Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este texto. Kardec parece admirar ou concordar em partes com o texto que Renan escreveu sobre Jesus: Numa tentativa de descrever um Jesus histórico certamente partindo de um pressuposto materialista, Renan identifica Jesus como um indivíduo simples e alegre, mas recusa praticamente todas mensagens espirituais do "fundador do cristianismo". É este último ponto que Kardec refuta - as mensagens espirituais de Jesus permeiam seus ensinamentos, pois a caridade e o perdão de Jesus não se limita à vida material: frequentemente ele fala que seu reino não é deste mundo, fala de um reino dos céus, fala não busqueis os tesouros da Terra etc.
Apesar das correções de Kardec, os apontamentos do tal Renan sobre as passagens de Jesus nos evangelhos são no mínimo interessantes, para não dizer importantes, e por isso vou citá-los à seguir...
“Três ou quatro galileias dedicadas acompanhavam sempre o jovem mestre e disputavam o prazer de escutá-lo e dele cuidar, cada uma por sua vez. Elas traziam para a seita nova um elemento de entusiasmo e de maravilhoso, cuja importância já se apreende. Uma delas, Maria de Magdala, que celebrizou no mundo o nome de sua pobre aldeia, parece ter sido uma criatura muito exaltada. Segundo a linguagem da época, tinha sido possessa de sete demônios, isto é, tinha sido afetada de doenças nervosas e aparentemente inexplicáveis. Por sua beleza pura e suave, Jesus acalmou essa organização perturbada. A Madalena lhe foi fiel até ao Gólgota e, no dia seguinte à sua morte, representou um papel de primeira ordem, porque foi o principal instrumento pelo qual se estabeleceu a fé na ressurreição, como veremos adiante. Joana, mulher de Cusa, um dos intendentes de Antipas, Suzana e outras, que ficaram desconhecidas, o seguiam sem cessar e o serviam. Algumas eram ricas e punham, por sua fortuna, o jovem profeta em posição de viver sem exercer o ofício que tinha exercido até então.” (Cap. IX, pág. 151).
O autor acerta ao indicar que Maria Magdalena representou um papel importante como seguidora de Jesus - um papel frequentemente esquecido ou negado entre religiosos. Porém ele já mostra seu viés materialista e possivelmente biologista ao afirmar que Magdalena era afetada de doenças nervosas. Ainda que Magdalena pudesse ter algum problema neuropsicológico, reduzir a realidade da personagem a tal visão positivista típica da ciência moderna do séc 19, é ignorar o contexto em que ela viveu: a época, as prioridades e os valores de Magdalena e de seu "mestre" Jesus de Nazaré.
“Jesus compreendeu bem depressa que o mundo oficial de seu tempo absolutamente não se prestaria para o seu reino. Ele tomou seu partido com extrema ousadia. Deixando de lado toda essa gente de coração seco e de estreitos preconceitos, voltou-se para os simples. O reino de Deus é feito para as crianças e para os que se lhes assemelham; para os desprezados deste mundo, vítimas da arrogância social que repele o homem bom, mas humilde... O puro ebionismo, significando que somente os pobres (ebionin) serão salvos; que o reino dos pobres vai chegar, foi, portanto, a doutrina de Jesus.” (Cap. XI, pág. 178).
Interessante como o autor aponta aspectos frequentemente ignorados da vida de Jesus: ele priorizou sim os mais humildes, os mais pobres e os mais rejeitados da sociedade, pois estes dificilmente teriam a arrogância e a intolerância comum em pessoas com maior riquezas materiais, status social etc.
Essa compreensão que o mundo do seu tempo não serviria ao reino de Deus, é mais um indício que a mensagem de Jesus era de por em prática um amor alegre e uma amizade universal, mas também é um indicador que tal reino transcende o mundano, como pode-se notar em vários outros de seus ensinamentos.
“Ele não apreciava os estados da alma senão em proporção ao amor que a eles se agrega. Mulheres com o coração cheio de lágrimas e dispostas por suas faltas aos sentimentos de humildade estavam mais perto de seu reino que as de natureza medíocre, as quais muitas vezes têm pouco mérito por não terem falido. Por outro lado, concebe-se que essas almas ternas, achando em sua conversão à seita um meio fácil de reabilitação, a ele se ligavam com paixão.”
