O Novo Templo da União é uma coleção de ideias e diálogos em busca da evolução espiritual e material da nossa espécie
domingo, 6 de abril de 2025
As relações das religiões com a sociedade, a ciência e a filosofia no ocidente;
quarta-feira, 29 de janeiro de 2025
Espiritismo vs Fanatismos
(*) não, liberalismo não é o oposto do conservadorismo, mas não vou explicar política, economia ou sociologia neste post.
sábado, 28 de dezembro de 2024
Leitura sobre O Grão de Mostarda, Ameaças de Herodes e O Fermento
sábado, 16 de novembro de 2024
Leitura ecumênica do "Milagre do surdo-mudo" e "Festa dos Tabernáculos"
Milagre do surdo-mudo (Mateus, Marcos)
Jesus deixou de novo as fronteiras de Tiro e foi pela Sidônia ao mar da Galiléia, no meio do território da Decápole. Ora, apresentaram-lhe um surdo-mudo possuído do demônio, rogando-lhe que lhe impusesse a mão.
Jesus tomou-o à parte dentre o povo, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe a língua com saliva. E levantou os olhos ao céu, deu um suspiro e disse-lhe: Éfeta (que quer dizer: abra-te). No mesmo instante o demônio foi expulso os ouvidos lhe abriram, a prisão da língua se lhe desfez e ele falava perfeitamente.
Proibiu-lhes que o dissessem a alguém. Mas quanto mais proibia, tanto mais o publicavam.
E tanto mais se admiravam, dizendo: E fez bem todas as coisas. Fez ouvir os surdos e falar os mudos! Jamais se viu algo semelhante em Israel! Os fariseus porém falavam: É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa demônios.
Como dito anteriormente os fariseus afirmavam que os doentes em geral, se encontravam em tais condições porque mereciam, pois "tinham algum pecado". Isto certamente poderia ser usado como uma forma de poder político e/ou social, determinando que as pessoas não ajudassem os indivíduos com qualquer tipo de doença, dificuldade ou limitação. Jesus não só ajudou as vítimas oprimidas por tal situação, como contrariou as classes dominantes que espalhavam tais ideias mentirosas.
Este tipo de mentira persiste até mesmo nos dias de hoje. Entre evangélicos existem pastores enriquecidos que chamam pessoas com transtornos mentais de endemoniados e classificam socialistas e sociais-democratas como anti-cristo. No 1º caso fazem isso para vender curas falsas ou internar tais pessoas em "comunidades terapêuticas" exigindo pagamento dos parentes do interno. No 2º caso fazem tal acusação por interesses políticos e econômicos: Envolvidos em negócios, estes pastores defendem seus interesses particulares preferindo candidatos neoliberais que negam obras sociais para favorecer os lobistas.
Entre espíritas (e em outras religiões reencarnacionistas), por exemplo, alguns alegam que as pessoas que nasceram pobres ou com problemas de saúde, estão assim por causa de pecados de vidas anteriores e assim têm que pagar pelos seus pecados, porém no Livro dos Espíritos está claro, que mesmo os que estão pagando por pecados devem receber ajuda, principalmente daqueles que se dizem cristãos e/ou espíritas. Mesmo nas doutrinas reencarnacionistas, vivemos uma vida de cada vez, não lembrando de erros de vidas passadas, por isso todos são dignos de ajuda e todos devem ajudar - o perdão e a solidariedade mútuos são manifestações da lei divina de amor!
Festa dos Tabernáculos (João)
Depois disto Jesus andava pela Galiléia, e já não queria andar pela Judéia, pois os judeus procuravam matá-lo. E estava próxima a festa dos judeus, a dos tabernáculos. Disseram-lhe, pois, seus irmãos: Sai daqui, e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque não há ninguém que procure ser conhecido que faça coisa alguma em oculto. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo.
Pois nem mesmo seus irmãos criam nele.
