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sábado, 7 de setembro de 2024

Qual é a idade da religião monoteísta? A História é só escrita?

Sistemas Religiosos e Mitologias

As mitologias de que ouvimos falar, como a grega, a nórdica, a celta, a indiana, a japonesa, a egípcia, a asteca entre outras, são sistemas religiosos. De certo modo referem-se não meramente aos contos sobre a origem da civilização ou do universo, mas também referem-se às crenças, ritos e oferendas aos deuses (enfim religiões) de suas respectivas culturas. 

A maioria delas têm contos incríveis, exagerados, ou até mesmo bizarros, sejam sobre deuses, seres fantásticos, ou fenômenos cosmogônicos e isto deve ter sido assim por variados motivos. Porém entende-se que (ao menos alguns d)os contos mais estranhos desses sistemas tratam de assuntos complexos para os povos da antiguidade. 

Entre tantos sistemas religiosos politeístas da antiguidade, ou que no mínimo cultuavam variadas entidades, existiu ao menos um diferente: O judaísmo, pois entende-se que esta religião tenha sido monoteísta por muitos séculos - Deus é um; o que existe entre a raça humana e Deus, é uma hierarquia de anjos, mas estes não são "deuses". Apesar de haver uma possibilidade do judaísmo ter uma origem e/ ou influência de uma religião politeísta em um passado distante (como a religião dos cananeus, por ex.), se levarmos em consideração a tradição religiosa judaica, tal religião é monoteísta ou monólatra há pelo menos 1 milênio "antes de Cristo". Talvez possamos contar também com o masdeísmo (zoroastrismo), mas há quem diga que esta se tratava de uma religião dualista. No sanatana dharma (hinduísmo), a Kriya Yoga, explica que Brahman é O Deus (onipresente como de um monoteísmo etc) e que Brahma é só o seu aspecto criador, ao lado de Vishnu, o preservador e Shiva, o destruidor (renovador). Porém muitas outra vertentes do hinduísmo parecem ser politeístas, então foquemos no judaísmo: Esta religião monoteísta poderia mesmo tão antiga quanto as religiões politeístas mencionadas? 

Os Primórdios 

A história não esclarece todo o percurso das religiões, ao menos não se considerarmos como história somente a escrita que começou por volta de 3500 aC. 

Teríamos que recorrer à história pré-escrita, ou, para quem não gosta deste termo, teríamos que recorrer à história da arte e à arqueologia. Mesmo porque o mais antigo escrito encontrado do judaísmo parece pertencer ao século 6 a.C e isso é muito mais recente do que várias outras religiões. Porém sabe-se que os povos que praticavam a religião abraâmica e monoteísta já existiam muito antes do século 6 a.C. e preservavam suas tradições e ensinamentos religiosos de maneira oral, como tantas outras culturas espalhadas pelo globo terrestre.

Uma interpretação aceita na academia/ na ciência da história das religiões parece considerar que o judaísmo surgiu entre os séculos 15 a.C. e 20 a.C. Porém não há resposta definitiva se o judaísmo é mais novo ou mais antigo do que as religiões egípcia ou sumérias, pois não existem provas empíricas definitivas sobre assuntos tão antigos. Se tratando da arqueologia como complemento para o entendimento da história, torna-se muito difícil obter provas claras e incorruptíveis - Por exemplo, vide o caso da pirâmide de Khufu, que há quem conteste as supostas provas que liguem esta construção a tal faraó. Isso ocorre porque a história das religiões da antiguidade tem uma quantidade de registros precisos bem menor do que os períodos mais recentes e muito da tradição sobreviveu através da oralidade (contos etc) passada de geração para geração. 

O mesmo ocorre com o xintoísmo e com o taoismo. Os registros (da história escrita) são muito recentes quando comparados às suas datas de fundação tradicional: Pela tradição oral, entende-se que o xintoísmo é milhares de anos mais antigo do que a primeira escrita e que o taoísmo foi fundado séculos antes da 1ª dinastia chinesa (seja a Xia, ou a Shang). 

Sendo assim, nos sobra avaliar os próprios escritos religiosos de cada cultura e o que há de plausível no que se refere às datas das histórias das religiões, dos seus personagens etc. Embora seguindo uma descrição tradicional da cronologia do judaísmo, tal religião tenha sido fundada por Abraão, através da leitura dos próprios textos religiosos, entende-se que os personagens mais antigos da cronologia já "temiam" a Deus. Este temor não era o ato de lembrar de Deus só quando os personagens se deparavam com uma situação difícil, desesperadora ou urgente, certamente tais personagens muito mais antigos que Abraão tinham uma religiosidade/ espiritualidade. Desta forma, o (pré) judaísmo teria sido “fundado” pelo mais antigo personagem de seu livro sagrado: Adam (traduzido como Adão para a língua portuguesa). Por exemplo, de acordo com o livro “A Caverna dos Tesouros” do cristianismo sírio, apesar de ter cometido um grave pecado, sendo banido do Éden, Adão teria sido o primeiro sacerdote (de Deus, do monoteísmo, da religião “abraâmica”) na Terra. Este personagem e sua esposa, Eva, teriam vivido e/ ou chegado/ ou encarnado (n)à Terra por volta de 4000 aC. O livro foi escrito entre os séculos 3 e 6 (não há um consenso absoluto), porém trata de histórias de personagens muito mais antigos do que qualquer escrito do judaísmo/ do “velho testamento”, ou seja, trata de uma possível tradição oral. Tal tradição oral, por sua vez, indicaria que o surgimento do judaísmo (talvez mais precisamente uma religião monoteísta pré-judaica) ocorreu 500 anos antes dos primeiros sistemas de escrita na Terra. 

Na verdade é uma discussão pouco produtiva tentar descobrir qual religião é mais antiga: Possivelmente tal busca, muitas vezes seria meramente movida à base de orgulho, de fascinação e/ ou de rivalidade entre grupos de pessoas. Cada pessoa ou grupo de pessoas defenderia sua religião favorita, ou atacaria uma ou mais religiões das quais não gostasse por qualquer motivo. Porém as histórias destes personagem supostamente antiquíssimos tem finalidades mais importantes do que determinar a idade de uma religião ou de um povo: Elas tratam de questões éticas, fazendo crítica à inveja e à violência (história de Caim e Abel), à idolatria de familiares (Enos) à luxúria e à vaidade/ orgulho/ narcisismo (durante o período dos filhos de Lamech) etc. Claro que muito dos ensinamentos religiosos da antiguidade podem parecer nada éticos neste início de século 21, mas os possíveis anacronismos e mudanças éticas no decorrer da história não serão abordados neste texto.

O fato é que Adão e Eva são os personagens ou sacerdotes mais antigos das religiões “abraâmicas” e faz todo sentido que suas histórias contenham distorções e alegorias. Quando uma quantia de conhecimento se estende por um período muito grande e com grandes dificuldades de registro, é natural que se perca conteúdo e que se invente maneiras de tentar condensar e/ ou resumir fatos. Neste processo podem ocorrer combinações de histórias, distorções etc. 

