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sábado, 7 de dezembro de 2024

Leitura ecumênica sobre Renúncia, "Luz Divina" e "Milagres"

Os apóstolos e a luz de Deus (Tomé) 

Jesus disse: "Se eles disserem a você: 'De onde você veio?', diga-lhes: 'Nós viemos da luz, o lugar onde a luz nasceu por si mesma e se estabeleceu [a si mesma] e se manifestou através de sua imagem.' Se lhe disserem: 'É você?', diga: 'Somos seus filhos, somos os eleitos do Pai Vivo'. Se lhe perguntarem: 'Qual é o sinal de seu pai em você?', diga-lhes: 'É movimento e repouso'." 

Seus discípulos lhe disseram: "Quando virá o repouso dos mortos e quando virá o novo mundo?" Ele lhes disse: "O que vocês esperam já chegou, mas vocês não reconhecem"

Mais um texto de Tomé onde o autor fala da "luz" e da "imagem"; Como notado nos textos anteriores de Filipe e de Tomé, a luz é uma realidade superior, divina, pois está relacionada com “O Pai”, ou seja, Deus. O mundo e a vida que percebemos são imagens e a luz divina se manifesta nestas imagens, através delas etc.

Sobre o “movimento e o repouso”, talvez Jesus se refira a vida material e a vida espiritual (encarnada e desencarnada), tanto que em seguida os discípulos relacionam o repouso com os mortos e a vinda do “novo mundo”. Jesus então responde que esse novo mundo já chegou, certamente porque não deve-se ficar aguardando um reino celeste, divino etc. Jesus ensina a vivermos a lei de amor, pois assim construímos o reino de Deus na Terra. Sem ações baseadas na solidariedade, na equidade e no amor, a fé, a espiritualidade e a religião ficam alienadas e inertes. Não só a espiritualidade e a religiosidade ficam alienadas, como a própria vida social do ser humano ficaria insuportável sem a prática dos ensinamentos de Jesus. Uma vida sem amor, sem solidariedade e sem equidade, é uma vida de desprezo, intolerância e iniquidade, onde cada pessoa prioriza seus próprios benefícios mesquinhos/ egoístas ou imediatistas, competindo constantemente uns com os outros. 

Renúncia (Mateus, Marcos, Lucas, João) 

"Em seguida dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. 

Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará. 

Porque, que aproveita ao homem granjear (ganhar) o mundo todo, perdendo-se ou prejudicando-se a si mesmo? 

Porque, qualquer que de mim e das minhas palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem, quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos. E em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não provarão a morte até que vejam o reino de Deus."

Este ensinamento completa outros, como o que diz que não se serve 2 mestres ao mesmo tempo (a riqueza material e à Deus), o que diz que os ricos e os poderosos perseguirão os verdadeiros difusores do cristianismo e o que diz que o “mundo” odiará à Jesus (e seus seguidores). Quem verdadeiramente prioriza a prática do cristianismo não deve buscar salvar a própria vida, nem deve buscar grandes fortunas e glória na Terra. Não se trata de ser suicida e sim, de não agir baseado no medo de cair na miséria ou na morte. Por isso a prática dos ensinamentos de Cristo requer dedicação, pois deve ser o sentido de vida da pessoa… 

Além disto, esses ensinamentos também parecem completar os textos de Tomé e Filipe sobre “o mundo das imagens”. Oras, se a realidade superior é Deus e sua luz, porque temer? Porque ser egoísta? 

