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quarta-feira, 30 de abril de 2025

O arrependimento... E Espiritualidade como Sentido de Vida

Este texto não é precisamente uma leitura dos evangelhos e tem um teor mais pessoal, mas ainda assim toca alguns temas espirituais que aparecem na cristandade: o arrependimento por exemplo.

Certamente Deus nos fez para evoluir e não para agirmos por meros instintos de reprodução/ de alimentação. Não para agirmos pelo mero prazer sensorial, mas para amarmos e pensarmos, para entendermos e sermos sábios, o que aponta para ética. Isso é ter esperança... 
Vejamos a vida e seu fluxo por exemplo: da matéria inorgânica (e de uma série de processos que desconheço) deve ter surgido a vida mais rústica/ unicelular. Daí surge a reprodução e depois a vida pluricelular, sejam algas, fungos e/ ou plantas. Surge a vida animal, como invertebrados, peixes, anfíbios, répteis, aves... e os mamíferos... que vão se tornando bípedes até o surgimento dos hominídeos e sua respectiva complexidade psíquica. 
A vida não deve parar no animalesco que vivia só pela reprodução/ alimentação, pois vida não é a lei do mais forte individualista e segregador. Não é o exagero e o desequilíbrio, onde a vida destrói a vida porque uns poucos querem acumular enormes quantidades de bens materiais ou de prazeres ilimitados, enquanto outros ficam na miséria. Os animais caçam uns aos outros porque sua limitação é sobreviver com base nas necessidades de seus corpos - o ser humano evoluiu de forma bem diferente, pois não é um quadrúpede com presas ou garras. Não tem a maxila tão especializada para morder e mastigar como um leão, um crocodilo ou um cão. Não tem a massa corpórea de um elefante, de um urso nem de um cavalo, pois não vive para priorizar meramente sua própria alimentação nem sommente para fortalecer seu próprio corpo. A existência do ser humano é um indício de que a lei natural, ou a vida em si, existe para algo mais complexo. Existem indícios de que a lei natural é da empatia e da inteligência que age em grupo para além da vida individualista. O intelecto e o sentimento humano abrem novas possibilidades: A lei então é mais do que coletiva - é expansiva, portanto universal. E cada ser deve ser assim, evoluir assim, por mais que existam diferenças que tornem as relações da vida complexas... A lei sendo da empatia, é a lei do psiquismo: o humano deve usar sua capacidade psíquica nesse sentido. De ética: esperança universal; 
Porém eu contrariei isso em um ou mais momentos de minha vida. Porquê? 
Se as formas de vida mais simples que o ser humano não contrariam as leis naturais, então essa contradição é uma monstruosidade.... E essa monstruosidade chegou ao ponto de me causar uma dor profunda... na alma. 
Aí entra o arrependimento... eu estranhei essa palavra por anos. Via na Bíblia e de alguma forma evitava pensar muito sobre o tema. Me acovardava? A palavra arrependimento soava pesada? 
Porquê? Eu achava que era só parar de fazer algo errado para fazer algo certo, ou fazer algo moralmente/ eticamente melhor. De fato, parar de fazer o mal e fazer o bem é bom, mas por anos tive dificuldade em ser sincero na postura benigna. Fiz caridade... ajudei pessoas... mas a mentalidade era muito lenta para abandonar algumas malícias e preconceitos. Fui vencendo alguns preconceitos, porém o processo pareceu não só gradual, mas também sutil... exceto em certos pontos: um dia me lembrei de um conselho ignorante e materialista que dei à minha mãe. Ignorei a necessidade de uma pessoa e a julguei oportunista... Percebi o erro após a morte de mamãe. A pessoa não era o que julguei. 
Arrependido, chorei amargamente. 
Meses se passaram e outra questão me incomodava: qual era a linha que cruzamos ao sermos sexistas? Sexismo é objetificação da vida. Quando objetificamos alguém? Eu tinha cruzado essa linha e tentei me comparar com o que parecia aceito socialmente. 
Não me serviu. Esse parâmetro é hedonista e aceita objetificar (alg)uma(s) pessoa(s) eventualmente: põe o prazer sensorial em 1⁰ plano mesmo que só por instantes, rebaixando o sentimento, o sentido e a alma. Eu já tinha percebido isso em um relacionamento que tive no ano de 2017, mas menti a mim mesmo por muito tempo. Hoje chorei amargamente essas minhas atitudes hedonistas. Eu não preciso cruzar essa linha. 
O arrependimento é uma mudança psíquica e não é gradual... é mais brusco e por isso dói. E isso me dava medo... mas ele cura... a alma. Parece a retirada de algo preso na psiquê. A retirada de algo que nos incapacitava mas parecia confortável. Mas o conforto era um tipo de ilusão que me causava contradição sem que eu entendesse claramente. Se eu deixasse essa contradição em minha psiquê até o fim desta vida, eu teria passado por uma existência sem sentido e sem espiritualidade real. Esse era o abismo que (o espírito de) Abraão diz que existe para o (espírito do) rico que desprezou o leproso no texto de Mateus? Parece que sim.