Religião e Historicidade/ Ciência 

Vimos que a história e a religião judaica / hebraica se misturaram no decorrer do tempo e também vimos que a história humana é mais antiga do que a escrita, então muito da história foi transmitido oralmente por milênios e cada povo (cultura, civilização…) passou a fazer registros escritos em diferentes épocas. A quantidade de informação a ser transmitida ao longo de períodos tão extensos (séculos ou milênios) certamente é excessiva para povos que se apoiaram na cultura oral ao invés da escrita e por isso houveram “resumos” e condensações dos contos ao longo da história destas culturas (sejam ela a judaica/ hebraica, a persa, a nórdica, a celta, a japonesa, a yorubá, a tupi-guarani entre tantas outras). 

Apesar das possíveis e improdutivas discussões sobre o que era alegoria e o que eram fatos “empíricos” sobre Adão e Eva, fica implícito na Bíblia que seus filhos Caim e Set casaram-se, tiveram filhos e fundaram cidades (ou, ao menos, povoados). Além disto, Caim, por ter cometido o pecado do assassinato de seu irmão Abel, é marcado para que outros não o persigam e não o mate. Tudo isto já indica que haviam outros habitantes (seres humanos) na Terra, nem sendo necessário buscar estudos científicos para entender tal fato. A tentativa de reduzir a idade do ser humano na Terra para 4000 anos antes de Cristo, possivelmente foi feita por religiosos que talvez nem tivessem boa índole: Em períodos de baixo letramento, talvez da antiguidade até o início da renascença, tal fato pode ser mais aceitável, pois a maioria das pessoas não tinha tempo para ficar refletindo sobre a idade das civilizações ou da raça humana. Porém, com a difusão gradual do conhecimento a partir da renascença europeia (século 16), a insistência em tal argumento parece mais uma ferramenta típica para tentar se manter no poder, alegando conhecer toda história (ou origens) da humanidade. Ferramenta esta, muito útil na era medieval e em períodos mais antigos, onde era praticamente impossível estudar história e arqueologia a fundo e buscar propagar/ divulgar a verdade de maneira ampla. Porém defender a ideia de que a raça humana surgiu de um simples casal cerca de 4000 anos antes de Cristo, mostra-se uma atitude muito contraditória após o iluminismo (movimento intelectual da Europa entre os séculos 17 ao 19) e após o início da arqueologia e da geologia. Impor a ideia reducionista de que a raça humana tem poucos milhares de anos como se fosse verdade é desafiar outras religiões que afirmam que a raça humana e/ ou o cosmo são mais antigos (o hinduísmo por exemplo); é tentar impedir os estudos de geologia (e da arqueologia), seja quando tal área de estudo pertencia à filosofia natural no século 18, ou depois, a partir dos meados do século 19, na ciência.

Como estudar as Religiões e a História?

Vimos que muitas podem ser as motivações por trás do estudo das religiões e da história, sejam estudos vinculados (história das religiões) ou estudos separados entre si. Mas o que importa na religião? Seguir quem tem o poder/ quem dita ordens ou buscar a verdade e o bem maior? Eu fico com a segunda opção. Assim então, é possível tratar de variadas obras religiosas que permitem uma melhor investigação dos personagens mais antigos das religiões abraâmicas (e de outras religiões também), suas possíveis inter relações e suas respectivas linhagens até períodos mais recentes. 

Particularmente não me limito aos métodos exclusivos da ciência naturalista e sua suposta "neutralidade" que se mostrou frágil e contraditória, para não dizer inexistente, ao longo da história. Entendo que tanto o estudo da história, como o das religiões podem e devem ser pautados pela ética

Mas a ética não é área de estudo das ciências, e sim da filosofia... Sim. Eu sei disto e não descarto a ciência, mas o que quero dizer é que a finalidade dos estudos deve ser ética, portanto considero a filosofia essencial na construção de conhecimento. Se obtenho êxito ou fracasso, não sei dizer, mas sei que a ética não se limita a valores individuais pois abrange valores que fazem bem ao maior número de pessoas possível, ao coletivo - tem uma finalidade de melhoria não só individual/ moral, mas social também. Sei que tal tema é discutido há séculos e conheci gente que despreza a ética porque acha que a filosofia é muito teórica... Tais pessoas buscam conhecimentos tentando ser mais práticos; com mensuração matemática ou com evidências materiais, mas tal ênfase tida como científica muitas vezes provou se distanciar da ética e das finalidades que abrangem causas coletivas/ sociais. (para quem se interessar, tal tema é abordado aqui: https://amorpelosabersaberamar.blogspot.com/2024/08/a-anti-etica-etica-e-psique-humana.html) Portanto, apesar das dificuldades prefiro estudar os temas citados neste texto, buscando ser ético, buscando a verdade, que não é separável do conceito de pureza e sendo ambos conceitos relacionados à psiquê humana, eles estão relacionados ao amor. Pode parecer devaneio, mas esta verdade e pureza psíquicas almejadas no estudo ético das religiões, da espiritualidade e de sua história, se vinculam não a qualquer "tipo de amor", mas ao mais profundo e mais abrangente, portanto se relacionam com o amor ensinado por seres como Jesus. Não é um mero romantismo, pois não é um amor desvinculado da racionalidade, porém a finalidade destes estudos não é a racionalidade em si: é a busca de melhoria do ser humano como indivíduo e como coletivo/ sociedade. Esta busca de melhoria é a ontologia da filosofia ocidental fundada por Platão (citada na obra "Fédon") e se relaciona com a ideia (eidos) mais elevada ou mais perfeita abordada por este filósofo: o bem (kalos: o bem e belo, como explicado no diálogo "A República"). Pois como Platão indica em suas obras "O Banquete" e "Fedro", o bem é o que há de mais desejável, mais amável.

 

domingo, 18 de agosto de 2024

Diálogo filosófico sobre "A mulher doente/ A filha de Jairo" e "Diversas Curas"

A mulher doente/ A filha de Jairo - Legendas: (Mateus, Marcos, Lucas

"Dizendo-lhes Jesus estas coisas, eis que chegou um chefe da sinagoga, por nome Jairo, e o adorou prostrando-se, dizendo: Minha filha faleceu agora mesmo; mas vem, impõe-lhe a tua mão, e ela viverá. E Jesus, levantando-se, seguiu-o, ele e os seus discípulos. 

Eis que uma mulher que havia já doze anos padecia de um fluxo de sangue e gastara com os médicos todos os seus haveres, e por nenhum pudera ser curada, chegando por detrás dele, tocou a orla de sua roupa; Porque dizia consigo: Se eu tão-somente tocar a sua roupa, ficarei sã. E logo se lhe secou (estancou) a fonte do seu sangue; e sentiu no seu corpo estar já curada daquele mal. 

Logo Jesus, conhecendo que a virtude de si mesmo saíra, voltou-se para a multidão, e disse: Quem tocou nas minhas vestes? 

Responderam-lhe os seus discípulos: Vês que a multidão te aperta, e dizes: Quem me tocou? E ele olhava em redor, para ver a que isto fizera. 

