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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O que a Bíblia tem de coerente com Jesus

 Depois de anos vendo supostos cristãos contradizendo frequentemente os ensinamentos de Jesus, decidi escrever este texto.

Há cerca de 30 anos eu estava consideravelmente imerso em uma religião cristã: a católica apostólica romana. Isto porque minha mãe recebeu educação católica de minha avó e criou eu e meus irmãos nesta religião, algo que vinha no mínimo de minha bisavó. Todas elas apresentavam diferenças entre si no que diz respeito a viver os ensinamentos de Jesus e falar sobre tal tema: O que ouvi dizer sobre minha bisavó é que ela era conservadora católica fervorosa. Minha avó que pouco conheci, foi descrita por minha mãe, como mais caridosa e tolerante do que minha bisavó. Por fim, mamãe frequentou a igreja por muitos anos e ocasionalmente falava de coisas relacionadas aos ensinamentos de Jesus. 

Durante a infância então, por volta do período do catequismo (uns 11 anos de idade), eu lia bastante a bíblia - principalmente os 4 evangelhos que contavam "a vida" e os ensinamentos de Jesus. Eram os textos que mais faziam sentido para mim, embora eu me ocupasse com as coisas de criança, como brincar etc... Lembro-me de ficar entediado com as missas após um ano frequentando-as fielmente, pois percebi que o conteúdo se tornava repetitivo e às vezes eu achava que os padres focavam muito em assuntos dos quais eu duvidava se realmente eram abordados pelos ensinamentos de Jesus.

No fim de minha adolescência entendi que a igreja católica, como qualquer outra igreja, tem uma história constituída por muitos religiosos de atitudes bem distantes das de Jesus. Estudar a história de Jan Hus e das revoltas hussitas, me deixou claro que a igreja é só uma instituição formada por homens falhos - ela não garante nada de bom/ nada do amor ensinado por Jesus. Jan Hus foi perseguido e morto pelos poderosos europeus do séc 15 porque difundiu os ensinamentos de Jesus, que eram centrados na humildade, no amor solidário e na esperança, questionando a igreja e os poderosos. Embora o protestantismo tenha surgido com a proposta de reformar a igreja/ o cristianismo durante o séc 16, ainda no mesmo século os protestantes tomaram posições de poder na Europa e passaram a perseguir outros religiosos, como por exemplo, na Inglaterra. As igrejas, sejam as católicas ou as protestantes, hoje chamadas de evangélicas, de neopentecostais ou simplesmente de "cristãs", são em sua maioria instituições de poder. 

Voltei a ler a bíblia pelo velho testamento somente anos após terminar o ensino médio. Comparei tais textos com a história e vi as diferenças entre religião e ciência. Estas diferenças não são um antagonismo, mas mostram algumas incoerências, lacunas e coerências entre os dois saberes. Depois comparei as religiões umas com as outras: principalmente as antigas como a "mitologia" grega e a "mesopotâmica" com o velho testamento - ou seja, comparei o judaísmo com aquelas religiões do passado. Esta comparação me fez entender que o judaísmo, ou "velho testamento", era algo mais coerente do que as histórias absurdas das religiões politeístas da antiguidade (classificadas como mitologias posteriormente). Todas histórias, sejam do judaísmo, do politeísmo grego ou do mesopotâmico, tinham coisas estranhas, é claro, mas aqui vale começar as observações:

A religião politeísta grega que li, me pareceu a mais acessível das mitologias ou sistemas religiosos antigos: ela é supostamente baseada nas poesias helênicas de Homero e Hesíodo. É composta de um corpo de textos mais ou menos coerente no que se diz respeito às genealogias de entidades (deuses), mas obviamente cheias de exageros, de contos de excessos, descontrole e até de machismo (que era normal na época entre os séculos 8 e 6 antes de Cristo). Os contos absurdos do antigo politeísmo grego e suas poesias não diferiam muito das bizarrices da "mitologia" nórdica. Autores helênicos renomados em um período posterior ao dos antigos poetas (a Grécia clássica, no século 4 a.C.) viriam a criticar estes mitos/ poesias de diferentes maneiras. Enquanto os filósofos naturalistas (pré socráticos) fizeram críticas buscando explicar fenômenos naturais, Sócrates e Platão fizeram críticas buscando uma construção do conhecimento (epistemologia) ética, ou seja, focada na bondade (kalos), na justiça, na temperança (sophrosyne) e na coragem (andreas). Como tanto os "pré socráticos" como os socráticos buscavam a(s) verdade(s), estas críticas não eram meramente destrutivas, mas não detalharei elas neste texto.

Por um outro lado, não encontrei nada aparentemente útil, justo ou bom na "mitologia" mesopotâmica: Os deuses mesopotâmicos como Anu, Enlil, Enki (entre outros) participavam de histórias de conspirações, traições e outras coisas similares aos mitos gregos. Mesmo o "herói" Gilgamesh tem notórios traços de uma pessoa ambiciosa e pouco ética; seu parceiro Enkidu parecia mais humilde ou justo, mas não é o protagonista da história/ mito.

Claro que estas religiões estavam ligadas a determinadas culturas e civilizações e a comparação que eu fiz entre elas foi mais como fenômeno filosófico (ético) e de espiritualidade (ou religiosidade) do que social/ regional. Vendo tudo isto, ficou nítido que o judaísmo, ou "velho testamento" contém histórias que buscam mais uma ética em relação aos mitos gregos e mesopotâmicos. Porém nenhum dos textos e seus respectivos ensinamentos é perfeito, certamente porque foram escritos por humanos e tinham as limitações de seu tempo - são obras de 6 a 15 séculos antes de Cristo. 

As mudanças de ideais sobre o que é certo e errado, o que é bom e mau, não são meramente individuais: elas servem também à vida coletiva dos seres humanos e mesmo nos textos religiosos isso é perceptível. Tais mudanças muitas vezes ocorrem gradualmente e tocam questões éticas frequentemente. Um grande marco típico no desenvolvimento da ética do ser humano e em seus resultados perceptíveis na sociedade (através das leis, costumes, ritos, cultura etc) é quando diferenças oriundas de grande concentração de poder são reduzidas, seja esse poder econômico, político e/ ou religioso. Esse desenvolvimento é particular em algum nível porque é do ser humano como indivíduo com seus respectivos interesses, intenções e interpretações, mas também é social e coletivo pois perpassa o convívio entre seres humanos, suas trocas, suas leis, suas crenças/ sentido de vida etc. Obviamente o desenvolvimento ético não é meramente linear - ele ocorre também de modo oscilante com altos e baixos, seja por causa de revoluções nas sociedades ou por causa de colapsos de civilizações, de economias, de religiões etc. Quando tratamos o aspecto religioso do ser humano e de suas sociedades é inevitável abordamos as crenças, o sentido de vida e as experiências transcendentais ou místicas. Muitos dos aspectos "milagrosos" das religiões e da espiritualidade tocam estes últimos temas, mas os ensinamentos religiosos ou espirituais também envolvem questões para além do indivíduo, como as questões sociais. Isto é notório desde o velho testamento: Moisés traz não só as leis de Deus, mas tantas outras leis para a sociedade hebraica de séculos antes de Cristo. Isaías e outros profetas tocam questões inevitavelmente sociais/ coletivas como a equidade... E assim também faz Jesus. 

O velho testamento porém trata de várias questões particulares de séculos antes de Cristo: é absurdo descolar estes textos da época em que foram escritos e da sociedade que eles tratavam. Os textos do velho testamento são obras judaicas (daquele povo da região do Levante/ costa oeste da Ásia/ às margens do Mar Mediterrâneo), das quais as mais antigas que sobreviveram ao passar do tempo datam por volta do século 7 a.C. Certamente a religião judaica e o conteúdo do velho testamento são mais antigos do que isso, pelo simples fato do ser humano ser capaz de transmitir tradições e conhecimentos de maneira oral, através do diálogo e do contar histórias para seus sucessores. Então o que é atemporal (imutável, que não perde valor com o tempo ou com particularidades culturais e individuais) nos textos do velho testamento? Uma explicação racional sobre a imutabilidade (e assim, da atemporalidade também) é dada por Platão, filósofo da Grécia clássica que questionou os contos religiosos de sua época e do passado. Platão, que dialogou com a obra de outros filósofos (pitagóricos, Parmênides, Anaxágoras etc), afirma que as excelências (ou virtudes) como a justiça, a bondade/ a beleza (kalos), a temperança e a coragem são ideias (eidos) imutáveis. Isto porque além delas não serem deterioráveis (são psíquicas, alcançáveis pelo ser humano em sua atividade cognoscente), elas são universais: servem ao coletivo de seres humanos, como por exemplo, às cidades, aos estados (às pólis) etc. 

O que serve ao coletivo de seres humanos através do tempo é a equidade, a justiça, a solidariedade... tópicos que também aparecem em alguns pontos do velho testamento. Porém, no velho testamento há ensinamentos voltados para os povos da antiguidade (sejam chamados de hebraicos, judeus etc) vivendo entre as eras do bronze e do ferro, cercado por impérios que constantemente entravam em guerra com várias civilizações de seus arredores. A violência fazia parte do cotidiano, principalmente através de guerras com motivos mesquinhos; a imposição de ideias, de culturas e leis certamente também eram comuns. Apesar de apresentar algumas ideias éticas como repudiar o assassinato, defender a equidade, entre outras, grande parte dos escritos do velho testamento são voltados a diferentes períodos da antiguidade e por isso podem apresentar contradições, sendo pouco úteis para a atual civilização do século 21, pois a sociedade, seus costumes, leis e outras características mudaram.

Jesus por um outro lado centraliza os seus ensinamentos não em tradições sociais, mas em valores universais. De modo similar à ênfase de Platão, Jesus ensina o que é bom para todo o ser humano, desde a um nível individual até o nível onde é possível ver os frutos: o nível social/ coletivo. Jesus ainda dá a ênfase no sentimento, particularmente do Amor, como nenhum outro indivíduo parece ter feito antes. Isto faz dele mais acessível às massas que Platão, pois o filósofo ensina o caminho da construção de conhecimento ético via diálogo: Essa construção de conhecimento do fundador da filosofia ocidental é um método mais racional que visa o bem coletivo/ social, mas dialoga com os mitos e as experiências místicas, enquanto Jesus parece dar a ênfase no viver um amor esperançoso, humilde e universal. A evolução que ocorria lentamente nas religiões da antiguidade ganha um impulso mais repentino com Sócrates e Platão na Grécia e com Jesus na província romana da Judéia. Jesus, de origem humilde, pregou seus ensinamentos entre o povo possivelmente oprimido do oriente do Império Romano: um povo enganado por sacerdotes judeus gananciosos (fariseus, escribas, saduceus etc) e desprezado e dominado pelo poder romano, seja pela classe militar, política ou econômica. Seus ensinamentos sobre viver um amor universal geralmente não exigem explicações longas ou aprofundadas e talvez por isso fosse fácil de se propagar entre as massas, ou seja, a maioria das pessoas que eram pobres, de origem humilde ou de vida simples. 

