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domingo, 6 de abril de 2025

As relações das religiões com a sociedade, a ciência e a filosofia no ocidente;

Este texto traz a importância da filosofia para além da construção de conhecimento: Traz a questão do diálogo e da espiritualidade do ser humano.
Meses atrás escrevi sobre como a proposta da filosofia de Platão era baseada no seguinte eixo: assumir a própria ignorância antes de qualquer investigação; praticar o diálogo equitativo a partir dessa presunção da própria ignorância e buscar a melhoria das coisas que são - a interação dos valores universais, a psiquê humana e a sociedade; Mas porque a necessidade da presunção da ignorância? Isso não traria o risco de aceitar qualquer absurdo para a construção de conhecimento e para a sociedade? Não seria melhor um pressuposto "palpável"? 

... Bom, vejamos pelo lado contrário então: Quais os benefícios de iniciar qualquer diálogo ou estudo, assumindo uma pré-suposição (teoricamente) mais palpável do que a própria ignorância sobre um tema desconhecido ou a ser investigado? Um pressuposto é uma pré-suposição... Como seria essa pré-suposição e qual sua finalidade?

Conheço 2 tipos de resposta que ouvi por aí de duas classes geralmente diferentes entre si: A resposta típica de cientistas, e a típica de religiosos.
Alguns dos cientistas que vi abordar este assunto, ao longo de minha vida, deram o seguinte tipo de resposta: O pressuposto é um ponto de partida básico e necessário de qualquer investigação ou estudo. Ele tem que existir, para que não se inicie um estudo "do nada".
Particularmente achei esta resposta insuficiente: Primeiramente afirmar que "tem que existir" uma pré suposição para se estudar algo não é uma resposta bem embasada. "Tem que ser" de um jeito "x" ou "y" me parece um mero autoritarismo. Mas entendo que o professor universitário que respondeu meus questionamentos desta forma em uma aula de psicologia, temia que iniciar um estudo supostamente "do nada", parecesse algo frouxo ou inseguro... Mas se "nada" não existe (se existisse, deixaria de ser nada), o que esse professor quis dizer? Que a ciência é algo contínuo? Que é preciso uma análise dos pares? É claro que há continuidade na ciência e também é importante que haja análise de pares, senão a ciência seria mera experiência particular sem diálogo ou seria mera opinião. 

Porém a questão aqui é outra: investiga-se o que é desconhecido ou não? Se há algo a ser investigado é porque é totalmente ou, ao  menos, parcialmente desconhecido - Porém ser parcialmente desconhecido inclui a possibilidade de checar o que se sabe sobre tal assunto... Se é verdadeiro ou não; se está certo ou errado, enviesado, incompleto etc. Aí já teríamos um problema: tal discussão seria uma mera disputa de narrativa ou de opiniões se não se pautasse por algo maior - algo bom para todos ou que servisse a todos... como valores universais. Isto não se trata de indivíduos fazerem julgamento moral uns dos outros nem de valores individuais - valores universais é "tema" da ética e ética é necessária em toda construção de conhecimento no ocidente desde o primeiro corpo de obra registrado da filosofia ocidental. O que o professor, como outros cientistas comumente fazem é apelar para a evidência material e para reprodutibilidade da investigação a qual muitos chamam de "mensurabilidade". Isso constitui o método de investigação (empírico) de pré suposição materialista (e niilista como citei em outros textos). Porém esta apelação à evidência sensorial/ reprodutibilidade, além de deixar os valores universais (ética) em segundo plano, é altamente discutível na psicologia, principalmente na área da  psicoterapia que lida com questões internas do paciente, como já expliquei em outros textos: https://amorpelosabersaberamar.blogspot.com/2025/04/aspectos-psiquicos-da-saude-mental-e.html e https://nea-ekklesia.blogspot.com/2024/06/por-que-substituir-o-reducionismo-e-o.html

Neste ponto vale lembrar que a ciência nasceu da filosofia e ambas por variadas razões envolviam raciocínios e discussões complexas, inacessíveis para a maioria das pessoas; Se a filosofia nunca foi algo das massas, a ciência não é diferente: a investigação científica qualquer que seja, requer estudo, análise, dedicação etc.
E o segundo tipo de resposta, a religiosa, vem de uma classe que lida com as multidões e coletivos de pessoas há muitos anos, para não dizer muitos séculos... A classe religiosa (pastores, sacerdotes etc) geralmente não usa o termo "pressuposto", mas usa os termos dogma ou "lei de Deus"... Ela se apoia não só no argumento que Deus fez todas as coisas, pois isso seria bem leve e daria abertura para variadas interpretações do que se fazer com a criação de Deus. As religiões como (infelizmente) a maior parte da ciência nega a presunção da ignorância porque é um modelo fechado de visão de mundo. Enquanto a ciência parte do pressuposto reducionista de que só há a matéria perceptível ou visões parecidas com esta, a religião contraditoriamente tem uma cosmovisão mais ampla que aceita uma realidade espiritual para além da material, mas impõem uma série de regras sobre toda e qualquer realidade, seja ela material ou espiritual. 
As religiões "cristãs" por exemplo, se apoiam em argumentos estabelecidos nos concílios da igreja há séculos, como se estes fossem verdade inquestionável. Mas estes argumentos foram feitos no passado, entre a antiguidade e a era medieval... 
Além disto, algumas igrejas cristãs modernas, muito influentes com milhares de seguidores, fazem interpretações particulares dos textos da bíblia. Tanto os argumentos dos concílios da igreja como as reinterpretações neopentecostais, são pré suposições de seus líderes, impostas sobre todos os fiéis. Não há presunção da ignorância nas maiores igrejas cristãs do mundo, assim como não há na ciência tradicional. Não há cosmovisão aberta nestas igrejas, porque elas criaram uma série de regras que contradizem isto e não há cosmovisão aberta na ciência porque ela se fechou em sua própria visão biologista que dificulta o estudo transdisciplinar principalmente das "ciências humanas" e sua intersecção com a filosofia.

Porém a ciência só adquiriu uma posição de poder na história da humanidade em algumas nações do hemisfério norte e em determinados períodos (também cito tais fatos em outros textos como este: https://amorpelosabersaberamar.blogspot.com/2025/03/apos-o-surto-evangelico-o-retorno-do.html). A realidade do Brasil é outra: Um país predominantemente religioso desde sua fundação, o Brasil nunca teve proeminência da ciência, mesmo porque tal proeminência geralmente torna-se uma posição de poder nas civilizações humanas e quem busca grandes poderes raramente assume a responsabilidade equivalente. E qualquer poder que não tenha a ética como finalidade, ou seja, que não tenha compromisso com a sociedade/ a humanidade, é corrupto e danoso.