Então a mulher, que sabia o que lhe tinha acontecido, temendo e tremendo, aproximou-se, e prostrou-se diante dele, e disse-lhe toda a verdade. 

 E Jesus, voltando-se, e vendo-a, disse: Tem ânimo, filha, a tua fé te salvou. E imediatamente a mulher ficou sã. 

Estando ele ainda falando, chegaram alguns do principal da sinagoga, a quem disseram: A tua filha está morta; para que enfadas (incomodas) mais o Mestre? 

Jesus, tendo ouvido estas palavras, disse ao principal (Jairo) da sinagoga: Não temas, crê somente. E Jesus, chegando à casa daquele chefe, não permitiu que alguém o seguisse, a não ser Pedro, Tiago, e João, irmão de Tiago e vendo os instrumentistas e o povo em alvoroço, entrando, disse-lhes: Por que vos alvoroçais e chorais? A menina não está morta, mas dorme. E riam-se dele. 

Disse-lhes: Retirai-vos, e, logo que o povo foi posto fora, entrou Jesus, e pegou-lhe na mão, e disse-lhe: Talita cumi; que, traduzido, é: Menina, a ti te digo, levanta-te. 

E logo a menina se levantou, e andava, pois já tinha doze anos; e assombraram-se com grande espanto. 

Jesus mandou-lhes expressamente que ninguém o soubesse; e disse que lhe dessem de comer. E espalhou-se aquela notícia por todo aquele país."

Esta passagem trata notoriamente da fé. Não apenas de crer em Jesus / em Deus, mas também de se crer no bem, e, consequentemente, nas boas pessoas. A fé não é apenas um estado mental de fervor, nem é mera crendice ou como torcer por qualquer esportista ou clube durante uma competição. A fé (ao menos de certa forma) é o sentido de vida da pessoa e sua capacidade de transcender para além de si. Este transcender para além de si é pensar no bem do próximo, desejar-lhe o bem direcionando-lhe bons sentimentos e sempre que possível, praticar este bem. Isto não é feito com um vazio afetivo ou existencial, afinal a pessoa tem um sentido de vida, pois crê no bem. Esta busca por alguém além de si, crendo no bem, relaciona-se com algo, ou mais precisamente, com alguém além de si. Sendo assim não é um mero efeito neuroquímico no nosso cérebro ou em qualquer outra parte de nosso corpo, como uma descarga de adrenalina etc. Este profundo efeito mental/ sentimental, é transcendente, portanto espiritual. Nota-se então que o estado mental daqueles que realmente crêem/ têm fé, contém a humildade - Os arrogantes ou orgulhosos jamais acreditam em Cristo ou no bem, eles duvidam e/ ou desprezam (d)o que não entendem. 

(Mais) Diversas Curas (Mateus) 

"Partindo Jesus dali, dois cegos o seguiram, gritando: Filho de Davi, tem piedade de nós! Jesus entrou numa casa, e os cegos aproximaram-se dele. Disse-lhes: Credes que eu posso fazer isso? Sim, senhor! responderam eles. Então ele tocou-lhes nos olhos se abriram. Recomendou-lhes Jesus em tom severo: Vede que ninguém o saiba. Mas apenas haviam saído, espalharam sua fama por toda região."

Jesus curando os doentes por Carl Bloch (1834-1890)

Mateus mostra que Jesus realizou muitas curas e que estes milagres também dependiam da fé de quem os recebiam, mas poucas pessoas seguiam sua recomendação para não espalharem suas histórias e serem discretos.

Estas duas passagens tratam de temas que tornaram-se polêmicos em certo nível na sociedade ocidental pós moderna. O tema dos milagres: Porque ele aparece tanto nas passagens sobre Jesus? Qual é a importância disto? Os milagres realmente ocorreram? Eles não ocorrem mais?

Os milagres de Jesus são resumidamente aceitos dentro das religiões cristãs, dominadas pela institucionalização e pelo dogmatismo. Porém, a busca por entendimento é muito rara nas religiões até este início de século 21, certamente devido à exigência de obediência propagada por líderes religiosos que pouco ou nada ensinam sobre a lei de amor solidário difundido por Jesus. 

A construção de conhecimento, por sua vez, é quase toda reservada às universidades e meios científicos, estes, tomados por um materialismo niilista que mais parece uma religião ateísta enrustida e fanática. A filosofia, mesmo com temas importantes como a ética, a epistemologia e ontologia, desde o século 20 foi relegada ao estado de acessório ou mero ornamento dos saberes, em uma posição de isolamento e intelectualismo. 

A menos que se coloque toda a causa dos milagres "no além" (anjos, Deus, espíritos etc), é praticamente impossível abordar o tema dos "milagres" e não "questionar/ investigar como a fé funciona". Enquanto houver dúvida, muitas perguntas relacionadas ao tema podem ser feitas: É um processo mental? Espiritual? Como interage com o corpo humano e com o meio a sua volta? Transcende o universo tridimensional?

Um dos poucos autores a tentar fazer a mediação das passagens cristãs com a construção de conhecimento, foi Allan Kardec (1804-1869) durante o século 19; Para o autor e seu círculo de colegas, muitos dos milagres fazem parte dos fenômenos naturais e por isso não precisam ser chamados assim (de milagres, ou de fenômenos sobrenaturais). 

Este tipo de fenômeno foi relatado ao longo da história humana pelo mundo todo em diferentes culturas e por variados povos: pessoas que curaram doentes somente com as próprias mãos, se comunicaram com seres do "além", flutuaram, saíram do próprio corpo visitando outra dimensão ou realidade, descobriram ou descreveram fatos aos quais não tinham acesso etc. Para os espíritas e alguns outros espiritualistas, os fenômenos relatados, como as curas entre outros, poderiam ser explicados como resultados de uma conexão do indivíduo na Terra com o divino ou com uma realidade espiritual por meio de um estado psíquico de fé / grande vontade e confiança e centrados na moral solidária e humilde (nos ensinamentos de Jesus, por exemplo). 

Mas como funcionaria isto? Como algo psíquico (seja mental ou espiritual) poderia gerar efeitos no nosso entorno perceptível (sensorial)? Questões sobre a relação "Mente-Corpo" são tratadas no mínimo desde René Descartes (1596-1650), um filósofo que incitou a investigação racional dos fenômenos, sem duvidar da existência da alma e sem negar a Deus. O debate sobre o que é a mente, sua existência e relação com o corpo, ou com partes específicas do corpo (cérebro), se acirrou na Europa após as publicações deste filósofo e nunca foi concluído de maneira definitiva. O que aconteceu no meio acadêmico gradualmente após o século 17, foi uma dominância da pré suposição de que a mente é só o cérebro / sistema nervoso central e seus efeitos eletroquímicos - Uma visão da realidade meramente materialista/ niilista, que nega conceitos de mente, alma, espírito e possíveis realidades além da tridimensional.

