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domingo, 18 de maio de 2025

Últimas mensagens de Esperança de Jesus

Obra do Paráclito (João) 
E agora vou para aquele que me enviou; e nenhum de vós me pergunta: Para onde vais? 
Antes, porque isto vos tenho dito, o vosso coração se encheu de tristeza. 
Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei. E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo. 
Do pecado, porque não crêem em mim; 
Da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; 
E do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado. 
Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. 
Porém, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir. 
Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar. 
Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar.
 
 Jesus diz que após deixar a Terra, enviará um consolador que não falará de si mesmo, mas das coisas que ouviu (certamente, das coisas que sabe) e das coisas que virão. Nada mais é detalhado, mesmo porque Jesus diz que seus apóstolos (e possivelmente todas pessoas de seu tempo) não poderiam suportar. Também não é esclarecido porque eles não podiam suportar: se são assuntos complexas de se entender, se são mensagens que podem causar forte reações emocionais... enfim, a questão fica em aberto. O que Jesus explica, é que o espírito que ele enviará é um consolador e é um espírito verdadeiro, ou da verdade.
O espírito da verdade que dá testemunho de Jesus, de acordo com o espiritismo, surge e profere algumas palavras aos médiuns durante o século XIX (19). Vale notar que médiuns não são determinados indivíduos de uma religião ou outra: todo ser humano é médium, pois vive nesta realidade "material" / tridimensional e na espiritual e seja sabendo disto ou não, faz o "meio" entre o mundo corporal e o espiritual. É bom citar isto porque desde o surgimento do espiritismo na França, o termo veio sendo empregado mais aos indivíduos que percebem fenômenos espirituais, sejam relacionados ao espiritismo, à umbanda ou a algumas outras espiritualidades/ religiões. Na época do surgimento do espiritismo também ocorrem muitos fenômenos entendidos como espirituais na França, EUA e Índia (embora este último país já tivesse um longo histórico de santos e milagres), além de surgirem muitos movimentos religiosos em variadas partes do mundo. Uma época onde o materialismo e o niilismo crescia notoriamente, primeiro entre as classes intelectuais enriquecidas absortas em orgulho e depois, com a propagação do uso da eletricidade e dos motores movidos à combustível fóssil, seria passada para as massas (no início do século 20, o materialismo é propagado entre as demais classes sociais, ou seja, a vasta população economicamente inferior às elites). Para se ter noção, neste período entre a segunda metade do século 19 e a primeira do século 20, a partir desses argumentos biologistas e niilistas, foram espalhadas ideias racistas e desumanas como a cranoscopia, a drapetomania e o Darwinismo social...  Esse niilismo junto às "crises" sócio econômicas fomentaram as duas guerras mundiais. 
Ainda que muitos neguem a Jesus, sejam céticos ou supersticiosos, o Paráclito, como diz seu próprio nome, vem trazer consolo e auxílio para toda humanidade - apenas aqueles que negam à Jesus (e a Deus) é que se condenam à decadência e infelicidade além da vida terrestre. O paráclito não fala de si mesmo porque isto poderia formar um novo culto ou religião. Ele fala de tudo o que ouviu, guiando a todos na verdade. 
 Interessante notar que o pecado de não crer em Jesus, é o mesmo de não crer em seus ensinamentos - a lei divina de amor ao próximo. A justiça mencionada significa que os que seguem o ensinamento de Jesus alcançam a vida eterna nas moradas de Cristo, ou seja, próximas à Deus, pois sendo Jesus, o filho de Deus e o humano mais benigno e puro que viveu na Terra, é justo que ele tenha se juntado ao Pai. Por fim, o juízo que parece se referir a um único príncipe da Terra, possivelmente se refere aos gananciosos que espalham a iniquidade na Terra e que negam à Deus, condenando-se a si mesmos às trevas. Estes odeiam a ideia de Deus todo poderoso em sua humildade e justiça, odeiam a ideia de abandonarem os excessos de bens terrenos (carros, vastos imóveis e terras, luxo, enfim, tudo o que se compra com dinheiro, inclusive, mais dinheiro) e de não terem mais os ardentes prazeres materiais (banquetes, farras, orgias etc). Estes opositores de Jesus e de Deus, que propagam a iniquidade e o egoísmo, em geral pensam que se não podem ter mais do que os outros, ninguém pode ter coisa alguma. 

 Tristeza da Separação, Alegria do Reencontro (João) 
 Um pouco, e não me vereis; e outra vez um pouco, e ver-me-eis; porquanto vou para o Pai. 
Então alguns dos seus discípulos disseram uns aos outros: Que é isto que nos diz? Um pouco, e não me vereis; e outra vez um pouco, e ver-me-eis; e: Porquanto vou para o Pai? 
Diziam, pois: Que quer dizer isto: Um pouco? Não sabemos o que diz. 
Conheceu, pois, Jesus que o queriam interrogar, e disse-lhes: Indagais entre vós acerca disto que disse: Um pouco, e não me vereis, e outra vez um pouco, e ver-me-eis? 
Na verdade, na verdade vos digo que vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. 
A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora; mas, depois de ter dado à luz a criança, já não se lembra da aflição, pelo prazer de haver nascido um homem no mundo. 
Assim também vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas outra vez vos verei, e o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará. E naquele dia nada me perguntareis. 

 Jesus fala sobre a imortalidade da alma: Seus apóstolos estão tristes pois Jesus disse que irá embora, mas ele voltará para junto de Deus e diz que os apóstolos poderão o encontrar um pouco depois (quando desencarnassem, após seguirem os ensinamentos de Jesus)… 

Oração em Nome de Jesus /  Fé dos Discípulos, Jesus vencedor do mundo (João) 
 Na verdade, na verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há de dar. 
Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis, para que a vossa alegria se cumpra. 
Disse-vos isto por parábolas; chega, porém, a hora em que não vos falarei mais por parábolas, mas abertamente vos falarei acerca do Pai. 
Naquele dia pedireis em meu nome, e não vos digo que eu rogarei por vós ao Pai; Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes, e crestes que saí de Deus. 
Saí do Pai, e vim ao mundo; outra vez deixo o mundo, e vou para o Pai. 

Disseram-lhe os seus discípulos: Eis que agora falas abertamente, e não dizes parábola alguma. Agora conhecemos que sabes tudo, e não precisas de que alguém te interrogue. Por isso cremos que saíste de Deus. 
Respondeu-lhes Jesus: Credes agora? Eis que chega a hora, e já se aproxima, em que vós sereis dispersos cada um para sua parte, e me deixareis só; mas não estou só, porque o Pai está comigo. 
Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.
 
 Jesus indica que quando se pede a Deus, crendo Nele, em seus ensinamentos, e portanto, em seu filho, o fiel será atendido… Isto certamente também tem relação com os milagres alcançados por pessoas espiritualizadas desde a época de Jesus até os dias de hoje. Existem inúmeros relatos ao longo da história, sejam de pessoas santificadas pela igreja, de sris do sanatana dharma (hinduísmo) ou mesmo de médiuns como chamam o espiritismo e algumas religiões afrodescendentes. Crer em Deus inclui viver conforme sua lei de amor tão explicada por Jesus - é mais do que um mero estado mental; é um sentido de vida que inclui os bons sentimentos e os valores universais centrados no amor.
 De modo geral seguir (todos) os ensinamentos de Jesus é difícil. Jesus já sabia que seus apóstolos iriam se dispersar quando ele fosse capturado pelos inimigos, mas continuando os ensinamentos anteriores, ele então pede para que seus discípulos tivessem ânimo, ou seja, coragem. Para se ter a paz em Jesus, é preciso crer, isso dá a esperança de encontrar o reinos dos céus; De encontrar Jesus no futuro…

 

domingo, 4 de maio de 2025

Leitura inter religiosa das "Despedidas de Jesus"

Jesus lava os pés dos discípulos/ A Última Ceia (MateusMarcosLucasJoão
Antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que chegara sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou.
No primeiro dia dos Ázimos (pães sem fermento) em que se imolava a Páscoa, perguntaram-lhe seus discípulos: Onde queres que preparemos a refeição da Páscoa?
Ele enviou dois de seus discípulos (Pedro e João), dizendo: Ao entrar na cidade, encontrareis um homem carregando uma bilha (cântaro) de água; segui-o até a casa em que ele entrar e direis ao dono da casa: O mestre pergunta-te: Onde está a sala em que comerei a Páscoa com os meus discípulos? Ele vos mostrará no andar superior uma grande sala mobiliada e ali fazei os preparativos.
Foram pois, e acharam tudo como Jesus lhes dissera: preparam a Páscoa.
Chegando a tarde, dirigiu-se para lá com os Doze. Durante a ceia - quando o demônio já tinha lançado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de traí-lo -, sabendo Jesus que o pai tudo lhe dera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, depôs suas vestes, e , pegando uma toalha, cingiu-se com ela. Em seguida deitou a água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido. Quando chegou a Simão Pedro, este lhe disse: "Senhor, queres lavar-me os pés!..."
Respondeu-lhe Jesus: "O que faço não compreendes agora, mas compreenderá em breve."
Disse-lhe Pedro: "Jamais me lavarás os pés!..."
Respondeu-lhe Jesus: Se eu não lavar teus pés, não terás parte comigo.
Exclamou então Simão Pedro: Senhor, não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça!
Disse-lhes Jesus: Aquele que tomou banho não tem necessidade de lavar-se; está inteiramente puro. Ora, vós estais puros, mas nem todos... Pois sabia quem o havia de trair; por isso disse "nem todos estais puros".
Depois de lavar-lhes os pés e tomar as suas vestes, sentou-se novamente à mesa e disse-lhes: Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de sofrer. Pois digo-vos não tornarei a comê-la até que ela se cumpra no reino de Deus. 
E perguntou-lhes: Sabeis o que vos fiz? Vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também deveis vós lavar-vos os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós. Em verdade vos digo, o servo não é maior do que aquele que o enviou. Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob a condição de praticardes. Não digo isto de vós todos; conheço os que escolhi; mas é preciso que se cumpra a palavra da Escritura: Aquele que come o pão comigo levantou-se contra mim o seu calcanhar (Salmo 40, 10). Desde já vos digo, antes que aconteça, para que quando acontecer, creiais e reconheçais quem sou eu. Em verdade, em verdade vos digo: Quem recebe aquele que eu enviei, recebe-me a mim, e quem me recebe, recebe Aquele que me enviou.
Dito isto Jesus ficou perturbado em seu espírito e declarou abertamente
Entretanto eis que a mão de quem me trai está à mesa comigo. Em verdade, em verdade, vos digo, um de vós me há de trair!
Com profunda aflição (entristecendo-se), os discípulos perguntavam entre si quem deles seria o que tal haveria de fazer. 
E (Jesus) disse-lhes: Quando vos mandei sem bolsa, alforje, ou alparcas, faltou-vos porventura alguma coisa? 
Eles responderam: Nada. 
Disse-lhes pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a; Porquanto vos digo que importa que em mim se cumpra aquilo que está escrito: E com os malfeitores foi contado. Porque o que está escrito de mim terá cumprimento. 
Então eles disseram: Senhor, eis aqui duas espadas. E ele lhes disse: Basta. 
Um dos discípulos, a quem Jesus amava, estava a mesa reclinado ao peito de Jesus. Simão Pedro acenou-lhe para dizer-lhe: Dize-nos, de quem é que ele fala. Reclinando-se este mesmo discípulo sobre o peito de Jesus, interrogou-o: Senhor, quem é?
Jesus respondeu: É um dos doze que serve comigo do mesmo prato. É aquele a quem eu der o pão embebido. O filho do homem vai, segundo o que está determinado, mas ai daquele homem por quem ele é traído! 
Em seguida, molhou o pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Logo que ele o engoliu, Satanás entrou nele. Jesus disse-lhe então: O que queres fazer, faze-o depressa. Mas ninguém dos que estavam à mesa soube por que motivo lhe dissera. Pois, como Judas tinha a bolsa, pensavam alguns que Jesus lhe falava: "Compra aquilo de havemos mister para a festa", ou "Dá alguma coisa aos pobres". Tendo Judas recebido o bocado de pão, apressou-se em sair. E era noite...
Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é o meu corpo. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho dizendo: Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados. Digo-vos doravante não beberei mais deste fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no reino de meu Pai.