Disse-lhes, pois, Jesus: Ainda não é chegado o meu tempo, mas o vosso tempo sempre está pronto. O mundo não vos pode odiar, mas ele me odeia a mim, porquanto dele testifico que as suas obras são más. Subi vós a esta festa; eu não subo ainda a esta festa, porque ainda o meu tempo não está cumprido. E, havendo-lhes dito isto, ficou na Galiléia. Mas, quando seus irmãos já tinham subido à festa, então subiu ele também, não manifestamente, mas como em oculto.
Ora, os judeus procuravam-no na festa, e diziam: Onde está ele?
E havia grande murmuração entre a multidão a respeito dele. Diziam alguns: Ele é bom. E outros diziam: Não, antes engana o povo. Todavia ninguém falava dele abertamente, por medo dos judeus.
Mas, no meio da festa subiu Jesus ao templo, e ensinava. E os judeus maravilhavam-se, dizendo: Como este sabe letras, não as tendo aprendido?
Jesus lhes respondeu, e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo. Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória; mas o que busca a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro, e não há nele injustiça.
Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me?
A multidão respondeu, e disse: Tens demônio; quem procura matar-te?
Respondeu Jesus, e disse-lhes: Fiz uma só obra, e todos vos maravilhais. Pelo motivo de que Moisés vos deu a circuncisão (não que fosse de Moisés, mas dos pais), no sábado circuncidais um homem. Se o homem recebe a circuncisão no sábado, para que a lei de Moisés não seja quebrantada, indignais-vos contra mim, porque no sábado curei de todo um homem?
Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.
Jesus mostra que não se ensina verdadeiramente falando de si, pois a verdade vem só daqueles que buscam a glória do Criador. Isto indica que admitir Deus é também uma forma de ser humilde, ou seja, de assumir a própria ignorância para buscar a verdade.
De acordo com Platão e Sócrates, esta presunção da ignorância é um requisito básico para iniciar qualquer investigação, buscando o conhecimento / a verdade.
Esta postura de Jesus também está em acordo com o Bhakti Yoga, um caminho de devoção e adoração de Deus (no caso, Brahman, a realidade última que se alcança com o amor intenso) no hinduísmo.
Quando diz "testifico que as suas obras são más", Jesus também mostra como os religiosos e os aristocratas manipuladores e desejosos por luxo e por poder estavam errados e realizavam maldades; Além disto, ele mostra como os judeus que se opunham a ele eram contraditórios: Realizavam o rito da circuncisão mesmo aos sábados (o suposto dia reservado ao descanso e oração total dos judeus) e criticavam Jesus quando ele curava alguém neste mesmo dia da semana.
Por fim, Jesus orienta para que não julguem pela aparência e sim pela justiça. Não há justiça sem o bem e sem equidade, moderação, coragem e bondade universais. Isto está na filosofia ocidental desde 4 séculos antes de Cristo e adentrou grande parte das leis das nações na era moderna. Mesmo assim, ainda hoje infelizmente há pessoas que julgam os outros pelas aparências: seja por ser de pele negra, por ser mulher, por ser indígena, por estar em situação de rua, por ser de uma sexualidade diferente de homem e mulher ou por ter transtornos mentais perceptíveis no comportamento.
sexta-feira, 22 de setembro de 2023
Para uma Necessidade Social da Doutrina Espírita
O que é espiritismo? Uma religião? Uma filosofia? Tais questões eu abordei neste texto: https://novotemplodauniao.blogspot.com/2022/08/estive-lendo-alguns-textos-espiritas-da.html então trago outra questão tão ou mais importante do que estas: Os centros espíritas representam bem o espiritismo proposto por Allan Kardec?
Não exatamente... Primariamente, os centros espíritas no Brasil desde meados do século 20 desempenham um papel principal de assistência pontual, seja com atendimento "espiritualizado" ou seja com doações para "ONGs" e / ou para determinados grupos de pessoas necessitadas.
