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quarta-feira, 30 de abril de 2025

O arrependimento... E Espiritualidade como Sentido de Vida

Este texto não é precisamente uma leitura dos evangelhos e tem um teor mais pessoal, mas ainda assim toca alguns temas espirituais que aparecem na cristandade: o arrependimento por exemplo.

Certamente Deus nos fez para evoluir e não para agirmos por meros instintos de reprodução/ de alimentação. Não para agirmos pelo mero prazer sensorial, mas para amarmos e pensarmos, para entendermos e sermos sábios, o que aponta para ética. Isso é ter esperança... 
Vejamos a vida e seu fluxo por exemplo: da matéria inorgânica (e de uma série de processos que desconheço) deve ter surgido a vida mais rústica/ unicelular. Daí surge a reprodução e depois a vida pluricelular, sejam algas, fungos e/ ou plantas. Surge a vida animal, como invertebrados, peixes, anfíbios, répteis, aves... e os mamíferos... que vão se tornando bípedes até o surgimento dos hominídeos e sua respectiva complexidade psíquica. 
A vida não deve parar no animalesco que vivia só pela reprodução/ alimentação, pois vida não é a lei do mais forte individualista e segregador. Não é o exagero e o desequilíbrio, onde a vida destrói a vida porque uns poucos querem acumular enormes quantidades de bens materiais ou de prazeres ilimitados, enquanto outros ficam na miséria. Os animais caçam uns aos outros porque sua limitação é sobreviver com base nas necessidades de seus corpos - o ser humano evoluiu de forma bem diferente, pois não é um quadrúpede com presas ou garras. Não tem a maxila tão especializada para morder e mastigar como um leão, um crocodilo ou um cão. Não tem a massa corpórea de um elefante, de um urso nem de um cavalo, pois não vive para priorizar meramente sua própria alimentação nem sommente para fortalecer seu próprio corpo. A existência do ser humano é um indício de que a lei natural, ou a vida em si, existe para algo mais complexo. Existem indícios de que a lei natural é da empatia e da inteligência que age em grupo para além da vida individualista. O intelecto e o sentimento humano abrem novas possibilidades: A lei então é mais do que coletiva - é expansiva, portanto universal. E cada ser deve ser assim, evoluir assim, por mais que existam diferenças que tornem as relações da vida complexas... A lei sendo da empatia, é a lei do psiquismo: o humano deve usar sua capacidade psíquica nesse sentido. De ética: esperança universal; 
Porém eu contrariei isso em um ou mais momentos de minha vida. Porquê? 
Se as formas de vida mais simples que o ser humano não contrariam as leis naturais, então essa contradição é uma monstruosidade.... E essa monstruosidade chegou ao ponto de me causar uma dor profunda... na alma. 
Aí entra o arrependimento... eu estranhei essa palavra por anos. Via na Bíblia e de alguma forma evitava pensar muito sobre o tema. Me acovardava? A palavra arrependimento soava pesada? 
Porquê? Eu achava que era só parar de fazer algo errado para fazer algo certo, ou fazer algo moralmente/ eticamente melhor. De fato, parar de fazer o mal e fazer o bem é bom, mas por anos tive dificuldade em ser sincero na postura benigna. Fiz caridade... ajudei pessoas... mas a mentalidade era muito lenta para abandonar algumas malícias e preconceitos. Fui vencendo alguns preconceitos, porém o processo pareceu não só gradual, mas também sutil... exceto em certos pontos: um dia me lembrei de um conselho ignorante e materialista que dei à minha mãe. Ignorei a necessidade de uma pessoa e a julguei oportunista... Percebi o erro após a morte de mamãe. A pessoa não era o que julguei. 
Arrependido, chorei amargamente. 
Meses se passaram e outra questão me incomodava: qual era a linha que cruzamos ao sermos sexistas? Sexismo é objetificação da vida. Quando objetificamos alguém? Eu tinha cruzado essa linha e tentei me comparar com o que parecia aceito socialmente. 
Não me serviu. Esse parâmetro é hedonista e aceita objetificar (alg)uma(s) pessoa(s) eventualmente: põe o prazer sensorial em 1⁰ plano mesmo que só por instantes, rebaixando o sentimento, o sentido e a alma. Eu já tinha percebido isso em um relacionamento que tive no ano de 2017, mas menti a mim mesmo por muito tempo. Hoje chorei amargamente essas minhas atitudes hedonistas. Eu não preciso cruzar essa linha. 
O arrependimento é uma mudança psíquica e não é gradual... é mais brusco e por isso dói. E isso me dava medo... mas ele cura... a alma. Parece a retirada de algo preso na psiquê. A retirada de algo que nos incapacitava mas parecia confortável. Mas o conforto era um tipo de ilusão que me causava contradição sem que eu entendesse claramente. Se eu deixasse essa contradição em minha psiquê até o fim desta vida, eu teria passado por uma existência sem sentido e sem espiritualidade real. Esse era o abismo que (o espírito de) Abraão diz que existe para o (espírito do) rico que desprezou o leproso no texto de Mateus? Parece que sim.