Mas e o restante da bíblia? Jesus marca o início do que os cristãos chamam de "novo testamento" da bíblia. Os demais textos do novo testamento então foram feitos por sucessores de Jesus, sejam eles os apóstolos Pedro, Mateus, João, Paulo e/ ou quaisquer outros. Estes textos tratam dos ensinamentos de Jesus, mas certamente voltam a tratar de questões de época: desta vez do século 1, período em que os apóstolos viveram. Ignorar o período em que foram escritos é mais um absurdo, seja por parte de cristãos, ou por parte de outros indivíduos, sejam ateus ou outros religiosos e espiritualistas. É absurdo para os religiosos cristãos porque é colocar Paulo e os demais apóstolos no mesmo nível de Jesus (que é Deus para católicos e evangélicos) e é absurdo para outros indivíduos porque é ignorar que Jesus enfatizou ensinamentos éticos, enquanto apóstolos posteriores como Paulo, já buscavam meios de conciliar os ensinamentos de Jesus com a sociedade do século 1. Um exemplo importante é a afirmação de Paulo sobre os efeminados: para o apóstolo, estes indivíduos não terão o reino dos céus. Mas quem eram os efeminados da época e do local em que Paulo viveu? Certamente ler só as cartas de Paulo para entender isso é correr um risco de cometer um erro grosseiro. Até onde me lembro, ao estudar a história do Império Romano (onde Paulo viveu), efeminados eram uma classe de prostitutos! Sim, homens que se prostituíam e não meros homossexuais ou bissexuais como entendemos hoje, 21 séculos depois da morte de Paulo!! Infelizmente vemos pastores evangélicos pregando contra homossexuais (e os demais LGBTQIA+) neste início de séc 21, usando textos de Paulo e do velho testamento. Além disto, Jesus diz aos sacerdotes/ religiosos de seu tempo, que até mesmo os cobradores de impostos e as prostitutas estão a frente deles no reino dos céus. Isso porque as prostitutas acreditaram nos ensinamentos de João Batista (que batizou Jesus), enquanto os fariseus e outros sacerdotes negavam os ensinamentos de Jesus e seu amigo, para manterem uma posição de privilégio na sociedade. 

Jesus viveu ensinando maior parte do tempo nas ruas, sem um lar, criticando os ricos, mas sem defender a pobreza em si. Era uma vida de óbvio desapego aos bens materiais e firme convicção no amor universal de solidariedade constante. Jesus entrou poucas vezes em templos religiosos (as sinagogas da Judéia romana): Quando adulto, entrou no templo dos nazarenos, mas acabou escorraçado por estes e noutra vez elogiou a pobre mulher que, em sua fé, deixou todo seu dinheiro no cofre de doações; Em mais uma visita, seus discípulos se admiram com o esplendor do templo religioso, enquanto Jesus apenas explica que o templo será destruído pela ação do tempo e dos conflitos de interesses mundanos. Possivelmente a mais emblemática entrada de Jesus em um templo religioso, é quando ele expulsa os mercadores da fé que se aproveitavam da religião e da crença das pessoas para obter dinheiro e lucro. Em mais de uma passagem, Jesus diz que as pessoas estão com o "coração endurecido", devido ao fato de não quererem ver nem viver o amor solidário e universal que ensinava. Jesus viveu uma vida simples de amor. 

Por fim, o texto do Apocalipse, também do novo testamento é cheio de expressões figuradas e simbolismos. Isto por si só já o diferencia dos ensinamentos de Jesus, pois apesar de usar eventuais parábolas, Jesus é claro nos ensinamentos de solidariedade, amor, humildade e esperança. O Apocalipse é uma série de visões místicas ou transcendentais de modo similar às visões do profeta Ezequiel, mostradas no "velho testamento". A numerologia é presente de maneira nítida: 7 trombetas, dragão de 7 cabeças, 4 cavaleiros, 4 bestas etc... Nada disso deve sobrepor a ênfase dos ensinamentos de Jesus, que diz "nem meu Pai julga"! E infelizmente o que vemos entre evangélicos são pastores (e seguidores) pregando sobre o inferno, sobre satanás, quem será condenado etc. A visão simbólica e marcante que João teve é particular e para não sobrepor os ensinos de Jesus, ela deve servir para o mesmo se aprimorar espiritualmente. Este aprimoramento espiritual com simbolismos numerológicos existe em outras culturas pelo mundo, como na hindu por exemplo, onde há os 7 chacras e serviria para João se aproximar de Jesus espiritualmente. A serpente bem como o dragão é presente em inúmeros textos e simbolismos religiosos através do tempo pelo mundo: Hércules derrotando a Hidra no mito grego, Thor enfrentando Jorgurmandr no mito nórdico, fora os mitos hititas, eslávicos, japoneses (etc) que também apresentam algum deus ou herói vencendo um tipo de serpente ou dragão. Esta simbologia da vitória sobre a serpente ou sobre um réptil similar à serpente certamente significa a vitória contra o que envenena nossa mente, nossa alma - E para dialogar com a ética, seja ensinada por Jesus, por Platão ou por qualquer outro, a vitória sobre a serpente deve ser a superação do indivíduo sobre o egoísmo, e tudo que se opõe à solidariedade, à moderação, à justiça etc. Quando o anjo explica sobre reis e povos relacionados a prostituta e à fera escarlate de 7 cabeças e 10 chifres, ele deixa claro que o nome "Babilônia" é meramente simbólico - pouco importa uma localização na Terra. O anjo ainda diz que o cordeiro vencerá (Jesus e seu ensinamento) e que "a besta era" e "já não é mais". Sendo assim, pouco importa reis, prostitutas e dragões - a mensagem para João é de afastamento do egoísmo e superação do descontrole/ dos exageros em prol da solidariedade, da humildade e da esperança, enfim em prol dos ensinamentos de Jesus. Certamente por tratar um caminho que perpassa os sentimentos e a subjetividade humana, o Apocalipse é altamente mítico e místico com pouca racionalidade - estas perspectivas de consciência devem se pautar sempre pela ética e o amor de Jesus é ético porque é universal: é para todos os seres humanos, pois todos são filhos de Deus.

Após a primeira geração de apóstolos, gradativamente surgiram os textos sobre os ensinamentos de Jesus e sobre os cristãos do final da antiguidade. 2 séculos depois da morte de Jesus, seus seguidores, os cristãos, ainda eram perseguidos. Registros históricos eram escassos: cartas entre Plínio e o imperador Trajano só confirmaram a existência dos cristãos, sem menções diretas à Jesus. Nas catacumbas romanas por um outro lado, são deixados registros importantes: imagens de Jesus, de Maria e também de personagens das religiões greco-romanas: um possível sincretismo, já que os cristãos conviviam em uma sociedade que já tinha séculos de tradição religiosa politeísta, de filosofia etc. O cristianismo não era uma ideologia isolada e invulnerável à interpretações: várias vertentes (arianos, valentinianos etc) surgiram após a primeira geração de apóstolos e antes da primeira "grande reunião" de cristãos que viria a acontecer.

No início do século 4, Constantino é o primeiro imperador a se interessar pelo cristianismo e o conturbado Império Romano já havia se fragmentado algumas vezes com constantes disputas pelo poder. Constantino convocou o primeiro concílio de bispos que definiu o nome "católico" para os cristãos, além de propagar a idéia de Jesus sendo co-substancial com Deus (ou qualquer coisa assim, que não detalharei neste texto). As perseguições aos cristãos foram proibidas, o que deveria ser bom, mas poucas décadas depois ocorreu a primeira perseguição de cristãos sobre outros religiosos. No ano de 380, o imperador Teodósio declara o cristianismo (católico) como a religião de estado e aí temos um óbvio problema se formando... Outros "concílios" passam a acontecer nos séculos seguintes e várias vertentes do cristianismo são suprimidas, chegando a ocorrer incineração de obras... Séculos depois as religiões católicas e até mesmo as protestantes/ evangélicas mantiveram vários dogmas criados nestes concílios e por "pais da igreja" que viveram várias gerações depois de Jesus. Apesar disto ainda é possível ler os 4 evangelhos que tratam dos ensinamentos de Jesus e descartar todos os dogmas religiosos. É possível viver, ou ao menos se esforçar em viver mais e mais próximo de Jesus, assim como é possível ler e dialogar sobre a construção de conhecimento ética de Platão. Tudo começa na mente humana ao ler, ao entender, ao dialogar e ao expressar... e então gera frutos no meio, na sociedade, em proporções maiores ou menores.

Não deveria ser difícil entender e por em prática os ensinamentos de Jesus; Não deveria ser difícil ser ético em mentalidade e em ações, nem em fé ou esperança... Se pautar pelo mal ou pelo defeito de outros é fácil, mas é nocivo, seja a curto prazo ou a longo prazo, porque o que faz bem, faz bem à todos: são os ensinamentos de Jesus que diferem não de tudo, mas de muita coisa do velho testamento. Os evangelhos (as "boas novas", termo que vem de eu-angelos, ou seja, boa mensagem) de Marcos, Mateus, João e Lucas, são suficientes para entender os ensinamentos de Jesus. Independente da origem do título Cristo (que pode significar tanto bom, como ungido) por qual Jesus passou a ser conhecido, os cristãos se nomeiam a partir deste título de Jesus. Eles deveriam ler estas boas mensagens de Jesus - elas são o suficiente para entender seus ensinamentos e a lei divina, que é de solidariedade, humildade e esperança - é de um amor universal. Se a mensagem de Jesus não parecer suficientemente compreensível, dificilmente o "velho testamento" será tão ou mais compreensível quanto... Se os 4 evangelhos que contam os ensinamentos de Jesus não explicassem como pensar e praticar o amor divino, porque as cartas de Paulo explicariam?

 

domingo, 18 de maio de 2025

Últimas mensagens de Esperança de Jesus

Obra do Paráclito (João) 
E agora vou para aquele que me enviou; e nenhum de vós me pergunta: Para onde vais? 
Antes, porque isto vos tenho dito, o vosso coração se encheu de tristeza. 
Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei. E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo. 
Do pecado, porque não crêem em mim; 
Da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; 
E do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado. 
Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. 
Porém, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir. 
Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar. 
Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar.
 
 Jesus diz que após deixar a Terra, enviará um consolador que não falará de si mesmo, mas das coisas que ouviu (certamente, das coisas que sabe) e das coisas que virão. Nada mais é detalhado, mesmo porque Jesus diz que seus apóstolos (e possivelmente todas pessoas de seu tempo) não poderiam suportar. Também não é esclarecido porque eles não podiam suportar: se são assuntos complexas de se entender, se são mensagens que podem causar forte reações emocionais... enfim, a questão fica em aberto. O que Jesus explica, é que o espírito que ele enviará é um consolador e é um espírito verdadeiro, ou da verdade.
O espírito da verdade que dá testemunho de Jesus, de acordo com o espiritismo, surge e profere algumas palavras aos médiuns durante o século XIX (19). Vale notar que médiuns não são determinados indivíduos de uma religião ou outra: todo ser humano é médium, pois vive nesta realidade "material" / tridimensional e na espiritual e seja sabendo disto ou não, faz o "meio" entre o mundo corporal e o espiritual. É bom citar isto porque desde o surgimento do espiritismo na França, o termo veio sendo empregado mais aos indivíduos que percebem fenômenos espirituais, sejam relacionados ao espiritismo, à umbanda ou a algumas outras espiritualidades/ religiões. Na época do surgimento do espiritismo também ocorrem muitos fenômenos entendidos como espirituais na França, EUA e Índia (embora este último país já tivesse um longo histórico de santos e milagres), além de surgirem muitos movimentos religiosos em variadas partes do mundo. Uma época onde o materialismo e o niilismo crescia notoriamente, primeiro entre as classes intelectuais enriquecidas absortas em orgulho e depois, com a propagação do uso da eletricidade e dos motores movidos à combustível fóssil, seria passada para as massas (no início do século 20, o materialismo é propagado entre as demais classes sociais, ou seja, a vasta população economicamente inferior às elites). Para se ter noção, neste período entre a segunda metade do século 19 e a primeira do século 20, a partir desses argumentos biologistas e niilistas, foram espalhadas ideias racistas e desumanas como a cranoscopia, a drapetomania e o Darwinismo social...  Esse niilismo junto às "crises" sócio econômicas fomentaram as duas guerras mundiais. 
Ainda que muitos neguem a Jesus, sejam céticos ou supersticiosos, o Paráclito, como diz seu próprio nome, vem trazer consolo e auxílio para toda humanidade - apenas aqueles que negam à Jesus (e a Deus) é que se condenam à decadência e infelicidade além da vida terrestre. O paráclito não fala de si mesmo porque isto poderia formar um novo culto ou religião. Ele fala de tudo o que ouviu, guiando a todos na verdade. 
 Interessante notar que o pecado de não crer em Jesus, é o mesmo de não crer em seus ensinamentos - a lei divina de amor ao próximo. A justiça mencionada significa que os que seguem o ensinamento de Jesus alcançam a vida eterna nas moradas de Cristo, ou seja, próximas à Deus, pois sendo Jesus, o filho de Deus e o humano mais benigno e puro que viveu na Terra, é justo que ele tenha se juntado ao Pai. Por fim, o juízo que parece se referir a um único príncipe da Terra, possivelmente se refere aos gananciosos que espalham a iniquidade na Terra e que negam à Deus, condenando-se a si mesmos às trevas. Estes odeiam a ideia de Deus todo poderoso em sua humildade e justiça, odeiam a ideia de abandonarem os excessos de bens terrenos (carros, vastos imóveis e terras, luxo, enfim, tudo o que se compra com dinheiro, inclusive, mais dinheiro) e de não terem mais os ardentes prazeres materiais (banquetes, farras, orgias etc). Estes opositores de Jesus e de Deus, que propagam a iniquidade e o egoísmo, em geral pensam que se não podem ter mais do que os outros, ninguém pode ter coisa alguma. 