A filosofia espírita escrita (ou decodificada, que seja...) por Kardec mostra preocupação com o desenvolvimento moral e intelectual da humanidade e com isso, mostra também uma busca pelo progresso ao nível coletivo, ou seja, social.
Assim é possível notar que falta a continuidade ideológica social no meio espírita; As explicações espíritas com sua visão espiritual do ser humano e da história requerem uma atuação social também! Fazer do espiritismo algo exclusivamente contemplativo por causa da importância da evolução moral, é contraditório e alienado, pois a proposta filosófica espírita também deve intervir nas lutas sociais conforme a ação criadora dos espíritos que visam o progresso da humanidade... Em outras palavras, espíritos progressistas.
A proposta de Kardec não é de um espiritismo determinista nem exclusivamente mediúnico! Ela se liga ao humano físico e moral, buscando o progresso coletivo da humanidade como já mencionado. Assim o espiritismo deve se preocupar também com a justiça à nível social, com a democracia e com o bem estar físico e principalmente psíquico do povo, pois estes temas estão vinculados à luta da sociedade e aos resultados do progresso.
A desigualdade de nossas sociedades não é só sócio econômica, também engloba preconceitos de origem psíquica (raciais, sexuais, culturais etc); Infelizmente há desvalorização de pensamentos sociológicos nos meios espíritas... As pessoas que não lêem as obras de Kardec (incluindo as Revistas Espíritas/ Jornal de Estudos Psicológicos) enxergam o espiritismo como mais uma mera religião de classe média e/ou alta.
Kardec não era partidário nem fã de político algum, mesmo porque viveu sob uma monarquia (de Napoleão III), mas nunca proibiu assuntos abordados pela política dentro do espiritismo, pelo contrário: mostrou também uma preocupação com o progresso da humanidade e com fatores sociais. Alguns dos espíritos consultados em suas sessões mediúnicas eram socialistas, embora fosse o movimento chamado pejorativamente de utópico após a ascensão do socialismo "científico", este mais novo que era materialista. O socialismo por sua vez deveria também buscar resolver questões éticas e psicológicas; O materialismo manifestado como verdade absoluta (que acaba desencadeando a busca por riquezas materiais ou um estilo de vida hedonista de prazeres materiais como exemplifico neste texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/06/os-perigos-dos-materialismos.html) contradiz a busca por justiça, por equidade e por progresso social, moral e ético. A objetividade é importante para vermos as imperfeições cotidianas sociais e econômicas e então, buscarmos soluções. O destino social da humanidade está ligado ao processo evolutivo do mundo, que o espiritismo também busca ...
O capitalismo / neoliberalismo não é só um sistema econômico; ele é ideológico, pois dita comportamentos e procurar distrair a humanidade deixando-a acomodada ou submissa. Não bastam só gestos de boa vontade para combater um sistema materialista de vida que retarda a marcha natural da evolução, através da defesa o enriquecimento de poucos que já têm muito, da opressão dos mais pobres e necessitados e da alienação da humanidade. Para se combater todo esse sistema de injustiça é preciso o progresso moral, intelectual e social, com participação através do ativismo, da política, da educação não só técnico-profissional, mas também psicológica, social, histórica etc. Isto explica o porquê alguns estudiosos espíritas ativistas atuaram em áreas como pedagogia e filosofia: Eurípedes Barsanulfo, Anália Franco, Herculano Pires, Humberto Mariotti entre outros foram exemplos de pessoas que puseram em prática a filosofia espírita.
Os centros espíritas parecem predominantemente tomados por um modelo religioso fechado em si, o que deixa o aspecto filosófico em segundo plano, e permite que o estilo de vida materialista propagado pelo neo liberalismo / capitalismo se propague e influencie até mesmo os frequentadores de tais centros.