 

segunda-feira, 24 de março de 2025

Leitura sobre Jesus e o Amor desapegado

O Pai celestial gera filhos imortais (Filipe) 
O homem celestial tem muito mais filhos do que o homem terreno. Se os filhos de Adão são muitos, embora morram, quanto mais os filhos do homem perfeito, aqueles que não morrem, mas são sempre gerados. 
O pai faz um filho, e o filho não tem o poder de fazer um filho. Pois aquele que foi gerado não tem o poder de gerar, mas o filho recebe irmãos para si, não filhos. Todos os que são gerados no mundo são gerados de maneira natural, e os outros são nutridos do lugar de onde nasceram. É de ser prometido ao lugar celestial que o homem recebe nutrição. [...] ele da boca. 
 E se a palavra saísse daquele lugar, seria nutrida pela boca e se tornaria perfeita. Pois é por um beijo que os perfeitos concebem e dão à luz. Por isso também nos beijamos. Recebemos concepção da graça que está um no outro. 

O homem celestial, certamente se referindo a Deus, tem muito mais filhos do que os seres humanos na Terra. Adão, personagem da gênese do "velho testamento", deixou toda uma posterioridade de filhos, netos etc... Porém Adão e todas gerações posteriores a ele, bem como todo homem terreno, não gera filhos verdadeiramente - os gera somente de modo natural e não celestial. É somente o "homem celestial" ou "homem perfeito" que gera filhos; Por esta razão, todos nós aqui na Terra somos irmãos! Este bonito ensinamento de fraternidade e equidade parece indicar um teor espiritualista, presente em outras religiões, espiritualidade e filosofia, como o druidismo celta, o sanatana dharma (hinduísmo), a umbanda, o espiritismo etc. Apesar de um pouco fragmentada, essa passagem atribuída a Filipe é facilmente compreensível até este ponto. 
A parte final parece indicar uma relação sagrada entre a palavra (certamente divina, como no evangelho de João e no hinduísmo, por exemplo) e o beijo. O texto diz que "os perfeitos", certamente o "homem perfeito", seja Deus ou os anjos, dão a luz através do beijo. Essa luz pode ser tanto um elemento divino presente em várias religiões e na espiritualidade em geral, como pode se referir ao início de uma vida no reino celestial e/ ou espiritual. Assim esta luz poderia ser a ética dos ensinamentos de Jesus, seus valores universais como a bondade e/ ou o espírito humano, afinal uma coisa não exclui a outra: Ética, bondade e espírito são coisas distintas, ao menos aqui na Terra para a maioria dos humanos, porém o espírito humano tem a noção do bem e a capacidade de ser verdadeiramente bondoso. 
Com uma linguagem um tanto mística, essa passagem então pode indicar que nós somos gerados como espíritos imortais por Deus/ por sua palavra. Nós morremos na Terra, mas nosso espírito sobrevive depois deste ciclo corporal (de vida e morte) e possivelmente viveu antes, pois o homem não gera espírito; Nossa alma/ espírito certamente foi gerada por esse "beijo" celeste.

 Parábola do Homem Rico e Lázaro (Lucas) 
Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. 
Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele; E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. 
Aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. 
Clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado. E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá. 
E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, Pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. 
Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. 
E respondeu ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite. 