 Tristeza da Separação, Alegria do Reencontro (João) 
 Um pouco, e não me vereis; e outra vez um pouco, e ver-me-eis; porquanto vou para o Pai. 
Então alguns dos seus discípulos disseram uns aos outros: Que é isto que nos diz? Um pouco, e não me vereis; e outra vez um pouco, e ver-me-eis; e: Porquanto vou para o Pai? 
Diziam, pois: Que quer dizer isto: Um pouco? Não sabemos o que diz. 
Conheceu, pois, Jesus que o queriam interrogar, e disse-lhes: Indagais entre vós acerca disto que disse: Um pouco, e não me vereis, e outra vez um pouco, e ver-me-eis? 
Na verdade, na verdade vos digo que vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. 
A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora; mas, depois de ter dado à luz a criança, já não se lembra da aflição, pelo prazer de haver nascido um homem no mundo. 
Assim também vós agora, na verdade, tendes tristeza; mas outra vez vos verei, e o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará. E naquele dia nada me perguntareis. 

 Jesus fala sobre a imortalidade da alma: Seus apóstolos estão tristes pois Jesus disse que irá embora, mas ele voltará para junto de Deus e diz que os apóstolos poderão o encontrar um pouco depois (quando desencarnassem, após seguirem os ensinamentos de Jesus)… 

Oração em Nome de Jesus /  Fé dos Discípulos, Jesus vencedor do mundo (João) 
 Na verdade, na verdade vos digo que tudo quanto pedirdes a meu Pai, em meu nome, ele vo-lo há de dar. 
Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis, para que a vossa alegria se cumpra. 
Disse-vos isto por parábolas; chega, porém, a hora em que não vos falarei mais por parábolas, mas abertamente vos falarei acerca do Pai. 
Naquele dia pedireis em meu nome, e não vos digo que eu rogarei por vós ao Pai; Pois o mesmo Pai vos ama, visto como vós me amastes, e crestes que saí de Deus. 
Saí do Pai, e vim ao mundo; outra vez deixo o mundo, e vou para o Pai. 

Disseram-lhe os seus discípulos: Eis que agora falas abertamente, e não dizes parábola alguma. Agora conhecemos que sabes tudo, e não precisas de que alguém te interrogue. Por isso cremos que saíste de Deus. 
Respondeu-lhes Jesus: Credes agora? Eis que chega a hora, e já se aproxima, em que vós sereis dispersos cada um para sua parte, e me deixareis só; mas não estou só, porque o Pai está comigo. 
Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.
 
 Jesus indica que quando se pede a Deus, crendo Nele, em seus ensinamentos, e portanto, em seu filho, o fiel será atendido… Isto certamente também tem relação com os milagres alcançados por pessoas espiritualizadas desde a época de Jesus até os dias de hoje. Existem inúmeros relatos ao longo da história, sejam de pessoas santificadas pela igreja, de sris do sanatana dharma (hinduísmo) ou mesmo de médiuns como chamam o espiritismo e algumas religiões afrodescendentes. Crer em Deus inclui viver conforme sua lei de amor tão explicada por Jesus - é mais do que um mero estado mental; é um sentido de vida que inclui os bons sentimentos e os valores universais centrados no amor.
 De modo geral seguir (todos) os ensinamentos de Jesus é difícil. Jesus já sabia que seus apóstolos iriam se dispersar quando ele fosse capturado pelos inimigos, mas continuando os ensinamentos anteriores, ele então pede para que seus discípulos tivessem ânimo, ou seja, coragem. Para se ter a paz em Jesus, é preciso crer, isso dá a esperança de encontrar o reinos dos céus; De encontrar Jesus no futuro…

 

sábado, 7 de setembro de 2024

Qual é a idade da religião monoteísta? A História é só escrita?

Sistemas Religiosos e Mitologias

As mitologias de que ouvimos falar, como a grega, a nórdica, a celta, a indiana, a japonesa, a egípcia, a asteca entre outras, são sistemas religiosos. De certo modo referem-se não meramente aos contos sobre a origem da civilização ou do universo, mas também referem-se às crenças, ritos e oferendas aos deuses (enfim religiões) de suas respectivas culturas. 

A maioria delas têm contos incríveis, exagerados, ou até mesmo bizarros, sejam sobre deuses, seres fantásticos, ou fenômenos cosmogônicos e isto deve ter sido assim por variados motivos. Porém entende-se que (ao menos alguns d)os contos mais estranhos desses sistemas tratam de assuntos complexos para os povos da antiguidade. 

Entre tantos sistemas religiosos politeístas da antiguidade, ou que no mínimo cultuavam variadas entidades, existiu ao menos um diferente: O judaísmo, pois entende-se que esta religião tenha sido monoteísta por muitos séculos - Deus é um; o que existe entre a raça humana e Deus, é uma hierarquia de anjos, mas estes não são "deuses". Apesar de haver uma possibilidade do judaísmo ter uma origem e/ ou influência de uma religião politeísta em um passado distante (como a religião dos cananeus, por ex.), se levarmos em consideração a tradição religiosa judaica, tal religião é monoteísta ou monólatra há pelo menos 1 milênio "antes de Cristo". Talvez possamos contar também com o masdeísmo (zoroastrismo), mas há quem diga que esta se tratava de uma religião dualista. No sanatana dharma (hinduísmo), a Kriya Yoga, explica que Brahman é O Deus (onipresente como de um monoteísmo etc) e que Brahma é só o seu aspecto criador, ao lado de Vishnu, o preservador e Shiva, o destruidor (renovador). Porém muitas outra vertentes do hinduísmo parecem ser politeístas, então foquemos no judaísmo: Esta religião monoteísta poderia mesmo tão antiga quanto as religiões politeístas mencionadas? 

Os Primórdios 

A história não esclarece todo o percurso das religiões, ao menos não se considerarmos como história somente a escrita que começou por volta de 3500 aC. 

Teríamos que recorrer à história pré-escrita, ou, para quem não gosta deste termo, teríamos que recorrer à história da arte e à arqueologia. Mesmo porque o mais antigo escrito encontrado do judaísmo parece pertencer ao século 6 a.C e isso é muito mais recente do que várias outras religiões. Porém sabe-se que os povos que praticavam a religião abraâmica e monoteísta já existiam muito antes do século 6 a.C. e preservavam suas tradições e ensinamentos religiosos de maneira oral, como tantas outras culturas espalhadas pelo globo terrestre.

Uma interpretação aceita na academia/ na ciência da história das religiões parece considerar que o judaísmo surgiu entre os séculos 15 a.C. e 20 a.C. Porém não há resposta definitiva se o judaísmo é mais novo ou mais antigo do que as religiões egípcia ou sumérias, pois não existem provas empíricas definitivas sobre assuntos tão antigos. Se tratando da arqueologia como complemento para o entendimento da história, torna-se muito difícil obter provas claras e incorruptíveis - Por exemplo, vide o caso da pirâmide de Khufu, que há quem conteste as supostas provas que liguem esta construção a tal faraó. Isso ocorre porque a história das religiões da antiguidade tem uma quantidade de registros precisos bem menor do que os períodos mais recentes e muito da tradição sobreviveu através da oralidade (contos etc) passada de geração para geração. 

O mesmo ocorre com o xintoísmo e com o taoismo. Os registros (da história escrita) são muito recentes quando comparados às suas datas de fundação tradicional: Pela tradição oral, entende-se que o xintoísmo é milhares de anos mais antigo do que a primeira escrita e que o taoísmo foi fundado séculos antes da 1ª dinastia chinesa (seja a Xia, ou a Shang). 

Sendo assim, nos sobra avaliar os próprios escritos religiosos de cada cultura e o que há de plausível no que se refere às datas das histórias das religiões, dos seus personagens etc. Embora seguindo uma descrição tradicional da cronologia do judaísmo, tal religião tenha sido fundada por Abraão, através da leitura dos próprios textos religiosos, entende-se que os personagens mais antigos da cronologia já "temiam" a Deus. Este temor não era o ato de lembrar de Deus só quando os personagens se deparavam com uma situação difícil, desesperadora ou urgente, certamente tais personagens muito mais antigos que Abraão tinham uma religiosidade/ espiritualidade. Desta forma, o (pré) judaísmo teria sido “fundado” pelo mais antigo personagem de seu livro sagrado: Adam (traduzido como Adão para a língua portuguesa). Por exemplo, de acordo com o livro “A Caverna dos Tesouros” do cristianismo sírio, apesar de ter cometido um grave pecado, sendo banido do Éden, Adão teria sido o primeiro sacerdote (de Deus, do monoteísmo, da religião “abraâmica”) na Terra. Este personagem e sua esposa, Eva, teriam vivido e/ ou chegado/ ou encarnado (n)à Terra por volta de 4000 aC. O livro foi escrito entre os séculos 3 e 6 (não há um consenso absoluto), porém trata de histórias de personagens muito mais antigos do que qualquer escrito do judaísmo/ do “velho testamento”, ou seja, trata de uma possível tradição oral. Tal tradição oral, por sua vez, indicaria que o surgimento do judaísmo (talvez mais precisamente uma religião monoteísta pré-judaica) ocorreu 500 anos antes dos primeiros sistemas de escrita na Terra. 

Na verdade é uma discussão pouco produtiva tentar descobrir qual religião é mais antiga: Possivelmente tal busca, muitas vezes seria meramente movida à base de orgulho, de fascinação e/ ou de rivalidade entre grupos de pessoas. Cada pessoa ou grupo de pessoas defenderia sua religião favorita, ou atacaria uma ou mais religiões das quais não gostasse por qualquer motivo. Porém as histórias destes personagem supostamente antiquíssimos tem finalidades mais importantes do que determinar a idade de uma religião ou de um povo: Elas tratam de questões éticas, fazendo crítica à inveja e à violência (história de Caim e Abel), à idolatria de familiares (Enos) à luxúria e à vaidade/ orgulho/ narcisismo (durante o período dos filhos de Lamech) etc. Claro que muito dos ensinamentos religiosos da antiguidade podem parecer nada éticos neste início de século 21, mas os possíveis anacronismos e mudanças éticas no decorrer da história não serão abordados neste texto.

O fato é que Adão e Eva são os personagens ou sacerdotes mais antigos das religiões “abraâmicas” e faz todo sentido que suas histórias contenham distorções e alegorias. Quando uma quantia de conhecimento se estende por um período muito grande e com grandes dificuldades de registro, é natural que se perca conteúdo e que se invente maneiras de tentar condensar e/ ou resumir fatos. Neste processo podem ocorrer combinações de histórias, distorções etc. 