Ignorar a realidade social, o progresso da humanidade e a desigualdade no mundo em que vivemos contradiz o espiritismo, pois também contradiz o cristianismo. Seja a partir de uma postura racional de progresso ou uma postura emocional de amor, os espíritas (bem como pessoas humanistas, progressistas ou pessoas de qualquer fé/ espiritualidade verdadeira) devem atuar na sociedade levando em consideração estas questões e buscando progresso, justiça, equidade. Isto faz parte da lei de amar o próximo como a si mesmo, como pode ser visto na seguinte passagem do evangelho:
Mensagem de João Batista a Jesus (Tomé, Mateus, Lucas)
E João, ouvindo no cárcere falar dos feitos de Cristo, chamou 2 dos seus discípulos e enviou-os a Jesus, dizendo: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?
Quando aqueles homens chegaram junto a Jesus, disseram: João o Batista enviou-nos a perguntar-te: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?
E, na mesma hora, curou muitos de enfermidades, e males, e espíritos maus, e deu vista a muitos cegos.
Então, Jesus disse-lhes: Ide, e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho. E bem-aventurado é aquele que em mim se não escandalizar.
E, tendo-se retirado os mensageiros de João, Jesus começou a dizer à multidão acerca de João: Que saístes a ver no deserto? uma cana abalada pelo vento?
Mas que saístes a ver? um homem trajado de vestes delicadas? Eis que os que andam com preciosas vestes, e em delícias, estão nos paços reais (palácios).
Mas que saístes a ver? um profeta? Sim, vos digo, e muito mais do que profeta.
Este é aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu anjo diante da tua face, O qual preparará diante de ti o teu caminho.
E eu vos digo que, entre os nascidos de mulheres, desde Adão até João o Batista, não há ninguém tão superior a João Batista que seus olhos não devem ser abaixados (diante dele); mas o menor no reino de Deus é maior do que ele. Ainda assim eu digo que qualquer um de vocês que venha a ser uma criança conhecerá o Reino e se tornará superior a João. E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
E todo o povo que o ouviu e os publicanos, tendo sido batizados com o batismo de João, justificaram a Deus. Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele.
E disse o Senhor: A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes?
São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.
Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio;
Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores.
Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos.
Esta passagem, de acordo com a filosofia espírita, Jesus não só explica o percurso da existência do profeta João, mostrando seu valor e importância, como também anuncia a imortalidade da alma, indicando que este é a reencarnação de Elias.
De tempos em tempos Deus enviou escolhidos, sejam profetas ou indivíduos inspirados, para propagar seus ensinamentos. Porém, muitas vezes, estes escolhidos de Deus para propagar a bondade e a equidade, foram atacados, rechaçados, feridos e até mesmo mortos.
Jesus também afirma que fazem violência contra o Reino dos Céus. Isto pode se referir aos variados movimentos contrários ao bem e à verdadeira espiritualidade. O judaísmo do século 1, além de estar dividido em variadas seitas, estava em sua maioria tomado por sacerdotes corruptos, ou seja, que manipulavam o povo para se manter em posição social e econômica superior e negavam a vida eterna às pessoas. Estes interesses egoístas e tentativas de manipulação certamente se espalhavam por diversas outras religiões dentro e fora do Império Romano e ainda existem hoje no início do século 21.
Por fim, Jesus utiliza a parábola dos meninos que tocaram flauta e cantaram lamentações: Os meninos, assim como as crianças em outras passagens, invocam a importância da humildade. A partir da atitude humilde, Deus ofereceu 2 caminhos: uma para “dançar ao som das flautas” e outro para “se juntar aos cantos de lamentação”. O 1º é o mesmo da parábola da festa (bodas) de casamento - O caminho de Jesus, xingado de comilão, beberrão e amigo dos pecadores, trata-se de viver com alegria, socorrendo os mais necessitados e compartilhando o que se tem em vida e o 2º é o caminho da vigilância, onde tira-se “a trave do próprio olho” para viver em humildade instruindo os demais a abandonarem a ganância e a luxúria, enfim mostrar que deve-se abandonar o egoísmo e praticar a solidariedade, como João Batista fazia e foi acusado de “endemoniado”. Isto mostra como os sacerdotes corruptos só estavam interessados em manter o poder e o prestígio em suas seitas: Recusavam a Deus e sua lei de amor, difamando e atacando Jesus de Nazaré, o Cristo, e os profetas como João Batista.
