxtase o que eu fiz foi implorar por esperança. 
 Quando eu tive a primeira eu simplesmente sabia que o bem era mais importante do que TODOS os outros assuntos dos seres humanos na Terra e além. Não, eu não sabia se existia alma, ou espírito, nem era religioso, pois em prática eu era ateu, diferente de quando eu tive a segunda experiência, quando eu já sabia da existência da alma, dos espíritos e de Deus. Ambas experiências estavam notoriamente além da minha capacidade de imaginação e eram muito mais reais e nítidas do que as alucinações que eu tive em estados febris (patológicos, como gripes fortes etc) de minha infância. Isto eu explico a seguir: 
 Na primeira experiência eu vi seres de luz, que se comunicavam aproximando-se uns dos outros. Ao ver, eu simplesmente soube que eles se comunicavam e isto é difícil de explicar do ponto de vista pifiamente terráqueo. Eles existiam MAIS do que nós, isto é uma maneira mais precisa de explicar. Por isso a certeza* (*palavra insuficiente) para (tentar) explicar o que eu vi/ percebi. Pareciam grandes quantidades de informação passadas com a mera aproximação e não havia nada a esconder e era tudo muito pacífico na primeira experiência. 
 Na segunda experiência eu vi inúmeras vidas inteiras, como se cada vida fosse um átomo ou partícula daquela luz. E "a luz" amava profundamente, eu, e tudo além. Eu reconheci como algo que senti da minha mãe em algum momento de minha existência e esta foi uma das razões que reconheci que era amor muito puro. E era mais real do que esta minha vida terráquea, esta é a segunda razão pela qual entendi que o amor transcende esta existência. O detalhe é que ao fim da experiência, além de me sentir restaurado das várias noites as quais eu tinha dormido menos de 3 horas cada, eu senti algo "ruim": Mas esse algo ruim era meu - eram minhas impurezas (vaidades, egoísmos etc) que me fizeram encolher-me mentalmente de vergonha diante "a luz" tão pura (imagino Deus... em minha pequenez não saberia dizer mais sobre) por uma fração minúscula de tempo/ segundo. 
 A mente existe e se não for a alma, é ao menos, parte desta. A partir daí, é interessante esforçarmos para abandonarmos o conceito simplório de existir e não existir (só existe ou não existe), mesmo porque discutir o não existir é bem... digno de inexistir. Deveria inexistir tal discussão. Interessante é falar e almejar o que existe e o que existe mais, porque coisas devem existir mais e menos umas em relação às outras. E embora pareça que existam mais coisas ruins do que boas, isto é só nossa percepção num planetinha possivelmente insiginificante no infinito. Seja o infinito 3D, 4D, 5D ou mais"D"... Então, pelo que percebi em minhas experiências, das quais chamo de êxtase, o que existe mais é o que faz bem a TODOS. É humildade (que é básico), receptividade (que rege relações), atenção (que rege veracidade e busca pela verdade), paciência (que rege superação), devoção (que rege amizade/ honra), força de vontade (que rege impulsos e julgamento individual) e piedade (que rege solidariedade)... É também a busca pela verdade com estudo e bom-senso... é tudo isto que nos leva a luz que Jesus diz à Nicodemos citada no texto do apóstolo João. É o que leva ao divino, ao Criador, ao Todo. 
 Imagine Deus (ou que seja alguém "mais próximo de nós", e assim, mais fácil: Os anjos ou arcanjos/ os espíritos muito elevados). Não se trata de um cara meramente bacaninha. Não se trata de um gênio intelectual, nem de alguém que ama demais algumas poucas pessoas, muito menos de alguém severo ou punidor (isto deveria ser óbvio). 
 Deus (ou o mais puro dos anjos) trata-se da mente com o maior conhecimento unido a um amor que transcende tudo o que existe as 3 dimensões (ambos atributos transcendem). Ultrapassam praticamente tudo que existiu na Terra e certamente também em outros planetas que tenham vida. Que estuda, entende e com humildade, busca entender mais. Quem é receptivo, ama e com humildade, espera. Espera quem? Espera a todos, mas não de forma inativa e sim criando com amor, porque sua esperança é o que rege ciclos de criação e destruição cósmica. 
 O superior então criou tudo, certamente por esperança infinita. Superior então é o que serve ao menor, ao inferior, com receptividade serve às formas de vida, incluindo nós seres-humanos que tanto erramos ao desprezar diversos aspectos da obra do Criador. 
 A essência do superior é o amor, por isso Cristo propagou a lei de amor: Amar a Deus/ o Todo e amar o próximo como a si mesmo. Este amor que parece tão difícil de por em prática certamente contém dois elementos que eu já citei neste e em outros textos meus: A humildade interna (que por enquanto chamo de receptividade) e a esperança. Por isso todo discurso, argumento e ideologia contra a humildade e contra a esperança são nocivos ou imprestáveis. Por mais difícil que as coisas sejam, há esperança, pois nada sabemos sobre as vastas possibilidades de futuro em nosso universo 3D inserido na curvatura espaço-tempo e sabemos menos ainda das possibilidades que estão além desta tal curvatura que molda nossa realidade.

sábado, 15 de outubro de 2022

Tomé, Filipe e o cristianismo - Convergindo textos religiosos com base no Bem

 