Religião e Historicidade/ Ciência 

Vimos que a história e a religião judaica / hebraica se misturaram no decorrer do tempo e também vimos que a história humana é mais antiga do que a escrita, então muito da história foi transmitido oralmente por milênios e cada povo (cultura, civilização…) passou a fazer registros escritos em diferentes épocas. A quantidade de informação a ser transmitida ao longo de períodos tão extensos (séculos ou milênios) certamente é excessiva para povos que se apoiaram na cultura oral ao invés da escrita e por isso houveram “resumos” e condensações dos contos ao longo da história destas culturas (sejam ela a judaica/ hebraica, a persa, a nórdica, a celta, a japonesa, a yorubá, a tupi-guarani entre tantas outras). 

Apesar das possíveis e improdutivas discussões sobre o que era alegoria e o que eram fatos “empíricos” sobre Adão e Eva, fica implícito na Bíblia que seus filhos Caim e Set casaram-se, tiveram filhos e fundaram cidades (ou, ao menos, povoados). Além disto, Caim, por ter cometido o pecado do assassinato de seu irmão Abel, é marcado para que outros não o persigam e não o mate. Tudo isto já indica que haviam outros habitantes (seres humanos) na Terra, nem sendo necessário buscar estudos científicos para entender tal fato. A tentativa de reduzir a idade do ser humano na Terra para 4000 anos antes de Cristo, possivelmente foi feita por religiosos que talvez nem tivessem boa índole: Em períodos de baixo letramento, talvez da antiguidade até o início da renascença, tal fato pode ser mais aceitável, pois a maioria das pessoas não tinha tempo para ficar refletindo sobre a idade das civilizações ou da raça humana. Porém, com a difusão gradual do conhecimento a partir da renascença europeia (século 16), a insistência em tal argumento parece mais uma ferramenta típica para tentar se manter no poder, alegando conhecer toda história (ou origens) da humanidade. Ferramenta esta, muito útil na era medieval e em períodos mais antigos, onde era praticamente impossível estudar história e arqueologia a fundo e buscar propagar/ divulgar a verdade de maneira ampla. Porém defender a ideia de que a raça humana surgiu de um simples casal cerca de 4000 anos antes de Cristo, mostra-se uma atitude muito contraditória após o iluminismo (movimento intelectual da Europa entre os séculos 17 ao 19) e após o início da arqueologia e da geologia. Impor a ideia reducionista de que a raça humana tem poucos milhares de anos como se fosse verdade é desafiar outras religiões que afirmam que a raça humana e/ ou o cosmo são mais antigos (o hinduísmo por exemplo); é tentar impedir os estudos de geologia (e da arqueologia), seja quando tal área de estudo pertencia à filosofia natural no século 18, ou depois, a partir dos meados do século 19, na ciência.

Como estudar as Religiões e a História?

Vimos que muitas podem ser as motivações por trás do estudo das religiões e da história, sejam estudos vinculados (história das religiões) ou estudos separados entre si. Mas o que importa na religião? Seguir quem tem o poder/ quem dita ordens ou buscar a verdade e o bem maior? Eu fico com a segunda opção. Assim então, é possível tratar de variadas obras religiosas que permitem uma melhor investigação dos personagens mais antigos das religiões abraâmicas (e de outras religiões também), suas possíveis inter relações e suas respectivas linhagens até períodos mais recentes. 

Particularmente não me limito aos métodos exclusivos da ciência naturalista e sua suposta "neutralidade" que se mostrou frágil e contraditória, para não dizer inexistente, ao longo da história. Entendo que tanto o estudo da história, como o das religiões podem e devem ser pautados pela ética

Mas a ética não é área de estudo das ciências, e sim da filosofia... Sim. Eu sei disto e não descarto a ciência, mas o que quero dizer é que a finalidade dos estudos deve ser ética, portanto considero a filosofia essencial na construção de conhecimento. Se obtenho êxito ou fracasso, não sei dizer, mas sei que a ética não se limita a valores individuais pois abrange valores que fazem bem ao maior número de pessoas possível, ao coletivo - tem uma finalidade de melhoria não só individual/ moral, mas social também. Sei que tal tema é discutido há séculos e conheci gente que despreza a ética porque acha que a filosofia é muito teórica... Tais pessoas buscam conhecimentos tentando ser mais práticos; com mensuração matemática ou com evidências materiais, mas tal ênfase tida como científica muitas vezes provou se distanciar da ética e das finalidades que abrangem causas coletivas/ sociais. (para quem se interessar, tal tema é abordado aqui: https://amorpelosabersaberamar.blogspot.com/2024/08/a-anti-etica-etica-e-psique-humana.html) Portanto, apesar das dificuldades prefiro estudar os temas citados neste texto, buscando ser ético, buscando a verdade, que não é separável do conceito de pureza e sendo ambos conceitos relacionados à psiquê humana, eles estão relacionados ao amor. Pode parecer devaneio, mas esta verdade e pureza psíquicas almejadas no estudo ético das religiões, da espiritualidade e de sua história, se vinculam não a qualquer "tipo de amor", mas ao mais profundo e mais abrangente, portanto se relacionam com o amor ensinado por seres como Jesus. Não é um mero romantismo, pois não é um amor desvinculado da racionalidade, porém a finalidade destes estudos não é a racionalidade em si: é a busca de melhoria do ser humano como indivíduo e como coletivo/ sociedade. Esta busca de melhoria é a ontologia da filosofia ocidental fundada por Platão (citada na obra "Fédon") e se relaciona com a ideia (eidos) mais elevada ou mais perfeita abordada por este filósofo: o bem (kalos: o bem e belo, como explicado no diálogo "A República"). Pois como Platão indica em suas obras "O Banquete" e "Fedro", o bem é o que há de mais desejável, mais amável.

 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Sobre duas obras de Chico Xavier

Chico Xavier é um médium bastante admirado no meio espírita brasileiro em geral. Porém eu concordo com uma interpretação comum entre os espíritas progressistas: Que ele fez boas obras e más obras - Chico Xavier foi humano, ora acertando e ora errando. Particularmente comecei a entender suas obras deste modo após duas experiências que eu tive por volta do ano de 2020. Estas experiências consideradas como mediúnicas devem ter algum valor para os meios que as aceitam, como o espiritismo, a umbanda (etc)... Porém, além da experiência mediúnica eu busquei analisar o conteúdo das obras também.

Venerar este médium (Chico) como se ele fosse um santo que só trouxe belas verdades indiscutíveis é uma ingenuidade. O próprio Kardec, ao fundar o espiritismo, afirmava que era preciso uma análise crítica das mensagens recebidas através dos espíritos. Esta crítica de Kardec não era simples negação das mensagens e sim uma verificação para entender se o conteúdo de tais mensagens estavam de acordo com os precursores do espiritismo, como Jesus Cristo, Platão e Sócrates (embora estes 2 últimos raramente sejam mencionados pela maioria espírita no Brasil). 

Particularmente lembro-me de 2 textos psicografados por Chico. O 1º que eu esqueci o título, trazia severas críticas e acusações ao fundador da ordem dos jesuítas (Iñigo López de Oñaz y Loyola 1491-1556, traduzido como Inácio de Loyola) e veneração pelo fundador do protestantismo (Martin Luther 1483-1546, traduzido como Martinho Lutero). Uma interpretação exagerada da história por si só, pois não acho que algum destes 2 personagens tenha sido um santo perfeito - apenas foram humanos no centro de um momento decisivo (e talvez cheios de polêmicas) da história do ocidente: A reforma, ou divisão, da igreja católica que era poderosíssima até então durante o século 15. 

Porém, além deste fato, durante a leitura, uma nítida presença horrível (sentimentos ruins diferentes dos meus naquele momento, como uma outra mente que entendo que seja [de] algum espírito) tentou a me induzir a continuar lendo. Diante o fato, interrompi a leitura e considerei uma obra ruim. Afirmo que esta presença foi nítida por se tratar de algo tão real ou mais real do que a realidade que me cerca. Sei que este tipo de relato, de descrever fenômenos "mais reais do que reais", existe em outras experiências pouco aceitas pela ciência tradicional, como por exemplo, em caso de uso de substâncias psicodélicas/ enteógenas. Não há outra forma de descrever o fenômeno que presenciei ao ler tal obra. 

Mesmo se eu ignorasse o fenômeno incomum, o próprio conteúdo do texto, indica que Chico Xavier cometeu um equívoco aqui: No histórico conflito entre protestantes e jesuítas não houve um lado angelical contra um lado demoníaco. Embora Lutero certamente teve mais relevância do que Loyola na história da alternância de poder no ocidente, ambos os lados deixaram entre seus seguidores, personagens bons e ruins. 

Martinho Lutero não foi o primeiro a enfrentar a igreja católica: Jan Hus (1375-1415) foi um personagem tão importante quanto Lutero em questionar os poderosos na Europa, enfrentando tanto a igreja católica como o imperador germânico. Além de Hus, alguns dos filósofos platônicos como Giovanni Pico (1463-1494), também questionaram o poder da Igreja e seu autoritarismo. Não estou afirmando que Lutero foi insignificante: longe disto, mas pretender colocá-lo como um oposto à Loyola, alegando que o segundo agiu de acordo com "forças do mal", é um exagero, pois o processo histórico é gradual e cheio de desdobramentos. Lutero e os protestantes definitivamente diminuíram o poder absurdo predominante entre o alto clero católico na Europa abrindo caminhos para a religiosidade ocidental e possivelmente a criação da ordem dos jesuítas teve intenções de manipular e reganhar poder para a igreja católica. Porém qualquer um que estude a história da colonização da América, perceberá que alguns jesuítas defenderam a vida de comunidades ameríndias inteiras diante escravagistas como os encomederos espanhóis e os bandeirantes portugueses. Além disto há quem diga que Lutero teve alguma responsabilidade sobre a guerra dos camponeses e seu trágico desfecho que seguiu após a propagação de suas obras. Há indivíduos bons e ruins em ambos os lados e idolatrar ou demonizar qualquer um destes personagens é fomentar divisão e prolongar rixas que já deveriam ter acabado há séculos. 

O 2º texto do famoso autor espírita não me trouxe alegria e paz de espírito, mas me pareceu mais coerente e também me causou uma experiência mediúnica mais sutil: Uma sensibilidade seguida por uma emoção difícil de explicar - um tipo de tristeza, mas acompanhada de uma forte intuição de que há uma verdade na mensagem escrita pelo médium. Segue o texto: 

O enigma da obsessão 

"Comentávamos em círculo íntimo o inquietante enigma da obsessão na Terra, alinhando observações e apontamentos. Por que motivo se empenham criaturas encarnadas e desencarnadas em terríveis duelos no santuário mental? Que a vítima arrancada ao corpo, em delito recente, prossiga imantada ao criminoso, quando a treva da ignorância lhe situa o espírito a distância do perdão, é compreensível, mas como interpretar os processos de metodizada perseguição no tempo? Como entender o ódio de certas entidades, em torno de crianças e jovens, de enfermos e velhinhos? Por que a ofensiva persistente dos gênios perversos, através de reencarnações numerosas e incessantes? No mundo, os assalariados do mal comprometem-se ao redor de escuros objetivos... Há quem se renda às tentações do dinheiro, do poder político, das honras sociais e dos prazeres subalternos, mas em derredor de que razões lutam as almas desenfaixadas da carne se para elas semelhantes valores convencionais de posse não mais existem? 