O espiritismo como filosofia cristã não só deve estar em acordo com tais ensinamentos, como também estão de acordo com os ensinamentos de Sócrates e Platão... Que aliás, tinham suas semelhanças, respectivamente com Jesus e João Batista, mas não trarei tais detalhes aqui - A intenção deste texto é só evidenciar a necessidade de reaproximar o espiritismo da prática cristã (solidariedade, piedade, equidade, verdade etc), que está de acordo com valores da filosofia socrática/ platônica (o bem/ kalos*, crítica aos discursos falaciosos** e ao hedonismo) e também com muitas das medidas práticas do socialismo (combate à pobreza, à desigualdade e às injustiças geradas pela ganância, crítica à alienação etc), desde antes das publicações de um contemporâneo de Kardec, chamado Karl Marx.
*kalos é a palavra grega similar à fine (em inglês) que inclui o bem e a beleza;
**a retórica: método de exposição usado pelos sofistas, onde ignorava-se a verdade buscando persuadir os ouvintes.
quinta-feira, 26 de maio de 2022
Militarismo e Espiritualidade tem algum nexo entre si?
No meio do ano retrasado, escrevi um texto onde citei alguns perigos do sensacionalismo propagado pelas diversas mídias sociais e pelas mídias de massa, combinado com o punitivismo fomentado entre as classes militares do Brasil (seja polícia, exército ou qualquer outra): https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/07/o-sensacionalismo-da-punicao.html.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2022
A Necessária União entre a Espiritualidade Progressista
Ao longo dos anos estudando sobre religiões e "mitologias" notei que várias religiões falavam das mesmas coisas: da importância do bem, de um criador, de um todo divino... Mas também vi religiosos evitarem ler coisas de autores que não professam suas crenças escolhidas: Há crentes que não lêem nada religioso fora a Bíblia, espíritas que lêem apenas Kardec etc. Isto é compreensível e até aceitável contanto que não gere mais divisões e insensibilidade em nossa sociedade.
Recentemente assisti uma missa onde o padre fez uma leitura bastante "pés no chão" sobre uma passagem bíblica. Em até certo ponto foi possível entender que Jesus curou enfermos não para provar que era Deus ou filho de Deus. Isto é válido, para não dizer, óbvio: Jesus o fez para propagar o bem. Todos os ensinamentos de Jesus giram em torno do bem: Amar o próximo como a si próprio.
Porém a leitura pareceu mostrar uma abertura para indicar que Jesus não fez milagres e que não tinha poderes sobrenaturais. Talvez seja uma explicação da teologia da libertação a qual ainda não estudei a fundo. Este é um ponto bem polêmico, mas há mais teorias que lidam com a religião e com a espiritualidade que convergem para este caminho: O espiritismo por exemplo alega que tudo (ou muito mais coisas do que conhecemos até o século 21) virá às claras, ou seja, tudo será compreendido. Os milagres vão gradualmente sendo explicados como manifestações da "mediunidade". Mediunidade esta que depende principalmente da interação de seres "incorpóreos", chamados de espíritos. Outro fator que o espiritismo indica ser necessário para as realizações mediúnicas é o fluído universal que está por trás da criação de todo universo. Este fluído parte de uma pureza máxima (Deus) e passa por diversas transformações constituindo desde forças praticamente indetectáveis para os seres humanos (como o perispírito) até energias e elementos normalmente perceptíveis pela vida terrestre.