 

quinta-feira, 21 de abril de 2022

O Inconsciente para o Espiritismo

 

Nos meus 3 últimos anos em que estive buscando desenvolver minha espiritualidade, não encontrei textos que relacionassem o inconsciente descrito pela frente psicológica de estudos com o espiritismo. Talvez eu não li o bastante ainda, mas como estou estudando psicologia e tive experiências mediúnicas, tomei a liberdade de escrever sobre. 

 Construção Psíquica 
 Todos nós seres humanos aprendemos coisas desde a tenra infância. Mas porque temos facilidade para guardar certas memórias e não outras? Porque gostamos mais de determinados assuntos? Porque uns sucumbem mais às pulsões de vida (instintos), gerando compulsão por alimento ou por sexo? Porque outros sucumbem mais às pulsões de morte tornando-se violentos ou fascinados por armas e conflitos como lutas ou guerras? Porque uns lembram de muitos sonhos enquanto outros não lembram, chegando a alegar que não sonham? 
 As explicações psicológicas são vastas e distintas entre si, pois são variadas frentes com bases diferentes, sendo que cada frente tem várias abordagens de autores diferentes. Sendo assim, farei observações influenciadas pelas frentes psicanalítica e fenomenológica sobre a psiquê (do grego psyché, ou seja, alma): Como prévia vale citar que se tratando de memórias, de sentimentos e de sonhos há de se entender que são processos "internos" do ser humano: A "mente" só expõe pensamentos e sentimentos através de palavras e de expressões, sejam vocais etc. Os sonhos não são expressos a não ser por descrições... 
 Nós, seres humanos, somos submetidos às experiências e sensações praticamente o tempo todo: com familiares, com colegas de estudo e de trabalho, com pessoas nas ruas etc. Além da interação direta com outros seres humanos, uns assistem televisão, outros vêem as redes sociais, outros interagem com jogos etc. Tudo isto é experienciado, podendo ser frequentemente lembrado ou predominantemente esquecido. Como as memórias não deixam de existir, a explicação da frente psicanalítica de estudos afirma que elas ficam no inconsciente do aparelho psíquico (mente). Embora alguns conteúdos jamais retornem a consciência por motivos de trauma, repulsa, irritabilidade, complexidade ou outra dificuldade em lidar com eles, existem conteúdos psíquicos que escolhemos trazer à tona ou não. Estes dependem mais do valor que atribuímos a eles: podem ser entendidos como mais significantes ou menos significantes. 
 Por mais que tais conteúdos (internos) tenham uma ligação com o cérebro humano e seus processos, como as sinapses, eles não são considerados materiais e nem são perceptíveis por pessoas que não sejam nós mesmos. Por esta razão, para traçar as relações do inconsciente da mente humana com o espiritismo, escolho utilizar as bases da frente psicanalítica de estudos. Porém não me limito a teoria de Freud que foca na libido e em questões oriundas das pulsões. Isto seria limitar-me ao "estado natural" das fases de desenvolvimento humano descritas por Pestalozzi, ou talvez, no máximo, ao "estágio estético" da filosofia de Kierkegaard. Para traçar as relações com uma teoria mais plural e filosófica como o espiritismo, é preciso considerar que o inconsciente humano é mais do que a fonte de instintos e o depósito de experiências psíquicas reprimidas. Daí então, Jung, com sua psicologia analítica, nos mostra uma boa base de estudos. Jung admite que o inconsciente pode ter elementos psíquicos que vão além de instintos, experiências traumáticas e memórias esquecidas: Nele existiriam também a intuição, criatividade (que seriam enquadradas na sublimação por Freud), tendências à estagnação e até mesmo uma profundidade maior chamada de inconsciente coletivo. Obviamente, esta teoria não comporta a concepção de espíritos que foi altamente rechaçada pela maioria materialista do meio científico (no mínimo, desde meados do século 19 até este início de século 21), mas como o inconsciente coletivo vai além de possíveis elementos psíquicos de origem genética, relacionando com o conceito de sincronicidade e elementos independentes do espaço-tempo, é possível entender que há uma “lacuna” aí, onde o espiritismo pode explicar alguns fenômenos. 