Longa série de “porquês” empolgava-nos a imaginação, quando Menés, otimista ancião do nosso grupo, à maneira de carinhoso avô, falou bem humorado: – A propósito do assunto, contarei a vocês um apólogo que nos pode conferir alguma idéia acerca do nosso imenso atraso moral. E, tranqüila, narrou: – Em épocas recuadas, numa cidade que os séculos já consumiram, os bois sentiram que também eram criaturas feitas por nosso Pai Celestial, não obstante inferiores aos homens. Sentindo essa verdade, começaram a observar a crueldade com que eram tratados. O homem que, pela coroa de inteligência, devia protegê-los e educá-los, deles se valia para ingratos serviços de tração, sob golpes sucessivos de aguilhões e azorragues. Não se contentando com essa forma de exploração, escravizava-lhes as companheiras, furtando-lhes o leite dos próprios filhos, reservando-lhes à família e a eles próprios horrível destino no açougue, Se alguns deles hesitavam no trabalho comum, sofrendo com a tuberculose ou com a hepatite, eram, de pronto, encaminhados à morte e ninguém lhes respeitava o martírio final. Muitas pessoas compravam-lhes as vísceras cadavéricas ainda quentes, tostando-as ao fogo para churrascos alegres, enquanto outras lhes mergulhavam os pedaços sangrentos em panelas com água temperada, convertendo-os em saborosos quitutes para bocas famintas. Não conseguiam nem mesmo o direito à paz do túmulo, porque eram sepultados, aqui e ali, em estômagos malcheirosos e insaciáveis. Apesar de trabalharem exaustivamente para o homem, não conseguiam a mínima recompensa, de vez que, depois de abatidos, eram despojados dos próprios chifres e dos próprios ossos, para fortalecimento da indústria... Magoados e aflitos, começaram a reclamar; contudo, os homens, embora portadores de belas virtudes potenciais, receavam viver sem o cativeiro dos bois. Como enfrentarem, sozinhos, as duras tarefas do arado? Como sustentarem a casa sem o leite? Como garantirem a tranqüilidade do corpo sem a carne confortadora dos seres bovinos? O petitório era simpático, mas os bichos se mostravam tão nédios e tão tentadores que ninguém se arriscava à solução do problema. Depois de numerosas súplicas sem resposta, as vítimas da voracidade humana recorreram aos juízes; entretanto, os magistrados igualmente cultivavam a paixão do bife e do chouriço e não sabiam servir à Justiça, sem as utilidades do leite e do couro dos animais. Assim, o impasse permaneceu sem alteração e qualquer touro mais arrojado que se referisse ao assunto, a destacar-se da subserviência em que se mantinha o rebanho, era apedrejado, espancado e conduzido, irremediavelmente, ao matadouro... O venerável amigo fez longa pausa e acrescentou: – Essa é a luta multissecular entre encarnados e desencarnados que se devotam ao vampirismo. Sem qualquer habilitação para a vida normal, fora do vaso físico, temem a grandeza do Universo e recuam apavorados, ante a glória do Espaço Infinito, procurando a intimidade com os irmãos ainda envolvidos na carne, cujas energias lhes constituem precioso alimento à ilusão. E desse modo que as enfermidades do corpo e da alma se espalham nos mais diversos climas. Os homens, que se julgam distantes da harmonia orgânica sem o sacrifício dos animais, são defrontados por gênios invisíveis que se acreditam incapazes de viver sem o concurso deles. O enigma da obsessão, no fundo, é problema educativo. Quando o homem cumprir em si mesmo as leis superiores da bondade a que teoricamente se afeiçoa, deixará de ser um flagelo para a Natureza, convertendo-se num exemplo de sublimação para as entidades inferiores que o procuram... Então, a consciência particular inflamar-se-á na luz da consciência cósmica e os tristes espetáculos da obsessão recíproca desaparecerão da Terra... Até lá – concluiu, sorrindo –, reclamar contra a atuação dos Espíritos delinqüentes, conservando em si mesmo qualidades talvez piores que as deles, é arriscar-se, como os bois, à desilusão e ao espancamento. O ímã que atrai o ferro não atrai a luz. Quem devora os animais, incorporando-lhes as propriedades ao patrimônio orgânico, deve ser apetitosa presa dos seres que se animalizam. Os semelhantes procuram os semelhantes. Esta é a Lei. Afastou-se Menés, com a serenidade sorridente dos sábios, e a nossa assembléia, dantes excitada e falastrona, calou-se, de repente, a fim de pensar." 

O texto não afirma que a conversa tenha realmente ocorrido em nossa história no planeta Terra. Mas seu conteúdo praticamente converge um espiritual com um saber científico. Claro, tal convergência pode ser inaceitável tanto para cientistas que negam toda a realidade espiritual como para religiosos anti-científicos. Porém a indústria agropecuária é obviamente desalinhada com a natureza da Terra, pois ela é formada por pequenos grupos de seres humanos buscando acumular uma invenção humana chamada dinheiro, destruindo vários hectares de terra com seus respectivos biomas naturais para forçar a procriação de uma enorme quantidade de gado e poucas outras espécies de animais "domesticados". Estes animais forçados a procriar, são alimentados com produtos modificados geneticamente, com o objetivo exclusivo de se tornarem produtos para consumo humano. Tal consumo não é feito por causa da importância dos nutrientes da carne ou do leite de tais animais e sim porque os agropecuaristas querem enriquecer e os consumidores acham o produto saboroso, ambos ignorando o quanto isto devasta os biomas da Terra. Estes são os fatos científicos. 

 O saber religioso aqui escrito por Chico Xavier é o elemento espiritual do texto: Tudo é naturalmente gradual tanto nas leis espirituais como nas leis naturais, porque estas leis não estão totalmente separadas entre si; Na verdade elas se conectam pois são a mesma em níveis diferentes. Sócrates, Platão (no diálogo/ texto Górgias) e Kardec já afirmavam esta conexão entre lei natural e lei divina. Certamente os hindus têm algum entendimento disto também, já que consideram a "vaca como um animal sagrado". Sendo toda a lei gradual, a formação e a evolução dos espíritos também é. Forçar a reprodução de milhões de bovídeos tem seu impacto no fluxo espiritual: é uma consequência lógica. Os ateus e crentes de religiões que ignoram a vida animal podem viver sem entender isto, mas espíritas, umbandistas e hinduístas deveriam no ao menos considerar tal explicação espiritual.

 

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Uma União... Seja Antiga ou Nova.

Um breve resumo da longa história do ecumenismo e do sincretismo religioso 

Quando estudei variadas mitologias entre os anos de 2015 e 2018, eu percebi vários elementos semelhantes entre algumas delas. Estas semelhanças variam entre quantidade e qualidade. Por exemplo, o mito grego do nascimento de Zeus e como seu pai, Cronos, tentou destruir ele e seus irmãos, é quase idêntico ao mito hitita/ hurrita (antigos reinos da Anatólia) de Tarhunt e seu pai Enlil. O mito de Enlil e seu pai Anu, deus dos céus, por sua vez, aparece nos antigos reinos da Mesopotâmia e é similar com o de Cronos e Urano, deus dos céus (Ouranos, o Caelus em Roma), contado pelos poetas gregos. Ao debruçar-me sobre as semelhanças inter religiosas do antigo politeísmo afro-eurasiático, fui descobrindo personagens e histórias semelhantes entre variadas culturas até que achei alguns vagos traços de semelhança entre judaísmo e antiga religião egípcia. 

Se ignorarmos a “visão” de Brahman como O Deus único e supremo no hinduísmo (há interpretações politeístas), o judaísmo possivelmente é a 1ª religião monoteísta da Terra, porém ao surgir entre pequenas tribos cercadas por impérios da antiguidade, a data de seu início é controversa. Numa visão religiosa hebraica/ judaica, ela certamente se inicia com Adão ou com seus filhos por volta dos anos 4000 aC ou 3900 aC. Porém numa visão mais cética baseada em evidências materiais é possível datá-la por volta de 1350 aC, aproximadamente durante o governo do faraó Akhenaton (reinado de 1353 aC a 1334 aC) no Egito. Interpretações mais reducionistas existem, mas não trato delas aqui. 

As curiosidades “inter religiosas” ou “sincréticas” me levaram a alguns caminhos: O caminho dos hermeneutas indicava que havia uma espiritualidade mediterrânea (egípcia, cananéia, judaica, mesopotâmica, hitita/ hurrita, greco-romana) que continha elementos em comum. Isto é abordado por Evêmero (~330 aC - 250 aC) e Eusébio de Cesaréia (265 - 339) - este último teria seguido a “linhagem” de estudos de Filo de Biblos e Sanconíaton. Porém estas linhas de estudo priorizam supostos rastros materiais possivelmente perdidos nos dias de hoje, e, ao traçar tal percurso, trata mais dos personagens como reis divinizados. O caminho do hermetismo (~100 - 300), ou do sincretismo religioso, vai indicar a mistura das práticas místicas e religiosas em si e mostra um elo entre judaísmo, helenismo (religiões gregas), zoroastrismo e politeísmo egípcio. Este último caminho possivelmente se ramifica através de trocas culturais e uma destas ramificações desemboca no pitagorismo. O pitagorismo em si parece ter sido centrado na misteriosa religião órfica da Grécia antiga, porém diferentemente da religião politeísta popular grega, este movimento filosófico religioso apresentava características de religiões de outras culturas (egípcia, mesopotâmica e talvez outras como a hindu, celta, iraniana etc) e aspectos mais racionais ao se aproximar da filosofia (precursora da ciência). Portanto, o pitagorismo se afastava da ritualística, dos frenesis e transes. É justamente por esta aproximação da racionalidade e do autocontrole/ consciência de si, que Platão aceita alguns elementos do pitagorismo. 

Com Platão e seu mestre, Sócrates, a questão ética, ou a questão do bem, finalmente é trazida para o centro da religiosidade e não só isso: para o centro da recém surgida filosofia ocidental. Obviamente divulgar a importância do bem, da razão, da justiça e do amor não é algo fácil: Mesmo com o espalhamento da cultura grega pelo mundo através do Império greco-macedônico de Alexandre, o Grande, as gerações de filósofos depois de Platão “fizeram reinterpretações, adaptações e ramificações” na filosofia. Apesar de revolucionar o modo ocidental de pensar, a Academia de Platão durou somente de 384 aC a 86 aC, pois foi destruída pelos exércitos romanos liderados por Susa. Este e outros fatos indicam que a filosofia fundada por Platão sofreu tentativas de silenciamento e perseguições. No século 1, durante o período “pacífico” do Império Romano (a Pax Romana) os acadêmicos (da academia de Platão) já não existiam mais e os filósofos céticos já haviam desvirtuado em algum nível a filosofia de Sócrates e Platão. Neste período surge o “médio platonismo” com filósofos tentando restaurar a originalidade da filosofia ocidental organizada por Platão, mas sem negar totalmente um sincretismo com outras filosofias. O termo platonismo me parece mais adequado para designar os “estudiosos” ou “seguidores” de Platão a partir deste momento da história. Neste período da história também aumentam a quantidade de sincretismos tanto filosóficos como religiosos e surge o cristianismo. 

O cristianismo é um conjunto de ensinamentos monoteísta, surgido no século 1, que mostra a importância verdadeira do amor. Não existiam igrejas cristãs quando Jesus de Nazaré, o Cristo, andou pela região do Levante propagando seus ensinamentos centrados no amor piedoso. Jesus não proibiu templos, mas nunca construiu um e nem ordenou a construção de templos, embora haja uma interpretação de que ele tenha dito algo deste tipo à Pedro. Jesus ensinou dentro de alguns templos judeus (sinagogas), mas não ensinou o judaísmo em si, pois ao trazer a ênfase no amor a tudo, não admitiu absurdos como a vingança aceita entre judeus. Além disso, Jesus passou a maior parte do tempo caminhando e auxiliando os mais necessitados e rejeitados. Não há algo errado especificamente em assistir cultos ou missas, mas a prática cristã vai muito além dos templos e igrejas: Ela é um modo de pensar, expressar e agir no mundo. Um modo centrado no amor piedoso, pois o monoteísmo ensinado por Jesus Cristo não é sinônimo de “povo escolhido”, muito menos sinônimo de separatividade. É união entre todos filhos de Deus, ou seja, entre toda a humanidade, entre toda a vida, por mais difícil que isso pareça. Isso por si só já deveria mostrar de maneira óbvia que os ensinamentos cristãos não foram difundidos para se formar grupos fechados: Os cristãos devem se pautar por semelhanças e por igualdade entre as religiões, as espiritualidades e as filosofias, pois as diferenças só deveriam ser causa de afastamento quando entrassem em contradição clara contra os ensinamentos de Jesus, ou seja, contra o amor, a piedade, a solidariedade e a humildade. Os ensinamentos de Cristo têm esse claro viés ecumênico: Jesus busca harmonia mesmo com aqueles que têm cultura e modos diferentes dos seus. O cristianismo e o ecumenismo exigem amor e equidade. 