Eu acho interessante a proposta de buscar as semelhanças entre as espiritualidades e o que há em comum entre as religiões. Não para afirmar qual é mais correta, mas sim para buscar o que é bom para todos. Obviamente isto pode parecer utópico, subjetivo demais, delirante e/ou impossível, mas para evitar tentativas de controle sobre comunidade e movimentos de cisão e divisão entre as pessoas, basta considerarmos a importância de algumas coisas básicas: Humildade (ou presunção da ignorância), amor e esperança. Resumidamente empenhar-se em viver tais preceitos deve nos servir de guia para buscar a união benéfica das variadas espiritualidades. 
Neste texto traço as possíveis relações que aproximam os evangelhos de Filipe dos demais ensinamentos cristãos - principalmente dos 4 evangelhos das igrejas cristãs (João, Lucas, Marcos e Mateus) e da filosofia cristã espírita. Eu pensei em analisar e descrever algum conteúdo do evangelho de Tomé também, mas o texto ficaria muito extenso. 
Há poucos meses li os evangelhos de Tomé e de Filipe, chamados de apócrifos por aí a fora. Ao buscar informações sobre tais evangelhos se encontram variadas opiniões sobre suas origens, validade etc etc. As opiniões podem se basear tanto em fatores físicos que tentam traçar a data em que tais textos foram escritos e quem os escreveu, como em fatores de interpretação do conteúdo. Eu considero este último fator (conteúdo) mais importante, mas obviamente não concordo com muitas das interpretações sobre tais textos. Resumidamente chamarei de duas linhas de pensamento, estas opiniões das quais eu tenho algumas críticas: A primeira eu chamaria de materialista (ou talvez de sensacionalista): É a redução de Jesus de Nazaré a uma pessoa comum, que tinha algumas atitudes mais próximas das pessoas comuns, não no sentido de sensibilizar-se como Marcos mostra em seus textos. A segunda é a linha esotérica (talvez ocultista), onde místicos (sejam teólogos, sacerdotes etc) realmente se aprofundam no misticismo priorizando tal tipo de leitura e interpretação dos textos. 
Discutirei basicamente a visão materialista do evangelho de Filipe (vale citar que leitores mais céticos acham que estes textos foram escritos por cristãos um ou dois séculos após a morte do apóstolo Filipe): 
Os defensores desta interpretação alegam que Jesus não foi crucificado nem morto de qualquer maneira por seus opositores (nem por fariseus nem por Poncio Pilatus nem por escribas etc). Também dizem que se ele beijava Maria Magdalena na boca como o texto indica, era porque a amava como mulher (no sentido vulgar / popular). É desta linha de pensamento que surgem os argumentos que ele teria formado família (filhos com Magdalena) e fugido para a "França", porém isto não está escrito no evangelho de Filipe (talvez esteja em outro que eu não li, como o evangelho atribuído a Magdalena). Vale lembrar que a França só viria a se formar após o Reino dos Francos, séculos depois do período em que viveu Jesus de Nazaré e seus apóstolos, então o correto seria afirmar que ele fugiu para a Gália, certamente tomada pelo Império Romano durante o século 1. 
Contra esta interpretação devo perguntar quando o texto de Felipe (ou de seja lá quem for que escreveu este evangelho) menciona que não se morre para ressuscitar, ele está automaticamente negando que Jesus foi morto por seus opositores? 
E se os textos deste evangelho não mencionassem fato algum sobre a morte de Jesus, isto significaria que Jesus escapou de seus perseguidores? Não, na verdade o texto apenas poderia deixar tal questão em aberto. 
A questão sobre este mesmo tema é: 
O termo ressurreição surge neste texto possivelmente em dois sentidos, como nos evangelhos dos 4 apóstolos aceitos nas religiões cristãs: Ele surge expressando o trazer de volta a vida (como na ressurreição de Lázaro, do filho da viúva de Naim e na do próprio Jesus) e expressando o "vir ao mundo dos vivos" / "erguer-se entre os vivos, ou seja, na vida (material)". Esta última expressão está mais de acordo com as explicações e interpretações espíritas do que com a ideia de que Jesus teria escapado dos fariseus e de outros opositores (coisa que o evangelho de Filipe não afirma em momento algum). O evangelho de Filipe então está dizendo que Jesus encarnou na Terra para realizar o que realizou (as curas, as pregações que indicam o caminho da salvação etc) - está afirmando que ele não era um mero boato, nem um farsante, nem algum tipo de truque ou um espírito desencarnado. 
Encerrando este tema sobre se Jesus de Nazaré morreu ou não por causa de seus perseguidores (fariseus etc), este parágrafo de Filipe está de acordo com os demais apóstolos: "Cristo veio para resgatar alguns, para salvar outros, para redimir outros. Ele resgatou aqueles que eram estranhos e os fez seus. E ele separou os seus, aqueles a quem deu como penhor de acordo com o seu plano. Não foi apenas quando ele apareceu que ele voluntariamente deu sua vida, mas ele voluntariamente deu sua vida desde o dia em que o mundo veio a existir."
Ou seja, a morte de Jesus na Terra é a segunda vez que ele se entrega (ou se "sacrifica") pelo bem.