Voltando às religiões em si, elas não exigem o esforço racional e observacional que a ciência exige, muito menos o esforço psíquico reflexivo e ético que a filosofia exige - certamente por isso elas atraem mais pessoas do que estas outras duas áreas. Note que as religiões as quais me refiro não são necessariamente espiritualidade. Na verdade, na maioria das vezes estas religiões negam a prática da espiritualidade! Explico:
Consideremos que as duas maiores religiões do Brasil sejam cristãs: o catolicismo e o protestantismo (talvez o nome mais adequado seja neopentecostalismo ou evangelismo...) Estas religiões estão cheio de pré-suposições que nada mais são do que os "famosos" dogmas. Estes dogmas são regras de como se portar não só na igreja, mas em vida. Porém desde os concílios da igreja há séculos atrás, estes dogmas impostos criam mais regras requerendo obediência aos líderes religiosos do que regras para o convívio saudável fisicamente e psicoemocionalmente entre as pessoas, famílias e instituições. Só este fato já contradiz maior parte dos ensinamentos os quais as religiões e os religiosos explicam ser de Deus e/ ou de seus profetas. 
A negação religiosa da presunção da ignorância então é óbvia: É a criação de dogmas e/ ou regras para manter a obediência de um número cada vez maior de pessoas com a finalidade de adquirir e manter poder e riquezas; Nega-se então as etapas seguintes também propostas pela filosofia fundada por Platão: o diálogo equitativo e reflexivo e a busca por melhoria de todas as coisas/ a busca pelos valores universais e a prática disto. Estas religiões então negam a ética que visa o bem coletivo, do ser humano e sua(s) sociedade(s). As igrejas protestantes e seus líderes por exemplo atacam não só religiões de matriz africana (umbanda, candomblé...), mas também atacam tudo que difere de seu corpo fechado de pressupostos/ dogmas, como o espiritismo, as "religiões" indígenas, a espiritualidade independente, o diálogo inter-religioso etc. 
Eis porque nem a ciência, muito menos o cientificismo, combatem efetivamente estas religiões: Primeiro que há semelhança entre os dois meios, pois ambos são centrados em suas respectivas regras (sejam pressupostos, paradigmas ou dogmas) se pautando por valores individuais ao invés de assumir a própria ignorância, praticar o diálogo e valores universais. Ambos também atacam de maneiras diferentes a espiritualidade, seja a afrodescendente, a indígena ou a independente. A ciência "mainstream" (tradicional) despreza e/ ou ridiculariza não só as religiões, mas a espiritualidade em geral e às vezes chega ao ponto de considerar a filosofia como um tipo de espiritualidade ou misticismo, jogando-a na  mesma vala das religiões etc. 
Já as religiões fundamentalistas como as maiores igrejas neopentecostais negam a ciência e demonizam outras religiões e práticas espirituais. Como exemplo disto temos um livro onde o famoso líder da Igreja Universal do Reino de Deus, acusa descaradamente o espiritismo e as religiões afrodescendentes de serem dominadas por "demônios"... Um atentado à liberdade de culto feito às abertas e comercializado normalmente em nosso país. 
É possível concluir que a ciência reducionista bem como as piores religiões atacam a espiritualidade e ignoram ou desprezam a filosofia... 
Em relação à ciência eu já apontei que ela precisa estar aliada à filosofia que usa do diálogo e da ética para propagar progresso humano. Assim, a ciência não deve desenvolver somente a indústria e a tecnologia! Progresso requer debate ético e desenvolvimento ético dos indivíduos. Requer educação que considere TODAS esferas humanas: biológica, psicológica, social/ cultural e existencial/ espiritual. 
E como as religiões opressoras e mentirosas poderiam ser benéficas para o povo se elas pregam a desesperança de forma similar ao cientificismo materialista/ niilista? 
Quando estas religiões corruptas não estão defendendo o enriquecimento e as posses de seus líderes, elas estão pregando segregação basicamente pautada em sentimentos ruins: Pregam a intolerância para que seus fiéis permaneçam "ungidos" na igreja e desprezem todos que não pertençam a sua respectiva religião ou pregam o medo em seus fiéis, pois caso estes pequem, serão condenados eternamente ao "inferno". 
Vejamos o dogma da punição eterna nas igrejas: o pecador que não se arrependeu na vida supostamente é condenado eternamente ao sofrimento/ inferno. Isso contradiz o Deus explicado por Jesus que fala: "O Pai a ninguém julga" (em João 5; 22-26) "E todos serão ensinados por Deus" (João 6; 45). Oras, se todos serão ensinados por Deus, o julgamento ou punição é temporário, pois serve para que a alma aprenda a ser piedosa e humilde como Jesus! Um dos vários autores do cristianismo "primitivo" propôs a ideia de apocatástase em contra partida ao Apocalipse - neste estágio da existência todas almas se uniriam com Deus. Porém este argumento de Orígenes foi recusado arbitrariamente enquanto outros argumentos de autores da mesma época (séculos 1 a 3) foram aceitos na igreja mesmo não mencionados por Jesus e seus apóstolos. Este é um dos pontos fracos da teologia das igrejas católicas e protestantes: a punição eterna é um argumento que inspira medo e desesperança! Um argumento que facilita a ideias de clube e segregação - "nós e eles". Tal ideia é refutável com a explicação da reencarnação citada no próprio evangelho em João 3; 3-9 (diálogo de Jesus com Nicodemos) e da sobrevivência da alma além do corpo em Mateus 12; 43-45 (o sinal de Jonas). 
A segregação das igrejas em relação às religiões diferentes e ao ateísmo é feita com seus líderes ditando aos fiéis quando se pode expressar sentimentos e quais destas expressões/ emoções são permitidas. A atual "moda" de ungir fiéis nada mais é do que um meio de manter seu público fiel, alienando-o da realidade a sua volta; Assim as igrejas insinuam que os fiéis podem fazer qualquer coisa contanto que vão receber a unção: Eles podem difamar, agredir ou enganar qualquer um que não seja da igreja, porque estará "ungido" (protegido)... pelas mentiras dos pastores. A opressão destas religiões é principalmente voltada para aqueles que não participam de seus eventos e cultos, pois veladamente incitam a violência e o conflito entre seus fiéis e os "não ungidos". As mentiras destas igrejas são obviamente antiéticas porque fomentam a estagnação do ser humano na ignorância em relação a todos seus aspectos: biológico, psíquico, social, cultural, existencial e espiritual!
A espiritualidade por sua vez requer desenvolvimento humano com respeito aos sentimentos, às emoções e respeito ao convívio em sociedade. 
E como é a sociedade deste país enorme chamado Brasil? 
O Brasil não é a Inglaterra, a Alemanha ou os Estados Unidos. É um país multi-étnico, pluricultural,  onde duas de suas maiorias étnicas foram historicamente oprimidas e quase exterminadas: os indígenas e os afrodescendentes. É um país onde as massas de pessoas buscam uma espiritualidade, seja uma igreja (as religiões mais comuns ao longo da história), um terreiro, um centro espírita ou um caminho mais independente. É um país onde durante muitos anos a prática religiosa ou espiritual era presente na vida das pessoas, seja com cultos aos santos, com festas religiosas, simpatias, rezas, remédios que misturavam a fé das pessoas com algum conhecimento sobre ervas medicinais etc. São essas coisas que devem ser atacadas na esfera religiosa/ espiritual? Ou elas já foram atacadas ao longo de nossa história, tanto por cientificistas como por religiosos fundamentalistas? Não parece que o problema sejam estes aspectos culturais-espirituais e sim que o objetivo das maiores religiões brasileiras deste início do século 21: manter as fortunas de seus líderes e dominar o povo tornando-o intolerante ao diferente.
Enquanto o que há de podre nas religiões não for denunciado e substituído por algo melhor, parece que não haverá paz nem progresso no Brasil. Enquanto a ganância e os discursos de opressão de certos líderes religiosos permanecerem soltos por aí, não haverá mudança. Enquanto estas religiões e seus líderes manterem poder sobre a política, a economia e até sobre a segurança do país, dificilmente haverá liberdade. Enquanto não se propagar a verdade sobre a espiritualidade de Jesus e seus apóstolos, estas religiões seguirão como um poder que espalha ódio, ignorância, segregação e miséria. 
A espiritualidade de Jesus não espalhava competitividade, rixa nem desigualdade econômica. Ela é muito mais próxima da filosofia de Platão no que se diz respeito à finalidade: Não é um mero método nem um conjunto de regras por si mesmo - sua presunção é humildade/ equidade e serenidade, seu meio é o amor/ amizade e seu fim é a solidariedade e a esperança. O cristianismo em sua origem no século 1 só difere do platonismo por ser um caminho mais afetivo, mais centrado no sentimento, enquanto Platão e seus seguidores que praticaram sua filosofia raciocinavam mais, em um caminho onde o diálogo e a construção de conhecimento se pautavam por moderação, coragem, bondade (kalos) e justiça.


quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Espiritismo vs Fanatismos

O espiritismo surgiu na França como um movimento espiritualista, ou seja, que aceita a existência da alma e portanto dos espíritos, bem como de uma realidade espiritual e de Deus. Seu líder, ou "decodificador", o pedagogo e tradutor, Allan Kardec, trouxe a centralidade na ética ensinada por Jesus e no diálogo com a ciência de seu tempo. Em suas revistas podemos ver vários estudos dos fenômenos espirituais, e tais estudos buscavam manter uma base centrada pela ética de Jesus, embora pudesse apresentar traços da cultura européia (pós) iluminista.
Com o passar dos anos, o espiritismo chegou ao Brasil e inevitavelmente esbarrou em temas da realidade da sociedade brasileira, entre eles, a política. Com o acirramento da disputa política e de uma certa polarização após eventos ocorridos entre 2013 e 2018, o espiritismo como qualquer outra esfera do ser humano foi afetado e dividido em diferentes espectros: sejam estes grupos chamados de progressistas, conservadores, esquerdistas, direitistas ou de quaisquer outros nomes. Apesar desta possível polarização, a discussão envolve vários temas importantes como iniquidade (desigualdade social), pobreza, preconceito contra minorias, necessidade de diálogo, negação do conhecimento e por isso é preciso tentar esclarecer alguns pontos dessas rivalidades, narrativas etc.

Espíritas neoliberais, conservadores e/ ou reacionários atacam espíritas anarquistas, socialistas e social-democratas, mas geralmente se calam diante cientificistas e materialistas/ niilistas que ridicularizam o espiritismo de modo geral e também se calam diante evangélicos que demonizam o espiritismo como um todo... Porque? Por ignorância? Pode ser, mas acho que também se trata de medo. Medo do umbral (um suposto tipo de inferno ou purgatório, não muito diferente de católicos e evangélicos), medo de fazer tatuagens, de falar sobre sexo e de tantas outras coisas típicas do estilo de vida conservador. Particularmente eu me considero conservador em variados costumes, só que diferente dessas pessoas eu não prego o conservadorismo para os outros: "Cada pessoa deve tirar ramo (ou a trave) de seu próprio olho" ensinou Jesus. Para o coletivo, eu entendo a importância do progresso ético e social, afinal Jesus defendia os vulneráveis e empobrecidos, criticando os poderosos como os fariseus etc. O espiritismo conservador e de ideologias similares então, se apoia na ideia do medo: O espírita das ideologias entendidas como de direita é medroso, ou covarde, porque é fácil e cômodo não ter coragem: talvez seja até seguro; Priorizando o medo do "castigo ou punição espiritual" ao invés de fazer a boa obra e viver sem julgar os outros para se alcançar as "moradas de Cristo", o espírita covarde pode seguir sua rotina com família, trabalho e eventuais ou regulares visitas ao centro espírita gerido por um direitista, seja este médium ou não. Além disto, neoliberalismo, conservadorismo e reacionarismo são fáceis de se propagar, pois não requerem estudo devido ao fato de serem manifestações que desprezam o raciocínio e a ética: você pode falar absurdos sem se preocupar, pode crer em histórias que lhe são coniventes e até "evitar o stress" de se preocupar com injustiças e com os injustiçados. Esses tipos de espíritas bem como qualquer não-espírita de direita tem tudo isso a favor de si. Tais espíritas bem como religiosos de direita em geral, são massa de manobra de seus respectivos líderes; talvez com a única diferença que os líderes espíritas acreditam em suas próprias mentiras (possivelmente acreditam que são guiados por algum "espírito de luz") enquanto os líderes multimilionários evangélicos/ neopentecostais nem sequer devem acreditar em Deus ou em um "pós vida": espalham seus discursos mentirosos só para enganar multidões e enriquecer mais e mais. 

 Espíritas de direita poderiam acusar os de esquerda dizendo que Kardec não era comunista ou que a visão de mundo materialista adotada por muitos marxistas contradiz o espiritismo... Isso é verdade ao menos em parte, mas não quer dizer que Kardec estava de acordo com as ideias absurdas de liberais/ neoliberais, conservadores(*), reacionários e com manifestações ainda mais violentas de segregação e obscurantismo. Kardec buscava diálogo com a ciência e enfrentava católicos conservadores (como pode ser visto em várias revistas espíritas). Kardec criticava o materialismo e a redistribuição repentina de riquezas, mas pregava o espiritismo como um movimento ético de resultados positivos para justiça social: seguir ensinamentos de caridade e melhoria moral dos indivíduos para gerar um mundo mais justo e menos desigual. Alegar que Kardec simplesmente proibiu os espíritas de discutirem política é uma distorção dos fatos que propaga ignorância; é desconsiderar que Kardec viveu numa época da França em que o governo era uma monarquia: Kardec e os demais espíritas franceses "não podiam" discutir política porque não haviam opções nem soluções neste campo. Em última instância, devemos considerar que Kardec baseou sua ética nos ensinamentos de Jesus e considerou Platão como precursor do espiritismo; O filósofo grego claramente teve uma posição política de criticar os amantes do dinheiro (filokerdes) e os amantes da disputa/ da vitória (filonikons). Platão centrou a filosofia em valores universais com a finalidade da melhoria não só dos indivíduos mas também da sociedade. Ainda que sua proposta de governo tivesse uma classe de governantes/ legisladores filósofos; ele indicou que tal classe deveria se apartar de toda atividade comercial e servir o coletivo/ o estado, controlando a classe mercadora para que essa não se tornasse muito influente nem tomasse o poder. Por fim, Platão criticou o uso exagerado da retórica (linguagem complexa ou empolada) e sua aplicação para fins lucrativos (em suma, foi contra o charlatanismo e, de certo modo, contra o capitalismo). 

 Hoje porém, milênios após Platão e Jesus, séculos após Kardec, temos um meio de comunicação chamado internet, este que está em grande parte sob domínio de multimilionários que não se importam com o conhecimento, a verdade e a ética. Assim, o desafio de enfrentar os movimentos obscurantistas (conservadorismo e reacionarismo), os movimentos capitalistas que precificam e objetificam a vida (neoliberalismo) e os movimentos de extermínio (neo fascismo e nazismo), me parece que requer mais do que uso das redes na internet... eu não sei quais melhores formas de resistir ou enfrentar tais grupos, porém imagino que qualquer espiritualista "de esquerda" vai precisar não só de união e ações palpáveis/ mensuráveis, mas também de uma sincera prática espiritual: meditação para estabilizar a mente; oração para se conectar com Deus/ com seus bons espíritos em busca de desenvolver vários aspectos psíquicos tais como paciência, força de vontade, auto controle, misericórdia, entendimento, sabedoria, esperança etc. E falando de aspectos psíquicos, se for o caso, também pode ser bom fazer uma psicoterapia.