No período final deste processo, ao longo do século 19, surgem o positivismo, a criação do termo cientista e o darwinismo social (biologização de todas "ciências" humanas). Inclusive a ciência separada da filosofia parecia ser afastada da ética, pois as ideias de raça expostas por "intelectuais" da Europa no século 17, se intensificaram de tal maneira durante o século 19, que mesmo diante o surgimento do movimento pela abolição da escravização, a maior parte dos europeus e seus descendentes passaram a difundir o racismo até mesmo nos estudos "científicos". A ética ficou relegada à filosofia e a ciência passou a ser pregada como o "conhecimento verdadeiro" (o cientificismo surgiu de tudo isso).

Apesar da dominância desta interpretação da realidade na ciência no século 19, de acordo com o fundador do espiritismo, haveria um agente intermediário entre espírito e corpo, o qual ele denominou de perispírito. Devido às limitações da época, Kardec o considerou um tipo de fluído super sutil e este pode ter sido um ponto fraco de seus argumentos, pois pouquíssimos indivíduos perceberiam tal “fluído” ou o perispírito. No Livro dos Médiuns e Evocadores, ele discute a possibilidade de tais forças estarem relacionadas à eletricidade e ao magnetismo - ponto ressaltado também em um dos números de sua Revista Espírita. Mas isto era insuficiente para a ciência do século 19 pois pouco se sabia sobre campos eletromagnéticos. Um dos únicos autores a teorizar algo semelhante relacionado à “vida animal” foi Franz Mesmer (1734-1815) com suas explicações sobre “magnetismo animal”. 

A ciência descobriu os campos eletromagnéticos de determinados orgãos do corpo humano (cérebro e coração, por exemplo) apenas nos anos de 1960, mas pouco ou nada explica sobre sua causa ou finalidade. Pesquisas sobre o assunto são tímidas e lentas por uma série de motivos, então certamente ainda estamos muito longe de descobrir se Kardec e suas explicações espíritas do século 19 estavam apontando para um caminho correto. 

De qualquer maneira, antes de tais avanços científicos, é muito mais importante a humanidade evoluir eticamente e isso é um processo mais lento do que os avanços da ciência: basta vermos, ao longo da história, o desprezo pelo bem universal na construção de conhecimento (o desprezo pela ética difundida por Platão no século 4 antes de Cristo) e a falta de empatia, piedade e solidariedade nas religiões cristãs (a distorção e/ ou o desprezo pelos ensinamentos de amor difundidos por Jesus e seus apóstolos no século 1). 

Os "milagres", "capacidades mediúnicas", "transes místicos" ou "magias" existiram e existem em relatos muito variados e são inúmeros - muitos deles estão além do alcance do método empírico de investigação porque este se baseia na experiência sensorial e na reprodutibilidade, ou seja, o indivíduo que investiga o fenômeno deve ter controle sobre este: Ele deve reproduzi-lo mecanicamente. Desta forma os fenômenos mediúnicos/ milagrosos podem ser discutidos somente na construção de conhecimento por via de investigações mais filosóficas (observação, diálogo, comparações, reflexões). Alguns podem ser expressos e entendidos por meio das artes, o que envolve muito mais o sentimento e as emoções do que a racionalidade: músicas ou poesias, por exemplo, historicamente fizeram parte da espiritualidade em sociedades como os celtas (bardos), nórdicos (skalds) e gregos (rapsodos). Então classificar todos os relatos sobre tais experiências como meras mentiras ou alucinações é tão absurdo quanto querer explicar todos eles de maneira absoluta sem progredir mais, não só intelectualmente, mas principalmente eticamente e empaticamente.

"Vertentes" do hinduísmo, como a Kriya Yoga, mostram a importância da ética/ do caráter da pessoa na vida espiritual. A meditação faz parte de um progresso espiritual, onde o yogue começa a perceber e lidar melhor com seus próprios sentimentos e pensamentos e este progresso pouco ou nada difere do que é defendido por Allan Kardec, por Platão e por tantos outros líderes ou pensadores que trataram da espiritualidade. 

Platão, o fundador da filosofia ocidental, inclusive coloca a ética no centro da construção de conhecimento, sem determinismos, sem permissividade e sem reducionismos e segregacionismos: Sua filosofia tem rigor no método de investigação dos fenômenos: Pautando-se pela ideia (eidos) do bem (kalos), Platão partia da presunção da ignorância (não muito diferente da fenomenologia de Husserl) e investigava os assuntos através da maiêutica - diálogo, exposição de idéias, análise e reflexão; Além disto a filosofia ocidental em sua proposta original tinha abertura (universalidade) através do diálogo com diferentes formas de consciência: a racional, a mítica (dos mitos) e a mística (dos transes, experiências transcendentais etc). Este modo de consciência integral incitado originalmente por Platão é abordado por poucos filósofos na modernidade, como por exemplo, por Jean Gebser (1905-1973).

Tudo isto foi exposto para indicar que a ideia do bem está relacionada com o amor ensinado por Jesus. Não se trata de determinar o que existe ou não existe - se trata de expor que o bem é importante porque é um valor universal e é praticável por qualquer ser humano, portanto deveria estar por trás das grandes decisões e ações humanas. Todo ser humano tem uma noção do que é certo, do que é bom para todos, seja uma noção eventualmente menos nítida ou mais nítida.

 

domingo, 27 de novembro de 2022

O Bem não é só espiritual

 

A espiritualidade não é separável do Bem. O bem aqui refere-se a um conjunto de sentimentos, virtudes e práticas: receptividade, veracidade, amor, amizade, esperança, solidariedade... 
O bem existe, em cada pessoa, em níveis maiores ou menores. E pode ser expresso, pensado e praticado. A expressão é sua exposição, o pensar é sua renovação e o praticar é laborar/ trabalhar e cuidar. 
O bem então deve orientar todos saberes. A religião, a filosofia e a ciência... 

A religião, ou mais atualmente a espiritualidade, deveria ser a expressão do bem que é aproximadamente os sentimentos citados no início do texto. Uma forma de expressar tais sentimentos é amizade. É claro que não se trata de uma amizade superficial ou interesseira, pois a espiritualidade e a religiosidade lidam com o sentir e o sentimento, de maneira profunda e/ ou ampla. 
Esta amizade espiritualizada é uma amizade com o Todo, com a criação... No cristianismo é chamada de amor a Deus e ao próximo como a si mesmo. Ou seja, a verdadeira religião ou verdadeira espiritualidade deveria fomentar a expressão de bons sentimentos. Sendo assim deveria propagar: 
receptividade e criatividade ao invés de impor visões de mundo; 
 amizade e devoção ao bem ao invés de orgulho, clubismo e rivalidade; 
tolerância, misericórdia e esperança ao invés de intolerância, paranoia e ódio; 

A filosofia por sua vez trata da amizade pelo saber, que não é apenas o "amor ao saber" que poderia significar o "gostar de estudar", mas também abrange uma postura de estudar para gostar, ou seja, para propagar o amor e o bem. 
Esta postura de propagar o bem, dá a função à filosofia de difundir a equidade e a liberdade de pensamento. Trata-se de dar chance a todos estudarem o que quiserem e evitar que determinados pensamentos individuais (ideologias excludentes, ou eugenistas, violentas etc) se imponham à sociedade de maneira opressiva. 
O saber filosófico também deve fomentar o progresso, repensando as bases e os métodos de construção de conhecimento.
Por fim a filosofia deve propagar o zelo e atenção ao pensamento. Isto não é apenas uma auto-consciência, mas também o cuidado para que uma forma de pensamento/ ideologia não se espalhe de maneira mentirosa como as manipulações e a boataria (fake news etc). 