Yogananda que propagou a Krya yoga do sanatana dharma (hinduísmo) na América, traz em sua autobiografia, o interessante conto sobre Bhaduri, um santo/ mestre espiritual: Ele diz que os discípulos do iogue, após este explicar questões filosóficas sobre uma princesa medieval do Rajastão, chamada Mirabai, estavam admirados como o mestre havia abandonado/ renunciado as coisas do mundo para ensinar sobre a espiritualidade/ o hinduísmo. Então Bhaduri responde a um de seus discípulos que este estava invertendo as coisas: Ele (Bhaduri) apenas abandonou um punhado de dinheiro desprezível e de prazeres mesquinhos para se dedicar ao império cósmico de bem-aventurança interminável, pois conhece a alegria de partilhar o tesouro. Afinal, "para encontrar O Ser Divino, é indispensável só o amor"; Então o mestre iogue completa seu ensinamento de forma curiosa dizendo: "As multidões míopes do mundo é que são as verdadeiras renunciantes! Renegaram um bem divino sem paralelo por um mísero punhado de brinquedos" (se referindo às várias coisas terrenas). 

Transfiguração (Mateus, Marcos, Lucas) 

"Aconteceu que, quase oito dias depois destas palavras, tomou consigo a Pedro, a João e a Tiago, e subiu ao monte a orar. 

Estando ele orando, transfigurou-se a aparência do seu rosto, e a sua roupa ficou branca e muito resplandecente. 

Eis que estavam falando com ele dois homens, que eram Moisés e Elias, Os quais apareceram com glória, e falavam da sua morte, a qual havia de cumprir-se em Jerusalém. Pedro e os que estavam com ele estavam carregados de sono; e, quando despertaram, viram a sua glória e aqueles dois homens que estavam com ele. 

E aconteceu que, quando aqueles se apartaram dele, disse Pedro a Jesus: Mestre, bom é que nós estejamos aqui, e façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés, e uma para Elias, não sabendo o que dizia. Ao dizer ele isto, veio uma nuvem (luminosa) que os cobriu com a sua sombra; e, entrando eles na nuvem, temeram. 

E saiu da nuvem uma voz que dizia: Este é o meu amado Filho; a ele ouvi. 

Tendo soado aquela voz, Jesus foi achado só; e eles calaram-se, e por aqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto."

Esta passagem mostra a existência de espíritos e consequentemente de um “mundo” (ou dimensão etc) dos espíritos. Ela também mostra a proximidade de Jesus com Deus, pois ao subir no monte para orar, os três apóstolos que estavam junto dele compartilharam de sua experiência: Todos viram Elias e Moisés com glória. Por fim, a frase “Este é o meu amado Filho, ouvi-o” confirma a proximidade e união de Jesus com Deus. Assim, também é possível entender a importância e o potencial da oração, que deve ser feita com humildade, sinceridade e firmeza (fé). 

Como Jesus se Transfigurava (Filipe) 

"Jesus levou todos eles furtivamente, pois ele não apareceu como era, mas da maneira como eles poderiam vê-lo. Ele apareceu para todos eles. Ele apareceu para os grandes como grandes. Ele apareceu para o pequeno como pequeno. Ele apareceu aos anjos como um anjo e aos homens como um homem. Por isso, sua palavra se escondeu de todos. Alguns de fato o viram, pensando que estavam vendo a si mesmos, mas quando ele apareceu aos seus discípulos em glória no monte, ele não era pequeno. Ele se tornou grande, mas engrandeceu os discípulos, para que pudessem vê-lo em sua grandeza."

Embora este texto de Filipe possa ser considerado polêmico por permitir a interpretação de que Jesus apareceu de diferentes maneiras conforme as pessoas com quem interagia, para aqueles que acreditam na grandiosidade de Cristo, ele não deveria ser fonte de controvérsia alguma. Jesus certamente teve alguns aspectos praticamente incompreensíveis para os seres humanos e realizou feitos inimagináveis, embora cada linha de interpretação humana o classifique de uma determinada maneira: Uno com Deus, filho de Deus, o Espírito mais elevado da Terra ou Deus encarnado. 

As igrejas cristãs (católicas, protestantes...) lhe dão um caráter de união com Deus, similar ao da teologia da libertação, exceto que esta teologia diminui alguns de seus “milagres” buscando se aproximar de uma visão histórica científica. A aproximação científica da teologia da libertação foi feita pautando-se nas lutas sociais do século 20, porque as igrejas na América desde o século 15 passaram por momentos de contradição: ora apoiando os mais vulneráveis, ora sendo conivente com grandes poderes econômicos e políticos que causavam males aos mais pobres e aos marginalizados na sociedade.