 Enfim, uma coisa que as pessoas voluntariamente de direita não têm, é a conexão com Deus ou com bons espíritos... ao menos não enquanto defenderem a miséria, a violência, o medo e a ignorância... 
Creio que nossa luta seja por mais equidade e menos desigualdade. Mais conscientização e menos boataria e sensacionalismo. Mais diálogo buscando a aplicação de valores universais e menos discursos de ódio; Mais inclusão e menos violência contra os vulneráveis.
Façamos nossa parte então, por nós, por quem está do nosso lado e até por quem está contra nós (não que eles entendam e não da forma que eles querem as coisas)... Façamos nossa parte por todos.

 (*) não, liberalismo não é o oposto do conservadorismo, mas não vou explicar política, economia ou sociologia neste post. 

sábado, 28 de dezembro de 2024

Leitura sobre O Grão de Mostarda, Ameaças de Herodes e O Fermento

O grão de mostarda (Tomé, Mateus, Marcos, Lucas) 

 "Os discípulos disseram a Jesus: "Diga-nos com o que o Reino do Céu se parece." 
 Ele lhes disse: "A que eu compararei? É como um grão de mostarda, a menor de todas as sementes. Mas quando cai em solo cultivado, produz uma grande planta e se torna um abrigo para os pássaros do céu." O Reino dos céus é como um grão de mostarda que um homem plantou em seu campo. Embora seja a menor dentre todas as sementes, quando cai em solo cultivado e cresce torna-se a maior das hortaliças e se transforma numa árvore, de modo que as aves do céu vêm fazer os seus ninhos em seus ramos". 

 O Reino do Céus é regido pela lei divina, que é de amor e o amor verdadeiro é expansivo. Perdoar e ajudar o próximo são posturas e atitudes que cada pessoa direciona para além de si mesmo, ou seja, alcança os outros, podendo inspirá-los além de ajudá-los. 
 “A menor de todas as sementes” pode ser um termo para se referir à humildade, explicada por Jesus quando os apóstolos discutiam quem deles seria o melhor. Ser humilde como a criança requer “tirar a trave do próprio olho” também: Ao invés de julgar o erro dos outros, corrigir-se para ser humilde nas ações e na mentalidade. Só assim é possível ser tolerante, piedoso e solidário como Jesus e alcança-se o  "Reino dos Céus". Assim se vive a lei de amor ensinada por Jesus, pois para amar a Deus, é necessário amar toda a sua criação. 
 Este amor não inclui se submeter a um opressor - Por exemplo, não é ficar em uma empresa sendo humilhado pelo chefe, nem ficar em uma igreja concordando com um sacerdote mentiroso e nem tolerar um esposo(a) violento em casa. 
 Amar é querer o bem do próximo acima de tudo, e querer o bem não é fazer todas as vontades de um indivíduo ou outro, pois o bem é um valor universal. O amor ensinado por Jesus é assim: universal e não meramente individual, por isso ele diz que o reino dos céus é a menor das sementes (humilde), mas que cresce como se fosse a maior das hortaliças (expansivo, universal). Esse amor não é querer algo ou alguém para si mesmo; ele é ajudar o próximo, compartilhando alimentos com os famintos, ajudando e aliviando os sofredores, reprimindo a violência, questionando os que se aproveitam dos outros etc. 

 Ameaças de Herodes (Lucas) 
 "Naquele mesmo dia chegaram uns fariseus, dizendo-lhe: Sai, e retira-te daqui, porque Herodes quer matar-te. 
 E respondeu-lhes: Ide, e dizei àquela raposa: Eis que eu expulso demônios, e efetuo curas, hoje e amanhã, e no terceiro dia sou consumado. 
 Importa, porém, caminhar hoje, amanhã, e no dia seguinte, para que não suceda que morra um profeta fora de Jerusalém.

 Jesus não se abalava com ameaças nem fazia a vontade de seus inimigos. Ele permanecia firme ajudando os mais necessitados e propagando seus ensinamentos da lei divina de amor, pois esta era sua prioridade e missão. 

 O fermento (Tomé, Mateus, Lucas) 
 "E contou-lhes ainda outra parábola: "O Reino dos céus é como o fermento que uma mulher tomou e misturou com uma grande quantidade de farinha, (toda a massa ficou fermentada), e fez grandes pães. Quem tem ouvidos ouça". 
 Jesus falou todas estas coisas à multidão por parábolas. Nada lhes dizia sem usar alguma parábola, cumprindo-se, assim, o que fora dito pelo profeta: "Abrirei minha boca em parábolas, Proclamarei coisas ocultas Desde a criação do mundo". 

Jesus continua mostrando a extensibilidade do amor, o tema central em seus ensinamentos. O reino dos céus não é só o destino das almas que praticam os ensinamentos de Jesus: Ele também é o que há de mais valoroso na vida terrena e nas relações humanas. Se todos vivessem os ensinamentos de Jesus (por mais difícil que pareça), todos teriam a prioridade de ajudar uns aos outros e todos conflitos acabariam. O reino de Deus então poderá ser realizado na Terra, quando os humanos amarem uns aos outros com solidariedade e respeito mútuos. 
O amor é um sentimento e sendo assim deve ser expresso - isto já faz dele algo expansivo, ou uma extensibilidade para além de sua própria fonte.
Esta extensibilidade, que pouco difere da expansividade, aparece em vários fenômenos e formas da natureza, além de ser reproduzida em variados símbolos das culturas e das religiões humanas: A flor (a lótus, a rosa etc) que desabrocha, as “árvores da vida”, a estrela que irradia sua luz etc… 

 

sábado, 16 de novembro de 2024

Leitura ecumênica do "Milagre do surdo-mudo" e "Festa dos Tabernáculos"

Milagre do surdo-mudo (Mateus, Marcos) 

Jesus deixou de novo as fronteiras de Tiro e foi pela Sidônia ao mar da Galiléia, no meio do território da Decápole. Ora, apresentaram-lhe um surdo-mudo possuído do demônio, rogando-lhe que lhe impusesse a mão. 

Jesus tomou-o à parte dentre o povo, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe a língua com saliva. E levantou os olhos ao céu, deu um suspiro e disse-lhe: Éfeta (que quer dizer: abra-te). No mesmo instante o demônio foi expulso os ouvidos lhe abriram, a prisão da língua se lhe desfez e ele falava perfeitamente. 

Proibiu-lhes que o dissessem a alguém. Mas quanto mais proibia, tanto mais o publicavam. 

E tanto mais se admiravam, dizendo: E fez bem todas as coisas. Fez ouvir os surdos e falar os mudos! Jamais se viu algo semelhante em Israel! Os fariseus porém falavam: É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa demônios

Como dito anteriormente os fariseus afirmavam que os doentes em geral, se encontravam em tais condições porque mereciam, pois "tinham algum pecado". Isto certamente poderia ser usado como uma forma de poder político e/ou social, determinando que as pessoas não ajudassem os indivíduos com qualquer tipo de doença, dificuldade ou limitação. Jesus não só ajudou as vítimas oprimidas por tal situação, como contrariou as classes dominantes que espalhavam tais ideias mentirosas. 

Este tipo de mentira persiste até mesmo nos dias de hoje. Entre evangélicos existem pastores enriquecidos que chamam pessoas com transtornos mentais de endemoniados e classificam socialistas e sociais-democratas como anti-cristo. No 1º caso fazem isso para vender curas falsas ou internar tais pessoas em "comunidades terapêuticas" exigindo pagamento dos parentes do interno. No 2º caso fazem tal acusação por interesses políticos e econômicos: Envolvidos em negócios, estes pastores defendem seus interesses particulares preferindo candidatos neoliberais que negam obras sociais para favorecer os lobistas. 