 O trecho sobre Maria Magdalena, cujo parece faltar algumas palavras nos dois primeiros parágrafos, mostra os demais discípulos (o texto não cita se são todos ou alguns) indignados pelo fato de Jesus mostrar mais amor por Maria Magdalena do que por eles. Eis o terceiro parágrafo: Eles lhe disseram: "Por que você a ama mais do que todos nós?" O Salvador respondeu e disse-lhes: "Por que eu não os amo como ela? Quando um cego e um que vê estão juntos na escuridão, eles não são diferentes um do outro. Quando a luz vem, então aquele que vê, verá a luz, e o cego ficará nas trevas”
É claro, que cada pessoa pode interpretar a resposta de Jesus de um jeito particular, mas para que não vire uma discussão de meras opiniões, dando abertura para argumentos ateístas, charlatães ou até mesmo contrários aos ensinamentos do cristianismo, é importante trazer todos os diálogos de Jesus para o centro de seus ensinamentos. E o centro dos ensinamentos de Cristo é o amor a Deus e ao próximo (a todos seres humanos, pois todos são obras do Criador). Assim, é mais fácil entender que Jesus se aproximava de Maria Magdalena para salvá-la. Pois assim quando "viesse a luz", ao amar seu parceiro Jesus, Maria Magdalena já não estaria mais "cega" (não estaria mais na escuridão, termos para designar pecado, erro). Esta interpretação complementaria a passagem de João Evangelista, o único apóstolo a mencionar que quando Jesus, após sua morte, apareceu diante Magdalena, a chamou pelo nome. Este é o momento em que a "luz vem" para Maria Magdalena e os demais apóstolos têm dificuldade para crer que ela tenha visto Jesus Cristo. 
Se o evangelho de Filipe complementa o de João desta forma, então ele não pode nem mesmo insinuar que Jesus (fisicamente/ materialmente) não tenha morrido. 
Alguns podem entender a morte de Jesus crucificado como uma invenção por "X" motivos. Aqui eu mostro que o evangelho de Filipe nada diz a respeito sobre o destino final do corpo de Jesus ou de como foi sua morte, ou passagem para outra existência. 
Muitos dos textos deste evangelho tentam descrever como Jesus surgiu na Terra, porém com uma aparente limitação de linguagem, certamente como Kardec menciona em seus escritos durante o século 19: Os judeus e povos relacionados a estes na época em que Jesus viveu na Terra (século 1) não tinham uma palavra para designar a encarnação nem a reencarnação. Assim, Filipe como alguns outros profetas judeus e apóstolos de Cristo, usavam o termo "ressurreição" tanto para falar da reencarnação como para falar de ressuscitar um morto (como mencionei anteriormente sobre Lázaro e a viúva de Naim). 
Neste ponto, muitos espíritas poderiam discordar, apelando ao argumento que nenhum tipo de ressurreição existe. Eu porém, discordo deste extremismo, pois não achei tal afirmação nos textos espíritas de Kardec. Kardec fala sim que a palavra ressurreição é usada para falar da reencarnação e dá os exemplos em quais textos da bíblia eles são utilizados: Em "Jó" (escrito Job em algumas versões) e nas passagens que falam de João Batista, como sendo a reencarnação do profeta Elias. Além disto, espíritas poderiam afirmar que trazer o corpo de volta a vida não é uma ressurreição porque o períspirito permite que um médium possa realizar reanimação do corpo se este morreu dentro de um prazo aproximado de até 3 dias... Não me lembro qual espírita afirmou isto, mas não importa, aqui o assunto vira um tecnicismo que se afasta muito do essencial do cristianismo, que é a lei de amor. É muito fútil e até nocivo discutir se este possível fenômeno deve ser chamado de reanimação ou ressurreição. São estes tipos de discussão que geram cisão, clubismo e fomentam rivalidades (entre outros possíveis sentimentos ruins) baseadas em orgulhos patéticos. 
Por falar em como Jesus surgiu na Terra, o evangelho de Filipe toca em mais uma polêmica: Ele diz que Jesus não nasceu de Maria, ao menos não do jeito convencional. Ele foi concebido pelo Espírito Santo, e de acordo com os textos deste evangelho, o Espírito Santo está mais para uma entidade feminina do que para masculina. Segue o parágrafo onde entende-se tais fatos: "Alguns diziam: “Maria concebeu pelo Espírito Santo”. Eles estão em erro. Eles não sabem o que estão dizendo. Quando uma mulher concebeu de uma mulher? Maria é a virgem que nenhum poder contaminou.
Embora possa parecer fútil tal discussão, creio ser possível tirar pontos proveitosos deste texto de Filipe (ou de outro que tenha escrito isto). Proveitoso para união de diferentes religiões/ espiritualidades e convergência de diferentes textos religiosos: Ao afirmar que Maria não podia conceber do Espírito Santo, com a pergunta "Quando uma mulher concebeu de uma mulher?", Filipe aproxima-se dos textos de Mani, cujo fundou a religião judaico-cristã no século 3, conhecida como maniqueísmo. Apesar de não me aprofundar no maniqueísmo (nem sei se é possível), entendo que nesta religião o seu "profeta fundador" cita o Deus Criador, a Mãe da Vida (Espírito Vivo) e o Homem Original, de modo semelhante a uma santíssima trindade. Este argumento também se aproxima com um conceito muito bonito da obra "Cidade Mística de Deus" que diz que Deus planejou a mulher (ou o feminino) desde o início dos tempos, antes do surgimento da vida material no universo. É uma obra que mostra muitos defeitos da época (machista) em que foi escrita, e certamente da influência dos indivíduos poderosos da igreja católica e da nobreza espanhola, mas que tem alguns pontos positivos como este mencionado acima. 
Além do mais, os textos de Filipe não tiram a pureza de Maria, pois afirma que ela não foi contaminada por poder algum. Assim, Maria pode ter sido escolhida por Deus para cuidar de Jesus desde sua tenra infância. Pode ter até mesmo carregado Jesus em seu ventre... Mas é apenas isto. 
O evangelho de Tomé colabora com esta visão no seguinte trecho: "Jesus disse: Quando você vir alguém que não nasceu de mulher, prostrai-vos sobre os vossos rostos e adorai-o. Aquele é seu pai.
Porém não vou me aprofundar mais sobre o evangelho de Tomé, nem sobre possíveis interpretações místicas neste texto. 
Poder entender uma concordância entre o evangelhos de Filipe e de Tomé com os demais evangelhos e com o espiritismo (e até mesmo com o maniqueísmo), já é um bom passo para união entre espiritualistas e religiosos cristãos, ou próximos / amigáveis ao cristianismo.