Os espíritas que surgiram na França do século 19 como um movimento filosófico de teor cristão inter religioso, chamam os milagres de "feitos mediúnicos" e muitos destes consideram Jesus sendo o espírito mais elevado que passou pela Terra, certamente escolhido por Deus. Apesar do espiritismo adquirir um teor predominantemente religioso no Brasil após o século 19, a visão e interpretação sobre a natureza de Jesus pouco mudou para os espíritas desde então.

Estas classificações de Jesus alternam entre pouco e nada importantes: Pois tocam em questões dogmáticas para as religiões, como as discussões sobre o batismo e o nascimento de Jesus de Nazaré etc. Dogmas são "verdades indiscutíveis" para os grupos que os assumem, como por exemplo: Para muitos cristãos religiosos Jesus é Deus; Para muitos cientistas só a matéria perceptível existe, logo espíritos, realidade espiritual e Deus não existem. Essas são visões de mundo que podem fazer parte de uma cosmovisão, ou podem serem sinônimos desta. O mais importante é ter abertura para o diálogo respeitoso, ou seja, ético. Se tais visões forem impostas sobre pessoas com visões divergentes, elas tendem a gerar conflitos fúteis (ou até mesmo violentos). Fúteis porque se afastam dos ensinamentos de Jesus: sobre o amor a todos, a misericórdia, a solidariedade, a humildade etc. Tal tipo de discussão são como os temas abordados pelos Concílios da Igreja que começaram no século 4 e se estenderam pela era medieval: Naquela época várias visões e explicações foram desrespeitadas e suprimidas em prol da institucionalização da igreja e da transformação desta numa ferramenta de poder. Grande parte dos concílios na história do cristianismo e da igreja resultaram na imposição de uma única linha de pensamento tratando de temas distintos da lei de amor e dos ensinamentos de Jesus. Isso a história nos mostra claramente.

O jovem (menino) epilético (Mateus, Marcos, Lucas) 

"Quando (Jesus) se aproximou dos discípulos, viu ao redor deles grande multidão, e alguns escribas que disputavam com eles. 

E logo toda a multidão, vendo-o, ficou espantada e, correndo para ele, o saudaram. 

Então perguntou aos escribas: Que é que discutis com eles? 

E um da multidão, respondendo, disse: Mestre, trouxe-te o meu filho, que tem um espírito mudo e este, onde quer que o apanhe, despedaça-o (derruba-o). Então ele espuma, e range os dentes, e vai definhando (endurecendo); e eu disse aos teus discípulos que o expulsassem, mas eles não puderam. 

Jesus, respondendo-lhes, disse: Ó geração incrédula! até quando estarei convosco? até quando vos sofrerei ainda? Trazei-mo. 

E trouxeram-lho; e quando ele o viu, logo o espírito o agitou com violência, e, caindo o endemoninhado por terra, revolvia-se, espumando. 

Então Jesus perguntou ao pai dele: Quanto tempo há que lhe sucede isto? E ele disse-lhe: Desde a infância. E muitas vezes o tem lançado no fogo, e na água, para o destruir; mas, se tu podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós! Ajuda-nos. 

E Jesus disse-lhe: Se tu podes crer… tudo é possível ao que crê. 

E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: Eu creio, Senhor! ajuda a minha incredulidade. Assim, Jesus, vendo que a multidão concorria, repreendeu o espírito imundo, dizendo-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: Sai dele, e não entres mais nele. 

E ele, clamando, e agitando-o com violência, saiu; e ficou o menino como morto, de tal maneira que muitos diziam que estava morto. 

Mas Jesus, tomando-o pela mão, o ergueu, e ele se levantou. 