Entre espíritas (e em outras religiões reencarnacionistas), por exemplo, alguns alegam que as pessoas que nasceram pobres ou com problemas de saúde, estão assim por causa de pecados de vidas anteriores e assim têm que pagar pelos seus pecados, porém no Livro dos Espíritos está claro, que mesmo os que estão pagando por pecados devem receber ajuda, principalmente daqueles que se dizem cristãos e/ou espíritas. Mesmo nas doutrinas reencarnacionistas, vivemos uma vida de cada vez, não lembrando de erros de vidas passadas, por isso todos são dignos de ajuda e todos devem ajudar - o perdão e a solidariedade mútuos são manifestações da lei divina de amor!

Festa dos Tabernáculos (João) 

Depois disto Jesus andava pela Galiléia, e já não queria andar pela Judéia, pois os judeus procuravam matá-lo. E estava próxima a festa dos judeus, a dos tabernáculos. Disseram-lhe, pois, seus irmãos: Sai daqui, e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque não há ninguém que procure ser conhecido que faça coisa alguma em oculto. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. 

Pois nem mesmo seus irmãos criam nele. 

Disse-lhes, pois, Jesus: Ainda não é chegado o meu tempo, mas o vosso tempo sempre está pronto. O mundo não vos pode odiar, mas ele me odeia a mim, porquanto dele testifico que as suas obras são más. Subi vós a esta festa; eu não subo ainda a esta festa, porque ainda o meu tempo não está cumprido. E, havendo-lhes dito isto, ficou na Galiléia. Mas, quando seus irmãos já tinham subido à festa, então subiu ele também, não manifestamente, mas como em oculto. 

Ora, os judeus procuravam-no na festa, e diziam: Onde está ele? 

E havia grande murmuração entre a multidão a respeito dele. Diziam alguns: Ele é bom. E outros diziam: Não, antes engana o povo. Todavia ninguém falava dele abertamente, por medo dos judeus. 

Mas, no meio da festa subiu Jesus ao templo, e ensinava. E os judeus maravilhavam-se, dizendo: Como este sabe letras, não as tendo aprendido? 

Jesus lhes respondeu, e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo. Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória; mas o que busca a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro, e não há nele injustiça. 

Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me? 

A multidão respondeu, e disse: Tens demônio; quem procura matar-te? 

Respondeu Jesus, e disse-lhes: Fiz uma só obra, e todos vos maravilhais. Pelo motivo de que Moisés vos deu a circuncisão (não que fosse de Moisés, mas dos pais), no sábado circuncidais um homem. Se o homem recebe a circuncisão no sábado, para que a lei de Moisés não seja quebrantada, indignais-vos contra mim, porque no sábado curei de todo um homem? 

Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça

Jesus mostra que não se ensina verdadeiramente falando de si, pois a verdade vem só daqueles que buscam a glória do Criador. Isto indica que admitir Deus é também uma forma de ser humilde, ou seja, de assumir a própria ignorância para buscar a verdade. 

De acordo com Platão e Sócrates, esta presunção da ignorância é um requisito básico para iniciar qualquer investigação, buscando o conhecimento / a verdade. 

Esta postura de Jesus também está em acordo com o Bhakti Yoga, um caminho de devoção e adoração de Deus (no caso, Brahman, a realidade última que se alcança com o amor intenso) no hinduísmo. 

Quando diz "testifico que as suas obras são más", Jesus também mostra como os religiosos e os aristocratas manipuladores e desejosos por luxo e por poder estavam errados e realizavam maldades; Além disto, ele mostra como os judeus que se opunham a ele eram contraditórios: Realizavam o rito da circuncisão mesmo aos sábados (o suposto dia reservado ao descanso e oração total dos judeus) e criticavam Jesus quando ele curava alguém neste mesmo dia da semana. 

Por fim, Jesus orienta para que não julguem pela aparência e sim pela justiça. Não há justiça sem o bem e sem equidade, moderação, coragem e bondade universais. Isto está na filosofia ocidental desde 4 séculos antes de Cristo e adentrou grande parte das leis das nações na era moderna. Mesmo assim, ainda hoje infelizmente há pessoas que julgam os outros pelas aparências: seja por ser de pele negra, por ser mulher, por ser indígena, por estar em situação de rua, por ser de uma sexualidade diferente de homem e mulher ou por ter transtornos mentais perceptíveis no comportamento.

 

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Para uma Necessidade Social da Doutrina Espírita

 

 O que é espiritismo? Uma religião? Uma filosofia? Tais questões eu abordei neste texto: https://novotemplodauniao.blogspot.com/2022/08/estive-lendo-alguns-textos-espiritas-da.html então trago outra questão tão ou mais importante do que estas: Os centros espíritas representam bem o espiritismo proposto por Allan Kardec?

Não exatamente... Primariamente, os centros espíritas no Brasil desde meados do século 20 desempenham um papel principal de assistência pontual, seja com atendimento "espiritualizado" ou seja com doações para "ONGs" e / ou para determinados grupos de pessoas necessitadas. 

A filosofia espírita escrita (ou decodificada, que seja...) por Kardec mostra preocupação com o desenvolvimento moral e intelectual da humanidade e com isso, mostra também uma busca pelo progresso ao nível coletivo, ou seja, social.

Assim é possível notar que falta a continuidade ideológica social no meio espírita; As explicações espíritas com sua visão espiritual do ser humano e da história requerem uma atuação social também! Fazer do espiritismo algo exclusivamente contemplativo por causa da importância da evolução moral, é contraditório e alienado, pois a proposta filosófica espírita também deve intervir nas lutas sociais conforme a ação criadora dos espíritos que visam o progresso da humanidade... Em outras palavras, espíritos progressistas. 

A proposta de Kardec não é de um espiritismo determinista nem exclusivamente mediúnico! Ela se liga ao humano físico e moral, buscando o progresso coletivo da humanidade como já mencionado. Assim o espiritismo deve se preocupar também com a justiça à nível social, com a democracia e com o bem estar físico e principalmente psíquico do povo, pois estes temas estão vinculados à luta da sociedade e aos resultados do progresso. 

A desigualdade de nossas sociedades não é só sócio econômica, também engloba preconceitos de origem psíquica (raciais, sexuais, culturais etc); Infelizmente há desvalorização de pensamentos sociológicos nos meios espíritas... As pessoas que não lêem as obras de Kardec (incluindo as Revistas Espíritas/ Jornal de Estudos Psicológicos) enxergam o espiritismo como mais uma mera religião de classe média e/ou alta. 

Kardec não era partidário nem fã de político algum, mesmo porque viveu sob uma monarquia (de Napoleão III), mas nunca proibiu assuntos abordados pela política dentro do espiritismo, pelo contrário: mostrou também uma preocupação com o progresso da humanidade e com fatores sociais. Alguns dos espíritos consultados em suas sessões mediúnicas eram socialistas, embora fosse o movimento chamado pejorativamente de utópico após a ascensão do socialismo "científico", este mais novo que era materialista. O socialismo por sua vez deveria também buscar resolver questões éticas e psicológicas; O materialismo manifestado como verdade absoluta (que acaba desencadeando a busca por riquezas materiais ou um estilo de vida hedonista de prazeres materiais como exemplifico neste texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/06/os-perigos-dos-materialismos.html) contradiz a busca por justiça, por equidade e por progresso social, moral e ético. A objetividade é importante para vermos as imperfeições cotidianas sociais e econômicas e então, buscarmos soluções. O destino social da humanidade está ligado ao processo evolutivo do mundo, que o espiritismo também busca ... 