 Deus ama a todos e sua lei é o bem de todos, ou seja, o amor à todos. Deus não ignora os necessitados: Se os ricos e os poderosos na Terra não socorrerem os vulneráveis e fragilizados em vida, Deus socorrerá estes últimos no pós vida. Ainda assim Deus espera que os ricos e os poderosos na Terra aprendam a ser humildes e solidários. Ele espera que esses aprendam sua lei de amor ao próximo, afinal Deus não fez o universo para si, sim para as almas, para o ser humano, enfim, para toda forma de vida "material". Ele espera que a raça humana aprenda a amar a tudo, e uma das principais etapas de se amar a tudo, é solidarizar-se com os mais vulneráveis, com os necessitados e com os fragilizados. Desapegar-se do luxo, abandonar os excessos de prazeres materiais e acolher os que possuem menos é o início da prática do bem. 
Como o homem rico viveu todos seus dias nas regalias (riqueza material e prazeres sensoriais, por exemplo) e no esplendor (possivelmente em um elevado status social), ele percebeu seu erro somente quando (seu corpo) morreu. Sua alma sentia terrível sofrimento e possivelmente culpa, pois passou sua vida muito distante dos ensinamentos de amor ao próximo... Este tipo de vida também é criticado nas obras de Platão, por exemplo nos últimos livros de A República, quando o autor cita o comportamento típico de certos indivíduos interesseiros (filokerdes) e/ ou amantes das honrarias/ briguentos (filonikons) que assumem posições de poder da sociedade.

 A parábola das 10 virgens (Mateus) 
Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do esposo. 
E cinco delas eram prudentes, e cinco loucas (cinco descuidadas, tolas). 
As loucas, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite (óleo) consigo. 
Mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, com as suas lâmpadas. 
E, tardando o esposo, tosquenejaram todas, e adormeceram. 
Mas à meia-noite ouviu-se um clamor: Aí vem o esposo, saí-lhe ao encontro. 
Então todas aquelas virgens se levantaram, e prepararam as suas lâmpadas. 
E as loucas disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam. 
Mas as prudentes responderam, dizendo: Não seja caso que nos falte a nós e a vós, ide antes aos que o vendem, e comprai-o para vós. 
Tendo elas ido comprá-lo, chegou o esposo, e as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, então fechou-se a porta. 
E depois chegaram também as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos. 
E ele, respondendo, disse: Em verdade vos digo que vos não conheço. 
Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir. 

O reino dos céus pode se referir tanto ao pós vida para aqueles que viveram conforme a lei de amor divino, tanto ao ato de praticar os ensinamentos de Jesus, espalhando o bem equitativo/ universal na Terra; Porém nesta passagem, Jesus o compara com 10 virgens que saíram em busca do "esposo", ou seja, em busca de Deus. 
Assim, essas dez mulheres que buscavam o esposo, representam as pessoas que buscam Deus, sejam elas sacerdotes, fiéis, leigos religiosos ou espiritualistas. Esta parábola então não fala dos ateus, muito menos daqueles que abominam os ensinamentos de Jesus e a lei divina de amor. Ela fala de pessoas que têm (ou tiveram), ao menos, um mínimo interesse em Deus e em sua lei. Por isso, as mulheres descuidadas desta parábola também podem ser consideradas arrogantes ou orgulhosas - podem ser não só pessoas que se deixam levar pelas tentações, mas também podem ser os religiosos que se consideram escolhidos ou espiritualistas que se consideram superiores em relação às outras pessoas. Tanto o espiritualista/ religioso que adora e prioriza prazeres e bens materiais, como o orgulhoso, o vaidoso e o arrogante, esquecem de colocar o óleo em suas lâmpadas. O óleo é o cuidado, o respeito e as obras relativas à lei de amor, enquanto o fogo aqui parece como algo resultante disto - certamente se refere à fé/ à esperança em Deus e à purificação, ou seja, a sinceridade e progresso espiritual ao seguir a lei de amor. Estas pessoas que se dizem espiritualizadas ou religiosas, mas são egoístas ou insensíveis, certamente colherão os resultados de sua postura e de suas obras: Se não nesta vida, ao serem desmascaradas, certamente colherão os resultados na morte, na transição para a vida espiritual. Ali não participarão da alegria pura dos humildes e solidários. 

 A Mulher Adúltera (João) 
Jesus, porém, foi para o Monte das Oliveiras. (possivelmente repousar à noite) E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava. 
Então os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? 
Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra. 
Como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. 
Quando ouviram isto, redargüidos da consciência (expostos, desmentidos), saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio. 
Endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? 
E ela disse: Ninguém, Senhor. 
Então disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais. 