 O que “submerge e emerge” do Inconsciente 
 Para voltarmos a abordar o inconsciente do aparelho psíquico, é útil um resumo sobre o consciente: 
 Para as abordagens fenomenológicas da psicologia, a consciência é atividade direcionada. Não é um depósito nem passiva, pois ela é sempre consciência de algo. Mais do que o uso dos 5 sentidos, ela tem/ gera a intencionalidade (que é o modo como a consciência visa algo). Portanto a consciência não tem dureza nem substância e não existe sem uma relação (seja em relação às coisas percebidas pelos sentidos, ou ao próprio pensamento etc): ela se projeta em direção às coisas. O ato de conhecer é o Ego (Eu). O encontro da consciência com o objeto é a relação bipolar que constitui o conhecimento. 
 Para a psicanálise a consciência é a percepção da realidade externa e de estímulos internos, pensamento; É qualidade momentânea, que diz respeito àquilo do que estamos cientes no aqui e agora; Consciência não é o atributo principal da mente - é fugaz, ou encobridor, pois não armazena. Em uma topologia seria como uma membrana no aparelho psíquico - A lembrança no momento que chega; Atividade mental não ocorre ao acaso, pois há continuidade na atividade mental, cuja muitas vezes os motivos estão no Inconsciente; 
 A psicologia analítica pouco difere a consciência em relação à psicanálise: A consciência é a mente no presente, percebendo e interagindo com o entorno. Em geral é mais racional do que o inconsciente; 
 Agora analisemos: Quantas experiências da realidade externa e quantos estímulos internos tivemos em nossas vidas. O quanto conseguimos nos lembrar e quanto não conseguimos? Assim, entende-se que temos uma quantia gigantesca (incalculável para o ser humano) de informações que ficam latentes em nossa mente. São inúmeros detalhes (tamanhos, formas, cores, sons e seus ritmos, timbres, cheiros, sabores etc) de objetos, de forças da natureza, de seres vivos, de paisagens, de incontáveis movimentos e momentos, enfim, cada milésimo de segundo percebido pelos nossos sentidos. Isso sem contar nossos sentimentos e pensamentos ao longo de toda vida. Nenhum deles deixa de existir durante nossa vida - todas estas percepções e suas impressões, interpretadas por nós em inúmeros momentos, ocasionalmente ou regularmente relembradas, reprimidas ou representadas e expressas ficam no inconsciente, e portanto, para o espiritismo, “ficam” na alma. Como nada disto desaparece como um passe de mágica, entende-se que temos esta quantidade absurda de informações em nosso inconsciente, enquanto nosso consciente interage basicamente com o presente. Uma interação do consciente com o passado só pode ser feita parcialmente, resgatando porções da memória individual ou através de sensações de nostalgia e saudades, enquanto uma interação com o futuro seria feita apenas imaginado, ou mais raramente, vislumbrando algo (uma cena, um sentimento, impressão etc) através de algum tipo de intuição. 
 Então o que tiramos e colocamos no inconsciente? Obviamente isto varia muito de pessoa para pessoa, mas tentarei trazer alguns possíveis exemplos: 
 Se uma pessoa tem uma grande desilusão a respeito de outra pessoa ou sobre determinado assunto, obviamente esta decepção não desaparece da noite para o dia. Na verdade, se não houver uma busca para superar ou contornar uma dificuldade como a perda de esperança, certamente tal elemento ficará no inconsciente, servindo como parâmetro para futuras decisões (ou falta de decisões), comportamentos etc. 
 Outro exemplo é, se uma pessoa ouve a um discurso de grande apelo emocional, que coloca a culpa de seus problemas, ou a culpa dos problemas de todos seus entes queridos, em um indivíduo inocente, ou em uma pessoa que pouco tem a ver com tais problemas, esta crença na mentira ficará no inconsciente, pois no consciente apenas “transitam” as experiências essencialmente do presente. Após a recepção, ocorre a interpretação, aceitação ou recusa e o resultado disto fica no inconsciente. 
 A combinação de todas as experiências e interpretações poderia formar o que a psicologia analítica chama de complexo, apesar que seu autor, Jung, cogita que estes podem vir de origens e elementos mais “antigos”, seja de experiências da tenra infância, do inconsciente coletivo, de fatores genéticos ou de outro fator… 
 Enfim, é útil reforçar o que já mencionei antes: Uma quantidade gigantesca de informações “submergem” (são deixadas ou colocadas por nós como indivíduos) em nosso inconsciente, pois nada simplesmente some “para sempre” para depois “ressurgir do nada”: A consciência do ser humano pode ou não resgatar determinadas “informações” para o presente. 