Somente o evangelho de João menciona o "rito" de lavar os pés dos apóstolos realizado por Jesus. Tal rito é entendido como sinal de humildade de Jesus, embora isso possa ser uma leitura superficial: na época de Jesus, certamente só as classes mais inferiores da sociedade realizavam esta ação, tanto que Pedro inicialmente não aceita que Jesus "se rebaixe" desta maneira. Jesus mostra sua diferença diante sacerdotes que ostentam o poder e/ ou o luxo: um desapego sincero e empenhado em servir.
Já sobre a ceia, há algumas diferenças entre os 4 evangelhos: a passagem que é dita nas missas católicas aparece mais claramente em Mateus e em Marcos, mas também brevemente em Lucas. Uma fala parecida no evangelho de João só aparece em outro trecho/ outro diálogo de Jesus.
Independente destas diferenças, é interessante notar como todos evangelhos citam que Jesus já sabia das intenções de Judas Iscariotes há algum tempo. Nesta passagem em particular Jesus diz que já conhece os discípulos que escolheu e cita o salmo 40, 10, colocando a passagem de João em acordo com a de Marcos: aquele que comer o pão com Jesus, o trairá.
Oras, se Jesus já sabia disto, é possível que ele não considerasse mais Judas um discípulo. Poderia Jesus ter escolhido fazer a ceia com 11 discípulos? Ou poderia ele ter escolhido outro discípulo, como por exemplo, Maria Madalena? Não dá para ter certeza e talvez isto nem tenha importância... 
Muitos simbolismos podem ser interpretados na última ceia, tais como o homem carregando o cântaro de água (que pode ser simplesmente a água que Jesus usa para lavar os pés dos discípulos), porém tais elementos atraem atenção tanto de espiritualistas mais místicos, como de ateus que usam tais coisas para argumentar que o cristianismo é uma farsa montada ao longo da história. O viés místico tende a ser pouco claro, portanto dificilmente útil ou benéfico, já que tenta alegar elementos astrológicos e talvez previsões do futuro. Há quem diga que o homem do cântaro represente a era astrológica de Aquário que sucede a era astrológica que se iniciou com Jesus - a de Peixes. O signo de Aquário é chamado de "ar fixo" na astrologia e por ar, entende-se a racionalidade e a inteligência, enquanto o signo de peixes é a "água mutável". Por água entende-se o sentimento, mais interno e duradouro do que as emoções e expressões. "Fixo" significa abundante e/ou profundo enquanto "mutável" representa transformação, mudança ou talvez até mesmo transcendência... é uma linguagem bem subjetiva por indicar aspectos da mente, seja humana ou divina, e, por mais explicativa que possa ser, é intuitiva e teórica por não ter um raciocínio pautado no empirismo, no sensorial e no reprodutível. A linguagem mística portanto, precisa ser pautada na ética como qualquer outra, senão cai no charlatanismo etc.
Já o viés "ateu" neste caso, está mais para "anti theos" sendo até mesmo nocivo uma vez que não se pauta pela ética e tenta desqualificar não só uma religião, como toda a espiritualidade, descartando ou inferiorizando cosmovisões e modos de consciência. Além disto, é bom lembrar que não há conhecimento ou verdade sem os valores universais da ética. Contradizer esta proposta das raízes da "filosofia ocidental" (vide os textos de Platão), é, na melhor das hipóteses propagar opiniões de bases frágeis... ou na pior das hipóteses, propagar mentiras/ impor opiniões antiéticas.
 O trecho onde Jesus pergunta se faltou alguma coisa aos discípulos, narrado por Lucas, aparece originalmente na "Predição da negação de Pedro", mas coloquei aqui no diálogo da ceia porque considerei que o evangelho de João foi o mais preciso ao descrever a saída de Judas durante a ceia. Assim, entende-se que Jesus sabia que um dos apóstolos carregava uma bolsa (possivelmente Judas Iscariotes) e dois carregavam espadas (possivelmente Pedro e mais um, talvez o Judas Iscariotes), mesmo ele tendo solicitado para que não carregassem nada além de suas próprias roupas no corpo. Pedro mostrava uma valentia para defender Jesus, mas possivelmente temia a morte, sendo ainda incapaz de ter uma fé plena até os momentos finais de Jesus. Talvez Pedro esperasse que Jesus lutasse para vencer seus inimigos ou para evitar a morte, mas nada disso fazia parte dos ensinamentos de Cristo. 
 Iscariotes, com menos fé ainda, se mostrava incapaz de priorizar os ensinamentos de Jesus em relação aos bens materiais e planejava traí-lo. 
 Indo além do ponto de vista meramente terrestre, as religiões afrodescendentes, a espiritualidade indígena e o espiritismo indicam que o mundo material e o espiritual estão interconectados. Eis porque diz-se que Iscariotes foi tomado por “Satanás”, pois os espíritos sabem de muitas coisas que acontecem na Terra, uma vez que eles ignoram o “filtro do corpo”, percebendo sentimentos e pensamentos dos seres humanos. 
 O nome de uma entidade “maligna” é irrelevante, afinal Jesus ensina que Deus é um, não diferente de Platão que indica que há um Deus Uno (acima de todos outros “deuses”, sejam eles daemons ou semi-deuses). Não há um poderoso “anti-Deus” no monoteísmo nem na filosofia fundada por Platão, pois o autor buscava a ideia (eidos) mais excelente (virtuosa) que era una (absoluta, plena, unificadora…) e imutável. Zeus Hegemon apresentado no texto Fédon, certamente é o deus e a virtude máxima, seja ele sinônimo de Demiurgo (o arquiteto, criador de tudo) e/ ou de Nous - a inteligência divina. O espiritismo e a Kriya Yoga também fazem um diálogo com o cristianismo, pautando não um deus antropomórfico, mas sim o Deus criador, mantenedor e renovador onipresente. Afinal, o próprio Jesus disse: Deus é espírito (não de carne e osso), adorai-o em espírito (internamente, psiquicamente/ mentalmente)!

Conspiração/ Traição de Judas (MateusMarcosLucas
(...) um dos doze, chamado Judas, que tinha por sobrenome Iscariotes, foi ter com os principais dos sacerdotes, e com os capitães, de como entregaria Jesus; 
Então disse: Que me quereis dar, e eu vo-lo entregarei? 
Os quais se alegraram, lhe pesaram trinta moedas de prata e convieram em lhe dar (o) dinheiro. E ele concordou; e buscava oportunidade para lho entregar sem alvoroço. 

Esta passagem aparece antes da ceia, após o "jantar em Betânia" citado nos evangelhos de Mateus e Marcos e na "Conspiração contra Jesus" nos textos de Lucas. Aqui optei pela sequência mais próxima do evangelho de João. De qualquer forma, é apenas um detalhe, pois talvez essas passagens talvez nem sejam excludentes entre si: Judas poderia ter se reunido com os sacerdotes antes da ceia e voltado a se reunir com Jesus e os apóstolos por um tempo até se juntar à "turba armada".

Predição da Negação de Pedro/ Adeuses, Despedidas (Mateus, Marcos, Lucas, João
E, tendo cantado o hino, saíram para o Monte das Oliveiras. Tendo ele (Judas Iscariotes), pois, saído, disse Jesus: Agora é glorificado o Filho do homem, e Deus é glorificado nele. Se Deus é glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e logo o há de glorificar. 
Filhinhos, ainda por um pouco estou convosco. Vós me buscareis, mas, como tenho dito aos judeus: Para onde eu vou não podeis vós ir; eu vo-lo digo também agora. 
Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. 
Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros
Disse-lhe Simão Pedro: Senhor, para onde vais? 
Jesus lhe respondeu: Para onde eu vou não podes agora seguir-me, mas depois me seguirás. 
Disse-lhe Pedro: Por que não posso seguir-te agora? 
Então (o Senhor) Jesus lhes disse: Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos. Todos vós esta noite vos escandalizareis em mim (me abandonarão); porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão. Mas, depois de eu ressuscitar, irei adiante de vós para a Galiléia. 
Mas Pedro, respondendo, disse-lhe: Ainda que todos se escandalizem (te abandonem) em ti, eu nunca me escandalizarei (não te abandonarei). Por ti darei a minha vida
Respondeu-lhe Jesus: Tu darás a tua vida por mim? Na verdade, na verdade te digo que não cantará o galo enquanto não me tiveres negado três vezes. 
Disse-lhe Pedro: Ainda que me seja mister morrer contigo, não te negarei. E todos os discípulos disseram o mesmo. 

 Jesus menciona que seus apóstolos não poderão segui-lo, pois irá morrer, mas depois de propagarem os ensinamentos de amor de Cristo, irão se encontrar em outra vida/ no reino dos céus. E o que identifica os seguidores de Jesus, ou seja, os cristãos, é viver a lei de amor como ele explica: "Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros."  Isto é amar a Deus e ao próximo como a si mesmo. E "o próximo" é qualquer um que esteja necessitado ou que aceite os ensinamentos de Jesus, mesmo que esse seja de outra cultura, religião ou nacionalidade de acordo com os ensinamentos de Jesus (vide as passagens do samaritano, do centurião e quando João reprime outra pessoa que admirava as obras de Jesus). Assim é nítido que nada adianta o suposto cristão sair citando que "Jesus é o caminho ou a porta" se não ele não vive a lei de amor a todos.