Uma busca pela visão ecumênica do cristianismo

O amor então é o centro dos ensinamentos de Jesus Cristo, sendo a dádiva e a virtude mais preciosa que Deus deu aos seres humanos. 

Por volta dos séculos 1 e 2, após a morte de Jesus, são feitos os escritos essenciais do cristianismo e começam a surgir algumas divergências no que se refere a diversos detalhes da doutrina, assim começa a se formar o que entende-se por religiões (cristãs, neste caso). Estas divergências certamente ocorreram pela influência de outras doutrinas religiosas, outras filosofias e outras culturas espiritualistas, conforme pessoas de diferentes regiões se interessavam pelo cristianismo e entendiam verdades em seus ensinamentos. Porém neste período o cristianismo era pouco ou nada aceito entre pessoas em posição de poder social e/ ou econômico. 

O cristianismo só começou a ser institucionalizado na forma de igrejas de maneira significativa no século 4, ou seja, cerca de 3 séculos após a morte de Jesus, quando os imperadores romanos começaram a mostrar determinados interesses na doutrina, obscurecendo a importância do tema central cristão: O amor. 

 O evangelho contado pelos apóstolos Mateus, Marcos, Lucas e João é considerado o centro dos ensinamentos de Jesus Cristo, conforme as religiões cristãs, e diversas foram suas interpretações ao longo da história. 

Os evangelhos de Tomé e de Filipe têm alguns temas mais místicos, outros mais reveladores e alguns mais controversos, em relação ao evangelho aceito dos 4 apóstolos nas religiões. Embora o de Tomé tenha várias semelhanças com os evangelhos de Lucas, Marcos e Mateus, o texto atribuído a Filipe é notoriamente de uma época posterior aos apóstolos que viveram com Jesus. 

As explicações que darei nos próximos textos sobre o cristianismo e o ecumenismo levam em consideração a atenção especial que Jesus deu à vida na Terra. Esta atenção foi voltada principalmente aos mais necessitados, que mal tinham o básico para viver: cegos, surdos, leprosos, desabrigados, famintos, crianças, mulheres, prostitutas e outras pessoas vulneráveis. Estas pessoas eram muitas, pois o sistema social e econômico, não muito diferente dos dias atuais, era cheio de injustiças e iniquidade durante a época do Império Romano em que Jesus andou pela Terra. Este sistema injusto, inútil para a maioria das pessoas que eram pobres, está ligado às críticas que Jesus faz aos ricos, aos líderes religiosos e ao dinheiro. 

Além disto, um tema tão importante quanto este é a vida espiritual tratada por Jesus: Jesus menciona em diversas passagens a importância de se fazer o bem, não apenas para propagar o amor e a equidade na Terra, mas também para que as pessoas (suas almas, ou espíritos) pudessem alcançar o reino dos céus, ou, uma das moradas de Cristo. A prática e a teoria do cristianismo tem coerência entre si: Não faz sentido alegar ser cristão e não pôr em prática o amor piedoso. Este amor pede atitude solidária com as pessoas. Além disto, não adianta realizar ajuda material a alguns indivíduos ou grupos e pensar de modo egoísta ou planejar atos nocivos contra outros. 

Eu abordarei passagens da bíblia, particularmente os ensinamentos de Jesus Cristo, seguidos por observações que podem ter influência de diversas “espiritualidades”, sejam elas filosofias ou teologias. Alguns exemplos são: O platonismo, o espiritismo de Allan Kardec, a Kriya Yoga e a teologia da libertação. 

O “platonismo” é a raiz e o cerne da filosofia de todo ocidente (basicamente Europa e América após a colonização). Surgida na Grécia clássica (do século 4 antes de Cristo) a filosofia desenvolvida por Platão é baseada nos ensinamentos e diálogos de Sócrates, mas com influência de alguns filósofos anteriores, como Anaxágoras, Parmênides e Pitágoras. Como mencionei anteriormente, a filosofia platônica incita a busca pela sabedoria e pela verdade, que naturalmente deve levar ao que é bom, belo e justo. 

O espiritismo baseia-se nos textos do pedagogo e tradutor francês, Hippolyte Léon Denizard (Allan Kardec), que buscou aproximar o cristianismo à ciência, passando inevitavelmente por questões filosóficas. Ao trazer o tema da reencarnação, o espiritismo, surgido no século 19, explica muitos conceitos espirituais, também se aproximando de várias religiões, muitas delas já extintas: A religião órfica grega, o druidismo dos celtas, vertentes do hinduísmo etc. Apesar da centralidade no cristianismo, Kardec diz que o espiritismo aceita pessoas de todos os credos, ou seja, de todas as religiões, provando ser um movimento filosófico espiritualista ecumênico. 

É importante lembrar que na época em que o espiritismo foi fundado, os evangelhos de Tomé e de Filipe estavam ocultos (nas cavernas de Nag Hammadi - Egito) há séculos. Estes 2 evangelhos só vieram a público após o ano de 1945. 

A Kriya Yoga é um dos vários tipos de yoga do Sanatana Dharma (hinduísmo) que mantém o universalismo desta espiritualidade. Kri-ya significa ação divina, ou agir com Deus e Yoga é principalmente traduzido como união ou disciplina - assim, uma possível tradução é união com Deus pela ação. Esta ação se dá por técnicas psicofisiológicas, como o controle da respiração e a meditação (perceber as próprias atividades mentais e o aquietamento da mente). Tais técnicas geralmente levam-se anos para serem dominadas e são importantes para o “kriya yogi” adquirir controle de sua mente sensorial e seu intelecto, banindo o desejo, a ira e o medo, para então atingir a consciência de Deus. Ainda que possa parecer indiferente ao meio, o método da Kriya Yoga propõe libertar a alma da prisão do ego ao “respirar o ar profundo” da onipresença. 

O guru Babaji, no século 19, restaurou e propagou esta yoga que une as práticas de outros 4 tipos de yoga. Seu discípulo Lahiri Mahasaya difunde a Kriya na Índia estimulando o viver com simplicidade, o pensar com elevação e a fraternidade universal, enquanto os seus sucessores Yukteswar, Yogananda e Hariharananda, revelam a unidade básica entre os ensinamentos de Jesus Cristo e os de Bhagavan Krishna, preconizando a compreensão cultural e espiritual entre ocidente e oriente. 

Por fim, a teologia da libertação, é um movimento cristão surgido por volta de 1970 na América Latina e faz um resgate da importância da prática dos ensinamentos de Jesus: A solidariedade para com os mais vulneráveis e para com os necessitados e uma busca por equidade entre os seres humanos. 

Há diferenças entre todos esses caminhos? Sim, mas ao invés de priorizar diferenças, o mais importante é buscar as semelhanças que indicam coerência entre as religiões e espiritualidades. Tais semelhanças evitam conflitos e permitem uma união, ainda que naturalmente essa união ocorra de maneira gradual ou lenta.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Sobre a Institucionalização do Cristianismo

 Breve reflexão sobre instituição e institucionalização 

A palavra instituto vem do latim "Institutius" que significa definir, estabelecer, de In + statuere (em + fazer ficar em pé). Adquiriu sentido geral de fundar, introduzir a partir do século 15. O significado de organização, social, surgiu no século 19. 

O termo institucionalização também passou a ser empregado com significado negativo, de sistemas criados com fins e razões benéficas, que por qualquer motivo (por interesses particulares, ou tentativa de controle social) tornaram-se inflexíveis, causando prejuízos aos seres humanos. 

Nota-se que em seu significado original, esta palavra se assemelha à palavra estrutura, com a diferença que esta última se refere a juntar ou combinar as partes para construir algo. Estrutura então exprime arranjo, junção e disposição - modo de edificar, enquanto instituição é uma edificação estabelecida de um estado ou de uma comunidade. 

Edificar, vem da palavra edifício (do latim, aedes), que designava uma mansão do Império Romano. Estas mansões não eram como conhecemos hoje: Elas tinham até 5 andares e abrigavam várias pessoas das baixas classes sociais, servindo de moradias e também de espaço para atividades.

A diferença entre instituição e constituição então é expressa pelo prefixo: In significa "em" e con significa "juntos, em simultâneo, companhia". 

Toda esta explicação deveria nos orientar. Embora as palavras tenham seus significados mais ou menos alterados com o passar do tempo, as suas origens deveriam ser regularmente verificadas para trazer entendimento de suas utilizações. 

No caso das religiões eu vi mais um emprego negativo da palavra institucionalização: Geralmente se refere como as igrejas (cristãs, por exemplo), ao admitirem hierarquias e priorizarem dogmas, deixaram de lado os ensinamentos de Jesus Cristo, transformando-se em ferramentas de poder ao longo da história. Trago um possível exemplo deste processo à seguir.

Como alguns dogmas invadiram o cristianismo e se mantiveram nas igrejas 

No ano 553, foi reunido o 2º Concílio de Constantinopla pelo imperador romano (bizantino) Justiniano I, que se interessava em acabar com as dissensões na igreja cristã (já chamada de católica na época). Neste concílio foram proibidas e consideradas hereges as seguintes doutrinas: 

Do nestorianismo, marcada pela afirmação de que Maria é mãe de Jesus e não de Deus, pois a natureza divina de Jesus é separada da natureza humana; 

A doutrina de Orígenes que aceitava a transmigração das almas (a reencarnação das almas, possivelmente baseada em Platão) e a possibilidade da Apocatástase onde todas as almas seriam salvas e unidas a Deus; 

E a doutrina monofisista que afirmava que Jesus tinha só uma natureza divina mesmo encarnado. 

Como resultado do concílio afirmava-se que Jesus era simultaneamente humano e Deus, filho de Maria e que as almas de pecadores seriam condenadas eternamente, jamais encontrando Deus. 

Com um breve estudo sobre tal evento não é difícil entender as intenções e resultados de tal concílio. Note que os assuntos todos têm como tema central a espiritualidade: De onde vem e para onde vão as almas, natureza divina de cristo etc. São temas impossíveis de se tornarem dogmas sem desprezar o ensinamento central de Jesus Cristo: O amor (ao próximo, a si e a Deus). Um amor obviamente piedoso acima de tudo, do qual não vou detalhar aqui - basta ler as passagens de Jesus na bíblia. 

Voltemos a resolução do concílio "ecumênico" (!?): Proibições e queimas de escritos/ livros de teorias sobre a alma e a divindade. O que há de ecumênico nisto? 

Nada. 

O que há de cristão no resultado desse concílio? 

Nada. 

Nada disto está nos ensinamentos de Jesus Cristo: Para Jesus, o que importa é viver a lei divina, que é de amor - Amor este sereno e que dá esperança para a humanidade! 

O resultado deste (e de tantos outros concílios da igreja) é meramente um passo para deformar os ensinamentos de Cristo, impondo regras proibitivas, que tentam formar a imagem de um Cristo autoridade, pois o concílio praticamente diz: Jesus nasceu humano mas era Deus e filho de Maria ao mesmo tempo. Para que isto? Jesus mandou seus apóstolos chamarem Maria de mãe de Deus? Certamente não. Jesus fez pregações alegando que almas não reencarnam? Certamente não. Na verdade ele insinua sutilmente o contrário ao falar que João é o Elias que muitos aguardavam, e, ao falar à Nicodemos que é preciso nascer de novo. 