Todos ficaram pasmados diante da grandeza (poder) de Deus. E, quando entrou em casa, os seus discípulos lhe perguntaram à parte: Por que o não pudemos nós expulsar? 

Jesus respondeu-lhes: Por causa de vossa incredulidade; porque em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta montanha: Passa daqui para acolá, e há de passar; e nada vos será impossível. 

Esta casta (de demônios) não pode sair com coisa alguma, a não ser com oração e jejum."

A confiança nas suas próprias forças torna o ser humano capaz de executar coisas materiais, que não consegue fazer quem duvida de si mesmo. O espiritismo considera que neste caso, a montanha a ser movida, basicamente refere-se às mentalidades que obstruem a fé, tais como: A incredulidade, má vontade, egoísmo, fanatismo, os preconceitos da rotina, o interesse material e as paixões orgulhosas são exemplos de obstáculos a serem superados. A fé robusta dá perseverança e energia , mas a vacilante cogita a derrota, mostrando falta de confiança em si mesmo, ou seja, esta última não crê que realmente seja possível vencer então não vence. 

Noutra interpretação, entende-se como fé a confiança que se tem na realização de uma coisa, a certeza de atingir determinado fim. Ela dá uma espécie de lucidez que permite ver em pensamento, a meta que se quer alcançar e os meios de chegar lá, fazendo com que a pessoa que a tem, prossiga com absoluta segurança. Em ambos os casos, ela pode dar lugar a que se executem grandes coisas. 

A fé sincera e verdadeira é sempre calma; faculta a paciência que sabe esperar, porque, tendo seu ponto de apoio na inteligência e na compreensão das coisas, tem a certeza de chegar ao objetivo visado. A fé vacilante sente a sua própria fraqueza; quando a estimula o interesse, dando espaço ao aos surtos de sentimentos negativos (fúria, histeria, intolerância etc), assim não é uma fé verdadeira. A calma na luta é sempre um sinal de força e de confiança; a violência, ao contrário, denota fraqueza e dúvida de si mesmo. 

É importante não confundir a fé com a presunção. A verdadeira fé se conjuga à humildade; aquele que a possui deposita mais confiança em Deus do que em si próprio, por saber que é pequenino diante Deus e toda a sua criação. Assim, aquele que realmente tem fé, é simples instrumento da vontade divina, nada pode sem Deus. Por essa razão é que os bons Espíritos lhe vêm em auxílio. A presunção, de modo parecido com a fé vacilante, não é uma fé verdadeira. Presunção é o orgulho, que por sua vez, sempre se contradiz, cedo ou tarde, pela decepção e pelos malogros que lhe são infligidos. 

O espiritismo afirma que o poder da fé se demonstra, de modo direto e especial, na ação magnética; por seu intermédio, o homem atua sobre o fluido, agente universal (algo como uma energia ou radiação ultra sutil que permeia o universo), modifica-lhe as qualidades e lhe dá uma impulsão por assim dizer irresistível. Daí decorre que aquele que a um grande poder "fluídico"* normal junta ardente fé pode, só pela força da sua vontade dirigida para o bem, operar esses singulares fenômenos de cura e outros, tidos antigamente por prodígios, mas que não passam de efeito de uma lei natural. Tal o motivo por que Jesus disse a seus apóstolos: se não o curastes, foi porque não tínheis fé. 

 *No Livro dos Médiuns e em algumas das "Revistas Espíritas", Kardec e os demais espíritas, cogitaram a possibilidade da relação de tais fenômenos com o que eles chamavam de períspirito e com a eletricidade e o magnetismo; Certamente o eletromagnetismo de campos dos órgãos do ser humano (como do cérebro, do coração...) descobertos somente na década de 1960 e ainda pouco estudados até este início de século 21.