 Estudiosos do cristianismo consideram esta uma passagem típica de Lucas por tratar de uma mulher (um tema que era tabu para os outros apóstolos e para a maioria das pessoas do Império Romano durante o século 1). Independente de quem seja o autor, o texto traz temas importantes: Os acusadores da mulher alegam que ela foi pega no ato do adultério, ou seja, pecando por traição e/ ou fornicação. Isto é bastante duvidoso, pois possivelmente também teriam pego o homem com quem a mulher estaria traindo seu suposto marido. De qualquer maneira, o texto evidencia o machismo daquela época (antiguidade), principalmente entre os judeus e sua sociedade altamente patriarcal. Sedentos para punir a jovem, os escribas são frustrados por Jesus, que mostra que eles são tão ou mais pecadores do que a moça. Após os escribas retirarem-se em sua vergonha, Jesus não condena a jovem e pede para que ela não peque mais. O pecado ou erro aqui pode ser o adultério, que se trata de qualquer ação sexista, priorizando os atributos sexuais e os atos prazerosos menosprezando amizade, lealdade e amor. Poderia ser até mesmo uma possível submissão a um homem insensível e/ ou materialista, porém o mais importante é não julgar, afinal Jesus não a condenou! Ele centra seus ensinamentos no amor ao próximo, a si mesmo e a Deus - um amor equitativo a tudo. Utópico? Talvez, mas não é impossível, pois em outra passagem de João Evangelista, Jesus diz que para Deus nada é impossível, insinuando que é o ser humano que faz mal uso de  seu livre arbítrio. Afinal, Jesus também disse às pessoas: vós sois deuses, indicando que é possível viver seus ensinamentos de amor a todos de maneira equitativa. 

 Maria Madalena precisa de Jesus (Filipe) 
 Quanto à Sabedoria que é chamada "a estéril", ela é a mãe dos anjos. E a companheira de [...] Maria Madalena. 
 [... Jesus?] a amava mais do que a todos os discípulos e costumava beijá-la frequentemente na boca. O resto dos discípulos [... estranharam isso?]. 
 Eles lhe disseram: "Por que você a ama mais do que todos nós?" O Salvador respondeu e disse-lhes: "Por que eu não os amo como ela? Quando um cego e um que vê estão juntos na escuridão, eles não são diferentes um do outro. Quando a luz vem, então aquele que vê, verá a luz, e o cego ficará nas trevas”. 

 Certamente houveram muitos motivos para não se incluir o evangelho de Filipe na bíblia cristã. Se Jesus amou mais Maria Madalena do que os demais apóstolos, isto não é algo que se comprova com meros documentos. O importante é não deixar de entender que os ensinamentos de Jesus, seguem a lei de Deus, que é de amor - um amor puro, intenso e vasto para com todos seus filhos que são parte de sua criação. Na vida terrestre o que mais deve se aproximar deste amor divino é o amor materno/ paterno. Seja qual for a relação de Jesus com Madalena, seu sentimento deveria ser puro, embora erros existam na percepção de cada indivíduo que lê e tenta compreender os textos dos apóstolos. Jesus não tinha desejos particulares nem mesquinhos, pois como filho de Deus que viria a se unir com o Pai, ele certamente trabalhava para salvar a alma de Madalena como trabalhou para salvar a de Simão Pedro e de muitas outras pessoas. Com sua fala, talvez Jesus quis dizer que deveria permanecer próximo a Madalena para que essa, em sua separação, pudesse ver (a aparição de) Jesus transcendendo a vida corpórea/ material (Madalena é a primeira a ver Jesus após sua morte).
Por fim, a passagem ganhou relativa fama entre espiritualistas independentes, talvez devido a movimentos espiritualistas como o New age, da segunda metade do século 20. Entre estes grupos, espalhou-se a história que Jesus não foi crucificado e teve filhos com Madalena, mas particularmente optei por não discutir tal teoria em meus textos, pois no evangelho de Filipe não consta tais histórias. 
 

 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

As Margens entre Ciências Humanas/Biológicas e Misticismo

 

Falar de crenças ainda é um tabu no meio acadêmico/ científico. A psicologia que, em partes, deveria estudar seus efeitos e causas, está dividida. Tal divisão é profunda e é similar à que ocorre com alguns outros campos da ciência também. 