domingo, 25 de setembro de 2022

O Básico da Fé e da Espiritualidade

 

Tolerância inter-religiosa/ Respeito Espiritual 

Resumidamente decidi escrever este pequeno texto por ter esperança que as pessoas abram seus corações, abandonando o temor diante o diferente, e (em alguns casos) o orgulho, para se tornarem mais tolerantes e piedosas:

Você, que segue uma determinada religião ou espiritualidade, não precisa deixar sua crença, fé, espiritualidade ou religião para aceitar que as outras têm coisas certas. 
A verdade por trás disto tudo é o bem. Se uma religião, por exemplo, prega algo contrário ao bem, ela é uma farsa. Se ela despreza humildade, perdão, equidade e solidariedade, ela é destrutiva e nociva para toda a criação. Cada religião pode ter diferenças entre si, ao explicar quem está por trás da criação: Umas chamam de Deus, outras de Alá, de Yhwh (Javé), de Brahman, de Todo, ou o Todo, entre tantos outros nomes... O fato é que a criação é uma obra do bem, de amor e de esperança - Qualquer fé ou espiritualidade verdadeira mostra que seria ilógico afirmar que todo o universo é uma obra maligna ou de um destruidor. 
Você pode crer em Deus do seu jeito enquanto o outro crê do jeito dele; E se quiser saber se o outro está a favor ou contra tua espiritualidade/ fé e/ou contra Deus, basta ver o que ele diz e principalmente as atitudes dele - as obras e os resultados. 
Não é a igreja, nem o templo, nem a religião que determina quem crê e quem vive a lei divina de amor. Sendo divina esta lei que mostra a importância do amor, na forma de humildade, de piedade ou de solidariedade - ela é do Criador, portanto rege todos seres humanos independente de suas nacionalidades, culturas ou religiões. 
O Criador fez a todos e não prefere um ou outro: Ele aguarda que todos vivam o bem, ou seja sua lei, que faz bem a todos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Espiritismo, uma Filosofia entre a Ciência, o Cristianismo e o Platonismo

 

Estive lendo alguns textos espíritas da segunda metade do século 19 (da época de Kardec) e apesar de uma linguagem meio técnica e antiga, notei argumentos interessantes que posicionam o espiritismo diante os saberes da humanidade. Aqui cito dois textos e comento eles em seguida: 

"Um dia, Deus, em sua inesgotável caridade, permitiu que o homem visse a verdade varar as trevas. Esse dia foi o do advento do Cristo. Depois da luz viva, voltaram as trevas. Após alternativas de verdade e obscuridade, o mundo novamente se perdia. Então, semelhantemente aos profetas do Antigo Testamento, os Espíritos se puseram a falar e a vos advertir. O mundo está abalado em seus fundamentos; reboará o trovão. Sede firmes! 
 O Espiritismo é de ordem divina, pois que se assenta nas próprias leis da natureza, e estai certos de que tudo o que é de ordem divina tem grande e útil objetivo. O vosso mundo se perdia; a ciência, desenvolvida à custa do que é de ordem moral, mas conduzindo-vos ao bem-estar material, redundava em proveito do espírito das trevas. Como sabeis, cristãos, o coração e o amor têm de caminhar unidos à ciência. O reino do Cristo, ah! passados que são dezoito séculos e apesar do sangue de tantos mártires, ainda não veio. Cristãos, voltai para o Mestre, que vos quer salvar. Tudo é fácil àquele que crê e ama; o amor o enche de inefável alegria. Sim, meus filhos, o mundo está abalado; os bons Espíritos vo-lo dizem sobejamente; dobrai-vos à rajada que anuncia a tempestade, a fim de não serdes derrubados, isto é, preparai-vos e não imiteis as virgens loucas, que foram apanhadas desprevenidas à chegada do esposo. 
 A revolução que se apresta é antes moral do que material. Os grandes Espíritos, mensageiros divinos, sopram a fé, para que todos vós, obreiros esclarecidos e ardorosos, façais ouvir a vossa voz humilde, porquanto sois o grão de areia; mas, sem grãos de areia, não existiriam as montanhas." 