 

sábado, 15 de outubro de 2022

Tomé, Filipe e o cristianismo - Convergindo textos religiosos com base no Bem

 

Eu acho interessante a proposta de buscar as semelhanças entre as espiritualidades e o que há em comum entre as religiões. Não para afirmar qual é mais correta, mas sim para buscar o que é bom para todos. Obviamente isto pode parecer utópico, subjetivo demais, delirante e/ou impossível, mas para evitar tentativas de controle sobre comunidade e movimentos de cisão e divisão entre as pessoas, basta considerarmos a importância de algumas coisas básicas: Humildade (ou presunção da ignorância), amor e esperança. Resumidamente empenhar-se em viver tais preceitos deve nos servir de guia para buscar a união benéfica das variadas espiritualidades. 
Neste texto traço as possíveis relações que aproximam os evangelhos de Filipe dos demais ensinamentos cristãos - principalmente dos 4 evangelhos das igrejas cristãs (João, Lucas, Marcos e Mateus) e da filosofia cristã espírita. Eu pensei em analisar e descrever algum conteúdo do evangelho de Tomé também, mas o texto ficaria muito extenso. 
Há poucos meses li os evangelhos de Tomé e de Filipe, chamados de apócrifos por aí a fora. Ao buscar informações sobre tais evangelhos se encontram variadas opiniões sobre suas origens, validade etc etc. As opiniões podem se basear tanto em fatores físicos que tentam traçar a data em que tais textos foram escritos e quem os escreveu, como em fatores de interpretação do conteúdo. Eu considero este último fator (conteúdo) mais importante, mas obviamente não concordo com muitas das interpretações sobre tais textos. Resumidamente chamarei de duas linhas de pensamento, estas opiniões das quais eu tenho algumas críticas: A primeira eu chamaria de materialista (ou talvez de sensacionalista): É a redução de Jesus de Nazaré a uma pessoa comum, que tinha algumas atitudes mais próximas das pessoas comuns, não no sentido de sensibilizar-se como Marcos mostra em seus textos. A segunda é a linha esotérica (talvez ocultista), onde místicos (sejam teólogos, sacerdotes etc) realmente se aprofundam no misticismo priorizando tal tipo de leitura e interpretação dos textos. 
Discutirei basicamente a visão materialista do evangelho de Filipe (vale citar que leitores mais céticos acham que estes textos foram escritos por cristãos um ou dois séculos após a morte do apóstolo Filipe): 
Os defensores desta interpretação alegam que Jesus não foi crucificado nem morto de qualquer maneira por seus opositores (nem por fariseus nem por Poncio Pilatus nem por escribas etc). Também dizem que se ele beijava Maria Magdalena na boca como o texto indica, era porque a amava como mulher (no sentido vulgar / popular). É desta linha de pensamento que surgem os argumentos que ele teria formado família (filhos com Magdalena) e fugido para a "França", porém isto não está escrito no evangelho de Filipe (talvez esteja em outro que eu não li, como o evangelho atribuído a Magdalena). Vale lembrar que a França só viria a se formar após o Reino dos Francos, séculos depois do período em que viveu Jesus de Nazaré e seus apóstolos, então o correto seria afirmar que ele fugiu para a Gália, certamente tomada pelo Império Romano durante o século 1. 
Contra esta interpretação devo perguntar quando o texto de Felipe (ou de seja lá quem for que escreveu este evangelho) menciona que não se morre para ressuscitar, ele está automaticamente negando que Jesus foi morto por seus opositores? 
E se os textos deste evangelho não mencionassem fato algum sobre a morte de Jesus, isto significaria que Jesus escapou de seus perseguidores? Não, na verdade o texto apenas poderia deixar tal questão em aberto. 
A questão sobre este mesmo tema é: 
O termo ressurreição surge neste texto possivelmente em dois sentidos, como nos evangelhos dos 4 apóstolos aceitos nas religiões cristãs: Ele surge expressando o trazer de volta a vida (como na ressurreição de Lázaro, do filho da viúva de Naim e na do próprio Jesus) e expressando o "vir ao mundo dos vivos" / "erguer-se entre os vivos, ou seja, na vida (material)". Esta última expressão está mais de acordo com as explicações e interpretações espíritas do que com a ideia de que Jesus teria escapado dos fariseus e de outros opositores (coisa que o evangelho de Filipe não afirma em momento algum). O evangelho de Filipe então está dizendo que Jesus encarnou na Terra para realizar o que realizou (as curas, as pregações que indicam o caminho da salvação etc) - está afirmando que ele não era um mero boato, nem um farsante, nem algum tipo de truque ou um espírito desencarnado. 
Encerrando este tema sobre se Jesus de Nazaré morreu ou não por causa de seus perseguidores (fariseus etc), este parágrafo de Filipe está de acordo com os demais apóstolos: "Cristo veio para resgatar alguns, para salvar outros, para redimir outros. Ele resgatou aqueles que eram estranhos e os fez seus. E ele separou os seus, aqueles a quem deu como penhor de acordo com o seu plano. Não foi apenas quando ele apareceu que ele voluntariamente deu sua vida, mas ele voluntariamente deu sua vida desde o dia em que o mundo veio a existir."
Ou seja, a morte de Jesus na Terra é a segunda vez que ele se entrega (ou se "sacrifica") pelo bem.