 Inconsciente: "Alucinações", Sonhos e Espíritos 
 Poderia ser o inconsciente então algo como uma prisão ou masmorra sólida e segura para todo nosso colossal conteúdo “psíquico” esquecido, reprimido etc? Não. 
 Além de todo conteúdo / informação oriunda de nossas experiências em nossa vida, o inconsciente deve guardar nossos instintos de sobrevivência. São impulsos rudimentares, mas que servem para buscarmos coisas essenciais para se viver na Terra… Como os animais. Rudimentar neste caso é uma palavra bem precisa: Como podemos notar, o ser humano é uma forma de vida muito mais complexa do que os instintos, a partir do momento que interpreta todas experiências mencionadas anteriormente, transformando esses “dados” em informação mais ou menos coesa, e muitas vezes, subjetiva. 
 Agora que vimos que no inconsciente ficam estes elementos tão distintos entre si (os instintos, as interpretações das diversas experiências, as memórias, o aprendizado, as preferências etc) podemos imaginar que o inconsciente não seja algo exatamente quieto e inativo… Mas se somos essencialmente a consciência, o que seria essa atividade no inconsciente? Um “eu além”? Um “eu dormente”? Estas ideias e/ou dúvidas incomodam terrivelmente algumas pessoas, inclusive, alguns psicólogos materialistas que vi ao longo da minha vida. A verdade é que a psicologia tem muito de filosofia, pois o campo que estuda a “existência” e suas “variáveis” pertence à filosofia. É ilógico e estapafúrdio IGNORAR tudo o que mencionei anteriormente e querer se auto denominar “cientista do comportamento humano” ou psicólogo. Obviamente o psicólogo não deve ficar remoendo e cavucando insistentemente a vastidão de conteúdo inconsciente de seus pacientes/ clientes, mas desconsiderar todas estas informações é no mínimo muito estranho. Essa discussão é longa na psicologia, mas só se tornou longa só porque há uma repulsa generalizada pelo “imaterial” e pela filosofia como campo interseccionado com a psicologia. 
 Pois bem, aqui entram os temas “polêmicos” que não deveriam ser da alçada dos estudos objetivos, ou seja, não deveriam se limitar à ciência, que é um campo do saber essencialmente materialista: As alucinações. O que são alucinações, afinal? 
 É fútil se ater a uma explicação racional que busca uma neutralidade (falsa) e que se apoia em pressupostos materialistas. Eu poderia trazer uma explicação feita em alguma obra da frente psicanalítica de estudos, explicando que são percepções únicas de um indivíduo em estado psicopatológico (ou algo assim), mas mesmo esta explicação racionalista já foi sobreposta por outras mais reducionistas ao longo do século 20. 
 Então podemos concluir que a alucinação é o real para um indivíduo e não para outro. Não se trata da realidade compartilhada pela maioria das pessoas. É claro, que se este “real” está causando um grande mal ao indivíduo e/ou às pessoas à sua volta, é preciso encontrar uma solução que traga o bem a todos, ou, ao menos, à maioria das pessoas nesta relação. 
 E os sonhos? Os sonhos são a prova da atividade em nossa inconsciência. 
 Diferentes autores da psicologia propuseram diferentes motivos e causas para os sonhos. Se tratando da mente humana e todos seus elementos que não são materiais, portanto não podem ser cheirados, agarrados nem cortados (etc etc), é preciso admitir uma base de estudos mais aberta do que as materialistas (uma dessas bases é a fenomenologia), ou mais plural. Esta última eu indico a possibilidade de utilizar o espiritismo, como filosofia que admite uma existência plural (do “ser humano”, da vida). Assim como a psicanálise certamente deve ter conseguido explicar alguns sonhos e a psicologia analítica, outros, o espiritismo pode explicar alguns destes fenômenos. 
 O espiritismo obviamente não se baseia nos pressupostos materialistas e raramente utiliza o método empírico de investigação, afinal se há uma inteligência/ mente capaz de “sumir e aparecer” interagindo com objetos ou formas de vida, é claro que esta “mente” não precisa se dispor a reprodutibilidade das experiências. Apesar de tentar uma aproximação de temas espirituais (que eram religiosos até o século 19) com a ciência, o espiritismo está mais para uma filosofia, onde estuda-se fenômenos predominantemente psíquicos, através de percepções (muitas vezes internas e não dos 5 sentidos), interpretações, reflexões etc. 