Enfim, este é um tema simples: A religião não existe sem uma história, então os cristãos que frequentam uma igreja (seja católica, evangélica etc) tem basicamente duas opções para não serem enganados: 

A 1ª opção é simples: Colocar os ensinamentos de Jesus Cristo (os evangelhos dos 4 apóstolos: João, Marcos, Mateus e Lucas) acima de todas os argumentos não mencionados por Cristo evitando aqueles que contrariem seu amor piedoso, e assim, também acima das outras passagens da bíblia, pois nenhum outro profeta da bíblia tem ensinamentos mais importante do que os de Cristo - Todos eles são menos importantes e devem ser somente complementares ou até mesmo desconsiderados caso contradigam qualquer um dos ensinamentos de Cristo. Isto é óbvio: o que vale mais? Os vários personagens da bíblia que cometeram erros (matar religiosos divergentes, acumular riquezas, participar de guerras) ou Jesus Cristo que ajudou os necessitados durante toda a sua passagem na Terra e ainda morreu torturado e crucificado? 

A 2ª opção vai exigir que o cristão dedique um tempo para estudar a história do cristianismo, mas não só uma época ou um evento: De preferência o máximo possível, desde as pregações de Jesus (da bíblia mesmo, é claro), passando pelo cristianismo primitivo dos séculos 1 ao 4, pelos concílios dos séculos 5 ao 10, pelo cisma da igreja/ a divisão em igreja apostólica romana e ortodoxa, a fundação das universidades católicas e o surgimento de ordens dissidentes até a renascença! É muita coisa? Sim, mas é uma tentativa de entender os interesses por trás da religião e estes interesses não foram só dos católicos. Por exemplo, o concílio que eu trouxe neste texto é aceito não só pelos católicos, mas também pelo luteranismo e algumas outras igrejas protestantes!

Porque? Certamente não foi por bondade dos fundadores do protestantismo durante o início do século 16. Como alguém manteria tais resoluções claramente centralizadoras de poder como parte dos ensinamentos de Cristo? Como alguém propõe renovar a igreja aceitando resoluções de quase 1000 anos atrás?! Tais questões deveriam ser abertas novamente, como eram antes do concílio da igreja do ano 553, pois são meras conjecturas elevadas ao status de dogmas.

Enfim, talvez eu exija demais dos cristãos... Entendo que nós ocidentais (ainda hoje, neste início de século 21) raramente recebemos um ensino crítico sobre a utilização da religião, da política e da economia como ferramentas de poder. Particularmente tive a sorte de aprender no ensino médio sobre as revoluções cristãs de Jan Hus e de Savonarola, mas hoje com a internet basta digitar esses nomes num "Google" para achar vários sites que contam a história. Para os interessados recomendo fortemente ler sobre Jan Hus e as guerras hussitas, tema importante da história do cristianismo e da Europa. Se sobrar um tempo leia sobre as rebeliões cristãs florentinas nas quais Savonarola foi um dos personagens principais. Só que se tratando de Florença, o assunto é mais complexo e também é bom fazer (ao menos breves) leituras sobre como o platonismo ganhou força ali fomentando a renascença, com Marcílio Ficino entre outros filósofos que atuaram na península italiana naquela época. 

Nem tudo foi conflito, violência e guerra - A renascença, diferente da época do 2º Concílio de Constantinopla (Idade das Trevas), foi importante por causa de seus bons frutos como a propagação da filosofia e das artes e não por causa de disputas por poder religioso ou poder econômico. 

Fontes:

See, e.g. Lutheran–Orthodox Joint Commission, Seventh Meeting, The Ecumenical Councils, Common Statement, 1993, available at Lutheran–Orthodox Joint Commission (B. I. 5a. "We agree on the doctrine of God, the Holy Trinity, as formulated by the Ecumenical Councils of Nicaea and Constantinople and on the doctrine of the person of Christ as formulated by the first four Ecumenical Councils.").
 

Leo Donald Davis (1983), "Chapter 6 Council of Constantinople II, 553", The First Seven Ecumenical Councils (325–787): Their History and Theology, Collegeville, Minnesota: The Liturgical Press, pp. 242–248, ISBN 978-0814656167, retrieved 2014-08-23
 

 

domingo, 18 de dezembro de 2022

Capitalismo não combina com Filosofia nem com Espiritualidade

 

A Psique e a Intencionalidade materialista 
 O consumismo e a suposta necessidade da produtividade formam uma cortina de fumaça e tanto no que se refere aos interesses e comportamentos das sociedades humanas - O discurso pró consumo fomenta a compra incessante de produtos e serviços, por isso é obviamente a favor da lucratividade das empresas e portanto a favor do capitalismo com pouca ou nenhuma regulação. Já o discurso pró produtividade pode ser disfarçado com argumentos meritocráticos (de merecimento de recompensas através de muito trabalho) ou até mesmo com argumentos progressistas. Além desses fatos, estes dois discursos são materialistas em todos os sentidos da palavra: Fomentam um estilo de vida materialista e têm suas origens em pressupostos filosóficos materialistas. Esta combinação ideológica/ comportamental de produtividade e consumismo talvez tenha se tornado a maior distração dos séculos na história (a nível coletivo) da civilização humana. 
 O ser humano sempre teve necessidade de acumular bens? Sempre teve desejo de consumir produtos incessantemente? 
 Para responder tais perguntas basta imaginarmos (pode ser superficialmente) como eram as sociedade humanas na idade da pedra lascada, ou paleolítico: Rudimentares, espalhadas, lutando por sobrevivência, sem noção de agricultura, sem indústria alguma e sem dinheiro nem sistema monetário (ainda bem). Assim foi por mais de 200.000 anos de história do homo sapiens (o período fica bem maior se considerarmos as outras espécies de hominídeos). 
 E na idade da pedra polida/ neolítico? Aí surgem trabalhos mais refinados, desde ferramentas até comunidades que podem ser consideradas as primeiras cidades. Possivelmente a agricultura surge no final deste período, pouco antes da transição para era dos metais que ocorreu por volta de 5000 aC - 4000 aC, ainda que em ritmo diferente nas diversas regiões do mundo. 
 E nas eras dos metais? Apesar do surgimento da moeda (dinheiro) como unidade de troca e precificação (monetária) e também do surgimento da escravidão, certamente não existiam os conceitos de produtividade nem o estilo de vida consumista... Talvez os primeiros traços estivessem surgindo em elites interesseiras (sacerdotes, dinastias etc), mas nada além disto, pois não haviam os meios para explorar as massas de maneira rápida e eficaz. O comércio começa a se desenvolver, principalmente de maneira mais rápida através do tráfego naval/ fluvial, o que permite o acesso a produtos de terras diferentes / distantes, ao menos para pequenas parcelas de algumas nações/ culturas. 
 Os períodos posteriores a estes (Antiguidade etc) e anteriores a Era Colonial/ Renascença, já possuem diversas elites enriquecidas, como as que viveram no Império Romano, nas Dinastias chinesas etc. Isso se estendeu através da era medieval até a ascensão do Império Otomano que desafiou aristocracias e burguesias européias ao terminar a conquista do moribundo estado Bizantino em 1453. Nesta mesma época as críticas à religião institucionalizada (a igreja católica até então) ganham força com razão. Porém o domínio otomano das principais rotas comerciais tornam os interesses econômicos das elites das sociedade humanas impossíveis de se esconder. Com o desenvolvimento das embarcações (galeões) e das armas de pólvora (canhões etc), os conflitos e as guerras vão adquirindo motivos cada vez mais econômicos, ou seja, de interesse financeiro e de recursos naturais, mesmo porque a cisão da igreja cristã entre católicos e protestantes facilitou o surgimento de novas elites na Europa, principalmente nas nações protestantes. No final da renascença e no inicio do iluminismo (século 17), as guerras por motivos religiosos vão diminuindo no ocidente, não porque os seres humanos foram ficando piedosos (é claro), mas principalmente porque as motivações foram mudando. E como foram mudando? Subitamente todas elites européias se tornaram ateístas? Foi uma epidemia psicopatológica de desejo por recursos naturais e financeiros? Nada disto. 
 Isto pouco se fala em aulas de história: Foram algumas das mudanças na filosofia que fomentou a mudança na postura das elites. Não, as elites não eram amantes da filosofia como Anaxágoras, Sócrates, Platão ou Aristóteles (os filósofos gregos dos séculos 6, 5 e 4 antes de Cristo). A filosofia após Rene Descartes passa por um embate de materialistas contra mentalistas e obviamente o primeiro grupo vence as disputas durante a era moderna. Embora isto trouxe benefícios como o desenvolvimento de diversas áreas de estudo (que viriam a ser chamadas de ciência só a partir de 1834), também reforçou uma postura niilista nas elites (sejam financeiras ou intelectuais, pois por muito tempo, estas "elites" se tratavam da mesma classe de pessoas). Esta "vitória do materialismo" sobre outros pontos de vista, foi a elevação de uma estreita visão ontológica ao estado de dogma (expliquei sobre ontologia e bases filosóficas das ciências em outros textos). Este pressuposto filosófico se estendeu para além das áreas de estudo, afetando as lideranças da sociedade e seus sistemas, fossem elas monarquias, ou sistemas democráticos que estavam a surgir. 
 Na Europa e na América colonizada por estes, de um modo geral, apenas burgueses, aristocratas e o alto clero tinham acesso ao ensino (como acesso às universidades) até por volta do ano de 1717, quando o rei da Prússia, Fredirch Willhelm I, sancionou a obrigatoriedade dos estudos para crianças de 5 a 12 anos de idade. Pouco depois ele ainda proibiu empregar tais crianças no mercado de trabalho até que terminassem os estudos, mas esta "universalização dos estudos" na Europa ficou restrita apenas aos povos germânicos por quase um século. Os demais países começam a garantir o acesso gratuito das massas aos estudos (o povo, ou seja, a maioria pobre das nações), somente após o término da revolução francesa, acesso esse trabalhado e fomentado por raros pensadores como Johann Heinrich Pestalozzi que começou a publicar suas obras em 1797. 
 Seria muita ingenuidade pensar que os filósofos europeus (Voltaire, Locke, Newton, entre tantos outros) que montaram as bases da ciência tradicional entre os anos de 1684 e 1777 priorizassem valores coletivos como equidade e justiça, ou posturas individuais como a humildade e a solidariedade nas sociedades de sua época... Levantar a história de cada um dos filósofos mais influentes do ocidente certamente é um trabalho árduo, mas não impossível (eu particularmente não pretendo mais mergulhar a fundo em artigos sobre história, pois já tive minha overdose). O pouco que li sobre grandes nomes foi o suficiente para constatar que todos pertenciam a uma classe média alta ou alta e que quando não defendiam a meritocracia, defendiam outras ideologias de valor dúbio, como por exemplo, o racionalismo mecanicista e o empirismo como uma doutrina filosófica que se projeta para além do método de investigação e construção de conhecimento (epistemologia). 
 Tais filósofos (pós Descartes e anteriores à Revolução Francesa) tidos como pais da ciência fizeram algumas críticas aos supostos males da sociedade de seu tempo, mas geralmente de modo pouco assertivo ou até mesmo pouco útil: Faziam críticas a determinados trechos da bíblia pouco relevantes (à trindade, ao batismo de Jesus, por exemplo, ao invés de criticarem os indivíduos que fazem uso da religião como ferramenta de enriquecimento e de poder), podiam até defender a mistura de raças, mas geralmente se omitiam sobre a escravidão e a comercialização de povos da África subsaariana, uns defendiam uma maior igualdade de gênero, mas permitindo escravidão infantil etc etc... É claro, os grupos "sociais" (elitizados) com quais eles conviviam também deveriam exercer alguma influência neles, porém ao meu ver, os nobres, burgueses, sacerdotes e militares que entraram no campo da filosofia do período iluminista eram formadores de opinião (como existem formadores de opinião hoje, no século 21), e portanto, exerciam mais influência do que eram influenciados e assim deveriam ter mais responsabilidades. Não estou remoendo o passado aqui, e sim, apenas levantando fatos dos quais pouco se falam, seja na história ensinadas no ensino médio, seja na academia. Pois desde o ensino médio ao curso superior, vejo narrativas extremamente ingênuas da história e do sistema sócio econômico que predomina no ocidente desde a era moderna: São professores que ignoram fatos de suma importância, preferindo uma narrativa reducionista (que eles devem considerar um resumo aceitável) que diminui a história da ciência e da filosofia, ignora a história dos filósofos e descrevem o capitalismo praticamente como se fosse uma razoável força da natureza, sem interesses de determinados grupos de pessoas por trás. Portanto faço esse brevíssimo levantamento para colocar a importância destes personagens históricos e suas obras em seu devido lugar, tirando-as da posição dogmática de verdades superiores, quase dignas de idolatria! 
 Esta é a sociedade ocidental (da Europa e da América colonizada) quando surgem as democracias. Os sistemas de governo democráticos (ou seja, que dão poder ao povo, ao menos, supostamente) surgiram em um cenário marcado por elites manipuladoras que ditavam o que era verdade, seja na ciência, na filosofia bastante distanciada dos autores socráticos e platônicos ou em outras áreas como economia e governo. A tal elite intelectual que formou as bases da ciência tradicional e dos sistemas social e econômico nem conseguiu se livrar das piores características da religião, que continuou cheia de fundamentalistas e manipuladores das massas. Isto porque apesar de algumas conquistas, o pensamento difundido foi predominantemente (e meramente) racionalista, se mantendo indiferente a diversas questões essenciais do ser humano. Os sistemas democráticos por exemplo (o presidencialismo e o parlamentarismo) foram instaurados nas nações já com uma burguesia bem enraizada, cheia de poder e influência na sociedade. A filosofia que formou as bases da ciência criticou mais os pontos insignificantes das religiões do que os pontos mais nocivos à humanidade, como os dogmas, a hierarquização (autoritária) e a manipulação dos fiéis para que poucos líderes adquirissem riqueza e/ ou poder. 
 Obviamente os estudos científicos permitiram o desenvolvimento de tecnologias e o surgimento da indústria (isto é bom), mas desde sua origem na elite intelectual da era moderna, a filosofia e a ciência, deixaram um espaço considerável para se fazer o mal, ou seja, favorecer mais as pequenas elites, prejudicando mais as massas. 
 É neste contexto após o iluminismo, que acaba pouco antes da partilha (invasão) da África (1885 a 1914) e das duas guerras mundiais (1914 a 1918 e 1939 a 1945), que surgem as doutrinas da produtividade e do consumismo. Oras, os sociólogos sabem que a era moderna e seu discurso de que o homem é o centro do universo (que supostamente podia descobrir e fazer tudo) caem por terra após estes eventos fomentados por doutrinas racistas, violentas, falaciosas e opressoras como o darwinismo social, o fascismo e o nazismo. [*] 
 Enfim, foi durante as duas últimas duas décadas da partilha da África pelas "potências" européias (um punhado de governantes e de empresários enriquecidos) que finalmente surgiu um questionamento embasado (a fenomenologia, um movimento intelectual filosófico/ científico surgido na 1ª década do século 20) sobre os pressupostos filosóficos que serviam de base da ciência tradicional newtoniana, que permanecia intocável desde o século 18. Assim, a fenomenologia refuta os pressupostos da ciência tradicional e passa a trabalhar a questão da intencionalidade. Não vou detalhar mais a fenomenologia, pois já apresentei um resumo em outro texto sobre este movimento que lentamente ganhou força, mas não o suficiente para renovar a ciência. De certo modo, a dominância do arcaico modelo atomista/ materialista nas ciências resistiu até mesmo às propostas de Einstein (1916) e de Bertalanffy (1927). 