Ninguém pode ser forçado a acreditar em uma coisa nem em outra: O católico certamente escolherá crer que Jesus fez milagres porque era filho de Deus ou o próprio Deus. O espírita dirá que Jesus foi um dos mais elevados espíritos que passou pela Terra e por isso mostrou grande domínio mediúnico em sua vida na Terra. E quem diz que Jesus não fez milagre nem foi um medium? O materialista, que geralmente é ateu. Obviamente porque ateus não crêem em Deus, e muitos deles, também não crêem em uma dimensão espiritual. Para o materialista apenas o universo "3D" existe. A mente é mero produto do cérebro: Está em reações químicas do sistema nervoso, nas sinapses ou na relação destes efeitos com o ambiente onde o ser vivo está inserido. Geralmente, para os ateus, milagres são invencionices criadas pelas igrejas para manipular o povo. Por enquanto não me aprofundarei nesse frágil argumento, mas sei que a "igreja européia" após o ano de 380 dC, inventou muitas coisas para manipular as massas.
Em linhas gerais, a igreja católica, assim como as igrejas protestantes, durante todo período colonial/ neo-colonial (do final do século 15 até meados do século 20) continuaram sendo usadas como ferramenta de poder ignorando os ensinamentos de seu principal profeta: Jesus Cristo. Os cristãos que acreditavam e praticavam os ensinamentos de Jesus Cristo eram minoria dentro da religião e por causa disso muitos absurdos foram admitidos, desde genocídio dos povos indígenas até a escravização dos povos da África subsaariana.
Portanto existia a necessidade de acabar com o poderio dentro das igrejas (ou das religiões), colocando-as em seus devidos lugares - o lugar do amor e da espiritualidade.
O espiritismo surgiu no século 18 entre uma classe de pedagogos europeus. Nesta época as práticas "místicas" haviam ganhado prestígio entre classes médias e altas da sociedade, o que deu abertura para proliferação de charlatanismo baseado em superstições e fascinação. A parte menos mesquinha e mais séria destes movimentos místicos eram essencialmente religiosos (espiritualistas, mas este termo era pouco ou nada usado na época), porém com a propagação do charlatanismo todos eles passaram a ser mau vistos pelas pessoas mais sérias, havendo uma necessidade de reação.
O espiritismo pode não ter surgido essencialmente como reação, mas surgiu nesta época. Este movimento predominantemente filosófico (cristão/platônico, e, de certa forma também ontológico e até epistemológico), buscou explicar diversos fenômenos tidos como sobrenaturais: Contato com espíritos, visões "do além", êxtases espirituais, incorporações etc. Em seus esforços este grupo liderado por Kardec, coletou informações durante o século 19 e tentou uma conciliação com as elites intelectuais (entre elas, os cientistas) e com alguns grupos religiosos. Mas o resultado não foi muito promissor e o espiritismo em sua forma pura foi majoritariamente rechaçado como se fosse parte do movimento de charlatanismo da época. Ele só ganhou força no Brasil, durante o século seguinte, mas a elite econômica insistiu em distorcer muito da teoria e da prática espírita, o que fomentou divisões no espiritismo: Daí surgiu a Umbanda e os movimentos espíritas progressistas, afinal Kardec fala muito no progresso moral como base para o progresso da humanidade.
Como é possível notar, foi praticamente impossível convencer indivíduos cheio de poder (seja econômico, político ou religioso) a abandonarem seus excessos e suas ganâncias. Assim, a teologia da libertação surgiu de necessidades reais durante a transição dos anos 60 aos 70 do século 20.
Movimentos como a teologia da libertação trabalharam junto aos pobres, aos humildes e aos desfavorecidos nas sociedades. Esta foi uma verdadeira aproximação dos ensinamentos de Cristo. O autor da obra considerada como marco do movimento, menciona que a raiz da exploração humana é a ruptura da amizade com Deus e com os Homens. Afinal o amor ensinado por Jesus Cristo, é o amor ao Deus onipresente criador de tudo e o amor a toda sua criação - daí amar ao próximo como a si mesmo.