O capitalismo / neoliberalismo não é só um sistema econômico; ele é ideológico, pois dita comportamentos e procurar distrair a humanidade deixando-a acomodada ou submissa. Não bastam só gestos de boa vontade para combater um sistema materialista de vida que retarda a marcha natural da evolução, através da defesa o enriquecimento de poucos que já têm muito, da opressão dos mais pobres e necessitados e da alienação da humanidade. Para se combater todo esse sistema de injustiça é preciso o progresso moral, intelectual e social, com participação através do ativismo, da política, da educação não só técnico-profissional, mas também psicológica, social, histórica etc. Isto explica o porquê alguns estudiosos espíritas ativistas atuaram em áreas como pedagogia e filosofia: Eurípedes Barsanulfo, Anália Franco, Herculano Pires, Humberto Mariotti entre outros foram exemplos de pessoas que puseram em prática a filosofia espírita. 

Os centros espíritas parecem predominantemente tomados por um modelo religioso fechado em si, o que deixa o aspecto filosófico em segundo plano, e permite que o estilo de vida materialista propagado pelo neo liberalismo / capitalismo se propague e influencie até mesmo os frequentadores de tais centros.

Ignorar a realidade social, o progresso da humanidade e a desigualdade no mundo em que vivemos contradiz o espiritismo, pois também contradiz o cristianismo. Seja a partir de uma postura racional de progresso ou uma postura emocional de amor, os espíritas (bem como pessoas humanistas, progressistas ou pessoas de qualquer fé/ espiritualidade verdadeira) devem atuar na sociedade levando em consideração estas questões e buscando progresso, justiça, equidade. Isto faz parte da lei de amar o próximo como a si mesmo, como pode ser visto na seguinte passagem do evangelho:

Mensagem de João Batista a Jesus (Tomé, Mateus, Lucas

E João, ouvindo no cárcere falar dos feitos de Cristo, chamou 2 dos seus discípulos e enviou-os a Jesus, dizendo: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?

Quando aqueles homens chegaram junto a Jesus, disseram: João o Batista enviou-nos a perguntar-te: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?

E, na mesma hora, curou muitos de enfermidades, e males, e espíritos maus, e deu vista a muitos cegos.

Então, Jesus disse-lhes: Ide, e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho. E bem-aventurado é aquele que em mim se não escandalizar.

E, tendo-se retirado os mensageiros de João, Jesus começou a dizer à multidão acerca de João: Que saístes a ver no deserto? uma cana abalada pelo vento?

Mas que saístes a ver? um homem trajado de vestes delicadas? Eis que os que andam com preciosas vestes, e em delícias, estão nos paços reais (palácios).

Mas que saístes a ver? um profeta? Sim, vos digo, e muito mais do que profeta.

Este é aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu anjo diante da tua face, O qual preparará diante de ti o teu caminho.

E eu vos digo que, entre os nascidos de mulheres, desde Adão até João o Batista, não há ninguém tão superior a João Batista que seus olhos não devem ser abaixados (diante dele); mas o menor no reino de Deus é maior do que ele. Ainda assim eu digo que qualquer um de vocês que venha a ser uma criança conhecerá o Reino e se tornará superior a João. E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

E todo o povo que o ouviu e os publicanos, tendo sido batizados com o batismo de João, justificaram a Deus. Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele.

E disse o Senhor: A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes?

São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.

Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio;

Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores.

Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos


Esta passagem, de acordo com a filosofia espírita, Jesus não só explica o percurso da existência do profeta João, mostrando seu valor e importância, como também anuncia a imortalidade da alma, indicando que este é a reencarnação de Elias. 

De tempos em tempos Deus enviou escolhidos, sejam profetas ou indivíduos inspirados, para propagar seus ensinamentos. Porém, muitas vezes, estes escolhidos de Deus para propagar a bondade e a equidade, foram atacados, rechaçados, feridos e até mesmo mortos.

Jesus também afirma que fazem violência contra o Reino dos Céus. Isto pode se referir aos variados movimentos contrários ao bem e à verdadeira espiritualidade. O judaísmo do século 1, além de estar dividido em variadas seitas, estava em sua maioria tomado por sacerdotes corruptos, ou seja, que manipulavam o povo para se manter em posição social e econômica superior e negavam a vida eterna às pessoas. Estes interesses egoístas e tentativas de manipulação certamente se espalhavam por diversas outras religiões dentro e fora do Império Romano e ainda existem hoje no início do século 21.

Por fim, Jesus utiliza a parábola dos meninos que tocaram flauta e cantaram lamentações: Os meninos, assim como as crianças em outras passagens, invocam a importância da humildade. A partir da atitude humilde, Deus ofereceu 2 caminhos: uma para “dançar ao som das flautas” e outro para “se juntar aos cantos de lamentação”. O 1º é o mesmo da parábola da festa (bodas) de casamento - O caminho de Jesus, xingado de comilão, beberrão e amigo dos pecadores, trata-se de viver com alegria, socorrendo os mais necessitados e compartilhando o que se tem em vida e o 2º é o caminho da vigilância, onde tira-se “a trave do próprio olho” para viver em humildade instruindo os demais a abandonarem a ganância e a luxúria, enfim mostrar que deve-se abandonar o egoísmo e praticar a solidariedade, como João Batista fazia e foi acusado de “endemoniado”. Isto mostra como os sacerdotes corruptos só estavam interessados em manter o poder e o prestígio em suas seitas: Recusavam a Deus e sua lei de amor, difamando e atacando Jesus de Nazaré, o Cristo, e os profetas como João Batista. 

O espiritismo como filosofia cristã não só deve estar em acordo com tais ensinamentos, como também estão de acordo com os ensinamentos de Sócrates e Platão... Que aliás, tinham suas semelhanças, respectivamente com Jesus e João Batista, mas não trarei tais detalhes aqui - A intenção deste texto é só evidenciar a necessidade de reaproximar o espiritismo da prática cristã (solidariedade, piedade, equidade, verdade etc), que está de acordo com valores da filosofia socrática/ platônica (o bem/ kalos*, crítica aos discursos falaciosos** e ao hedonismo) e também com muitas das medidas práticas do socialismo (combate à pobreza, à desigualdade e às injustiças geradas pela ganância, crítica à alienação etc), desde antes das publicações de um contemporâneo de Kardec, chamado Karl Marx.

 

*kalos é a palavra grega similar à fine (em inglês) que inclui o bem e a beleza; 

**a retórica: método de exposição usado pelos sofistas, onde ignorava-se a verdade buscando persuadir os ouvintes. 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Militarismo e Espiritualidade tem algum nexo entre si?

 

No meio do ano retrasado, escrevi um texto onde citei alguns perigos do sensacionalismo propagado pelas diversas mídias sociais e pelas mídias de massa, combinado com o punitivismo fomentado entre as classes militares do Brasil (seja polícia, exército ou qualquer outra): https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/07/o-sensacionalismo-da-punicao.html

 A verdade é que os comportamentos fomentados por estas ideologias há décadas está trazendo consequências desastrosas. São ações de violência e até de extermínio: Só neste mês de maio de 2022, tivemos aqui no Brasil, tais casos em São Paulo, Rio de Janeiro e Sergipe. Utiliza-se força letal de maneira tão descontrolada contra suspeitos e criminosos pé de chinelo (sim, indivíduos envolvidos em crimes de valor insignificantes, afinal ladrões multimilionários continuam livres), que às vezes sobra violência para qualquer um que esteja no caminho - seja moradores de favelas, ou até mesmo transitantes que estejam próximos às operações policiais. O curioso é que há uma vasta camada da sociedade que apoia tais atos de violência, sendo boa parte desta "camada" supostamente religiosa, mais precisamente, "cristã". Este "cristianismo" conivente com a violência vem se propagando há tantos anos, que é difícil estabelecer um período preciso de quando ele tenha começado. 