 (Continuação de Adeuses, Despedidas) (João) 
Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. 
Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. Mesmo vós sabeis para onde vou, e conheceis o caminho. 
Disse-lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho? 
Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis, e o tendes visto. 
Disse-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta. 
Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim; crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras. 
Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim também fará as obras que eu faço, e as fará maiores do que estas, porque eu vou para meu Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. 
Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito (Intercessor, o Consolador), para que fique convosco para sempre; O Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós. Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós. Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais, mas vós me vereis; porque eu vivo, e vós vivereis. Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós. 
Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele. 
Disse-lhe Judas Tadeu: Senhor, de onde vem que te hás de manifestar a nós, e não ao mundo? 
Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou. Tenho-vos dito isto, estando convosco. Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito. 
Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não a dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. 
Ouvistes que eu vos disse: Vou, e venho para vós. Se me amásseis, certamente exultaríeis porque eu disse: Vou para o Pai; porque meu Pai é maior do que eu. 
 Eu digo agora antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis. 
Já não falarei muito convosco, porque se aproxima o príncipe deste mundo, e nada tem em mim; Mas é para que o mundo saiba que eu amo o Pai, e que faço como o Pai me mandou. 
Levantai-vos, vamo-nos daqui. 

Jesus diz que há muitas moradas na casa de Deus e indica que seus apóstolos podem ir para uma destas moradas após seguirem seus ensinamentos de amor universal. De acordo com o espiritismo, estas moradas são os mundos superiores das almas que reencarnam mais e mais próximas de Deus. Embora muitos possam entender estes mundos como algo espacial ou situado em alguns pontos do espaço, isso não é necessariamente verdade:
Tomé pergunta sobre o caminho para seguir Jesus; Felipe pergunta aonde está o Pai e Judas Tadeu pergunta de onde Jesus virá, que se manifestará para eles, mas não para o restante do mundo. São perguntas um tanto espaciais, ou seja, que consideram um mundo físico, palpável e certamente material. Certamente porque os apóstolos ainda não tinham entendido sobre a realidade espiritual/ psíquica a qual Jesus se referia. O espírito sendo imortal pouco ou nada depende do espaço tridimensional como normalmente concebemos e percebemos; Jesus fala que está no Pai em estado de união, praticamente como iogues e swamis do hinduísmo (sanatana dharma) explicam. O indivíduo que alcança um estado de perfeição espiritual está uno a Brahman (Deus), o Todo criador, mantenedor e renovador de todas as coisas.
Jesus explica que enviará o "paráclito" não para religiosos, mas para aqueles que seguem seu ensinamento de amor como explicado tanto no texto de João, como de Mateus, Lucas e Marcos.
O espírito da verdade (paráclito) é aceito no espiritismo - conforme o ensinamento dos espíritos durante o século 18, Ele se manifestou aos humanos. O espiritismo então, propaga suas palavras, não vindo para contrariar o cristianismo e sim para complementá-lo, conforme o progresso intelectual da humanidade que mudou muito desde a época de Cristo. 
No trecho: “Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês tu que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras. Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim”, Jesus fala de transcendência, pois vivia apenas para fazer a vontade de Deus, portanto Deus foi reconhecível através das obras de Jesus e sua bondade perfeita. Este era todo o sentido da vida de Jesus - Servir a Deus propagando o bem, a lei divina de amor. O único caminho para se “ver” Deus é a bondade que acaba por transcender a existência na Terra, ou seja, o caminho é viver os ensinamentos de Jesus. 
 Quando o espiritismo explica que a experiência de êxtase (espiritual) é muito elevada e que o extático penetra mundos espirituais conforme seu progresso, exaltando a magnanimidade de Deus e relativizando a vida terrestre, ele se refere ao possível efeito transcendente de se viver o verdadeiro bem, de crer e praticar os ensinamentos de Cristo. Esta é uma experiência diferente (interna e/ ou externa) em relação à existência terrestre - certamente similar em algum nível com o que o divulgador científico, Carl Sagan, disse na explicação sobre a 4ª dimensão e "estar fora de sua experiência" (no ep.10 da série Cosmos). 
Enfim Jesus diz “crede-me, ao menos, por causa das mesmas obras”, afinal aquele que ama o bem verdadeiramente, ama a Cristo e seus ensinamentos e também ama a Deus e o encontra em seu interior, em sua alma. Assim, aceita seu amor, vivendo para propagá-lo. Quanto mais a pessoa vive os ensinamentos de Jesus e confia nestes, menos ela irá turbar seu coração, ou seja menos será levada por desejos mesquinhos, ira ou medo.

 

sábado, 12 de abril de 2025

Leitura sobre o ceticismo e o elitismo contra Jesus

Sinal do Céu, Fermento dos Fariseus (Mateus, Marcos, Lucas
Saíram os fariseus (e os saduceus) e começaram a disputar com ele (Jesus), pedindo-lhe, para o tentarem, um sinal do céu.
E, suspirando profundamente em seu espírito, disse: Por que pede esta geração um sinal? Esta é uma geração perversa. 
Hipócritas, sabeis distinguir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos? Em verdade vos digo que a esta geração não se dará sinal algum, senão o de Jonas. Porquanto, assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, assim o Filho do homem o será também para esta geração.
A rainha do sul se levantará no juízo com os homens desta geração, e os condenará; pois até dos confins da terra veio ouvir a sabedoria de Salomão; e eis aqui está quem é maior do que Salomão. Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração, e a condenarão; pois se converteram com a pregação de Jonas; e eis aqui está quem é maior do que Jonas.
Ora, deixando-os, tornou a entrar no barco, e foi para o outro lado. E eles (os discípulos) se esqueceram de levar pão e, no barco, não tinham consigo senão um pão.
Jesus ordenou-lhes, dizendo: Olhai, guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes (dos saduceus). 
E pensavam entre si, dizendo: É porque não temos pão.
Jesus, conhecendo isto, disse-lhes: Para que argumentam, que não tendes pão? não considerastes, nem compreendestes ainda? tendes ainda o vosso coração endurecido?
Tendo olhos, não vedes? e tendo ouvidos, não ouvis? e não vos lembrais, Quando parti os cinco pães entre os cinco mil, quantas alcofas cheias de pedaços levantastes? 
Disseram-lhe: Doze.
E, quando parti os sete entre os quatro mil, quantos cestos cheios de pedaços levantastes? E disseram-lhe: Sete.
E ele lhes disse: Como não compreendestes que não vos falei a respeito do pão, mas que vos guardásseis do fermento dos fariseus e saduceus?
Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus.

 Os saduceus sendo uma seita judaica composta por aristocratas e religiosos ricos, favoráveis ao helenismo e aos romanos, deveriam abominar as ações de Jesus, que pregava a solidariedade, favorecendo os pobres e os mais necessitados. A diferença mais significativa entre os saduceus e os fariseus, é que os primeiros aceitavam apenas a torá escrita do judaísmo e os segundos aceitavam uma tradição oral, mas eram formalistas - priorizavam regras e rituais. 
Jesus critica as priorizações destas duas seitas: Ambas abandonaram os mandamentos se prendendo nas regras meramente terrenas e nada espirituais nem benevolentes. Os religiosos/ as seitas estavam tão certas de si, que não acreditavam em nada do que Jesus ensinava e nem mesmo no que ele fazia: pediam milagres como prova que ele fosse um profeta ou o "filho de Deus", mas não queriam mudar.

 O Bom Pastor (João)
Na verdade, na verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral (aprisco) das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador.
Aquele, porém, que entra pela porta é o pastor das ovelhas.
A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz, e chama pelo nome às suas ovelhas, e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. Mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.
Jesus disse-lhes esta parábola; mas eles não entenderam o que era que lhes dizia.
Tornou, pois, Jesus a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo que eu sou a porta das ovelhas. Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não os ouviram. Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens. O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.
Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas.
Ora, o mercenário foge, porque é mercenário, e não tem cuidado das ovelhas.
Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido.
Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor.
Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém me tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai.
Tornou, pois, a haver divisão entre os judeus por causa destas palavras.
E muitos deles diziam: Tem demônio, e está fora de si; por que o ouvis?
Diziam outros: Estas palavras não são de endemoninhado. Pode, porventura, um demônio abrir os olhos aos cegos?

 Jesus explica que ele veio salvar a humanidade, mostrando o caminho do amor, a lei de Deus. Ele usa a figura de linguagem de que é um pastor de ovelhas, pois é o guia daqueles mansos de coração, ou seja, quem segue os ensinamentos de Cristo é pacífico e humilde. Ele continua explicando que os pastores falsos só se importam com o dinheiro e espalham o mal entre as pessoas, enquanto o verdadeiro pastor (verdadeiro sacerdote, pontífice ou profeta) dá a sua vida pelos fiéis (a Deus) ou pelos mais necessitados, se for necessário. Obviamente não se trata de suicídio, nem de servir um exército ou qualquer milícia alegando lutar por Deus, afinal Deus quer que todos vivam com abundância. Deus não pede sacrifícios sangrentos, nem conflitos ou guerras. Viver em abundância, é viver sem miséria, sem desigualdade, sem rixas e sem conflitos. Não se trata de luxo nem de excessos, se trata de viver em paz e respeitando uns aos outros - viver de coração o que Jesus ensinou: o amor a Deus, ao próximo e a si mesmo, ou seja, o amor a toda vida criada por Deus. Embora Jesus soubesse que suas palavras trariam discórdia e conflito entre os conservadores, os ricos e os poderosos, ele deseja a paz para a humanidade.
A kriya yoga entende a metáfora que Jesus diz “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens. O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.” como uma alusão ao “olho” espiritual, estrela de prana e “porta” da salvação - O acesso à consciência Crística (que abraça a divindade, não querendo mais nada em troca, abandonando todos desejos mesquinhos) contra o “ladrão” (maya, a ilusão dos gostos terrenos, rixas, disputas etc).
Em Mateus, as duas próximas passagens aparecem após "A figueira amaldiçoada", o que faz muito sentido, já que a figueira que não dá fruto é símbolo daqueles que não fazem boas obras - que não vivem os ensinamentos de amor a todos. A figueira pode muito bem representar os grupos religiosos corruptos, como mostrado a seguir:

Autoridade de Jesus (Marcos, Mateus, Lucas)/ Festa de Dedicação (João
Em Jerusalém havia a festa da dedicação, e era inverno. 
E Jesus andava passeando no templo, no alpendre de Salomão
Rodearam-no, os anciãos do povo, os escribas e os príncipes dos sacerdotes e perguntaram-lhe: 
Com que direito fazes isso? Quem te deu esta autoridade?
Respondeu-lhes Jesus: Eu vos proporei também uma questão. Se responderdes, eu vos direi com que direito o faço. Donde procedia o batismo de João: do céu ou dos homens?
Ora, eles raciocinavam entre si: Se respondermos dos céus, ele nos dirá: Porque não crestes nele? E se dissermos: dos homens, é de tremer-se a multidão, porque todo mundo considera João como profeta.
Responderam a Jesus: Não sabemos.
Pois tampouco vos digo com que direito faço estas coisas, retorquiu Jesus.
Os judeus, pois, disseram-lhe: Até quando terás a nossa alma suspensa? Se tu és o Cristo, dize-no-lo abertamente.
Respondeu-lhes Jesus: Já vo-lo tenho dito, e não o credes. As obras que eu faço, em nome de meu Pai, essas testificam de mim.
Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito.
As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem;
E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que me deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um.