Em outro texto ( https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/07/a-alma-um-tema-talvez-inconclusivo-mas.html ) mencionei um médico, que ao observar pacientes que passaram por EQM, teorizou que a “consciência” existe além do cérebro. Uma "afronta" aos materialistas/ empiristas, feita por alguém que basicamente estudou uma ciência alicerçada sobre o método empírico: A medicina. Por um outro lado, a Organização Mundial da Saúde já admite que a espiritualidade tem sua importância na saúde mental de muitas pessoas. O Consciente/ a Consciência e as Crenças As crenças, se levadas a sério, têm sua influência não necessariamente na consciência - muitas vezes elas ficam no subconsciente (ou inconsciente) até serem resgatadas pela consciência. Obviamente toda informação em nossa mente/ aparelho psíquico, seja uma memória, um sentimento ou mesmo uma interpretação, não deixam de existir em momento algum: Elas apenas ficam inativas ou fora da percepção da consciência por determinados períodos (afinal, deixar de existir para voltar a existir depois de algum tempo, não é muito científico). Isto é claro nos estudos psicológicos da frente psicanalítica, sejam estudos de Freud, de Jung ou de outro estudioso desta área. Uma crença levada a sério é “um acreditar”, podendo ser considerada uma “certeza” da pessoa que acredita. 

Na frente fenomenológica da psicologia, esta crença faz parte da realidade do indivíduo. Afinal, para se estudar uma pessoa em particular (paciente, cliente etc), deve-se não só evitar preconceitos, como também suspender bases teóricas generalistas, que às vezes, por não levar em consideração os fatos particulares de cada pessoa, acabam colaborando para diagnósticos errados. Nestas abordagens fenomenológicas a consciência é uma atividade direcionada, sempre sendo uma consciência de algo, o que as aproximam da teoria geral dos sistemas. Sendo assim, a consciência do psicoterapeuta trabalha desvelando os “acidentes” (de certo modo, os fatos históricos constituintes do objeto/ ser) para chegar à essência do "objeto" (paciente etc). Então, mesmo com as diferenças entre psicanálise e fenomenologia, pode-se notar que a consciência (o consciente) é um elemento ativo do aparelho psíquico. Em ambas bases de estudo (quer você considere científicas ou não) a consciência não tem substância perceptível pelos 5 sentidos humanos, mas lida com informações captadas pelos sentidos e com intenções e elementos mais “profundos” de nossas mentes, sendo que estes últimos a frente psicanalítica posiciona no inconsciente. 

Voltando à pessoa que crê em algo, o seu interesse e/ou a sua fascinação são “aberturas” na mente que podem ser consideradas vulnerabilidades. Isto ocorre porque, em um relacionamento com outro indivíduo por exemplo, o interesse e a fascinação permitem a criação de um elo ou empatia com uma “pessoa”. Se esta pessoa for mal intencionada ela pode usar desta abertura psíquica para “atacar” o indivíduo fascinado ou vulnerável. Este ataque não é necessariamente algo destrutivo, podendo ser uma influência que se transmite pelo inconsciente. Uma manipulação emocional já pode ser considerada como uma influência mais naturalmente perceptível. 

Esta influência é “tratada” pela hipnose e por diversos meios chamados de mágicos, místicos e afins. Nestes últimos meios ela é frequentemente considerada um ataque astral. 

 

Das Teorias Místicas até as Científicas 

Ataques astrais podem ser feitos à distância quando o atacante tem um objeto do alvo em posse. Este tipo de ataque é mais difícil de ser realizado e recebe vários outros nomes genéricos pouco precisos, desde magia negra até vudu… 

Não estar com a mente, ou talvez mais precisamente, o inconsciente, aberto, é uma maneira efetiva de defesa contra influências nocivas (ou ataques astrais). Tranquilidade, estabilidade e fé são meios de defesa contra ataques astrais. Certamente estados de depressão e ansiedade são estados de vulnerabilidade, pois estão relacionados a vazios (literais) afetivos/ existenciais. 

É óbvio que céticos materialistas abominam estes fatos, geralmente negando-os pelo fato de praticamente não poderem ser detectados no espaço-tempo conhecido, como por exemplo, na atmosfera ou nos corpos humanos. 

Há teorias que afirmam que sentimentos e interações como essas afetam muito sutilmente os campos eletromagnéticos (não estou falando necessariamente de Kardec aqui, temos estudos muito mais recentes feitos pelo Heartmath Institute Research Center e por outros cientistas)… Isto deve explicar porque é mais fácil realizar ataques próximos, pois nestes casos os corpos ou cérebros devem manifestar algum tipo de campo sutil, ainda pouco conhecido na atualidade. 

Note que sofrimentos psíquicos, dos quais os leigos chamam de momento difícil, podem gerar vulnerabilidades. Todo sentimento negativo acaba se relacionando com algum tipo de sofrimento e pode eventualmente constituir psicopatologias ou comportamentos doentios. O termo doentio é usado aqui para definir nocivo - algo que propaga sofrimento, dificuldades e, em alguns casos mais extremos, doença e morte. 