 Espiritismo e o Inconsciente 
 É através do inconsciente que as mentes desencarnadas, ou espíritos, interagem com os vivos. Se é quando dormimos, que nos desprendemos do corpo e interagimos com outras almas (o que essencialmente não difere de mente ou espírito), é claro que o sonho servirá como uma releitura ou véu sobre o que se passa neste momento da existência. 
 O que a psicologia analítica chama de inconsciente coletivo pode ser, ao menos em parte, o que o espiritismo chama de mundo (“Invisível”) dos espíritos, ou o que a linguagem esotérica chama de plano astral. 
 Ora, o que fariam os espíritos neste estágio de existência (enquanto o corpo dorme)? Tomariam cerveja e comeriam churrasco? Certamente não, já que não são um estado de existência “material” - Ou ao menos, não são corpóreos/ não são sólidos, nem líquidos, nem gasosos etc… 
 Aí entra a religião, ou o que chamamos hoje de espiritualidade. A verdadeira espiritualidade não prioriza o material, muito menos os prazeres materiais e os excessos destes e seus vícios, que podem causar desde disputas desnecessárias, até violências etc. Nós, seres humanos, existimos para evoluir mentalmente, ou seja, racionalmente e sentimentalmente - não é difícil perceber isto, basta comparar o potencial do homo sapiens com as inúmeras outras espécies de vida da Terra. 
 Então se a mente inconsciente, ou o espírito durante o sono, realmente está priorizando simulações de prazeres materiais, há algo errado com esta “porção” incorpórea/ “imaterial” do ser em questão. Pois a priorização de prazeres materiais está intimamente ligada com comportamentos conscientes que alternam entre a superficialidade e a ganância. Nas sociedades esta priorização é fomentada pelos discursos de fins mercadológicos que obviamente relegam a um segundo plano o ser humano, suas inter relações e o meio ambiente: Consumismo, culto ao corpo, hiper sexualização, meritocracia na busca incessante por dinheiro, status etc. 
 Ora, a propagação das ideias consumistas e alienantes dos maiores beneficiários do capitalismo, convencendo inúmeras mentes humanas de que tais ignorâncias são o mais importante fator da existência, gera e alimenta todo um inconsciente coletivo, ou um mundo dos espíritos/ plano astral, severamente contaminado por mentiras que geram rivalidade e insensibilidade. 
 Para se fazer tal estrago nas mentes (ou almas) humanas, nem chega a ser necessário a propagação de discursos violentos como os de nazistas e de fascistas. Todas essas almas ou mentes levadas por discursos de fortes sentimentos negativos (como ódio e intolerância) ou levados à dessensibilização (desprezo ou supressão dos sentimentos) e ao materialismo escrachado não estão se desenvolvendo em seus potenciais. Na verdade elas estão prejudicando ou até mesmo danificando umas às outras. A diferença é que os discursos objetificadores, mercadológicos, enfim consumistas, parecem destruir de maneira mais lenta e menos “explosiva” a humanidade, se comparada com as ideologias violentas por trás da 2ª guerra mundial. 
 Na verdade, em muitos casos, não é necessário nem estudar porções inconscientes da mente/ alma para saber disto: Podemos ver em qualquer artigo, seja da sociologia, da psicologia ou do jornalismo, que aborde o adoecimento mental em massa da civilização humana. 
 Mas vale citar o espiritismo se tratando deste assunto da psicologia social. Todo ser humano tem alma e todos se relacionam uns com os outros. Todas experiências são levadas para além da vida consciente na Terra, ou seja, o espiritismo não deve se alienar nestas questões. O espírita verdadeiro sabe sim da importância do desenvolvimento individual, mas não pode ignorar estes fatores psicossociais e deve buscar o conhecimento e o bem de si mesmo e do próximo até mesmo em algumas questões sociais / econômicas. Não se trata meramente de escolher um lado na política ou um partido: é uma questão de se informar deixando de olhar só o próprio umbigo. Abandonando o egoísmo e o conservadorismo que nega a ciência e o bem estar do próximo. O fundador do espiritismo, Kardec, não deu o nome ao seu periódico de “Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos” à toa. Foi uma escolha, pois ele mesmo afirmou que a humanidade estava entrando na “era psicológica”. 
 Aqui a crítica não é só ao espiritismo: é a todo campo de estudo e a todo estudioso - todo aquele que tem um “curso superior”. Afinal, ter um ensino (verdadeiramente) “superior” implica em humildade para aprender sempre. Ser superior é servir o mais necessitado. Se por qualquer motivo não podes dedicar-se a auxiliar o próximo, ao menos lute para não levar conteúdos nocivos para tua alma (teu inconsciente) e se já levaste, é bom esforçar-se para reparar isto, porque uma alma infeliz é ruim para espiritualistas (pois lhe afetará no futuro) e até mesmo para os materialistas (porque afeta o presente).