 Os egoístas e os céticos em demasia não conseguem crer em Jesus, nem em qualquer cristão que operasse os ditos milagres (fenômenos mediúnicos de acordo com o espiritismo, com a umbanda etc). Eles, inutilmente, buscavam diversas maneiras provar que Jesus era uma farsa, mas na verdade a farsa era eles mesmos. Transvestidos de classes espiritualizadas, os saduceus, os fariseus e os escribas nada de verdadeiramente espiritual faziam: Em resumo eram formalistas, gananciosos, egoístas etc. 
Jesus diz que seus seguidores foram lhe dados por Deus e que dá a vida eterna a eles. Assim, ninguém pode tirar os verdadeiros seguidores de Deus (que aceitam os ensinamentos de Jesus e buscam se aproximar dele realizando obras solidárias e/ou benéficas ao maior número de pessoas possível), pois Jesus e Deus são um.
Esta última frase pode ser interpretada como se Jesus fosse Deus, embora em alguns outros trechos dos 4 evangelhos, Jesus claramente diz que não é bom, e que seu Pai sim é bom. Esta aparente contradição faz com que as pessoas escolham uma interpretação unilateral da identidade de Jesus: Ou ele é Deus ou ele não é Deus, sendo só o filho ou um espírito elevado. Pode parecer mais uma questão predominantemente tola já que se afasta dos ensinamentos de Jesus, porém é importante evitar discursos exclusivistas de que só Jesus é Deus, acusando todas outras religiões de serem falsas. Tal tipo de discurso contradiz os ensinamentos de Cristo que são baseados em humildade, piedade, tolerância, universalidade etc.

Parábola dos 2 filhos (Mateus)
(Jesus diz:) Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro, disse-lhe: "Meu filho, vai trabalhar hoje na minha vinha". Respondeu ele: "Não quero." Mas em seguida, tocado de arrependimento, foi. 
Dirigindo-se depois ao outro, disse-lhe a mesma coisa. O filho respondeu: "Sim, pai!" Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?
O primeiro, responderam-lhe.
E Jesus disse-lhes: Em verdade vos digo, os publicanos e as meretrizes vos precedem no reino de Deus! João veio a vós no caminho da justiça e não crestes nele. Os publicanos, porém, e as prostitutas creram nele. E vós, vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para crerdes nele.

Jesus critica abertamente os religiosos que se achavam escolhidos de Deus e ignoravam ou negavam as obras de João Batista. O "trabalhar" utilizado na parábola de Jesus, certamente se refere a fazer as obras que ele mesmo e João Batista faziam. Mas a arrogância dos religiosos aos quais Jesus contou a parábola, sejam os fariseus, os escribas ou outros, faziam com que eles desprezassem toda solidariedade, toda justiça e toda fé verdadeira.

Como será a ressurreição (Marcos, Mateus, Lucas)
Naquele mesmo dia, os saduceus, que negavam a ressureição, interrogaram Jesus: Mestre, Moisés disse: "Se um homem morrer sem filhos, seu irmão case-se com a sua viúva e dê-lhe assim uma posteridade". (Deut 25, 5) Ora, havia entre nós sete irmãos: O primeiro casou-se e morreu. Como não tinha filhos, deixou sua mulher ao seu irmão. O mesmo sucedeu ao segundo, depois ao terceiro, até o sétimo. Por sua vez, depois deles todos, morreu também a mulher. Na ressureição, de qual dos sete será a mulher?
Respondeu-lhes Jesus: Errais, não compreendendo as escrituras nem o poder de Deus. Na ressureição os homens não terão mulheres, nem as mulheres maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu.
Quanto a ressureição dos mortos, não lestes o que Deus disse: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó? Ora, ele não é o Deus dos mortos, mas Deus dos vivos.
E ouvindo esta doutrina, as turbas se enchiam de grande admiração.

Vale lembrar que os saduceus eram a seita religiosa de tendência materialista e cética. 
Os católicos explicam que Deus considera Abraão e os demais profetas vivos, por isso não há obstáculo em crer na sua ressureição futura. 
É possível que Jesus se refira a dois pontos aqui: A mulher, o marido e seus sete irmãos, ao morrerem, desencarnam, ou seja, tornam-se espíritos e não precisam se casar, nem são capazes de se reproduzirem. Oras, se Jesus diz que Deus é espírito, e há uma hierarquia de seres entre os humanos e Deus, sendo esta hierarquia composta pelos anjos (cujo, os níveis são melhores definidos na árvore da vida da cabala no judaísmo místico), deve haver alguma semelhança entre os anjos e o conceito de espírito(s). Isto é bem explicado no espiritismo de Kardec, escrito na França do século 19: Os espíritos são seres incorpóreos e podem reencarnar em formas superiores conforme vivem e aprendem/ desenvolvem as virtudes ensinadas por Jesus (isto também parece estar de acordo com o hermetismo). Quanto mais "elevada", ou seja, mais semelhante a Jesus e sua bondade, o espírito reencarna em formas mais sutis ("eterizadas") até que os mais elevados seres sejam o mais parecidos (e próximos) a Deus. Como bem notado por Kardec não havia um termo para reencarnação entre os judeus da época de Jesus e a metempsicose era palavra exclusiva de algumas seitas das religiões gregas, como os órficos, por exemplo. O espiritismo não foi proposto exatamente como um religião por Kardec e o mesmo titubeou ao responder tal questão em seu tempo: tentou explicar que era religião do ponto de vista da importância de coisas como a fé em Deus e da oração, mas não como um corpo fechado que nega tudo das outras religiões. Em outras palavras, não havia o termo espiritualidade no século 19 - esta palavra só passa a ser difundida após o contato do ocidente com o Sanatana Dharma (religiões hindus) em meados do século 20. O espiritismo francês, apesar das limitações ideológicas da época, certamente foi uma proposta de diálogo inter religioso. Com alguma semelhança aos movimentos new age oriundos do contato ocidente-oriente ("hinduísmo") mencionado acima; Porém também com a diferença que Kardec propôs uma filosofia que também dialogava como uma construção de conhecimento, ou seja, propôs um diálogo com a ciência de seu tempo, ainda que com pouco ou nenhum sucesso.

O Messias; "Filho de Davi" (Marcos, Mateus, Lucas)
Como os fariseus se agrupassem, continuava Jesus a ensinar no templo e propôs esta questão: 
"Como dizem os escribas que Cristo é o filho de Davi? Pois o mesmo Davi diz, inspirado pelo Espírito Santo: Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos sob os teus pés (Salmo 109,1).
Ora, se o próprio Davi o chama Senhor, como então é ele seu filho?"
A grande multidão ouvia-o com satisfação e depois daquele dia, ninguém mais ousou interrogá-lo.

Esta passagem pode muito bem quebrar a ideia biologista de que Jesus pertence a mesma linhagem de Davi ou de quaisquer profeta judeu da antiguidade. Linhagem de sangue nada tem a ver com os ensinamentos de Jesus que são centrados no amor a Deus (onipresente Espírito criador de todas as coisas) e no amor ao próximo como a si mesmo, ou seja o amor a todos, como explicado em outras passagens. Seja Jesus desta linhagem ou de outra, pouco importa: Jesus não defendia uma nacionalidade em particular, muito menos uma suposta "raça".
Esta fala também está de acordo com a discussão de Jesus com os judeus, quando o mesmo explica que já existia antes de Moisés. E também quando diz que estava próximo de Deus antes mesmo do surgimento do mundo (da Terra). Isto explica porque Jesus diz a Nicodemos que ninguém sabe de onde vem o espírito nem para onde vai o espírito; O corpo é mortal, mas o espírito é imortal.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Leitura Ecumênica sobre os injustos e a justiça de Deus

Aqui trago uma passagem de Lucas e duas atribuídas a Felipe, sendo estas duas últimas não aceitas nas igrejas católicas e protestantes (evangélicas);

Parábola do juiz iníquo (Lucas) 
 E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer, Dizendo: Havia numa cidade um certo juiz, que nem a Deus temia, nem respeitava o homem. 
 Havia também, naquela mesma cidade, uma certa viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário.
 E por algum tempo não quis atendê-la; mas depois disse consigo: Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens, Todavia, como esta viúva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte, e me importune muito.
 E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz.
 E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?
 Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?
 Se até mesmo uma autoridade arrogante e injusta pode fazer justiça às vezes, porque Deus, que é o piedoso criador, não faria justiça? A viúva pediu tanto ao juiz, que este acabou cedendo, portanto o fiel que ora pedindo justiça, certamente alcançará a justiça. A dúvida que Jesus deixa no fim da parábola é: As pessoas manterão sua fé? Serão fiéis à lei divina que é justa?

 O Espírito Santo age até mesmo sobre os malignos (Filipe)
 "O Pai" e "o Filho" são nomes únicos; "o Espírito Santo" é um nome duplo. Pois eles estão em toda parte: estão em cima, estão em baixo; eles estão no oculto, eles estão no revelado. O Espírito Santo está no revelado: está abaixo. Está no oculto: está acima.
 Os santos são servidos por poderes malignos, pois (os poderes malignos) são cegados pelo Espírito Santo a pensar que estão servindo a um homem (comum) sempre que o fazem pelos santos. Por causa disso, um discípulo pediu um dia ao Senhor algo deste mundo. Ele lhe disse: "Peça à sua mãe, e ela lhe dará das coisas que são de outro".
 Esta explicação de Filipe está em acordo com o espiritismo e com religiões que lidam com espíritos frequentemente, como a umbanda por exemplo. Os espíritos benignos, são servos de Deus e são naturalmente mais expansivos, mais puros e portanto, superiores aos espíritos malignos, agindo sobre estes para que sirvam à lei divina. Isto também explica a parábola do juiz iníquo, que apesar de ser uma pessoa egoísta, foi usado para o bem.