 "Surgem" as doutrinas da produtividade e do consumismo 
 Após o fim da 2ª guerra e da era moderna então surgiu um vácuo de doutrinas dominantes, ao menos no ocidente. É neste período de desenvolvimento industrial que são colocadas em prática as doutrinas da produtividade e do consumismo. E quem colocou em prática? As massas empobrecidas? Obviamente não. Quem propagou tais doutrinas foram novamente as elites, desta vez nem tão intelectuais assim, já que não havia mais necessidade de tanto intelectualismo: As mídias foram ampliadas pela industrialização, dando origem aos meios de comunicação em massa logo no período entre guerras. 
 Resumidamente, o discurso pró produtividade começa com Taylor e Ford (posso estar esquecendo de outros nomes), que tornaram-se modelos para o mundo empresarial por décadas, ao priorizar a qualidade e a velocidade da linha de produção da indústria. 
 Obviamente estes "gênios" praticamente esqueceram-se dos fatores humanos (ou não se importaram), como pressão no ambiente de trabalho e de variadas dificuldades sociais e econômicas que os trabalhadores enfrentavam em suas vidas profissionais. 
 Como eu não estudarei mais história, não trarei nomes de indivíduos poderosos específicos que fomentaram o consumismo e o acúmulo de bens. Basta entender que isto foi fomentado através da televisão, rádio, revistas e jornais, diretamente e indiretamente, em muitos dos filmes, séries, programas de auditório, matérias supostamente jornalísticas ou de entretenimento e principalmente em propagandas (geralmente das maiores empresas de qualquer segmento), desde o fim dos anos 50 até meados dos anos 90. Sim, muita "água rolou" neste tempo, como por exemplo, uma certa oficialização e propagação do liberalismo "renovado", ou seja, do neoliberalismo (direita), contra todos movimentos a favor da sociedade, da equidade e da infraestrutura dos países (esquerda). Em suma a nova direita venceu a esquerda na guerra fria, penetrando até mesmo nações que não estavam envolvidas diretamente em tal conflito. 
 Após os anos 90, com a proliferação da internet e das mídias digitais as falácias a favor de multimilionários e contra a maioria empobrecida das nações se intensificou: o conceito de pós verdade onde as narrativas sobrepõem os fatos, foi levado às últimas consequências, espalhando mentiras (fake news) surreais... Isto sem contar os algoritmos criados pelas empresas de mídia digital que fomentam "bolhas" de segmentação social ("panelinhas", grupos rivais religiosos, políticos etc). Mas a coisa não para por aí: O discurso meritocrata sobrevive, incitando a auto exploração ao lado da anulação de direitos dos trabalhadores em diversas sociedades - marcas registradas do neoliberalismo, ou seja, do capitalismo mais desregulado. 
 Até aqui levantei uma série de problemas, mas não mostrei argumentos contrários nem propostas alternativas... Como ajudar as massas de pessoas atarefadas pelo sistema capitalista? Recomendar que façam suas escolha seguindo a fé ou seu coração lhes parecerá mera ingenuidade, pois os discursos da produtividade e/ou da competitividade convenceram-os pelo medo ou pela fascinação. 
 O discurso da produtividade em geral alega uma suposta necessidade no trabalho submisso e/ou exagerado/ exaustivo. Utiliza/ causa uma dessensibilização nas pessoas, fomentando um sutil mas significante desprezo pela importância dos sentimentos, do sentir e das expressões... 

 Contra a falácia da produtividade e do consumismo 
 Então, uma possível resposta é contra-atacar o discurso, explicando/ mostrando a importância do sentimento e da condição mental. É preciso levantar a questão da intenção (como a fenomenologia fez ao trazer a intencionalidade) e dos motivos que levam as pessoas fazerem escolhas, mas não basta explicar friamente, pois estes discursos capitalistas são notoriamente frios (talvez, em alguns pontos, ao priorizar o ganho pessoal sobre o cuidar do próximo e do convívio pacífico, os discursos sejam perversos mesmo). 
 Tanto a psicologia, como a psiquiatria e até mesmo a religião indicam que o sentimento é interno da mente/ alma de cada indivíduo e não deve se adaptar à uma cobrança externa indiferente ao seu bem-estar. 
 A importância desse fator interno é tanta que ele determina as emoções e o sentir. Em estudos psicológicos, como os da logoterapia por exemplo, ele liga-se às motivações e às crenças que podem ser muito profundas. Este(s) sentimento(s) determinam um sentido de vida da pessoa. Este sentido resumidamente é uma busca por algo além de si: a busca por um grande amor em Vida, uma fé ou crença em algo maior, como o Criador, o Todo e/ ou Deus ou a busca pela realização de um objetivo, um projeto ou missão.
 Já a religião cristã, em sua origem, é praticamente contrária a estas doutrinas da produtividade e do acúmulo e consumo de bens, pois indica a importância do amor ao próximo e à tudo (Deus e sua criação). Várias passagens desde Isaias, até os 4 evangelhos sobre a vida de Jesus e os atos dos apóstolos indicam isto: 
 
..."Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. 
 Jesus disse: "É impossível que um homem (simultaneamente) monte dois cavalos ou estique dois arcos. Nenhum homem bebe vinho velho e imediatamente deseja beber vinho novo. Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom (riqueza, luxo). Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? 
 Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? 
 E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; 
 Dá a qualquer que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir. 
 E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também. Se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. 
 E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo. 
 E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto." 
 E pediu-lhe um da multidão: Mestre, dize a meus irmãos que repartam comigo a herança. Mas ele lhe disse: "Ó homem, quem me fez um divisor?" Quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós? 
 Voltou-se para os discípulos e disse-lhes: "Não sou um divisor, eu sou?" Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui. E propôs-lhe uma parábola, dizendo: "Havia um homem rico que tinha muito dinheiro e não lhe faltava nada. Ele disse: Eu colocarei meu dinheiro em uso para que eu possa semear, plantar, colher e encher meu armazém com a produção. Seus campos produziram com abundância; E pensava consigo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. 
 E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Tais eram suas intenções, mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? naquela mesma noite ele morreu. 
 Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus." 
 Um homem de posição se aproximou de Jesus e lhe perguntou: "Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna? " 
 Respondeu-lhe Jesus: "Por que você me pergunta sobre o que é bom? Há somente um que é bom (Deus). Se você quer entrar na vida, obedeça aos mandamentos". 
 "Quais? ", perguntou ele. 
 Jesus respondeu: " ‘Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe’ e ‘amarás o teu próximo como a ti mesmo’". 
 Disse-lhe o jovem: "A tudo isso tenho obedecido. O que me falta ainda? " 
 Jesus respondeu: "Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me". Ouvindo isso, o jovem afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas. 
 Então Jesus disse aos discípulos: "Digo-lhes a verdade: Dificilmente um rico entrará no Reino dos céus. E lhes digo ainda: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus". 
 Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele; E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. 
 Aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. 
 E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado. E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá. 
 E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, Pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. 
 Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. 
 E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. 
 Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite. 

 A produtividade em si não deveria fazer mal contanto que respeitasse as necessidades básicas das pessoas que vão desde as fisiológicas como as sociais, de lazer, condições dignas de transporte, moradia etc. Obviamente para manter a saúde mental das pessoas e permitir a prática de suas respectivas espiritualidades, o consumo e aquisição de bens na sociedade deveriam ser moderados e certamente regulados para evitar injustiças. 
 Nota-se então que os discursos que priorizam a produtividade, o consumo incessante e o acúmulo de bens, são contrários ao sentido de vida, que se baseia num sentimento esperançoso de amor à alguém ou a uma tarefa/ missão/ fé. Tais discursos causam o vazio existencial bem como dificultam relacionamentos empurrando as pessoas para um vazio afetivo, podendo gerar depressão, stress e ansiedade. Além disto tudo, são movimentos contrários à doutrina de amor ensinada no cristianismo - São discursos de esvaziamento sentimental e emocional que pressionam as pessoas seja fomentando medo ou desejos insaciáveis como a ganância entre outros comportamentos nocivos... 

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...