 Kardec Respondendo ataques de cientistas materialistas: 
"Ninguém é bom juiz senão em assuntos de sua competência. Se quisermos construir uma casa, chamaremos um músico? Se estivermos doentes, preferiremos ser tratados por um arquiteto? Se tivermos um processo, aconselhar-nos-emos com um dançarino? Enfim, caso se trate de uma questão de teologia, pediremos a sua solução a um químico ou a um astrônomo? Não. Cada qual no seu ofício. As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que podemos manejar à vontade. Os fenômenos por ela produzidos têm como agentes forças materiais. Os do Espiritismo têm como agentes inteligências que possuem sua independência, seu livre-arbítrio, e de modo algum se submetem aos nossos caprichos. Escapam destarte aos nossos processos anatômicos ou de laboratório, bem como aos nossos cálculos e, por consequência, não são mais de alçada da ciência propriamente dita. A ciência errou, pois, ao querer experimentar os Espíritos como uma pilha de Volta. Ela partiu de uma ideia fixa, preconcebida, à qual se aferra e quer forçosamente ligar à ideia nova. Fracassou, e assim devia ser, porque agiu a partir de uma analogia que não existe. Depois, sem ir mais longe, concluiu pela negativa: julgamento temerário, que o tempo diariamente se encarrega de reformar, como reformou tantos outros, e aqueles que o pronunciarem, serão por sua vez sentenciados pela vergonha de haverem levianamente assumido uma posição falsa contra o infinito poder do Criador. Assim, pois, as corporações científicas não devem, nem deverão jamais pronunciar-se sobre o assunto, pois ele não é mais de sua alçada do que o direito de decretar que Deus existe. É, pois, um erro tomá-las como juiz. Mas quem será o juiz? Arrogam-se os espíritas o direito de impor as próprias ideias? Não. O grande juiz, o juiz soberano é a opinião pública, e quando essa opinião se formar pelo assentimento das massas e dos homens esclarecidos, os cientistas oficiais a aceitarão como indivíduos e se submeterão à força das circunstâncias. Deixemos passar uma geração e com ela os preconceitos do amor próprio que se obstina, e veremos acontecer com o Espiritismo o mesmo que aconteceu com tantas outras verdades combatidas e que atualmente seria ridículo pôr em dúvida. Hoje os crentes são chamados de loucos, amanhã assim serão chamados aqueles que não creem, exatamente como outrora eram considerados loucos os que acreditavam que a Terra gira, o que não a impediu de girar. “Dizem que os seres invisíveis se comunicam. Por que não? Antes da invenção do microscópio suspeitávamos da existência desses milhares de animálculos que causavam tanta devastação em nossa economia? Onde a impossibilidade material da existência, no espaço, de seres que escapam aos nossos sentidos? Acaso teríamos a ridícula pretensão de saber tudo e dizer a Deus que ele não nos pode ensinar mais nada? Se esses invisíveis que nos cercam são inteligentes, por que não se comunicariam conosco? Se estão em relação com os homens, devem representar um papel no destino e nos acontecimentos. Quem sabe se não serão uma das potências da Natureza, uma dessas forças ocultas que não suspeitamos? Que novo horizonte isto abre ao pensamento! Que vasto campo de observação! A descoberta do mundo invisível seria muito diversa da descoberta dos infinitamente pequenos. Seria mais que uma descoberta: seria toda uma revolução nas ideias. 
Quantas coisas misteriosas seriam explicadas! Os que nisto acreditam são levados ao ridículo, mas o que isto prova? Não aconteceu o mesmo com todas as grandes descobertas? Cristóvão Colombo não foi repelido, coberto de desgostos e considerado um insensato? Essas ideias, disseram, são tão estranhas que a razão as recusa. Teríamos rido na cara de quem, há somente meio século, tivesse dito que em apenas alguns minutos nos corresponderíamos de um a outro extremo do mundo; que em algumas horas atravessaríamos a França; que com o vapor de um pouco de água fervente um navio navegaria contra o vento; que da água seriam tirados os meios de iluminar e de aquecer? Se um homem se tivesse proposto iluminar toda Paris em um minuto, com uma única fonte de uma substância invisível, teria sido enviado ao hospício. Seria acaso mais prodigioso que o espaço fosse povoado de seres pensantes que, depois de haverem vivido na Terra, deixaram o se envoltório material? Não encontramos no fato a explicação de uma porção de crenças que remontam à mais alta Antiguidade? Não é a confirmação da existência da alma, de sua individualidade depois da morte? Não é a prova da própria base da religião? Mas a religião só vagamente nos diz o que se tornam as almas. O Espiritismo o define. Que podem objetar os materialistas e os ateus? Vale a pena aprofundar semelhantes coisas”. 
 Eis as reflexões de um cientista, mas de um cientista despretensioso. São também as de uma porção de homens esclarecidos, que refletiram, estudaram seriamente, sem ideias preconcebidas e tiveram a modéstia de não dizer: Não compreendo, portanto não existe. Sua convicção formou-se pela observação e pelo recolhimento. 
Há céticos que negam até a evidência e aos quais nem milagres convenceriam. Há mesmo os que ficariam muito aborrecidos se fossem obrigados a crer, pois o seu amor-próprio sofreria ao confessar que se enganaram. Que responder a criaturas que por toda parte não enxergam senão ilusão e charlatanismo? Nada. É preciso deixá-las tranquilas e dizerem, enquanto quiserem, que nada viram e, até, que nada lhes pudemos fazer ver. Ao lado desses céticos endurecidos, há os que querem ver a seu modo. Formada uma opinião, a esta tudo querem submeter, não compreendendo que haja fenômenos que não se submetam à sua vontade. Ou não sabem, ou não se querem curvar às condições necessárias. 
Aos olhos do observador atento e assíduo multiplicaram-se os fenômenos, confirmando-se reciprocamente, mas aquele que pensa que basta virar a manivela para movimentar a máquina, engana-se redondamente. Que faz o naturalista que deseja estudar os costumes de um animal? Acaso lhe ordena que faça isto ou aquilo, a fim de ter a oportunidade de observá-lo à vontade e conforme as suas conveniências? Não. Ele sabe perfeitamente que não será obedecido. Mas espia as manifestações espontâneas de seu instinto; espera-as e as observa de passagem. 
 O simples bom-senso nos mostra que, com mais forte razão, assim deve ser com os Espíritos, que são inteligências muito mais independentes que a dos animais." 