 O Espírito Santo age em segredo desde o princípio (Filipe)
 Antes de Cristo vir, não havia pão no mundo, assim como o Paraíso, o lugar onde estava Adão, tinha muitas árvores para alimentar os animais, mas nenhum trigo para sustentar o homem. O homem se alimentava como os animais, mas quando Cristo veio, o homem perfeito, trouxe pão do céu para que o homem pudesse se alimentar com o alimento do homem. Os governantes pensavam que era por seu próprio poder e vontade que estavam fazendo o que faziam, mas o Espírito Santo em segredo estava realizando tudo por meio deles como desejava. A verdade, que existia desde o princípio, é semeada em todos os lugares. E muitos o vêem sendo semeado, mas poucos são os que o vêem sendo ceifado.

 A linguagem de Filipe pode ser considerada mística neste trecho, pois ele se refere a Cristo (Jesus) não encarnado, existente desde antes da raça humana habitar a Terra. Da mesma forma ele se refere a Adão, para exemplificar que houve uma era distante no passado em que o ser humano não sabia plantar trigo nem fazer pão. 
 Deus transcende nossa realidade, pois Ele vai além do espaço-tempo. Ele tudo sabe pois é “o começo e o fim”, afinal ele é o Criador do universo. Sua ação é sutil, por isso poucos vêem os resultados de sua obra e a sua lei é de amor, por isso ele nos deu o livre arbítrio e ainda assim cuida de nós, permitindo-nos progredir ao longo das eras.

 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Espiritismo vs Fanatismos

O espiritismo surgiu na França como um movimento espiritualista, ou seja, que aceita a existência da alma e portanto dos espíritos, bem como de uma realidade espiritual e de Deus. Seu líder, ou "decodificador", o pedagogo e tradutor, Allan Kardec, trouxe a centralidade na ética ensinada por Jesus e no diálogo com a ciência de seu tempo. Em suas revistas podemos ver vários estudos dos fenômenos espirituais, e tais estudos buscavam manter uma base centrada pela ética de Jesus, embora pudesse apresentar traços da cultura européia (pós) iluminista.
Com o passar dos anos, o espiritismo chegou ao Brasil e inevitavelmente esbarrou em temas da realidade da sociedade brasileira, entre eles, a política. Com o acirramento da disputa política e de uma certa polarização após eventos ocorridos entre 2013 e 2018, o espiritismo como qualquer outra esfera do ser humano foi afetado e dividido em diferentes espectros: sejam estes grupos chamados de progressistas, conservadores, esquerdistas, direitistas ou de quaisquer outros nomes. Apesar desta possível polarização, a discussão envolve vários temas importantes como iniquidade (desigualdade social), pobreza, preconceito contra minorias, necessidade de diálogo, negação do conhecimento e por isso é preciso tentar esclarecer alguns pontos dessas rivalidades, narrativas etc.

Espíritas neoliberais, conservadores e/ ou reacionários atacam espíritas anarquistas, socialistas e social-democratas, mas geralmente se calam diante cientificistas e materialistas/ niilistas que ridicularizam o espiritismo de modo geral e também se calam diante evangélicos que demonizam o espiritismo como um todo... Porque? Por ignorância? Pode ser, mas acho que também se trata de medo. Medo do umbral (um suposto tipo de inferno ou purgatório, não muito diferente de católicos e evangélicos), medo de fazer tatuagens, de falar sobre sexo e de tantas outras coisas típicas do estilo de vida conservador. Particularmente eu me considero conservador em variados costumes, só que diferente dessas pessoas eu não prego o conservadorismo para os outros: "Cada pessoa deve tirar ramo (ou a trave) de seu próprio olho" ensinou Jesus. Para o coletivo, eu entendo a importância do progresso ético e social, afinal Jesus defendia os vulneráveis e empobrecidos, criticando os poderosos como os fariseus etc. O espiritismo conservador e de ideologias similares então, se apoia na ideia do medo: O espírita das ideologias entendidas como de direita é medroso, ou covarde, porque é fácil e cômodo não ter coragem: talvez seja até seguro; Priorizando o medo do "castigo ou punição espiritual" ao invés de fazer a boa obra e viver sem julgar os outros para se alcançar as "moradas de Cristo", o espírita covarde pode seguir sua rotina com família, trabalho e eventuais ou regulares visitas ao centro espírita gerido por um direitista, seja este médium ou não. Além disto, neoliberalismo, conservadorismo e reacionarismo são fáceis de se propagar, pois não requerem estudo devido ao fato de serem manifestações que desprezam o raciocínio e a ética: você pode falar absurdos sem se preocupar, pode crer em histórias que lhe são coniventes e até "evitar o stress" de se preocupar com injustiças e com os injustiçados. Esses tipos de espíritas bem como qualquer não-espírita de direita tem tudo isso a favor de si. Tais espíritas bem como religiosos de direita em geral, são massa de manobra de seus respectivos líderes; talvez com a única diferença que os líderes espíritas acreditam em suas próprias mentiras (possivelmente acreditam que são guiados por algum "espírito de luz") enquanto os líderes multimilionários evangélicos/ neopentecostais nem sequer devem acreditar em Deus ou em um "pós vida": espalham seus discursos mentirosos só para enganar multidões e enriquecer mais e mais. 

 Espíritas de direita poderiam acusar os de esquerda dizendo que Kardec não era comunista ou que a visão de mundo materialista adotada por muitos marxistas contradiz o espiritismo... Isso é verdade ao menos em parte, mas não quer dizer que Kardec estava de acordo com as ideias absurdas de liberais/ neoliberais, conservadores(*), reacionários e com manifestações ainda mais violentas de segregação e obscurantismo. Kardec buscava diálogo com a ciência e enfrentava católicos conservadores (como pode ser visto em várias revistas espíritas). Kardec criticava o materialismo e a redistribuição repentina de riquezas, mas pregava o espiritismo como um movimento ético de resultados positivos para justiça social: seguir ensinamentos de caridade e melhoria moral dos indivíduos para gerar um mundo mais justo e menos desigual. Alegar que Kardec simplesmente proibiu os espíritas de discutirem política é uma distorção dos fatos que propaga ignorância; é desconsiderar que Kardec viveu numa época da França em que o governo era uma monarquia: Kardec e os demais espíritas franceses "não podiam" discutir política porque não haviam opções nem soluções neste campo. Em última instância, devemos considerar que Kardec baseou sua ética nos ensinamentos de Jesus e considerou Platão como precursor do espiritismo; O filósofo grego claramente teve uma posição política de criticar os amantes do dinheiro (filokerdes) e os amantes da disputa/ da vitória (filonikons). Platão centrou a filosofia em valores universais com a finalidade da melhoria não só dos indivíduos mas também da sociedade. Ainda que sua proposta de governo tivesse uma classe de governantes/ legisladores filósofos; ele indicou que tal classe deveria se apartar de toda atividade comercial e servir o coletivo/ o estado, controlando a classe mercadora para que essa não se tornasse muito influente nem tomasse o poder. Por fim, Platão criticou o uso exagerado da retórica (linguagem complexa ou empolada) e sua aplicação para fins lucrativos (em suma, foi contra o charlatanismo e, de certo modo, contra o capitalismo). 

 Hoje porém, milênios após Platão e Jesus, séculos após Kardec, temos um meio de comunicação chamado internet, este que está em grande parte sob domínio de multimilionários que não se importam com o conhecimento, a verdade e a ética. Assim, o desafio de enfrentar os movimentos obscurantistas (conservadorismo e reacionarismo), os movimentos capitalistas que precificam e objetificam a vida (neoliberalismo) e os movimentos de extermínio (neo fascismo e nazismo), me parece que requer mais do que uso das redes na internet... eu não sei quais melhores formas de resistir ou enfrentar tais grupos, porém imagino que qualquer espiritualista "de esquerda" vai precisar não só de união e ações palpáveis/ mensuráveis, mas também de uma sincera prática espiritual: meditação para estabilizar a mente; oração para se conectar com Deus/ com seus bons espíritos em busca de desenvolver vários aspectos psíquicos tais como paciência, força de vontade, auto controle, misericórdia, entendimento, sabedoria, esperança etc. E falando de aspectos psíquicos, se for o caso, também pode ser bom fazer uma psicoterapia.

 Enfim, uma coisa que as pessoas voluntariamente de direita não têm, é a conexão com Deus ou com bons espíritos... ao menos não enquanto defenderem a miséria, a violência, o medo e a ignorância... 
Creio que nossa luta seja por mais equidade e menos desigualdade. Mais conscientização e menos boataria e sensacionalismo. Mais diálogo buscando a aplicação de valores universais e menos discursos de ódio; Mais inclusão e menos violência contra os vulneráveis.
Façamos nossa parte então, por nós, por quem está do nosso lado e até por quem está contra nós (não que eles entendam e não da forma que eles querem as coisas)... Façamos nossa parte por todos.

 (*) não, liberalismo não é o oposto do conservadorismo, mas não vou explicar política, economia ou sociologia neste post. 

sábado, 2 de novembro de 2024

Leitura ecumênica sobre Os "milagres dos pães e das águas"

Multiplicação dos Pães (Mateus, Marcos, Lucas, João

"Depois disto partiu Jesus para o outro lado do mar da Galiléia, para um lugar deserto, que é o de Tiberíades. 

Uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que operava sobre os enfermos e ele (Jesus) os recebeu possuído de íntima compaixão, e falava-lhes do reino de Deus, e sarava os que necessitavam de cura. 

E Jesus subiu ao monte, e assentou-se ali com os seus discípulos. 

A páscoa, a festa dos judeus, estava próxima. E já o dia começava a declinar; então, chegando-se a ele os doze, disseram-lhe: Despede a multidão, para que, indo aos lugares e aldeias em redor, se agasalhem, e achem o que comer; porque aqui estamos em lugar deserto. 

Então Jesus, levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão vinha ter com ele, disse a Filipe: Onde compraremos pão, para estes comerem? Mas dizia isto para o experimentar; porque ele bem sabia o que havia de fazer. 

Filipe respondeu-lhe: Duzentos denários (dinheiros) de pão não lhes bastarão, para que cada um deles tome um pouco. 

E um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse-lhe: 

Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isto para tantos? E disse Jesus: Mandai assentar os homens. E havia muita relva naquele lugar. Assentaram-se, pois, os homens em número de quase cinco mil, além das mulheres e crianças. 

Jesus tomou os pães e, havendo dado graças, repartiu-os pelos discípulos, e os discípulos pelos que estavam assentados; e igualmente também dos peixes, quanto eles queriam. 