Finalmente a ciência deveria trabalhar estudando e resolvendo as questões da vida terrena: A saúde dos seres vivos e todas suas áreas correlacionadas (zoologia, botânica, genética, bioquímica, medicina, fisioterapia, nutrição etc). Deveria se preocupar com o bem-estar dos seres vivos, com o meio-ambiente, desde a utilização de seus recursos até sua preservação (o que abrange as áreas da astronomia, astrofísica, física, geofísica, geologia, mineralogia, geoquímica etc). Por fim deveria estudar e cuidar da gestão da natureza e da civilização com suas relações sociais (através das áreas da sociologia, economia, política, gestão ambiental, agronomia etc). 
Obviamente, assim como existem fenômenos que devem ser estudados por mais de uma área da ciência (multidisicplinar etc), também haverão alguns temas "transitando" entre os saberes científicos/ filosóficos/ religiosos. O que mostra a importância de se pautar pelo bem em todos os saberes.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

O que é superior?

 

Os termos super, ultra e hiper se referem a coisas que supassam, transcendem, vão além. Que coisas? Vão além de que? Qualquer coisa que vá além do que podemos imaginar, entender ou sentir é um exemplo. 
 Aqui vou recontar de um modo diferente as experiências de êxtase que tive. Sem ordem cronológica do ponto de vista deste terráqueozinho, mesmo porque ordem cronológica está submetido à curvatura-espaço tempo e o que eu vi e senti possivelmente está além das 3 dimensões que vivemos. Mas, antes vou citar o trecho do evangelho de João, onde Jesus ensina a um judeu proeminente sobre como ocorre a condenação da alma (quando a hora chegar, certamente com a morte do corpo) 
 "Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. (...) E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas." 
 Alma ou espírito estão muito mais para sentimento, pensamento e lembranças - não há cérebro nem orgãos sensoriais como olhos ou ouvidos, nem boca para falar ou calar porque não há corpo. 
 Os espíritos mais próximos de Deus são puros, certamente o que as religiões cristãs chamam de anjos. Eles estão relacionados de alguma forma com a luz, por isso não se trata só de uma maneira de Jesus falar. Os relatos das pessoas que viram "bons espíritos, anjos ou uma das moradas de Cristo" geralmente envolvem uma descrição sobre um lugar luminoso, uma luz etc (os meus relatos inclusos). 
 Aqui seguem as definições mais aceitas sobre a luz hoje em nossa limitada visão de habitantes deste pífio planeta na vastidão infinita do espaço é: A luz é um tipo de onda eletromagnética visível, formada pela propagação em conjunto de um campo elétrico e um magnético. A velocidade da luz é absoluta e tem sempre o mesmo valor, não importa se a medimos em um laboratório fixo na Terra ou em uma nave espacial viajando a grandes velocidades. 
 Convenhamos, se houve um ser humano que entendeu mais de física do que a maioria, foi Albert Einstein. Sua teoria da relatividade foi entendida por uma maioria ou por um grupo de pensadores mais influentes, como se fosse uma teoria apenas do campo (disciplina) da física. Porém, ao propor esta teoria que indica que a curvatura espaço-tempo é relativa e a velocidade da luz é absoluta, Einstein praticamente deu um modelo ontológico à humanidade, ou seja, uma área da filosofia que estuda a existência e foi debatida por décadas como base teórica (filosófica) para as ciências. Trata-se então, em prática, de um novo modelo científico que pode e deve substituir o velho modelo iluminista e antropocêntrico de pensadores dos século 17 e 18, como Isaac Newton etc. Não à toa, uma década após Albert Einstein na 2ª década do século 20, o biólogo húngaro, Ludwig von Bertalanffy, chegou à uma conclusão parecida com a de Einstein, ao perceber que campos de estudos biológicos como a medicina, estavam cada vez mais segmentados (separados), dificultando o entendimento do corpo humano por exemplo. 
 Oras, então toda a ciência anterior a esses dois caras foi imprestável? O que isso tem a ver com a luz, com o êxtase espiritual ou com Deus? 
 Primeiramente, a ciência anterior à Einstein e Bertalanffy não foi imprestável. Ela descobriu muitas coisas dentro das limitações de sua base teórica e de seus métodos de investigação. Em segundo lugar, tem tudo a ver com a luz, ao menos para quem crê que só existe luz dentro das 3 dimensões onde existimos... Inserida na curvatura espaço-tempo, se é que é válido expressar assim. Porém existem dúvidas sobre grandezas como o espaço-tempo, a luz e principalmente, sua velocidade, assim como existem dúvidas sobre um monte de outros assuntos da física, a "nível macro cósmico e microscópico" (não gosto destes últimos termos, mas entendo pouco de física, e esta disciplina não é o foco aqui). O "X" da questão é: A mente existe e não conseguiram evidências que ela seja apenas efeitos eletroquímicos nem nada detectável por nossos 5 sentidos humanos. 
 Então a mente, ou é algo insubstancial, inexplicável como algo completamente além de nossa compreensão, ou é algo muito sutil, que transcende o corpo de alguma forma. É com ela que alcançamos "a luz que existe além do espaço-tempo". Porém a mente não é só a parte racional, vinculada somente ao cérebro - somos sentimentos, vinculados ao coração, como é possível notar em alguns efeitos psicossomáticos. E sentimentos são algo de grande importância nestas experiências transcendentais. 
 Oras, o Criador fez todo universo num movimento de retração ou de expansão? De ódio ou de esperança? Obviamente, de expansão, de esperança. 
 Quando eu tive minha segunda experiência de êxtase o que eu fiz foi implorar por esperança. 
 Quando eu tive a primeira eu simplesmente sabia que o bem era mais importante do que TODOS os outros assuntos dos seres humanos na Terra e além. Não, eu não sabia se existia alma, ou espírito, nem era religioso, pois em prática eu era ateu, diferente de quando eu tive a segunda experiência, quando eu já sabia da existência da alma, dos espíritos e de Deus. Ambas experiências estavam notoriamente além da minha capacidade de imaginação e eram muito mais reais e nítidas do que as alucinações que eu tive em estados febris (patológicos, como gripes fortes etc) de minha infância. Isto eu explico a seguir: 
 Na primeira experiência eu vi seres de luz, que se comunicavam aproximando-se uns dos outros. Ao ver, eu simplesmente soube que eles se comunicavam e isto é difícil de explicar do ponto de vista pifiamente terráqueo. Eles existiam MAIS do que nós, isto é uma maneira mais precisa de explicar. Por isso a certeza* (*palavra insuficiente) para (tentar) explicar o que eu vi/ percebi. Pareciam grandes quantidades de informação passadas com a mera aproximação e não havia nada a esconder e era tudo muito pacífico na primeira experiência. 
 Na segunda experiência eu vi inúmeras vidas inteiras, como se cada vida fosse um átomo ou partícula daquela luz. E "a luz" amava profundamente, eu, e tudo além. Eu reconheci como algo que senti da minha mãe em algum momento de minha existência e esta foi uma das razões que reconheci que era amor muito puro. E era mais real do que esta minha vida terráquea, esta é a segunda razão pela qual entendi que o amor transcende esta existência. O detalhe é que ao fim da experiência, além de me sentir restaurado das várias noites as quais eu tinha dormido menos de 3 horas cada, eu senti algo "ruim": Mas esse algo ruim era meu - eram minhas impurezas (vaidades, egoísmos etc) que me fizeram encolher-me mentalmente de vergonha diante "a luz" tão pura (imagino Deus... em minha pequenez não saberia dizer mais sobre) por uma fração minúscula de tempo/ segundo. 
 A mente existe e se não for a alma, é ao menos, parte desta. A partir daí, é interessante esforçarmos para abandonarmos o conceito simplório de existir e não existir (só existe ou não existe), mesmo porque discutir o não existir é bem... digno de inexistir. Deveria inexistir tal discussão. Interessante é falar e almejar o que existe e o que existe mais, porque coisas devem existir mais e menos umas em relação às outras. E embora pareça que existam mais coisas ruins do que boas, isto é só nossa percepção num planetinha possivelmente insiginificante no infinito. Seja o infinito 3D, 4D, 5D ou mais"D"... Então, pelo que percebi em minhas experiências, das quais chamo de êxtase, o que existe mais é o que faz bem a TODOS. É humildade (que é básico), receptividade (que rege relações), atenção (que rege veracidade e busca pela verdade), paciência (que rege superação), devoção (que rege amizade/ honra), força de vontade (que rege impulsos e julgamento individual) e piedade (que rege solidariedade)... É também a busca pela verdade com estudo e bom-senso... é tudo isto que nos leva a luz que Jesus diz à Nicodemos citada no texto do apóstolo João. É o que leva ao divino, ao Criador, ao Todo. 
 Imagine Deus (ou que seja alguém "mais próximo de nós", e assim, mais fácil: Os anjos ou arcanjos/ os espíritos muito elevados). Não se trata de um cara meramente bacaninha. Não se trata de um gênio intelectual, nem de alguém que ama demais algumas poucas pessoas, muito menos de alguém severo ou punidor (isto deveria ser óbvio). 
 Deus (ou o mais puro dos anjos) trata-se da mente com o maior conhecimento unido a um amor que transcende tudo o que existe as 3 dimensões (ambos atributos transcendem). Ultrapassam praticamente tudo que existiu na Terra e certamente também em outros planetas que tenham vida. Que estuda, entende e com humildade, busca entender mais. Quem é receptivo, ama e com humildade, espera. Espera quem? Espera a todos, mas não de forma inativa e sim criando com amor, porque sua esperança é o que rege ciclos de criação e destruição cósmica. 
 O superior então criou tudo, certamente por esperança infinita. Superior então é o que serve ao menor, ao inferior, com receptividade serve às formas de vida, incluindo nós seres-humanos que tanto erramos ao desprezar diversos aspectos da obra do Criador. 
 A essência do superior é o amor, por isso Cristo propagou a lei de amor: Amar a Deus/ o Todo e amar o próximo como a si mesmo. Este amor que parece tão difícil de por em prática certamente contém dois elementos que eu já citei neste e em outros textos meus: A humildade interna (que por enquanto chamo de receptividade) e a esperança. Por isso todo discurso, argumento e ideologia contra a humildade e contra a esperança são nocivos ou imprestáveis. Por mais difícil que as coisas sejam, há esperança, pois nada sabemos sobre as vastas possibilidades de futuro em nosso universo 3D inserido na curvatura espaço-tempo e sabemos menos ainda das possibilidades que estão além desta tal curvatura que molda nossa realidade.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Espiritismo, uma Filosofia entre a Ciência, o Cristianismo e o Platonismo