O Percurso da Filosofia e da Ciência - Onde se encaixa o Espiritsmo 
Nestes dois textos Kardec recua com a proposição de que o espiritismo é uma ciência (feita em outro texto seu). Importante notar que na época de suas publicações (1858-1869), o termo cientista era uma definição bastante recente, pois só em 1834 foi adotada tal palavra para substituir a terminologia anterior: Filósofo naturalista, ou filósofo natural. 
Embora existiram filósofos naturalistas antes de Sócrates e Platão, podemos considerar que a filosofia natural tem suas bases nos estudos de Aristóteles (século 3 a.C.) que separou-se de alguns conceitos mais mentalistas/ espiritualistas de Platão e Sócrates. As teorias aristotélicas foram sendo suprimidas durante o Império Romano, juntamente com a filosofia socrática/ platônica, praticamente desaparecendo da Europa após a queda do Império Romano Ocidental e certamente tendo como um dos últimos divulgadores, o sacerdote Agostinho de Hipona. A partir daí ela sobrevive na pandidakterion do Império Romano ("bizantino") e chega ao Império Omíada / Califado Rashidum (Árabe) no século 7 d.C, ganhando força entre os séculos 11 e 12, quando os Europeus voltam a estudá-la efetivamente mais ou menos durante o período de fundação das primeiras universidades (católicas) européias. Depois disto, a filosofia natural só começa a se desvincular da religião após o fim dos concílios entre a igreja católica romana e a católica ortodoxa em meados do século 15 (entre 1431 e 1438). Em 1687, o físico inglês, Isaac Newton, começa a busca de uma nova concepção de filosofia natural, com as bases mais matemáticas e materialistas e em 1690, o filósofo inglês, John Locke, lança o método empírico que viria a se consolidar como uma posição filosófica específica. Apesar do trabalho destes estudiosos, outras linhas de estudo surgiram em paralelo, desde o dualismo de René Descartes, até o mentalismo de vários outros filósofos que, de modo geral, concorreram com as demais filosofias. Como, só em 1834 os ingleses cunharam um termo que fomentaria a separação da ciência e filosofia, entende-se que o processo de distinção desta área do saber em relação à filosofia foi gradual e se estendeu aproximadamente até as três primeiras décadas do século 20 com a teoria da falseabilidade. 
 Resumidamente, pode-se entender que a ciência é composta por uma ontologia (que determina os pressupostos filosóficos) materialista e por uma epistemologia, ou seja, método de investigação, que trabalha com a reprodutibilidade das experiências e com evidências (sensoriais), enquanto a filosofia trabalha com conjecturas, racionalização e reflexões para se alcançar um entendimento, ou seja, permite conceitos além da demonstração física, perceptível pelos 5 sentidos humanos. Assim, podemos entender a filosofia como um amplo campo de estudos, ou uma área do saber, que de certo modo pode fazer o caminho ou o meio termo entre o saber religioso (espiritual, transcendental etc) e o saber científico. 
Neste caso, o que talvez Kardec não tivesse certeza, é que o espiritismo é mais uma filosofia do que uma religião ou uma ciência - exatamente porque tentou construir uma ponte entre os dois saberes: Na conclusão do 1ª texto aqui mencionado, Kardec (a mensagem tem características típicas das psicografadas) alega que a ciência até então havia se desenvolvido sacrificando a moral, ou seja, sobrepondo a importância da empatia solidária, deixando a importância dos bons sentimentos nas sociedades humanas em segundo plano! Ainda confirma que o "coração" e o amor têm que seguir unidos à ciência e alerta que virá a tempestade, possivelmente se referindo a frieza propagada pelo niilismo e pelo materialismo que colaborou com teorias eugenistas como o darwinismo social, teorias racistas e paranoicas como o nazismo e teorias punitivistas e brutais como o fascismo. Tudo isto resultou em uma busca inconsequente por riquezas marcada pela corrupção dos maiores bancos e corporações da Europa e EUA, pela partilha e invasão da África (1885 a 1914) e é claro em duas guerras mundiais (1914 a 1918 e 1939 a 1945)! Esta é toda uma realidade notável do fim do iluminismo e da era moderna, perceptível na época de Kardec e nas próximas 7 décadas... E pode-se considerar que não acabou, pois o progresso, que faz parte da evolução da espécie humana e de suas pulsões de vida, é constantemente ameaçado por impulsos de destruição e morte. Estas forças por trás do inconsciente de fato movem o comportamento humano, mas para os cientistas em geral elas são biológicas ou no máximo mentais, enquanto para os espíritas e espiritualistas, elas frequentemente podem ser algo a mais - transcendentais, ou seja, espirituais. 
No 2º texto, ao indicar (voluntariamente ou não) que o espiritismo está entre o saber religioso e o saber científico, Kardec aponta o espiritismo como uma filosofia. Isto realmente se faz necessário, uma vez que pouco a pouco, na história da filosofia, ela foi sendo reduzida, ou "devorada" pela ciência que nascia como o saber soberano, com pretensões de invalidar não só a filosofia, mas primariamente a religião junto de toda a espiritualidade. Este processo de "defensores da ciência" atacarem os demais saberes chega a seu ápice na primeira metade do século 20, onde filósofos liberais (no sentido econômico), como Karl Popper, membro da sociedade de Mont Perelin, atacaram praticamente todos os saberes de bases mentalistas e espiritualistas - desde Freud, passando por Jung até toda religião e espiritualidade real, ou seja, atacou os espíritas de lambuja. Para quem não sabe, a sociedade de qual o famoso filósofo participava foi um dos primeiros grupos ativistas neoliberais do mundo, cujo objetivo era suprimir todos movimentos de esquerda moderados ou extremistas (ou seja, era um grupo de extrema direita sob uma máscara de defensor da liberdade e de racionalidade científica). Este ataque a todos esses saberes serviu para manter a ciência nas bases newtonianas e no método empírico, deixando em segundo plano (intencionalmente ou não) teorias como as da relatividade de Einstein. 
Não é difícil então ver que o cenário mundial até a virada dos anos 50 aos 60 do século 20 era de tensão pós guerra mundial - Um cenário de medo de novos conflitos e de ameaças entre o ocidente predominantemente liberal/ capitalista contra o oriente mais socialista. Um ocidente ainda marcado pelos vestígios do imperialismo britânico, pela cobrança de produtividade e de consumo feita pelas grandes indústrias e corporações e pela ascensão das "potências mundiais" (EUA e URSS) cada vez mais intervencionista nos demais países. Uma ascensão intrusiva e exploratória sob a máscara de negócios internacionais e globalização por parte dos EUA e uma ascensão mais político-militar da URSS. 
A primeira mudança nos saberes deste período iniciou-se com a teoria geral dos sistemas, uma teoria científica surgida na área da biologia (mas que se expandiu para outras ciências) que considera a existência através de relações... O que por coincidência ou não, se aproxima da teoria da relatividade, de que a existência ocorre por... relações, como diz a própria etimologia da palavra. Estas teorias afastam-se da base materialista da ciência (ao cogitarem trabalhar com campos e ondas a níveis sub atômicos por exemplo), assim como também se distanciam do método empírico por serem menos práticas.
Enfim, este período pós guerras mundiais e de começo da guerra fria, fez eclodir os movimentos sociais dos anos 60 em variados países, que apesar de suas pautas bastante humanas (paz, amor, igualdade etc) ainda tem muito o que fazer, pois gerou poucos bons resultados, ou seja ainda não alcançou totalmente seus objetivos. 
Concluindo, como filosofia, parece que o espiritismo deve sofrer poucas mudanças devido a evolução da ciência. Talvez as mudanças principais devam ocorrer devido a alguns ajustes, ao revisar posturas antiquadas da época de sua fundação na segunda metade do século 19. Afinal se o espiritismo é uma filosofia complementar ao cristianismo e a ciência, buscando a união do amor com a ciência, ela jamais deve esquecer-se da importância de propagar o amor ao próximo, que significa o amor à toda humanidade e à toda criação. Jamais deve permitir que ocorram movimentos insensíveis ou cruéis sob a máscara de busca por justiça, progresso frio e/ ou apenas tecnológico ou qualquer outra mentira. O egoísmo penetra todas as áreas do saber: como materialismo na ciência, indiferença na filosofia, obscurantismo e ódio na religião e por isto a humildade é base para que se ocorra progresso verdadeiro nos 3 saberes. Esta humildade deve cessar rixas e permitir que o bem, seja na forma de um acolhimento crescente e/ ou na forma do amor, como citado no texto espírita, caminhe junto com a ciência. 