E, quando estavam saciados, disse aos seus discípulos: Recolhei os pedaços que sobejaram, para que nada se perca. 

 Recolheram-nos, pois, e encheram doze alcofas (cestas) de pedaços dos cinco pães de cevada, que sobejaram aos que haviam comido. 

Vendo, pois, aqueles homens o milagre que Jesus tinha feito, diziam: Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo. 

Sabendo, pois, Jesus que haviam de vir arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele só, para o monte."

A partilha do pão é (mais) uma amostra de que é mais importante para os seres humanos, ajudar o próximo e conviver em paz, do que possuir qualquer tipo de propriedade. Jesus realizou o milagre da multiplicação tomado por compaixão diante a enorme multidão de famintos - nem o elevadíssimo número de pessoas necessitadas o desanimou de realizar tal feito justo e benigno. A compaixão de Cristo, que é uma forma de amor, se dá em seu presente: encarnado na Terra, Jesus cuidava dos vulneráveis, sem se importar com o passado das pessoas, nem com possíveis futuros problemas. Quem entendeu o amor de Jesus, solidariza-se com aqueles que têm necessidades ou que passam por dificuldades: não deixa populações carentes de necessidades básicas, não se conformando com pessoas passando fome.

Os momentos em que Jesus retira-se em solidão certamente foram para realizar orações a Deus e realizar alguma prática como a meditação/ o recolhimento para entrar em comunhão com Deus

Jesus anda sobre as Águas (Mateus, Marcos, João) 

"Logo (Jesus) obrigou os seus discípulos a subir para o barco, e passar adiante, para o outro lado, a Betsaida, enquanto ele despedia a multidão. E, tendo-os despedido, foi ao monte a orar na solidão. Sobrevindo a tarde, estava o barco no meio do mar e ele, sozinho, em terra. 

E vendo que se fatigavam a remar, porque o vento lhes era contrário, perto da quarta vigília da noite aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante. 

Quando eles o viram andar sobre o mar, pensaram que era um fantasma, e gritaram Porque todos o viam, e assustaram-se; mas logo (Jesus) falou com eles, e disse-lhes: Tende bom ânimo; sou eu, não temais. 

Respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas. E ele disse: Vem. Então Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salva-me! 

E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? 

E subiu para o barco, para estar com eles, e o vento se aquietou; e entre si ficaram muito assombrados e maravilhados; Pois não tinham compreendido o milagre dos pães; antes o seu coração estava endurecido. 

E, quando já estavam no outro lado, dirigiram-se à terra de Genesaré, e ali atracaram. 

Saindo eles do barco, logo o conheceram; E, correndo toda a terra em redor, começaram a trazer em leitos, aonde quer que sabiam que ele estava, os que se achavam enfermos. 

Onde quer que entrava, ou em cidade, ou aldeias, ou no campo, apresentavam os enfermos nas praças, e rogavam-lhe que os deixasse tocar ao menos na orla da sua roupa; e todos os que lhe tocavam saravam."

Assim como a multiplicação dos pães, esta é uma passagem do evangelho que muitos indivíduos, principalmente ateus, devem duvidar que tenha acontecido: Não basta Jesus ter andado sobre as águas, como Mateus conta que Pedro conseguiu dar alguns passos andando sobre as águas. 

Para se realizar um feito destes com a graça, ou com a mediunidade, deve-se considerar várias coisas: O quão pura e intensa deve ser a fé do indivíduo para realizar tal feito? O quão útil seria realizar tal feito? Jesus, como sempre, realiza seus “milagres” em um estado mental de grande humildade e misericórdia: Sendo Jesus o filho de Deus (o próprio para os católicos e os evangélicos, ou um espírito muito próximo de Deus para espíritas e credos semelhantes), ele conseguiria realizar tais feitos que seriam dificílimos ou "impossíveis" para a maioria das pessoas. Talvez Pedro fosse o apóstolo que em momentos de grande fé e fervor, conseguisse realizar coisas vagamente parecidas. Mas o espiritismo explica que o médium é intermediário entre a Terra e o mundo dos espíritos. Que espírito de acordo com esta filosofia, acharia útil ou importante Pedro andar sobre as águas? Não importa. Porém quem concede a graça (ou a “mediunidade”) à Jesus é O próprio Deus. 

Independente se Jesus é Deus ou o mais elevado espírito e mais próximo de Deus, este fato não deve ser desculpa para cristãos se afastarem ou desistirem de seus ensinamentos: O próprio Jesus fala para as pessoas: vós sois deuses, indicando que todos podem e devem ser como ele. E também ocasionalmente avisa seus discípulos para que estes tenham mais fé! De acordo com suas palavras, se tivessem mais fé, realizariam os "milagres" ou "feitos mediúnicos" sem dificuldades!

Discurso de Jesus sobre o pão da vida (João) 

"No dia seguinte, a multidão que estava do outro lado do mar, vendo que não havia ali mais do que um barquinho, a não ser aquele no qual os discípulos haviam entrado, e que Jesus não entrara com os seus discípulos naquele barquinho, mas que os seus discípulos tinham ido sozinhos (Contudo, outros barquinhos tinham chegado de Tiberíades, perto do lugar onde comeram o pão, havendo o Senhor dado graças). 

Vendo, pois, a multidão que Jesus não estava ali nem os seus discípulos, entraram eles também nos barcos, e foram a Cafarnaum, em busca de Jesus. E, achando-o no outro lado do mar, disseram-lhe: Rabi, quando chegaste aqui? 

Jesus respondeu-lhes e disse: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes.  Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou. 

Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? 

Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou. 

Disseram-lhe, pois: Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer o pão do céu. 

Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. 

Disseram-lhe, pois: Senhor, dá-nos sempre desse pão. 

E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede. Mas já vos disse que também vós me vistes, e contudo não credes. Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. 

Murmuravam, pois, dele os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desceu do céu. E diziam: Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu? 

Respondeu, pois, Jesus, e disse-lhes: Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim. Não que alguém visse ao Pai, a não ser aquele que é de Deus; este tem visto ao Pai. 

Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. 

Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar este a sua carne a comer? 

Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre. 

Ele disse estas coisas na sinagoga, ensinando em Cafarnaum. Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Sabendo, pois, Jesus em si mesmo que os seus discípulos murmuravam disto, disse-lhes: Isto escandaliza-vos? Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava? O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos digo são espírito e vida. Mas há alguns de vós que não crêem. 

Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam (acreditavam), e quem era o que o havia de entregar. E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido. Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele. Então disse Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? 

Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente. 

Respondeu-lhe Jesus: Não vos escolhi a vós os doze? e um de vós é um diabo. E isto dizia ele de Judas Iscariotes, filho de Simão; porque este o havia de entregar, sendo um dos doze."

Quando Jesus diz “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou.” ele se quer dizer que trabalhar o bem (humildade, serenidade, sinceridade, paciência, força de vontade, misericórdia etc) de coração, para a alma/ o espírito e sua imortalidade é mais importante do que simplesmente trabalhar pela sobrevivência na Terra. Porém esse trabalho espiritual é feito valorizando o próximo na Terra e o próximo é todo e qualquer um que se encontre, seja conhecido ou desconhecido, por isso esse trabalho espiritual não deve deixar de valorizar a vida coletiva. Não se alcança o reino dos céus sem praticar os ensinamentos de Jesus: ser humilde como as crianças, vigiar a si mesmo para não cair no orgulho, na ganância e na ira e perdoar e ajudar os outros, principalmente os mais necessitados. Também é importante ressaltar que na frase “E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca”, fica claro que Deus é piedoso e esperançoso, pois quer salvar a todos. Isto é reforçado também quando ele diz nesta passagem: E serão todos ensinados por Deus.

Se alimentar da carne e do sangue de Jesus, significa se alimentar de seus ensinamentos / praticá-los: Os ensinamentos mais objetivos (externos, sociais) que é perdoar o próximo em seus atos, ser solidário etc; e os mais subjetivos (internos, individual) que trata-se de não desejar o mal de outrem, esforçar-se para perdoar, autocontrolar seus pensamentos e sentimentos. Estes dois ensinamentos são recíprocos e interligados: ninguém é verdadeiramente humilde se trata determinadas pessoas com respeito e trata outras pessoas com desprezo, violência ou qualquer outra atitude contrária ao respeito. Ninguém é verdadeiramente solidário se ajuda somente alguns indivíduos ou grupos, enquanto odeia ou despreza outras pessoas e povos...

Jesus transmite o bem e a verdade, pois sua palavra é espírito! A lei divina é de amar ao próximo como a si mesmo e amar a Deus. Amar o próximo é conviver em paz, partilhando tudo com humildade, amizade e esperança coletiva. 

Quando Jesus diz: “Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava? O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos digo são espírito e vida.” ele explica que a vida espiritual vai além (antes e depois) da material/ "encarnada"; Pois esta vida (material/ encarnada) é passageira e existe para se propagar o amor de Deus. Por isso Jesus ensinou que praticar o bem e obedecer a lei divina de amor são coisas mais importantes do que se preocupar com a própria vida encarnada. Assim, ao questionar a reação de seus apóstolos, Jesus indica que "onde primeiro estava" é uma realidade diferente da vida corporal/ material, certamente espiritual.

Discussão com fariseus (Tomé, Marcos, Mateus) 

"Então chegaram ao pé de Jesus uns escribas e fariseus de Jerusalém, dizendo: 

Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos quando comem pão. 

Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Por que transgredis vós, também, o mandamento de Deus pela vossa tradição? 

Deus ordenou, dizendo: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser ao pai ou à mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser ao pai ou à mãe: É oferta ao Senhor o que poderias aproveitar de mim; esse não precisa honrar nem a seu pai nem a sua mãe, E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus. 

Hipócritas, bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. (Isaías 29 - 13) Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens. 

E, chamando a multidão para si, disse-lhes: Ouvi, e entendei: O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem. 

Então, acercando-se dele os seus discípulos, disseram-lhe: Sabes que os fariseus, ouvindo essas palavras, se escandalizaram? 

Ele, porém, respondendo, disse: Ai dos fariseus, porque eles são como um cão que dorme na manjedoura dos bois, pois ele não come nem deixa os bois comerem. Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada. Deixai-os; são cegos condutores de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova. 

E Pedro, tomando a palavra, disse-lhe: Explica-nos essa parábola. 

Jesus, porém, disse: Até vós mesmos estais ainda sem entender? Ainda não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre, e é lançado fora? Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. 

Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem; mas comer sem lavar as mãos, isso não contamina o homem."