 

Estive lendo alguns textos espíritas da segunda metade do século 19 (da época de Kardec) e apesar de uma linguagem meio técnica e antiga, notei argumentos interessantes que posicionam o espiritismo diante os saberes da humanidade. Aqui cito dois textos e comento eles em seguida: 

"Um dia, Deus, em sua inesgotável caridade, permitiu que o homem visse a verdade varar as trevas. Esse dia foi o do advento do Cristo. Depois da luz viva, voltaram as trevas. Após alternativas de verdade e obscuridade, o mundo novamente se perdia. Então, semelhantemente aos profetas do Antigo Testamento, os Espíritos se puseram a falar e a vos advertir. O mundo está abalado em seus fundamentos; reboará o trovão. Sede firmes! 
 O Espiritismo é de ordem divina, pois que se assenta nas próprias leis da natureza, e estai certos de que tudo o que é de ordem divina tem grande e útil objetivo. O vosso mundo se perdia; a ciência, desenvolvida à custa do que é de ordem moral, mas conduzindo-vos ao bem-estar material, redundava em proveito do espírito das trevas. Como sabeis, cristãos, o coração e o amor têm de caminhar unidos à ciência. O reino do Cristo, ah! passados que são dezoito séculos e apesar do sangue de tantos mártires, ainda não veio. Cristãos, voltai para o Mestre, que vos quer salvar. Tudo é fácil àquele que crê e ama; o amor o enche de inefável alegria. Sim, meus filhos, o mundo está abalado; os bons Espíritos vo-lo dizem sobejamente; dobrai-vos à rajada que anuncia a tempestade, a fim de não serdes derrubados, isto é, preparai-vos e não imiteis as virgens loucas, que foram apanhadas desprevenidas à chegada do esposo. 
 A revolução que se apresta é antes moral do que material. Os grandes Espíritos, mensageiros divinos, sopram a fé, para que todos vós, obreiros esclarecidos e ardorosos, façais ouvir a vossa voz humilde, porquanto sois o grão de areia; mas, sem grãos de areia, não existiriam as montanhas." 