terça-feira, 1 de março de 2022

Sonhos: Da Psicologia ao Espiritismo

 

Lembranças e Instintos 

Todos temos lembranças de outras pessoas, baseadas em nossa interações, sejam elas superficiais ou profundas. Junto das lembranças existem sentimentos e pensamentos, baseados em interpretações, sensações, imaginações etc. 

Atualmente, neste início de século 21, podemos entender que o ser humano não é meramente dominado por seus instintos. Os instintos existem, é claro, afinal somos formas de vida da Terra também, seria ilógico não ter um instinto de sobrevivência. Porém uma das provas mais óbvias de que o ser humano não é dominado por tais instintos é o desenvolvimento da arte ao longo da história da humanidade. A arte é mais antiga do que a escrita, sendo desenvolvida no mínimo 4000 anos antes da escrita suméria e dos hieróglifos egípcios. Esculturas de formas animais e humanas existem ao menos desde 7000 anos aC. Pinturas rupestres, sejam de animais, cenas de caça ou de padrões geométricos e textura foram feitas milênios antes de tais esculturas. Fora a arte, temos a espiritualidade certamente iniciada por xamãs na idade da pedra e continuada por líderes religiosos na era do bronze. Estes são apenas alguns dos indícios óbvios de que o ser humano não é predominantemente dominado pelos instintos de sobrevivência: Ele se ocupa de outras atividades que muitas vezes são o centro de sua vida. 