“Longe de buscar atenuar os murmúrios levantados por seu desdém às suscetibilidades sociais do tempo, ele parecia ter prazer em excitá-los. Jamais foi confessado mais alto esse desprezo pelo mundo, que é a condição das grandes coisas e da grande originalidade. Ele só perdoava o rico quando esse rico, por força de algum preconceito, era malvisto pela Sociedade. Ele preferia abertamente a gente de vida equivocada e dedicava pouca consideração aos notáveis ortodoxos. Ele lhes dizia: ‘Publicanos e cortesãs vos precederão no reino de Deus. João veio; publicanos e cortesãs creram nele e malgrado isto vós não vos convertestes.’ Compreende-se que a censura por não terem seguido o bom exemplo que lhes davam as filhas do prazer deveria ser terrível para criaturas que faziam profissão de gravidade e de uma moral rígida.
“Ele não tinha qualquer afetação exterior nem mostra de austeridade. Não fugia à alegria, pois ia de boa vontade às festas de casamento. Um de seus milagres foi feito para alegrar umas bodas de vilarejo. As bodas no Oriente se dão à noite. Cada um leva uma lâmpada; as luzes que vão e vêm têm um efeito muito agradável. Jesus gostava desse aspecto alegre e animado e daí tirava as suas parábolas.” (Cap. XI, pág. 187).
Neste último trecho o autor diz que Jesus não tinha mostra de austeridade: De fato, Jesus em sua humildade, jamais ordenou fardos pesados aos outros, pelo contrário: apontou que os religiosos faziam isto com o povo. Mas o próprio grande desapego de Jesus por bens materiais e status social certamente é austero para muita gente, seja para hedonistas, para vaidosos ou para briguentos.
“Os Fariseus e os doutores gritavam com o escândalo: ‘Vede com que gente ele come!’ Jesus tinha, então, finas respostas, que exasperavam os hipócritas: ‘Não são os que estão com saúde que precisam de médico.’” (Cap. XI, pág. 185).
Sobre este trecho, Kardec aponta que a "máxima" (o ensinamento) do parágrafo é deformada numa simples tirada espirituosa por Renan, devido ao seu viés materialista.
De fato Jesus considerava ambos doentes de alma: o "grupos" dos comilões/ beberrões e o "grupo" dos fariseus, saduceus e escribas. A diferença é que os primeiros tinham humildade e aceitavam ouvir Jesus, já os últimos (religiosos, conservadores etc) não aceitavam ensinamento algum de Jesus, pois consideravam-se entendidos da religião e/ ou escolhidos de Deus. Jesus então só dirigia a palavra a tais religiosos para criticar suas posturas arrogantes, hipócritas e interesseiras.
“Essa vida alegre e facilmente satisfeita não levava ao grosso materialismo do nosso camponês; à grande alegria de uma normanda generosa; à pesada alegria dos flamengos. Ela se espiritualizava em sonhos etéreos, numa espécie de misticismo poético, confundindo o Céu e a Terra... A alegria fará parte do reino de Deus. Não é a filha dos humildes de coração, dos homens de boa vontade?
Se o autor reconheceu espiritualidade na vida alegre de Jesus neste trecho, parece não haver reducionismos ou mera opinião: Muitas passagens mostra a humildade de Jesus que era mais alegre do que irada ou sisuda.
“Toda a história do Cristianismo nascente tornou-se, assim, uma deliciosa pastoral. Um Messias em repasto de bodas; a cortesã e o bom Zaqueu chamados a seus festins; os fundadores do reino do Céu, como um cortejo de paraninfos: eis o que a Galileia ousou e fez aceitar.” (Cap. IV, pág. 67).
“Um sentimento de admirável profundidade em tudo isto dominou Jesus, bem como o bando de garotos alegres que o acompanhavam, e dele fez para a eternidade o verdadeiro criador da paz da alma, o grande consolador da vida.” (Cap. X, pág. 176).
“Utopias de vida bem-aventurada fundadas na fraternidade dos homens e o culto puro do verdadeiro Deus preocupavam as almas elevadas e produziam de todos os lados ensaios ousados, sinceros, mas de pouco futuro.” (Cap. X, pág. 172).