 Kardec Respondendo ataques de cientistas materialistas: 
"Ninguém é bom juiz senão em assuntos de sua competência. Se quisermos construir uma casa, chamaremos um músico? Se estivermos doentes, preferiremos ser tratados por um arquiteto? Se tivermos um processo, aconselhar-nos-emos com um dançarino? Enfim, caso se trate de uma questão de teologia, pediremos a sua solução a um químico ou a um astrônomo? Não. Cada qual no seu ofício. As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que podemos manejar à vontade. Os fenômenos por ela produzidos têm como agentes forças materiais. Os do Espiritismo têm como agentes inteligências que possuem sua independência, seu livre-arbítrio, e de modo algum se submetem aos nossos caprichos. Escapam destarte aos nossos processos anatômicos ou de laboratório, bem como aos nossos cálculos e, por consequência, não são mais de alçada da ciência propriamente dita. A ciência errou, pois, ao querer experimentar os Espíritos como uma pilha de Volta. Ela partiu de uma ideia fixa, preconcebida, à qual se aferra e quer forçosamente ligar à ideia nova. Fracassou, e assim devia ser, porque agiu a partir de uma analogia que não existe. Depois, sem ir mais longe, concluiu pela negativa: julgamento temerário, que o tempo diariamente se encarrega de reformar, como reformou tantos outros, e aqueles que o pronunciarem, serão por sua vez sentenciados pela vergonha de haverem levianamente assumido uma posição falsa contra o infinito poder do Criador. Assim, pois, as corporações científicas não devem, nem deverão jamais pronunciar-se sobre o assunto, pois ele não é mais de sua alçada do que o direito de decretar que Deus existe. É, pois, um erro tomá-las como juiz. Mas quem será o juiz? Arrogam-se os espíritas o direito de impor as próprias ideias? Não. O grande juiz, o juiz soberano é a opinião pública, e quando essa opinião se formar pelo assentimento das massas e dos homens esclarecidos, os cientistas oficiais a aceitarão como indivíduos e se submeterão à força das circunstâncias. Deixemos passar uma geração e com ela os preconceitos do amor próprio que se obstina, e veremos acontecer com o Espiritismo o mesmo que aconteceu com tantas outras verdades combatidas e que atualmente seria ridículo pôr em dúvida. Hoje os crentes são chamados de loucos, amanhã assim serão chamados aqueles que não creem, exatamente como outrora eram considerados loucos os que acreditavam que a Terra gira, o que não a impediu de girar. “Dizem que os seres invisíveis se comunicam. Por que não? Antes da invenção do microscópio suspeitávamos da existência desses milhares de animálculos que causavam tanta devastação em nossa economia? Onde a impossibilidade material da existência, no espaço, de seres que escapam aos nossos sentidos? Acaso teríamos a ridícula pretensão de saber tudo e dizer a Deus que ele não nos pode ensinar mais nada? Se esses invisíveis que nos cercam são inteligentes, por que não se comunicariam conosco? Se estão em relação com os homens, devem representar um papel no destino e nos acontecimentos. Quem sabe se não serão uma das potências da Natureza, uma dessas forças ocultas que não suspeitamos? Que novo horizonte isto abre ao pensamento! Que vasto campo de observação! A descoberta do mundo invisível seria muito diversa da descoberta dos infinitamente pequenos. Seria mais que uma descoberta: seria toda uma revolução nas ideias. 
Quantas coisas misteriosas seriam explicadas! Os que nisto acreditam são levados ao ridículo, mas o que isto prova? Não aconteceu o mesmo com todas as grandes descobertas? Cristóvão Colombo não foi repelido, coberto de desgostos e considerado um insensato? Essas ideias, disseram, são tão estranhas que a razão as recusa. Teríamos rido na cara de quem, há somente meio século, tivesse dito que em apenas alguns minutos nos corresponderíamos de um a outro extremo do mundo; que em algumas horas atravessaríamos a França; que com o vapor de um pouco de água fervente um navio navegaria contra o vento; que da água seriam tirados os meios de iluminar e de aquecer? Se um homem se tivesse proposto iluminar toda Paris em um minuto, com uma única fonte de uma substância invisível, teria sido enviado ao hospício. Seria acaso mais prodigioso que o espaço fosse povoado de seres pensantes que, depois de haverem vivido na Terra, deixaram o se envoltório material? Não encontramos no fato a explicação de uma porção de crenças que remontam à mais alta Antiguidade? Não é a confirmação da existência da alma, de sua individualidade depois da morte? Não é a prova da própria base da religião? Mas a religião só vagamente nos diz o que se tornam as almas. O Espiritismo o define. Que podem objetar os materialistas e os ateus? Vale a pena aprofundar semelhantes coisas”. 
 Eis as reflexões de um cientista, mas de um cientista despretensioso. São também as de uma porção de homens esclarecidos, que refletiram, estudaram seriamente, sem ideias preconcebidas e tiveram a modéstia de não dizer: Não compreendo, portanto não existe. Sua convicção formou-se pela observação e pelo recolhimento. 
Há céticos que negam até a evidência e aos quais nem milagres convenceriam. Há mesmo os que ficariam muito aborrecidos se fossem obrigados a crer, pois o seu amor-próprio sofreria ao confessar que se enganaram. Que responder a criaturas que por toda parte não enxergam senão ilusão e charlatanismo? Nada. É preciso deixá-las tranquilas e dizerem, enquanto quiserem, que nada viram e, até, que nada lhes pudemos fazer ver. Ao lado desses céticos endurecidos, há os que querem ver a seu modo. Formada uma opinião, a esta tudo querem submeter, não compreendendo que haja fenômenos que não se submetam à sua vontade. Ou não sabem, ou não se querem curvar às condições necessárias. 
Aos olhos do observador atento e assíduo multiplicaram-se os fenômenos, confirmando-se reciprocamente, mas aquele que pensa que basta virar a manivela para movimentar a máquina, engana-se redondamente. Que faz o naturalista que deseja estudar os costumes de um animal? Acaso lhe ordena que faça isto ou aquilo, a fim de ter a oportunidade de observá-lo à vontade e conforme as suas conveniências? Não. Ele sabe perfeitamente que não será obedecido. Mas espia as manifestações espontâneas de seu instinto; espera-as e as observa de passagem. 
 O simples bom-senso nos mostra que, com mais forte razão, assim deve ser com os Espíritos, que são inteligências muito mais independentes que a dos animais." 