Relações Humanas no Início da Vida 

Então temos um grande potencial de uma vida afetiva vasta e plena. No período da infância, a criança pode aprender a se relacionar com os pais, com irmãos e com possíveis colegas. A criança aprende a se expressar com seu círculo mais íntimo (essencialmente familiar), depois aprende a brincar de variadas formas, seja com outras crianças, com brinquedos etc. Estas experiências ficam registradas de modo mais ou menos preciso na mente da criança, daí formam-se as "primeiras lembranças". Suas relações, sejam com pais de criação, ou com outras crianças, formam (ou moldam, tanto faz, o fato é que influenciam de maneira determinante) sua maneira de se expressar, seja racionalmente ou emocionalmente, conforme o afeto recebido (posteriormente devolvido, formando um ambiente de troca de afetos). Sendo assim, nota-se que a necessidade de relação é proeminente na vida humana, tanto que o afeto recebido pela criança é um dos elementos mais impactantes em sua construção como ser, ou seja, em sua vida: Uma criança que recebe pouco afeto, crescerá com mais dificuldades em entender os sentimentos e suas respectivas expressões (as emoções) de outras pessoas , do que uma criança que recebeu mais afeto. Lembrando que afeto é popularmente considerado carinho e interações similares ao carinho, mas na psicanálise, o afeto é um elemento psíquico quantitativo, ou seja que pode ter intensidades, como os sentimentos. 

Falar de sentimentos na infância é um tema importante, mas é um tema complexo que deverá ser abordado em outro texto. Inclusive, eu já falei um pouco sobre eles nestes textos: 

https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/06/o-que-preenche-o-vazio.html 

https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/08/reflexoes-sobre-importancia-da-inocencia.html 

Inconsciente e Sonhos 

O sonho é um tema estudado de maneira bastante esparsa há mais de 100 anos . Tal cisão nesta área da psicologia se dá por desentendimentos sobre qual base teórica/ filosófica e qual método deve-se utilizar para estudar o comportamento, o pensamento e os sentimentos humanos. Neste texto focarei nas abordagens psicológicas que consideram a existência do inconsciente do aparelho psíquico (como as teorias de Freud e de Jung), mas também trarei reflexões de outros estudiosos, de áreas menos psicológicas como neurologia, filosofia e até de teologia/ espiritualidade. 

Importante notar que o modelo de mente (aparelho psíquico) proposto pelas abordagens da frente psicanalítica de estudos (Freud e Jung) tem um ponto chave em comum: O aparelho psíquico é dividido em "dois níveis" denominados inconsciente e consciente. Estes 2 elementos da mente serão explicados mais adiante. 

Freud faz vastas análises sobre sonhos em suas obras, porém ele utiliza como centro de sua base teórica as questões e funções mais biológicas: o Id, as pulsões de vida e morte, a libido. Para o fundador da psicanálise, praticamente todo comportamento humano tem uma função relacionada a sobrevivência, daí ele desenvolveu os conceitos das fases da sexualidade, os desvios das funções biológicas etc. Embora ele tenha feito grandes esforços, escolho não me aprofundar mais nas obras de Freud, por que entendo que Jung ampliou estas bases teóricas, ao "fundar" a Psicologia Analítica. 

Jung percebeu que o inconsciente era mais do que um depósito de conteúdos indesejados/ "vergonhosos'(interpretações, memórias), instintos de sobrevivência e desejos reprimidos. Aqui segue um resumo sobre o inconsciente e outros elementos da mente que considero descrever neste texto: 

Inconsciente (pessoal): Este aspecto ou porção do aparelho psíquico contém instintos variados como impulsos de vida e de morte, memórias reprimidas, tendências à estagnação ou ao conservadorismo e o elo com informações além da vida intra-uterina. As informações de além da vida intra-uterina podem ser desde heranças genéticas ou até elementos psíquicos que independem do espaço-tempo. Memórias e sentimentos reprimidos ou esquecidos no inconsciente não deixam de existir, eles apenas permanecem inacessíveis por variados períodos;

Maior do que o inconsciente da psicanálise, Jung classificou o inconsciente como uma matriz que serve também de base da consciência de natureza criativa. 