 De acordo com teorias místicas, cascas astrais são formas residuais relacionadas aos corpos astrais (talvez às almas desencarnadas também). Ao atingir outros níveis de consciência (ou acessar planos superiores também?), a casca astral pode se dissolver ou permanecer algum “tempo” no plano astral, servindo para mentes (inconscientes ou espíritos) encarnadas ou desencarnadas. Esta casca pode ser habitada por elementais ou por vontades e desejos naquele nível de “consciência” (que a casca ficou). Sejam mentes ou espíritos, eles são apegados à vida terrestre e tendem a buscar “energias” como parasitas. 

Praticamente todos esses elementos são discutidos apenas entre místicos porque lidam com o “imaterial” ou incorpóreo. Porém eles também trabalham os sentimentos e o inconsciente, ocasionalmente chamado de subconsciente. Como mencionado anteriormente, de acordo com alguns métodos utilizados na psicologia, a consciência funciona como uma projeção de luz, ou talvez como um olhar. Ela é constituída de elementos como o direcionamento da atenção, da intencionalidade. Tais elementos interagem de maneira cíclica com o meio ambiente e com a própria mente: às vezes por ação, às vezes por reação. 

Este ciclo se estende até variadas "profundidades" do aparelho psíquico, atingindo o que as abordagens psicanalíticas chamam de inconsciente. Portanto afetam o sentimento também. Por fim, estas relações dos elementos do aparelho psíquico também interagem com o respectivo corpo. Assim, podemos considerar relações: 

Psíquica-psíquica: Da mente consigo mesma (ao pensar, lembrar) ou com outra mente (ao influenciar uma ou mais pessoas); 

Psíquica-corporal: Da mente com o próprio corpo (fatores psicossomáticos); 

Psíquica-social: Da mente com ambiente externo (interpretações de diversos elementos do ambiente etc); 

Psíquica-espiritual: Da mente com elementos pouco estudados e compreendidos, que geralmente passam pelo inconsciente (experiências transcendentais, visões e afins). Este último ainda é pouco aceito nas ciências do século XXI, mas alguns órgãos como a OMS (já mencionada anteriormente) já admite a importância da espiritualidade/ religiosidade na saúde de algumas pessoas. 

Nas teorias místicas, chakras e sefirots estão muito ligados aos sentimentos (emoções não necessariamente manifestadas no mundo físico). Eles relacionam-se com o aparelho psíquico e com o corpo físico, sendo que o aparelho psíquico existe no corpo astral, ou é sinônimo deste. Obviamente estas teorias não têm embasamento científico, mesmo porque são mais antigas do que o iluminismo europeu, e portanto, mais antigas do que chamamos de ciência. Mas mesmo nas ciências atuais, temos alguns estudos tímidos (por falta de transdisciplinaridade) sobre as relações do cérebro com outros pontos do corpo, seja com o sistema cardiovascular ou com o endócrino. (vide os estudos do Instituto Heartmath e de Srini Pillay, professor de psiquiatria da escola médica de Harvard) 

Nas teorias mais espiritualistas/ místicas, os sofrimentos podem atrair espíritos que buscam energias. Sofrimentos superficiais mas persistentes ou ampliados por desejos individualistas, egoístas, inveja e sentimentos similares podem ser destrutivos também “nestas teorias” e não apenas na psicologia cardíaca. 

Pensamentos e sentimentos, como praticamente tudo, depende de algum nível de relação. Sendo assim, podemos considerar uma pessoa demonstrando raiva, geralmente não atrai uma pessoa alegre. Atraímos o que pensamos, mas imaginar que só somos felizes com algumas determinadas coisas não atrai tal coisa. Isto ocorre porque há uma "infelicidade'' no caminho, por exemplo: “Só serei feliz quando tiver uma determinada casa”. Esta afirmação não só impõe uma condição, ela está centrada nesta condição que não é uma realidade naquele momento e que está obstruindo a felicidade. Ela também não afirma que a pessoa terá a casa, ela afirma que a felicidade só será alcançada SE aquela condição for satisfeita. A afirmação atira para o futuro, e por si só, jamais traz para o presente a “tão desejada condição”. Nas abordagens fenomenológicas da psicologia, esta condição certamente é nociva ao paciente/ cliente: É o que ele escolhe fazer com seu respectivo desejo ou dificuldade. 

*texto originalmente publicado em agosto de 2021, no blog Nea Ekklesia

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...