Este último parágrafo contém mais um reducionismo: Jesus produziu ensaios ousados e sinceros... mas de pouco futuro? É claro que se você tem a "certeza" de que o ser humano é puramente biológico, que alma não existe, que não há nada além do espaço... então os ensinamentos de Jesus parecerão de pouco ou nenhum futuro mesmo! Todo ensino sobre a importância da solidariedade e do desapego à matéria perde todo (ou grande parte d)o sentido para quem vive um estilo de vida materialista - onde procura-se "curtir a vida ao máximo" "porque só se vive uma vez e nada existe após a morte do corpo". Os ensinos de Jesus produziram ensaios com futuro porque ele considera a existência para além do mero corpo "material". É uma utopia porque Jesus teve esperança e não desistiu de seus ensinamentos até o fim e é sincero porque ele sabia que a humanidade precisa tornar-se mais humilde, solidária, tolerante etc. Este saber de Jesus prova que ele era consciente, o que talvez Renan não tenha notado - Talvez ele tenha interpretado que Jesus fosse mais um indivíduo irreverente do que um filósofo de espiritualidade revolucionária que ensinou a importância do amor até ser pego e executado. Morto pelos religiosos conservadores, interesseiros, insensíveis e metidos a detentores da verdade de sua época.
“No Oriente, a casa onde desce um estrangeiro torna-se imediatamente um lugar público. Toda a aldeia aí se reúne. As crianças a invadem, os criados as afastam, mas elas sempre voltam. Jesus não suportava que maltratassem esses ingênuos ouvintes; aproximava-os de si e os abraçava. As mães, encorajadas por tal acolhida, lhe traziam seus bebês para que ele os tocasse... Assim as mulheres e as crianças o adoravam...
“A religião nascente foi, assim, sob vários aspectos, um movimento de mulheres e de crianças. Estas últimas faziam em seu redor como que uma jovem guarda para a inauguração de sua inocente realeza, e lhe faziam pequenas ovações, com as quais ele muito se alegrava, chamando-o filho de David, gritando Hosanna e agitando palmas em seu redor. Jesus, como Savanarola, talvez as fizesse servir de instrumento a missões piedosas. Ele estava muito à vontade para ver esses jovens apóstolos, que não o comprometiam, lançando-se à frente e lhe conferindo títulos que ele próprio não ousava tomar.” (Cap. XI, pág. 190).
Enfim, estas observações ressaltam a humildade alegre de Jesus e algumas possíveis consequências disto. Renan, ao ressaltar a importância que Jesus deu às crianças e às mulheres, não parece errado. Inclusive existiram cristãos que aceitaram mulheres nas pregações durante os primeiros séculos após a morte de Jesus e anteriores à fundação da igreja com a oficialização do nome "católica" (no século 4). Apesar dos pontos interessantes que eu trouxe nesta postagem, o autor escreve outras opiniões menos precisas ou mais contraditórias sobre Jesus, que Kardec critica, mas não discutirei tais pontos de vista aqui.
Claro, que o autor materialista poderia achar que a alegria de Jesus era somente de viver a vida mundana junto aos outros, mas excluindo esta visão reducionista, Renan acaba ressaltando uma característica aparentemente ignorada de Jesus: ele foi alegre! Acolheu as crianças e as mulheres, andou com aqueles que erravam não por apreciar vícios ou grosserias, mas por ter esperança e ânimo de dialogar com eles! Dialogar não é ameaçar nem insistir quando os outros já não têm interesse: é se abrir, mostrar caminhos e levar esperança. Jesus também não contrariou o consumo de vinho na festa de bodas nem quis punir pessoa alguma ao longo de suas caminhadas e ensinamentos! Ele só ficou indignado com os avarentos, os golpistas e os religiosos que julgavam os outros.
A alegria de Jesus é pouco vista entre religiosos e entre ateus. Os primeiros geralmente estão em ambientes de repressão, cheio de dogmas e com pouca ou nenhuma universalidade e os segundos, ou desconsideram Jesus ou acham que ele foi um revolucionário materialista...
Talvez seja difícil tentar fazer um mundo melhor vivendo com humildade, alegria e esperança. Esperança que vê esta vida como passageira servindo para um destino onde a alegria não cessa - onde a inexistência não faz sentido; onde há justiça, mas também há amor por todos, pois alegria é a expressão do amor de Jesus. Amor que não acaba. Universal e eterno.