Os movimentos obscurantistas que geralmente apoiam ou ignoram a propagação da violência devem ter alternado de religião para religião, de tempos em tempos. Em geral esses movimentos são liderados por pastores, padres e dirigentes defensores da insensibilidade em relação à todos que não façam parte de seus seletos grupos, embora alguns destes líderes cheguem a defender abertamente o uso da violência para matar. Alguém poderia dizer, "ah, mas tá na bíblia que Deus permitia matar infiéis" (velho testamento)... É aí que eu reforço algumas das observações feitas pelo fundador do espiritismo (Kardec) e vou além: Kardec dizia que o antigo testamento era essencialmente voltado a um povo primitivo, rude e com tendências violentas. Eu digo que o velho testamento, salvo algumas partes que priorizam a solidariedade, poderia ser excluído das religiões verdadeiramente cristãs. Não porque é tudo imprestável ali, mas por dois motivos: Primeiro, realmente se tratava de ensinamentos voltados a povos imersos em guerras e que sequer cogitavam a idéia de progresso. É uma ignorância enorme fingir que os povos da idade do bronze e do ferro (desde aproximadamente 3500 anos antes de Cristo até 470 antes de Cristo) não guerreavam por motivos absolutamente indefensáveis. As guerras eram mais frequentes do que os tempos atuais desse início do século 21 e não havia busca significativa de progresso, seja social ou tecnológico. Além das guerras registradas nos grandes impérios que tinham uma história escrita, existiam inúmeras outras guerras não registradas em povos e civilizações que não tinham uma linguagem escrita até o século 1. Em segundo lugar, o velho testamento era voltado a um pequeno grupo social ou uma cultura específica do oriente médio (hebraica/ judaica). A religião judaica se misturava com noções de sociedade e nação, invocando certo patriotismo pertencente somente àquela época e local (mais ou menos onde situa-se Israel até este início de século 21). O que as sociedades de vários outros países com estudo débil e/ou defasado dos dias de hoje podem entender ou aprender com tais "textos religiosos"?? Oras, se pastores e padres corruptos conseguem distorcer o significado das parábolas de Jesus, o que não conseguiriam usar maliciosamente do velho testamento? É fácil tais líderes fomentarem rixas e defender violência distorcendo diversos trechos da bíblia, e certamente, mais fácil é usar trechos do velho testamento com esta finalidade. 

 Mas apesar de tudo isto, toda violência é contrária aos ensinamentos verdadeiramente espirituais dos textos religiosos. É possível encontrar ensinamentos sobre a importância do perdão, da solidariedade e da equidade em inúmeros textos: Desde Isaias e os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João sobre Jesus até textos sobre personagens de outras religiões, como Krishna no Bhagavad gita, Buda, Rumi no islamismo etc. A violência é fruto de uma sociedade que aceita a brutalidade e essa brutalidade é contra o perdão e contra qualquer forma de progresso e evolução. Mesmo porque se o perdão for extinto da humanidade, as pessoas se destruiriam de tal maneira que seria impossível qualquer forma de progresso. A brutalidade só conseguiu se manter por milênios na civilização humana por causa de movimentos contra o perdão, a tolerância e a solidariedade. Na idade média, as guerras aconteceram debaixo do nariz da igreja européia por causa que o alto clero corrupto manipulou significante parte da sociedade com conservadorimo e obscurantismo. Já na era moderna até os dias de hoje, a brutalidade no ocidente (América e Europa) se propagou principalmente através de ideologias que idolatravam um determinado grupo de pessoas, como o machismo e o militarismo. Duas das principais ideologias por trás da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, eram altamente militaristas: o nazismo e o fascismo. Se não houvesse o culto ao "machão", o militarismo nem conseguiria se sustentar, pois não existiria toda a classe de pessoas dessensibilizadas e obedientes (seja a um líder ou a uma ideologia que cria inimigos do nada) espalhada por diversos países e prontas para utilizar armas. 

As ações desta classe militar, sejam operações que nunca pegam os criminosos ricos ou seja em guerras, se apoiam em discursos mentirosos que defendem os lucros do comércio de armas e/ ou defendem a ideia que supostos inimigos perigosos estão tramando algo contra uma nação. Operações policiais e guerras não tem relação alguma com os ensinamentos de Jesus Cristo ou de Buda (nem com outros líderes verdadeiramente espiritualistas). Ações de violência ou de mera punição na Terra, nada têm de espiritualidade, nem da verdadeira fé. Este militarismo é fruto de paixões terrestres, ou seja, defende os que se entregam à ganância, à intolerância, à fúria, ao orgulho, à boataria e/ ou ao imediatismo. E nada disto é espiritual ou sequer contém alguma espiritualidade. Como poderia ser uma existência pós terrena daqueles que matam por uma destas causas? Como seria o "destino espiritual" de alguém que venera armas e punitivismo? Certamente não se trata de um destino pacífico...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

A Necessária União entre a Espiritualidade Progressista

Ao longo dos anos estudando sobre religiões e "mitologias" notei que várias religiões falavam das mesmas coisas: da importância do bem, de um criador, de um todo divino... Mas também vi  religiosos evitarem ler coisas de autores que não professam suas crenças escolhidas: Há crentes que não lêem nada religioso fora a Bíblia, espíritas que lêem apenas Kardec etc. Isto é compreensível e até aceitável contanto que não gere mais divisões e insensibilidade em nossa sociedade.

Recentemente assisti uma missa onde o padre fez uma leitura bastante "pés no chão" sobre uma passagem bíblica. Em até certo ponto foi possível entender que Jesus curou enfermos não para provar que era Deus ou filho de Deus. Isto é válido, para não dizer, óbvio: Jesus o fez para propagar o bem. Todos os ensinamentos de Jesus giram em torno do bem: Amar o próximo como a si próprio.

Porém a leitura pareceu mostrar uma abertura para indicar que Jesus não fez milagres e que não tinha poderes sobrenaturais. Talvez seja uma explicação da teologia da libertação a qual ainda não estudei a fundo. Este é um ponto bem polêmico, mas há mais teorias que lidam com a religião e com a espiritualidade que convergem para este caminho: O espiritismo por exemplo alega que tudo (ou muito mais coisas do que conhecemos até o século 21) virá às claras, ou seja, tudo será compreendido. Os milagres vão gradualmente sendo explicados como manifestações da "mediunidade". Mediunidade esta que depende principalmente da interação de seres "incorpóreos", chamados de espíritos. Outro fator que o espiritismo indica ser necessário para as realizações mediúnicas é o fluído universal que está por trás da criação de todo universo. Este fluído parte de uma pureza máxima (Deus) e passa por diversas transformações constituindo desde forças praticamente indetectáveis para os seres humanos (como o perispírito) até energias e elementos normalmente perceptíveis pela vida terrestre.