 O trecho sobre Maria Magdalena, cujo parece faltar algumas palavras nos dois primeiros parágrafos, mostra os demais discípulos (o texto não cita se são todos ou alguns) indignados pelo fato de Jesus mostrar mais amor por Maria Magdalena do que por eles. Eis o terceiro parágrafo: Eles lhe disseram: "Por que você a ama mais do que todos nós?" O Salvador respondeu e disse-lhes: "Por que eu não os amo como ela? Quando um cego e um que vê estão juntos na escuridão, eles não são diferentes um do outro. Quando a luz vem, então aquele que vê, verá a luz, e o cego ficará nas trevas”
É claro, que cada pessoa pode interpretar a resposta de Jesus de um jeito particular, mas para que não vire uma discussão de meras opiniões, dando abertura para argumentos ateístas, charlatães ou até mesmo contrários aos ensinamentos do cristianismo, é importante trazer todos os diálogos de Jesus para o centro de seus ensinamentos. E o centro dos ensinamentos de Cristo é o amor a Deus e ao próximo (a todos seres humanos, pois todos são obras do Criador). Assim, é mais fácil entender que Jesus se aproximava de Maria Magdalena para salvá-la. Pois assim quando "viesse a luz", ao amar seu parceiro Jesus, Maria Magdalena já não estaria mais "cega" (não estaria mais na escuridão, termos para designar pecado, erro). Esta interpretação complementaria a passagem de João Evangelista, o único apóstolo a mencionar que quando Jesus, após sua morte, apareceu diante Magdalena, a chamou pelo nome. Este é o momento em que a "luz vem" para Maria Magdalena e os demais apóstolos têm dificuldade para crer que ela tenha visto Jesus Cristo. 
Se o evangelho de Filipe complementa o de João desta forma, então ele não pode nem mesmo insinuar que Jesus (fisicamente/ materialmente) não tenha morrido. 
Alguns podem entender a morte de Jesus crucificado como uma invenção por "X" motivos. Aqui eu mostro que o evangelho de Filipe nada diz a respeito sobre o destino final do corpo de Jesus ou de como foi sua morte, ou passagem para outra existência. 
Muitos dos textos deste evangelho tentam descrever como Jesus surgiu na Terra, porém com uma aparente limitação de linguagem, certamente como Kardec menciona em seus escritos durante o século 19: Os judeus e povos relacionados a estes na época em que Jesus viveu na Terra (século 1) não tinham uma palavra para designar a encarnação nem a reencarnação. Assim, Filipe como alguns outros profetas judeus e apóstolos de Cristo, usavam o termo "ressurreição" tanto para falar da reencarnação como para falar de ressuscitar um morto (como mencionei anteriormente sobre Lázaro e a viúva de Naim). 
Neste ponto, muitos espíritas poderiam discordar, apelando ao argumento que nenhum tipo de ressurreição existe. Eu porém, discordo deste extremismo, pois não achei tal afirmação nos textos espíritas de Kardec. Kardec fala sim que a palavra ressurreição é usada para falar da reencarnação e dá os exemplos em quais textos da bíblia eles são utilizados: Em "Jó" (escrito Job em algumas versões) e nas passagens que falam de João Batista, como sendo a reencarnação do profeta Elias. Além disto, espíritas poderiam afirmar que trazer o corpo de volta a vida não é uma ressurreição porque o períspirito permite