Porém um dos perigos da aproximação com o materialismo, é desconsiderar a dimensão espiritual e a pluralidade. Alegar que os "milagres" de Cristo são uma invenção é argumento de anti-religiosos e anti-espiritualistas. Mesmo dizer que foi uma invenção para o bem, é um reducionismo - reduz as capacidades de Jesus Cristo e pressupõe uma certeza que nada parecido com milagres ou com a mediunidade existe.
Os milagres podem ser um tema polêmico, mas alegar que eles foram simplesmente inventados é sair do cerne dos ensinamentos da lei de amor. Se você não crê em milagres, pode buscar explicações filosóficas que indicam uma possibilidade como as do espiritismo ou as de filosofias e religiões orientais e africanas, ou pode deixar a questão em aberto.
Pregar verdades absolutas sobre o que ainda está a ser estudado ou sobre o desconhecido, é cair no erro. Nestes temas relacionados à espiritualidade e aos milagres, é útil e importante priorizar os ensinamentos de Cristo, que indicam que a lei divina, e portanto, universal, é a lei de amor. A lei é universal, regendo do maior (Deus) para os menores (toda sua criação e criaturas) e assim também é a lei da natureza (o Sol, a Terra e os seres vivos), como explicada por Sócrates (no livro A República, de Platão), tido como uma das bases do espiritismo. Os ensinamentos de Sócrates também indicam que o amor tem a capacidade de transcender além da vida material, como foi registrado por Platão no livro "O Banquete".
Alegar que todos os feitos de Cristo são invenções é "pregar verdades" sobre o que não se tem certeza ainda. É cair no mesmo erro das fúteis e nocivas discussões se Jesus era santo antes ou depois do batismo por João Batista. É cair no erro da discussão se a verdadeira espiritualidade deveria permitir ou não a reprodução de imagens de santos e profetas. É cair no erro de discutir se Maria, mãe de Jesus, era virgem ou não, se era santa ou não. É cair no erro das cisões, do clubismo, do separatismo, da opressão, das acusações mútuas e dos conflitos.
É querer propagar a opinião própria como verdade absoluta, como dogmas.
São como as perseguições religiosas do final do império romano, os conflitos entre budistas e taoistas, as cruzadas medievais, as guerras entre católicos e protestantes da era colonial, o darwinismo social, o fascismo, o nazismo, a guerra fria, o terrorismo no oriente médio etc.
O fanatismo não existe só nas religiões, muito menos só na espiritualidade. Ele existe em todo lugar onde se prega verdades absolutas ignorando minorias.
Os egoístas e os gananciosos negaram o espiritismo porque acharam absurdo ou terrificante a ideia de outras dimensões onde correriam o sério risco de pagar por seus erros (pecados). O espiritismo não prega a pobreza, mas diz que as grandes fortunas materiais só se justificam se aplicadas ao progresso da humanidade.
Este mesmo tipo de pessoa (egoísta e/ou gananciosa) renega a teologia da libertação não por sua aproximação do materialismo, mesmo porque o materialismo é sua defesa. Os multimilionários construíram seus argumentos falaciosos de que suas fortunas são frutos de um suposto trabalho árduo, sendo a matéria, tudo que eles têm. Esses gananciosos odeiam a teologia da libertação porque sentem nojo ou ódio de pessoas humildes e querem enganar e explorar os pobres. Renegam por causa de seu apego a quantidades gigantescas de riquezas materiais e por seus desejos de adquirirem cada vez mais.
O espiritismo e a teologia da libertação parecem movimentos bem diferentes entre si, mas ambas correntes de pensamento cristão fomentam um progresso que incomoda somente aqueles que querem perpetuar seu poder pelo maior período de tempo possível.
Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?
Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...
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