Esta é a passagem onde Jesus confirma que nenhum ritual ou rito, seja "liturgia" ou "magística", é mais importante do que praticar o bem nos atos, nas palavras, nos pensamentos e nos sentimentos. As maldades não entram pela boca da pessoa - elas surgem e/ ou permanecem no interior (alma, mente) da pessoa tomada por sentimentos e/ ou pensamentos maldosos, egoístas e similares. Portanto praticar uma purificação física, como lavar as mãos, as louças, jarros e talheres, é insignificante se a pessoa não pratica o bem. As palavras mostram o que a pessoa pensa e guarda de sentimento: Se uma pessoa espalha mentiras sobre outras, ou se faz falsas acusações por exemplo, ela está praticando o mal, portanto, está contrariando os ensinamentos de Jesus. Toda fala e argumento usado para beneficiar a si mesmo prejudicando outros, é contrário aos ensinamentos de Jesus.

Esta questão do coração e dos pensamentos trazida por Jesus, é o tema da interiorização do bem, bastante abordado por Sócrates e Platão: Os filósofos explicavam que era importante tornar o desejo correto (orthos eros), unindo o elemento sentimental/ emocional ("thymous") que é o intermediário da alma (da psiquê) ao elemento superior, à razão capaz de buscar o bem, a justiça, a moderação e a coragem. Assim se busca o que é uno, ou seja, universal, imutável, o que não pode ser relativizado nem iludido. O bem (kalos) é o valor universal, que deve ser inferido nos sentimentos/ emoções, na razão e enfim, na alma, para servir a todos, para o bem do coletivo.

sábado, 28 de setembro de 2024

Leitura ecumênica de "Execução de João Batista" e "O Joio"

Execução de João Batista (Mateus, Marcos, Lucas) 

"Naquele tempo ouviu Herodes, o tetrarca, a fama de Jesus, e disse aos seus criados: Este é João o Batista; ressuscitou dos mortos, e por isso estas maravilhas operam nele. 

Herodes tinha prendido João, e tinha-o maniatado e encerrado no cárcere, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe; Porque João lhe dissera: "Não te é lícito possuí-la."

 E, querendo matá-lo, temia o povo; porque o tinham como profeta. 

Festejando-se, porém, o dia natalício de Herodes, dançou a filha de Herodias diante dele. Isto agradou a Herodes e por isso ele prometeu, com juramento, dar-lhe tudo o que pedisse; 

Ela, instruída previamente por sua mãe, disse: Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João o Batista. E o rei afligiu-se, mas, por causa do juramento, e dos que estavam à mesa com ele, ordenou que se lhe desse. 

Mandou degolar João no cárcere. E a sua cabeça foi trazida num prato, e dada à jovem, e ela a levou a sua mãe. 

Então chegaram os seus discípulos, e levaram o corpo, e o sepultaram; e foram anunciá-lo a Jesus."

João Batista, como devoto de Deus e de seus ensinamentos, manteve-se firme até o final de sua vida terrestre, sem temer a violência dos poderosos que o odiavam.O tetrarca Herodes, por sua vez, mostrou-se um covarde entre uma corte de gananciosos, interesseiros e sádicos: Ele havia ordenado a prisão de João Batista, mas poupava sua vida porque sabia que o profeta tinha muitos admiradores/ fiéis. Eis então que o tetrarca ficou aflito quando a mulher que lhe despertou interesse pediu a cabeça de João Batista. Mais uma vez, Herodes toma uma decisão covarde e ordena a execução do profeta. Esta passagem mostra o quão mesquinha e violenta eram as classes dominantes da Judéia e do Império romano durante o século 1. Além de deixarem-se levar por desejos e por impulsos de violência, muitas vezes faziam isto abertamente, ou seja, não procuravam nem ocultar seus crimes. Infelizmente, muitas destas atitudes perduram até este século 21, devido a falta da aplicação e da prática da lei divina, que é de amor. Sem a lei divina de amor, a humanidade tomada por intensos desejos materiais, rivalidade e insensibilidade para com os outros, se afundaria em ações violentas e crescentes conflitos… Portanto humildade, solidariedade e esperança não são sinais de fraqueza, nem de ingenuidade - são condições essenciais de vida que todo ser humano deve buscar desenvolver. 

Muitas pessoas podem pensar que o amor é muito subjetivo ou relativo, mas Jesus não foi o único a ensinar sobre a importância deste sentimento e de como vivê-lo. O filósofo grego, Platão, apesar de parecer muito mais racionalista do que Jesus, também ensinava sobre o amor, ainda que não utilizasse exatamente esta palavra em seus textos onde registrou os diálogos de seu mestre Sócrates. Na obra o Simpósio (ou o Banquete), Platão indica que o desejo correto (orthos eros) deve evoluir para além do desejo do amor sensual que é limitado aos sentidos e a beleza meramente física/ corporal. O desejo deve ser direcionado à psiquê (palavra que abrange mente e alma) das pessoas e então deve ser expandido para todas as psiquês e para tudo que faz bem para todas as psiquês (as leis e obras que fazem bem a todas mentes/ almas). No diálogo Fedro, tratando mais a relação do desejo com os estados alterados da psique, o autor indica que o amor é chamado de "O Alado", por permitir que a pessoa alcance o "céu além" (hiper ouranos), a morada divina, onde as virtudes como temperança e justiça irradiam fulgor. A beleza mais sublime então está relacionada à psiquê/ alma, mas não é algo meramente subjetivo, muito menos alienante, pois relaciona-se com os resultados das intenções, decisões e ações humanas. Por isso, em sua obra "A República", Platão trata da relação da ideia (eidos) do bem e do belo (kalos) com o governo e as relações humanas nas Pólis (cidades estado). Este é o desejo pelo bem de todos que equivale ao amor ensinado por Jesus.

O Joio - Legendas: Tomé (ciano), Mateus (azul

"Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo; Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio. 

E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu, no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio? 

E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos arrancá-lo? 

Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Receio que você vá com a intenção de arrancar o joio e arrancar o trigo junto com ele. 

Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; Pois no dia da colheita o joio ficará bem visível, e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro."

Os motivos pelos quais Jesus utilizou parábolas em seus ensinamentos parecem pouco claros ainda hoje, neste início de século 21. Embora o espiritismo indique que a maior parte do povo não estava pronta para entender Jesus durante o século 1, é possível que ele tenha propagado parte de seus ensinamentos através de parábolas para esconder de alguns indivíduos mais aversivos ou contrários à lei divina de amor. Mas como certamente seus ensinamentos não eram exclusivos para seus apóstolos, Jesus deve ter utilizado uma linguagem acessível às baixas classes sociais (pobres, desabrigados etc) da Galiléia do século 1, pois grande parte da população era composta de agricultores, pastores e artesãos. 

Assim, nesta parábola do joio, pode-se entender que o reino dos céus é o que fomenta o bem na Terra, ou seja, a lei divina de amor e os ensinamentos de Jesus. Esta lei e ensinamentos são comparados com as boas sementes que geram o trigo, o alimento do ser humano. O joio, por sua vez, é danoso, geralmente infectado por fungos tóxicos, por isso Jesus utiliza a representação desta planta que se assemelha ao trigo antes de se tornar madura, como se fosse os inimigos do amor esperançoso, da solidariedade e da humildade. Estes inimigos se misturam com as pessoas boas, e às vezes, eliminá-los pode atingir um ou outro inocente. 

Em casos onde pessoas boas estão sob o jugo de um líder poderoso e mau (egoísta, ganancioso e/ ou cruel etc), devemos simplesmente evitar imitar as ações dos inimigos e aguardar pelo momento possível para se fazer o bem. As ações que não devemos imitar (de "inimigos" ou de líderes "maus") geralmente são acusações sem embasamento, mentiras interesseiras, discursos de intolerância, agressões etc. 

Os casos onde pessoas boas ou inocentes acabam se envolvendo com inimigos, podem ter variados motivos: porque foram enganados ou porque têm laços familiares, ou devido a qualquer outra causa. Nestes casos, quando não for possível proteger ou resgatar o inocente, é necessário paciência para aguardar os resultados das ações de cada um, afinal cedo ou tarde o mal (o inimigo, o erro) fica evidente. Ao ficar evidente ele pode ser separado do bem e cada um deverá receber seu destino mais adequado.

É importante relembrar 2 pontos referentes a esta passagem: 

O primeiro é que Jesus ensina que na hora da condenação, nem seu Pai (Deus) julga; é o malfeitor (pecador etc) que não vai à luz, pois tem vergonha de sua obra e foge para as trevas. Isso é um tema central nos ensinamentos de Jesus: o perdão, que ele menciona em várias outras passagens.

O segundo é que a lei divina não requer que o bem se auto destrua, nem que permita a propagação da maldade, pois Jesus criticou os religiosos corruptos e defendeu os pobres e os necessitados. O joio deixa de ser parecido com o trigo quando amadurece, ou seja, é neste ponto que ele é separado do trigo - separa-se o mal do bem pelas ações que transparecem nas relações! Jesus não julga os outros sem observar suas ações antes e por isso não deve ter julgado nem mesmo Herodes até ele mostrar sua extrema covardia e egoísmo ao matar João Batista para possuir a filha de Herodias. Naquele momento em diante ficou claro publicamente que Herodes era egoísta e cruel: ao assassinar uma pessoa admirada por lutar pelo povo humilde, denunciando religiosos manipuladores (fariseus, saduceus etc) e líderes opressores (centuriões romanos etc).


 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Sobre duas obras de Chico Xavier

Chico Xavier é um médium bastante admirado no meio espírita brasileiro em geral. Porém eu concordo com uma interpretação comum entre os espíritas progressistas: Que ele fez boas obras e más obras - Chico Xavier foi humano, ora acertando e ora errando. Particularmente comecei a entender suas obras deste modo após duas experiências que eu tive por volta do ano de 2020. Estas experiências consideradas como mediúnicas devem ter algum valor para os meios que as aceitam, como o espiritismo, a umbanda (etc)... Porém, além da experiência mediúnica eu busquei analisar o conteúdo das obras também.

Venerar este médium (Chico) como se ele fosse um santo que só trouxe belas verdades indiscutíveis é uma ingenuidade. O próprio Kardec, ao fundar o espiritismo, afirmava que era preciso uma análise crítica das mensagens recebidas através dos espíritos. Esta crítica de Kardec não era simples negação das mensagens e sim uma verificação para entender se o conteúdo de tais mensagens estavam de acordo com os precursores do espiritismo, como Jesus Cristo, Platão e Sócrates (embora estes 2 últimos raramente sejam mencionados pela maioria espírita no Brasil). 