Fontes: 
O Evangelho segundo o espiritismo;
Revista Espírita de Estudos Psicológicos - junho de 1859; 
Encyclopedia Britannica, Higher Education in the Byzantine Empire, 2008, O.Ed.
História geral, moderna e contemporânea - Borges Hermida;

domingo, 24 de julho de 2022

Humildade: do Biopsicossocial à Espiritualidade

Humildade é o começo e o fim de tudo que é bom. Tudo começa na humildade, no realizar os atos assumindo que não se conhece tudo: Assim começa a vida, os relacionamentos, os estudos, a espiritualidade... 

Particularmente, eu pensava que seu oposto era o orgulho, mas seu oposto certamente é a desistência/ o ceticismo pessimista/ o negacionismo materialista. 

A humildade é prática e é a ausência de toda e qualquer suposição, portanto é ausência de preconceito também. Isto é pré requisito para construir conhecimento e para conviver em sociedade. Assim também é para justiça - presunção da inocência nada mais é do que assumir que ainda não se conhece o outro a ser investigado ou julgado... 
A humildade assim nos direciona ao que é justo e ao que é belo. Nos direciona ao bem. Seu oposto direciona ao mal obviamente. 
Tudo começa na humildade. A vida terrestre começa assim, seja num olhar objetivo ou em um olhar  mais amplo. 
Para as doutrinas e filosofias espiritualistas, as almas se aperfeiçoam nascendo/ renascendo na Terra - pode-se dizer reencarnando. O verdadeiro aprendizado passa por isso: é preciso agir e interagir com alguma disposição ou aceitação ao novo e/ ou ao diferente/ o que era desconhecido até então.
Não se trata de perfeccionismo, pois o humilde não exige dos outros, por isso alguns podem pensar que humildade é ingenuidade ou ignorância, mas não é. Humildade é estar disposto a aprender e não se considerar melhor que os outros. Esta humildade possibilita o indivíduo se aperfeiçoar, portanto, após um processo de busca e aprendizado, permite se tornar perfeito. 

No início do texto mencionei que humildade era o começo (o pré requisito de todos saberes), mas também o fim e aqui vai o motivo: Todas as pesquisas e obras realizadas com fim mesquinho não constituem progresso de verdade, pois visam benefício de uns poucos e causa malefícios a uma maioria. Isto é um desequilíbrio que causa transtornos, dificuldades e até mesmo destruição na civilização. O progresso, como costumo ressaltar, requer uma empatia solidária - se mostrando contra a indiferença e o egoísmo. O progresso (começando na humildade) requer uma visão do coletivo e do todo, com esperança de melhora e de paz. Portanto a humildade está no fim também.


terça-feira, 12 de julho de 2022

O Bom Julgamento não tolera Vingança

Desmistificando a Esquerda e a Direita nos meios Esotéricos e Espirituais / Religiosos 