Ninguém pode ser forçado a acreditar em uma coisa nem em outra: O católico certamente escolherá crer que Jesus fez milagres porque era filho de Deus ou o próprio Deus. O espírita dirá que Jesus foi um dos mais elevados espíritos que passou pela Terra e por isso mostrou grande domínio mediúnico em sua vida na Terra. E quem diz que Jesus não fez milagre nem foi um medium? O materialista, que geralmente é ateu. Obviamente porque ateus não crêem em Deus, e muitos deles, também não crêem em uma dimensão espiritual. Para o materialista apenas o universo "3D" existe. A mente é mero produto do cérebro: Está em reações químicas do sistema nervoso, nas sinapses ou na relação destes efeitos com o ambiente onde o ser vivo está inserido. Geralmente, para os ateus, milagres são invencionices criadas pelas igrejas para manipular o povo. Por enquanto não me aprofundarei nesse frágil argumento, mas sei que a "igreja européia" após o ano de 380 dC, inventou muitas coisas para manipular as massas.

Em linhas gerais, a igreja católica, assim como as igrejas protestantes, durante todo período colonial/ neo-colonial (do final do século 15 até meados do século 20) continuaram sendo usadas como ferramenta de poder ignorando os ensinamentos de seu principal profeta: Jesus Cristo. Os cristãos que acreditavam e praticavam os ensinamentos de Jesus Cristo eram minoria dentro da religião e por causa disso muitos absurdos foram admitidos, desde genocídio dos povos indígenas até a escravização dos povos da África subsaariana.

Portanto existia a necessidade de acabar com o poderio dentro das igrejas (ou das religiões), colocando-as em seus devidos lugares - o lugar do amor e da espiritualidade.

O espiritismo surgiu no século 18 entre uma classe de pedagogos europeus. Nesta época as práticas "místicas" haviam ganhado prestígio entre classes médias e altas da sociedade, o que deu abertura para proliferação de charlatanismo baseado em superstições e fascinação. A parte menos mesquinha e mais séria destes movimentos místicos eram essencialmente religiosos (espiritualistas, mas este termo era pouco ou nada usado na época), porém com a propagação do charlatanismo todos eles passaram a ser mau vistos pelas pessoas mais sérias, havendo uma  necessidade de reação.

O espiritismo pode não ter surgido essencialmente como reação, mas surgiu nesta época. Este movimento predominantemente filosófico (cristão/platônico, e, de certa forma também ontológico e até epistemológico), buscou explicar diversos fenômenos tidos como sobrenaturais: Contato com espíritos, visões "do além", êxtases espirituais, incorporações etc. Em seus esforços este grupo liderado por Kardec, coletou informações durante o século 19 e tentou uma conciliação com as elites intelectuais (entre elas, os cientistas) e com alguns grupos religiosos. Mas o resultado não foi muito promissor e o espiritismo em sua forma pura foi majoritariamente rechaçado como se fosse parte do movimento de charlatanismo da época. Ele só ganhou força no Brasil, durante o século seguinte, mas a elite econômica insistiu em distorcer muito da teoria e da prática espírita, o que fomentou divisões no espiritismo: Daí surgiu a Umbanda e os movimentos espíritas progressistas, afinal Kardec fala muito no progresso moral como base para o progresso da humanidade.

Como é possível notar, foi praticamente impossível convencer indivíduos cheio de poder (seja econômico, político ou religioso) a abandonarem seus excessos e suas ganâncias. Assim, a teologia da libertação surgiu de necessidades reais durante a transição dos anos 60 aos 70 do século 20.  

Movimentos como a teologia da libertação trabalharam junto aos pobres, aos humildes e aos desfavorecidos nas sociedades. Esta foi uma verdadeira aproximação dos ensinamentos de Cristo. O autor da obra considerada como marco do movimento, menciona que a raiz da exploração humana é a ruptura da amizade com Deus e com os Homens. Afinal o amor ensinado por Jesus Cristo, é o amor ao Deus onipresente criador de tudo e o amor a toda sua criação - daí amar ao próximo como a si mesmo.

Porém um dos perigos da aproximação com o materialismo, é desconsiderar a dimensão espiritual e a pluralidade. Alegar que os "milagres" de Cristo são uma invenção é argumento de anti-religiosos e anti-espiritualistas. Mesmo dizer que foi uma invenção para o bem, é um reducionismo - reduz as capacidades de Jesus Cristo e pressupõe uma certeza que nada parecido com milagres ou com a mediunidade existe.

Os milagres podem ser um tema polêmico, mas alegar que eles foram simplesmente inventados é sair do cerne dos ensinamentos da lei de amor. Se você não crê em milagres, pode buscar explicações filosóficas que indicam uma possibilidade como as do espiritismo ou as de filosofias e religiões orientais e africanas, ou pode deixar a questão em aberto.

Pregar verdades absolutas sobre o que ainda está a ser estudado ou sobre o desconhecido, é cair no erro. Nestes temas relacionados à espiritualidade e aos milagres, é útil e importante priorizar os ensinamentos de Cristo, que indicam que a lei divina, e portanto, universal, é a lei de amor. A lei é universal, regendo do maior (Deus) para os menores (toda sua criação e criaturas) e assim também é a lei da natureza (o Sol, a Terra e os seres vivos), como explicada por Sócrates (no livro A República, de Platão), tido como uma das bases do espiritismo. Os ensinamentos de Sócrates também indicam que o amor tem a capacidade de transcender além da vida material, como foi registrado por Platão no livro "O Banquete".

Alegar que todos os feitos de Cristo são invenções é "pregar verdades" sobre o que não se tem certeza ainda. É cair no mesmo erro das fúteis e nocivas discussões se Jesus era santo antes ou depois do batismo por João Batista. É cair no erro da discussão se a verdadeira espiritualidade deveria permitir ou não a reprodução de imagens de santos e profetas. É cair no erro de discutir se Maria, mãe de Jesus, era virgem ou não, se era santa ou não. É cair no erro das cisões, do clubismo, do separatismo, da opressão, das acusações mútuas e dos conflitos.

É querer propagar a opinião própria como verdade absoluta, como dogmas.

São como as perseguições religiosas do final do império romano, os conflitos entre budistas e taoistas, as cruzadas medievais, as guerras entre católicos e protestantes da era colonial, o darwinismo social, o fascismo, o nazismo, a guerra fria, o terrorismo no oriente médio etc.

O fanatismo não existe só nas religiões, muito menos só na espiritualidade. Ele existe em todo lugar onde se prega verdades absolutas ignorando minorias.

Os egoístas e os gananciosos negaram o espiritismo porque acharam absurdo ou terrificante a ideia de outras dimensões onde correriam o sério risco de pagar por seus erros (pecados). O espiritismo não prega a pobreza, mas diz que as grandes fortunas materiais só se justificam se aplicadas ao progresso da humanidade.

Este mesmo tipo de pessoa (egoísta e/ou gananciosa) renega a teologia da libertação não por sua aproximação do materialismo, mesmo porque o materialismo é sua defesa. Os multimilionários construíram seus argumentos falaciosos de que suas fortunas são frutos de um suposto trabalho árduo, sendo a matéria, tudo que eles têm. Esses gananciosos odeiam a teologia da libertação porque sentem nojo ou ódio de pessoas humildes e querem enganar e explorar os pobres. Renegam por causa de seu apego a quantidades gigantescas de riquezas materiais e por seus desejos de adquirirem cada vez mais.

O espiritismo e a teologia da libertação parecem movimentos bem diferentes entre si, mas ambas correntes de pensamento cristão fomentam um progresso que incomoda somente aqueles que querem perpetuar seu poder pelo maior período de tempo possível.

 

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...