Particularmente lembro-me de 2 textos psicografados por Chico. O 1º que eu esqueci o título, trazia severas críticas e acusações ao fundador da ordem dos jesuítas (Iñigo López de Oñaz y Loyola 1491-1556, traduzido como Inácio de Loyola) e veneração pelo fundador do protestantismo (Martin Luther 1483-1546, traduzido como Martinho Lutero). Uma interpretação exagerada da história por si só, pois não acho que algum destes 2 personagens tenha sido um santo perfeito - apenas foram humanos no centro de um momento decisivo (e talvez cheios de polêmicas) da história do ocidente: A reforma, ou divisão, da igreja católica que era poderosíssima até então durante o século 15. 

Porém, além deste fato, durante a leitura, uma nítida presença horrível (sentimentos ruins diferentes dos meus naquele momento, como uma outra mente que entendo que seja [de] algum espírito) tentou a me induzir a continuar lendo. Diante o fato, interrompi a leitura e considerei uma obra ruim. Afirmo que esta presença foi nítida por se tratar de algo tão real ou mais real do que a realidade que me cerca. Sei que este tipo de relato, de descrever fenômenos "mais reais do que reais", existe em outras experiências pouco aceitas pela ciência tradicional, como por exemplo, em caso de uso de substâncias psicodélicas/ enteógenas. Não há outra forma de descrever o fenômeno que presenciei ao ler tal obra. 

Mesmo se eu ignorasse o fenômeno incomum, o próprio conteúdo do texto, indica que Chico Xavier cometeu um equívoco aqui: No histórico conflito entre protestantes e jesuítas não houve um lado angelical contra um lado demoníaco. Embora Lutero certamente teve mais relevância do que Loyola na história da alternância de poder no ocidente, ambos os lados deixaram entre seus seguidores, personagens bons e ruins. 

Martinho Lutero não foi o primeiro a enfrentar a igreja católica: Jan Hus (1375-1415) foi um personagem tão importante quanto Lutero em questionar os poderosos na Europa, enfrentando tanto a igreja católica como o imperador germânico. Além de Hus, alguns dos filósofos platônicos como Giovanni Pico (1463-1494), também questionaram o poder da Igreja e seu autoritarismo. Não estou afirmando que Lutero foi insignificante: longe disto, mas pretender colocá-lo como um oposto à Loyola, alegando que o segundo agiu de acordo com "forças do mal", é um exagero, pois o processo histórico é gradual e cheio de desdobramentos. Lutero e os protestantes definitivamente diminuíram o poder absurdo predominante entre o alto clero católico na Europa abrindo caminhos para a religiosidade ocidental e possivelmente a criação da ordem dos jesuítas teve intenções de manipular e reganhar poder para a igreja católica. Porém qualquer um que estude a história da colonização da América, perceberá que alguns jesuítas defenderam a vida de comunidades ameríndias inteiras diante escravagistas como os encomederos espanhóis e os bandeirantes portugueses. Além disto há quem diga que Lutero teve alguma responsabilidade sobre a guerra dos camponeses e seu trágico desfecho que seguiu após a propagação de suas obras. Há indivíduos bons e ruins em ambos os lados e idolatrar ou demonizar qualquer um destes personagens é fomentar divisão e prolongar rixas que já deveriam ter acabado há séculos. 

O 2º texto do famoso autor espírita não me trouxe alegria e paz de espírito, mas me pareceu mais coerente e também me causou uma experiência mediúnica mais sutil: Uma sensibilidade seguida por uma emoção difícil de explicar - um tipo de tristeza, mas acompanhada de uma forte intuição de que há uma verdade na mensagem escrita pelo médium. Segue o texto: 

O enigma da obsessão 

"Comentávamos em círculo íntimo o inquietante enigma da obsessão na Terra, alinhando observações e apontamentos. Por que motivo se empenham criaturas encarnadas e desencarnadas em terríveis duelos no santuário mental? Que a vítima arrancada ao corpo, em delito recente, prossiga imantada ao criminoso, quando a treva da ignorância lhe situa o espírito a distância do perdão, é compreensível, mas como interpretar os processos de metodizada perseguição no tempo? Como entender o ódio de certas entidades, em torno de crianças e jovens, de enfermos e velhinhos? Por que a ofensiva persistente dos gênios perversos, através de reencarnações numerosas e incessantes? No mundo, os assalariados do mal comprometem-se ao redor de escuros objetivos... Há quem se renda às tentações do dinheiro, do poder político, das honras sociais e dos prazeres subalternos, mas em derredor de que razões lutam as almas desenfaixadas da carne se para elas semelhantes valores convencionais de posse não mais existem? 

Longa série de “porquês” empolgava-nos a imaginação, quando Menés, otimista ancião do nosso grupo, à maneira de carinhoso avô, falou bem humorado: – A propósito do assunto, contarei a vocês um apólogo que nos pode conferir alguma idéia acerca do nosso imenso atraso moral. E, tranqüila, narrou: – Em épocas recuadas, numa cidade que os séculos já consumiram, os bois sentiram que também eram criaturas feitas por nosso Pai Celestial, não obstante inferiores aos homens. Sentindo essa verdade, começaram a observar a crueldade com que eram tratados. O homem que, pela coroa de inteligência, devia protegê-los e educá-los, deles se valia para ingratos serviços de tração, sob golpes sucessivos de aguilhões e azorragues. Não se contentando com essa forma de exploração, escravizava-lhes as companheiras, furtando-lhes o leite dos próprios filhos, reservando-lhes à família e a eles próprios horrível destino no açougue, Se alguns deles hesitavam no trabalho comum, sofrendo com a tuberculose ou com a hepatite, eram, de pronto, encaminhados à morte e ninguém lhes respeitava o martírio final. Muitas pessoas compravam-lhes as vísceras cadavéricas ainda quentes, tostando-as ao fogo para churrascos alegres, enquanto outras lhes mergulhavam os pedaços sangrentos em panelas com água temperada, convertendo-os em saborosos quitutes para bocas famintas. Não conseguiam nem mesmo o direito à paz do túmulo, porque eram sepultados, aqui e ali, em estômagos malcheirosos e insaciáveis. Apesar de trabalharem exaustivamente para o homem, não conseguiam a mínima recompensa, de vez que, depois de abatidos, eram despojados dos próprios chifres e dos próprios ossos, para fortalecimento da indústria... Magoados e aflitos, começaram a reclamar; contudo, os homens, embora portadores de belas virtudes potenciais, receavam viver sem o cativeiro dos bois. Como enfrentarem, sozinhos, as duras tarefas do arado? Como sustentarem a casa sem o leite? Como garantirem a tranqüilidade do corpo sem a carne confortadora dos seres bovinos? O petitório era simpático, mas os bichos se mostravam tão nédios e tão tentadores que ninguém se arriscava à solução do problema. Depois de numerosas súplicas sem resposta, as vítimas da voracidade humana recorreram aos juízes; entretanto, os magistrados igualmente cultivavam a paixão do bife e do chouriço e não sabiam servir à Justiça, sem as utilidades do leite e do couro dos animais. Assim, o impasse permaneceu sem alteração e qualquer touro mais arrojado que se referisse ao assunto, a destacar-se da subserviência em que se mantinha o rebanho, era apedrejado, espancado e conduzido, irremediavelmente, ao matadouro... O venerável amigo fez longa pausa e acrescentou: – Essa é a luta multissecular entre encarnados e desencarnados que se devotam ao vampirismo. Sem qualquer habilitação para a vida normal, fora do vaso físico, temem a grandeza do Universo e recuam apavorados, ante a glória do Espaço Infinito, procurando a intimidade com os irmãos ainda envolvidos na carne, cujas energias lhes constituem precioso alimento à ilusão. E desse modo que as enfermidades do corpo e da alma se espalham nos mais diversos climas. Os homens, que se julgam distantes da harmonia orgânica sem o sacrifício dos animais, são defrontados por gênios invisíveis que se acreditam incapazes de viver sem o concurso deles. O enigma da obsessão, no fundo, é problema educativo. Quando o homem cumprir em si mesmo as leis superiores da bondade a que teoricamente se afeiçoa, deixará de ser um flagelo para a Natureza, convertendo-se num exemplo de sublimação para as entidades inferiores que o procuram... Então, a consciência particular inflamar-se-á na luz da consciência cósmica e os tristes espetáculos da obsessão recíproca desaparecerão da Terra... Até lá – concluiu, sorrindo –, reclamar contra a atuação dos Espíritos delinqüentes, conservando em si mesmo qualidades talvez piores que as deles, é arriscar-se, como os bois, à desilusão e ao espancamento. O ímã que atrai o ferro não atrai a luz. Quem devora os animais, incorporando-lhes as propriedades ao patrimônio orgânico, deve ser apetitosa presa dos seres que se animalizam. Os semelhantes procuram os semelhantes. Esta é a Lei. Afastou-se Menés, com a serenidade sorridente dos sábios, e a nossa assembléia, dantes excitada e falastrona, calou-se, de repente, a fim de pensar." 

O texto não afirma que a conversa tenha realmente ocorrido em nossa história no planeta Terra. Mas seu conteúdo praticamente converge um espiritual com um saber científico. Claro, tal convergência pode ser inaceitável tanto para cientistas que negam toda a realidade espiritual como para religiosos anti-científicos. Porém a indústria agropecuária é obviamente desalinhada com a natureza da Terra, pois ela é formada por pequenos grupos de seres humanos buscando acumular uma invenção humana chamada dinheiro, destruindo vários hectares de terra com seus respectivos biomas naturais para forçar a procriação de uma enorme quantidade de gado e poucas outras espécies de animais "domesticados". Estes animais forçados a procriar, são alimentados com produtos modificados geneticamente, com o objetivo exclusivo de se tornarem produtos para consumo humano. Tal consumo não é feito por causa da importância dos nutrientes da carne ou do leite de tais animais e sim porque os agropecuaristas querem enriquecer e os consumidores acham o produto saboroso, ambos ignorando o quanto isto devasta os biomas da Terra. Estes são os fatos científicos. 

 O saber religioso aqui escrito por Chico Xavier é o elemento espiritual do texto: Tudo é naturalmente gradual tanto nas leis espirituais como nas leis naturais, porque estas leis não estão totalmente separadas entre si; Na verdade elas se conectam pois são a mesma em níveis diferentes. Sócrates, Platão (no diálogo/ texto Górgias) e Kardec já afirmavam esta conexão entre lei natural e lei divina. Certamente os hindus têm algum entendimento disto também, já que consideram a "vaca como um animal sagrado". Sendo toda a lei gradual, a formação e a evolução dos espíritos também é. Forçar a reprodução de milhões de bovídeos tem seu impacto no fluxo espiritual: é uma consequência lógica. Os ateus e crentes de religiões que ignoram a vida animal podem viver sem entender isto, mas espíritas, umbandistas e hinduístas deveriam no ao menos considerar tal explicação espiritual.

 

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