que um médium possa realizar reanimação do corpo se este morreu dentro de um prazo aproximado de até 3 dias... Não me lembro qual espírita afirmou isto, mas não importa, aqui o assunto vira um tecnicismo que se afasta muito do essencial do cristianismo, que é a lei de amor. É muito fútil e até nocivo discutir se este possível fenômeno deve ser chamado de reanimação ou ressurreição. São estes tipos de discussão que geram cisão, clubismo e fomentam rivalidades (entre outros possíveis sentimentos ruins) baseadas em orgulhos patéticos. 
Por falar em como Jesus surgiu na Terra, o evangelho de Filipe toca em mais uma polêmica: Ele diz que Jesus não nasceu de Maria, ao menos não do jeito convencional. Ele foi concebido pelo Espírito Santo, e de acordo com os textos deste evangelho, o Espírito Santo está mais para uma entidade feminina do que para masculina. Segue o parágrafo onde entende-se tais fatos: "Alguns diziam: “Maria concebeu pelo Espírito Santo”. Eles estão em erro. Eles não sabem o que estão dizendo. Quando uma mulher concebeu de uma mulher? Maria é a virgem que nenhum poder contaminou.
Embora possa parecer fútil tal discussão, creio ser possível tirar pontos proveitosos deste texto de Filipe (ou de outro que tenha escrito isto). Proveitoso para união de diferentes religiões/ espiritualidades e convergência de diferentes textos religiosos: Ao afirmar que Maria não podia conceber do Espírito Santo, com a pergunta "Quando uma mulher concebeu de uma mulher?", Filipe aproxima-se dos textos de Mani, cujo fundou a religião judaico-cristã no século 3, conhecida como maniqueísmo. Apesar de não me aprofundar no maniqueísmo (nem sei se é possível), entendo que nesta religião o seu "profeta fundador" cita o Deus Criador, a Mãe da Vida (Espírito Vivo) e o Homem Original, de modo semelhante a uma santíssima trindade. Este argumento também se aproxima com um conceito muito bonito da obra "Cidade Mística de Deus" que diz que Deus planejou a mulher (ou o feminino) desde o início dos tempos, antes do surgimento da vida material no universo. É uma obra que mostra muitos defeitos da época (machista) em que foi escrita, e certamente da influência dos indivíduos poderosos da igreja católica e da nobreza espanhola, mas que tem alguns pontos positivos como este mencionado acima. 
Além do mais, os textos de Filipe não tiram a pureza de Maria, pois afirma que ela não foi contaminada por poder algum. Assim, Maria pode ter sido escolhida por Deus para cuidar de Jesus desde sua tenra infância. Pode ter até mesmo carregado Jesus em seu ventre... Mas é apenas isto. 
O evangelho de Tomé colabora com esta visão no seguinte trecho: "Jesus disse: Quando você vir alguém que não nasceu de mulher, prostrai-vos sobre os vossos rostos e adorai-o. Aquele é seu pai.
Porém não vou me aprofundar mais sobre o evangelho de Tomé, nem sobre possíveis interpretações místicas neste texto. 
Poder entender uma concordância entre o evangelhos de Filipe e de Tomé com os demais evangelhos e com o espiritismo (e até mesmo com o maniqueísmo), já é um bom passo para união entre espiritualistas e religiosos cristãos, ou próximos / amigáveis ao cristianismo.

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...