O Percurso da Filosofia e da Ciência - Onde se encaixa o Espiritsmo 
Nestes dois textos Kardec recua com a proposição de que o espiritismo é uma ciência (feita em outro texto seu). Importante notar que na época de suas publicações (1858-1869), o termo cientista era uma definição bastante recente, pois só em 1834 foi adotada tal palavra para substituir a terminologia anterior: Filósofo naturalista, ou filósofo natural. 
Embora existiram filósofos naturalistas antes de Sócrates e Platão, podemos considerar que a filosofia natural tem suas bases nos estudos de Aristóteles (século 3 a.C.) que separou-se de alguns conceitos mais mentalistas/ espiritualistas de Platão e Sócrates. As teorias aristotélicas foram sendo suprimidas durante o Império Romano, juntamente com a filosofia socrática/ platônica, praticamente desaparecendo da Europa após a queda do Império Romano Ocidental e certamente tendo como um dos últimos divulgadores, o sacerdote Agostinho de Hipona. A partir daí ela sobrevive na pandidakterion do Império Romano ("bizantino") e chega ao Império Omíada / Califado Rashidum (Árabe) no século 7 d.C, ganhando força entre os séculos 11 e 12, quando os Europeus voltam a estudá-la efetivamente mais ou menos durante o período de fundação das primeiras universidades (católicas) européias. Depois disto, a filosofia natural só começa a se desvincular da religião após o fim dos concílios entre a igreja católica romana e a católica ortodoxa em meados do século 15 (entre 1431 e 1438). Em 1687, o físico inglês, Isaac Newton, começa a busca de uma nova concepção de filosofia natural, com as bases mais matemáticas e materialistas e em 1690, o filósofo inglês, John Locke, lança o método empírico que viria a se consolidar como uma posição filosófica específica. Apesar do trabalho destes estudiosos, outras linhas de estudo surgiram em paralelo, desde o dualismo de René Descartes, até o mentalismo de vários outros filósofos que, de modo geral, concorreram com as demais filosofias. Como, só em 1834 os ingleses cunharam um termo que fomentaria a separação da ciência e filosofia, entende-se que o processo de distinção desta área do saber em relação à filosofia foi gradual e se estendeu aproximadamente até as três primeiras décadas do século 20 com a teoria da falseabilidade. 
 Resumidamente, pode-se entender que a ciência é composta por uma ontologia (que determina os pressupostos filosóficos) materialista e por uma epistemologia, ou seja, método de investigação, que trabalha com a reprodutibilidade das experiências e com evidências (sensoriais), enquanto a filosofia trabalha com conjecturas, racionalização e reflexões para se alcançar um entendimento, ou seja, permite conceitos além da demonstração física, perceptível pelos 5 sentidos humanos. Assim, podemos entender a filosofia como um amplo campo de estudos, ou uma área do saber, que de certo modo pode fazer o caminho ou o meio termo entre o saber religioso (espiritual, transcendental etc) e o saber científico. 
Neste caso, o que talvez Kardec não tivesse certeza, é que o espiritismo é mais uma filosofia do que uma religião ou uma ciência - exatamente porque tentou construir uma ponte entre os dois saberes: Na conclusão do 1ª texto aqui mencionado, Kardec (a mensagem tem características típicas das psicografadas) alega que a ciência até então havia se desenvolvido sacrificando a moral, ou seja, sobrepondo a importância da empatia solidária, deixando a importância dos bons sentimentos nas sociedades humanas em segundo plano! Ainda confirma que o "coração" e o amor têm que seguir unidos à ciência e alerta que virá a tempestade, possivelmente se referindo a frieza propagada pelo niilismo e pelo materialismo que colaborou com teorias eugenistas como o darwinismo social, teorias racistas e paranoicas como o nazismo e teorias punitivistas e brutais como o fascismo. Tudo isto resultou em uma busca inconsequente por riquezas marcada pela corrupção dos maiores bancos e corporações da Europa e EUA, pela partilha e invasão da África (1885 a 1914) e é claro em duas guerras mundiais (1914 a 1918 e 1939 a 1945)! Esta é toda uma realidade notável do fim do iluminismo e da era moderna, perceptível na época de Kardec e nas próximas 7 décadas... E pode-se considerar que não acabou, pois o progresso, que faz parte da evolução da espécie humana e de suas pulsões de vida, é constantemente ameaçado por impulsos de destruição e morte. Estas forças por trás do inconsciente de fato movem o comportamento humano, mas para os cientistas em geral elas são biológicas ou no máximo mentais, enquanto para os espíritas e espiritualistas, elas frequentemente podem ser algo a mais - transcendentais, ou seja, espirituais. 
No 2º texto, ao indicar (voluntariamente ou não) que o espiritismo está entre o saber religioso e o saber científico, Kardec aponta o espiritismo como uma filosofia. Isto realmente se faz necessário, uma vez que pouco a pouco, na história da filosofia, ela foi sendo reduzida, ou "devorada" pela ciência que nascia como o saber soberano, com pretensões de invalidar não só a filosofia, mas primariamente a religião junto de toda a espiritualidade. Este processo de "defensores da ciência" atacarem os demais saberes chega a seu ápice na primeira metade do século 20, onde filósofos liberais (no sentido econômico), como Karl Popper, membro da sociedade de Mont Perelin, atacaram praticamente todos os saberes de bases mentalistas e espiritualistas - desde Freud, passando por Jung até toda religião e espiritualidade real, ou seja, atacou os espíritas de lambuja. Para quem não sabe, a sociedade de qual o famoso filósofo participava foi um dos primeiros grupos ativistas neoliberais do mundo, cujo objetivo era suprimir todos movimentos de esquerda moderados ou extremistas (ou seja, era um grupo de extrema direita sob uma máscara de defensor da liberdade e de racionalidade científica). Este ataque a todos esses saberes serviu para manter a ciência nas bases newtonianas e no método empírico, deixando em segundo plano (intencionalmente ou não) teorias como as da relatividade de Einstein. 
Não é difícil então ver que o cenário mundial até a virada dos anos 50 aos 60 do século 20 era de tensão pós guerra mundial - Um cenário de medo de novos conflitos e de ameaças entre o ocidente predominantemente liberal/ capitalista contra o oriente mais socialista. Um ocidente ainda marcado pelos vestígios do imperialismo britânico, pela cobrança de produtividade e de consumo feita pelas grandes indústrias e corporações e pela ascensão das "potências mundiais" (EUA e URSS) cada vez mais intervencionista nos demais países. Uma ascensão intrusiva e exploratória sob a máscara de negócios internacionais e globalização por parte dos EUA e uma ascensão mais político-militar da URSS. 
A primeira mudança nos saberes deste período iniciou-se com a teoria geral dos sistemas, uma teoria científica surgida na área da biologia (mas que se expandiu para outras ciências) que considera a existência através de relações... O que por coincidência ou não, se aproxima da teoria da relatividade, de que a existência ocorre por... relações, como diz a própria etimologia da palavra. Estas teorias afastam-se da base materialista da ciência (ao cogitarem trabalhar com campos e ondas a níveis sub atômicos por exemplo), assim como também se distanciam do método empírico por serem menos práticas.
Enfim, este período pós guerras mundiais e de começo da guerra fria, fez eclodir os movimentos sociais dos anos 60 em variados países, que apesar de suas pautas bastante humanas (paz, amor, igualdade etc) ainda tem muito o que fazer, pois gerou poucos bons resultados, ou seja ainda não alcançou totalmente seus objetivos. 
Concluindo, como filosofia, parece que o espiritismo deve sofrer poucas mudanças devido a evolução da ciência. Talvez as mudanças principais devam ocorrer devido a alguns ajustes, ao revisar posturas antiquadas da época de sua fundação na segunda metade do século 19. Afinal se o espiritismo é uma filosofia complementar ao cristianismo e a ciência, buscando a união do amor com a ciência, ela jamais deve esquecer-se da importância de propagar o amor ao próximo, que significa o amor à toda humanidade e à toda criação. Jamais deve permitir que ocorram movimentos insensíveis ou cruéis sob a máscara de busca por justiça, progresso frio e/ ou apenas tecnológico ou qualquer outra mentira. O egoísmo penetra todas as áreas do saber: como materialismo na ciência, indiferença na filosofia, obscurantismo e ódio na religião e por isto a humildade é base para que se ocorra progresso verdadeiro nos 3 saberes. Esta humildade deve cessar rixas e permitir que o bem, seja na forma de um acolhimento crescente e/ ou na forma do amor, como citado no texto espírita, caminhe junto com a ciência. 

Fontes: 
O Evangelho segundo o espiritismo;
Revista Espírita de Estudos Psicológicos - junho de 1859; 
Encyclopedia Britannica, Higher Education in the Byzantine Empire, 2008, O.Ed.
História geral, moderna e contemporânea - Borges Hermida;

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...