Há meses venho me decepcionando com pessoas supostamente espiritualizadas: Seja entre espíritas ou entre umbandistas. Entendo que não se trata de olhar toda religião ou doutrina deles como errada (mesmo porque entendo e aceito muita explicação do espiritismo e até algumas coisas da umbanda), afinal isto seria julgar. O que me incomodou foram alguns conceitos que muitos deles levantam como verdades em torno de como funciona a justiça espiritual, suas penas e punições. É o fato destas pessoas acharem que os espíritos que punem os pecadores e/ou malfeitores, ou seja, os algozes, os carrascos e afins, fazem parte de algo digno, ou até mesmo que exercem uma função de justiça mais ou menos elevada. Se tratando das religiões e filosofias que lidam com o assunto dos espíritos, algumas perguntas são (ou deveriam ser) mais recorrentes: 
Porque Deus permite que os espíritos nas "trevas" ou mais "trevosos" (zombeteiros, infelizes e impuros), atormentem os encarnados? 
Estes espíritos servem para cumprir as missões grosseiras, como punir encarnados vaidosos, egoístas, preguiçosos, gananciosos etc. Muitas vezes estes espíritos não sabem que estão realizando uma tarefa/ missão, permitida por Deus, pois eles se comprazem em atormentar os outros e fazem isso por prazer, sem receber ordens específicas. Isto é indicado no Livro dos Espíritos: 
570. Os Espíritos percebem sempre os desígnios que lhes compete executar? 
 “Não. Muitos há que são instrumentos cegos. Outros, porém, sabem muito bem com que fim atuam.” 
 571. Só os Espíritos elevados desempenham missões? 
 “A importância das missões corresponde às capacidades e à elevação do Espírito. O mensageiro que leva um telegrama ao seu destinatário também desempenha uma missão, se bem que diversa da de um general.” 
Os espíritos que atormentam e punem ganham acesso aos que precisam de correção/ punição, através de afinidade / por semelhanças, pois possuem propensões, gostos e intenções egoístas e vaidosas parecidas com as do encarnado que é o alvo de suas obsessões, fascinações ou subjugações. 
Estes espíritos inferiores são numerosos em torno de mundos onde ainda há muita iniquidade e injustiça, logo não representam a justiça em si, pois não são justos. Portanto eles jamais poderiam ser confundidos com anjos / espíritos elevados - eles são no máximo semelhantes aos habitantes encarnados do mundo onde interagem. Em geral não devem ter um bom juízo, ou seja, raramente devem ter uma boa noção de justiça, ainda mais, uma justiça superior e/ou divina. A justiça, ou o bom julgamento, não fazem parte de seus objetivos, aspirações nem intenções. 
O judaísmo místico e o cristianismo onde o espiritismo se apoia, explicam isto: A justiça representada por ordens angelicais (espíritos superiores) e/ou representadas em diagramas como a árvore da vida judaica/ hermética, não se trata destes espíritos que se comprazem em atormentar os encarnados, servindo como carrascos e executores. Esta justiça superior, chamada de Geburah no judaísmo místico (Força, Julgamento), está mais para a mão esquerda citada por Jesus: "quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita..." Esta passagem não trata só de ser discreto enquanto se faz um ato de caridade: ela também tem o significado místico onde a mão esquerda sendo o julgamento, não deve olhar o que a piedade (mão direita) faz, para não julgar o assistido, o socorrido. A justiça, ou a força no caminho do bem, é olhar a trave no próprio olho antes de incomodar-se com o cisco no olho alheio. Afinal de contas, quando falamos da sefirat Geburah ou de sua ordem angelical equivalente, estamos falando não só do caminho do progresso rumo à Deus, como estamos falando de um estado elevado de consciência ou de existência: A força de vontade, o bom juízo, o bom julgamento. 
Esta força de vontade voltada ao bem, ao lado da misericórdia e da piedade (que por sua vez, regem a caridade e a solidariedade) é o que deve fomentar a espontaneidade das boas ações, bons sentimentos etc. Geburah, a Força, o (bom) Julgamento é uma sefirat do lado esquerdo da árvore da vida, e à sua direita está Chesed, a Misericórdia, a Piedade. 




Portanto a esquerda não se trata de julgar os outros, nem de punir terceiros - As virtudes, ou sejam, as sefirats da esquerda - Hod, Geburah e Binah estão mais para o caminho da auto-correção, pois o Julgamento (Geburah) é a força de vontade para resistir as tentações e é ou faz parte da confiança em Deus! 
Quando ficamos impedidos de nos dedicar à solidariedade, ao ensinamento da lei divina de amor (ao ajudar o próximo mais diretamente - o caminho espiritual da direita), resta-nos só um caminho mais recluso, como o das orações, da escrita e da força de vontade para não cair nas tentações (seja de prazeres mesquinhos, ou de ofender o próximo etc). É o caso da (santa) Teresa d'Ávila, por exemplo, que era uma freira espiritualizada do século 16 que não tinha o direito de ensinar ao povo pelo fato de ser mulher. Santa Teresa D'Ávila teve uma vida cristã humilde, cheia de restrições, mas escreveu sobre suas experiências transcendentais/ místicas, conscientemente ou inconscientemente traçou paralelos com religiões orientais, além de trabalhar em obras de caridade e em raras oportunidades de discursar para alguns grupos de pessoas. Este caminho mais recluso e/ ou contemplativo é o caminho da esquerda e não se trata de punir pecadores! Aquele que pune o próximo, não está na esquerda da espiritualidade, nem do esoterismo, nem de coisa alguma - está imerso em pensamentos, sentimentos e atitudes inferiores, no máximo seguindo o lema "olho por olho e dente por dente", um caminho de meras retaliações e vinganças. 
A vingança é um ato rasteiro, onde se continua as ações ofensivas e/ou agressivas e por isso ela é condenada por várias religiões como o budismo, todas vertentes do cristianismo (catolicismo, protestantismo, espiritismo etc) e em algumas outras religiões e vertentes destas.

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...