A intuição age por uma cadeia de elos, dos quais só percebemos seu resultado; Jung conclui que acontece pelo inconsciente; 

Consciência: A mente no presente. Percebendo, interagindo com o entorno, em geral é mais racional do que o inconsciente; 

Sonhos: Os de natureza pessoal são manifestações do inconsciente (pessoal), Já os sonhos de natureza coletiva, ou seja, aqueles que apresentam sincronidade ou padrões similares / idênticos ao de pessoas distantes ou de outras épocas, devem ser manifestações do inconsciente coletivo; 

Freud supôs que existiria uma função especial da psique, a que ele chamou "censura", a qual Jung duvidou. A censura, segundo Freud, é que deformava as imagens do sonho tornando-as irreconhecíveis a fim de enganar a consciência que está sonhando sobre o objetivo real do sonho. Ocultando do sonhador o pensamento crítico, a "censura" protegeria o seu sonho do choque provocado por reminiscências desagradáveis. Jung diz que o conteúdo onírico tende a ser apagado quando a pessoa passa do sono à consciência. 

Por experiência própria, classifico ambos autores corretos em algum nível: Como Freud disse, as imagens, personagens e cenários se mostraram fachadas em diversos sonhos meus: Personagens com a aparência de uma determinada pessoa, na verdade eram nitidamente outros - Isto foi notório pelas maneiras, conteúdo da fala, opiniões que pertenciam a outra pessoa conhecida, isso sem contar os casos de um sentido de certeza único, similar a uma intuição, porém ainda mais evidente. Por outro lado, como Jung afirmou, alguns de meus sonhos foram censurados por um intenso e pulsante sentimento (como medo ou nojo) no momento do despertar e por segundos seguintes, até que fossem escondidos (imersos) no inconsciente novamente. 

Valor Psíquico: É uma medida de quantidade de energia consagrada a um elemento psíquico, portanto relaciona-se ao que a psique de um indivíduo valoriza. Este valor da energia psíquica não pode ser medido de maneira absoluta nem individual, mas pode ser comparado com outros valores, pois geralmente há uma hierarquia de valores e alterações de valores conforme a psique passa por experiências ao decorrer do tempo. Por exemplo, uma pessoa pode preferir a beleza em relação à verdade ou as amizades em relação à fortuna. Também é possível observar o quanto tempo uma pessoa dedica a variadas atividades e metas. Obviamente pode haver (e geralmente há) interferências sociais que funcionam como obstáculos para as metas das pessoas, sejam cobranças de familiares, ou pressões socioeconômicas. Estes exemplos de valores são os que aparecem no consciente da pessoas, pois podem ser observados, porém existem valores que ficam no inconsciente. A psique humana está constantemente avaliando situações e assim, atribui variadas quantias de energia psíquica a diversas atividades, mas a consciência pode desviar-se de alguns valores. Estes valores inconscientes relacionam-se com os complexos da pessoa. Quanto mais associações um complexo tiver, maior seu poder e consequentemente, maior seu valor. 

Complexo: Os complexos são uma reunião de conteúdos que formam aglomerados no inconsciente. Eles frequentemente determinam pensamentos e comportamentos, pois são interpretações e preferências, que às vezes podem estar relacionados às neuroses e às vezes podem ser trabalhados para servirem de inspiração. Os complexos geralmente têm origem mais profunda do que a infância, podendo estar relacionados à vida intra-uterina, a fatores genéticos ou ao inconsciente coletivo etc; 

Inconsciente coletivo: Conexão entre os inconscientes pessoais das mentes humanas, como por exemplo, através de herança genética. Além de fazer a ligação da mente humana com o processo de evolução orgânica, entende-se que o inconsciente neste nível, pode se relacionar com forças além do espaço-tempo; Os conteúdos do inconsciente coletivo jamais foram do período de vida do indivíduo. Assim, o ser humano herda elementos (como predisposições ou potencialidades) de um passado que inclui todos antepassados humanos e até mesmo antecessores pré-humanos e animais. Não é fácil explicar tal conceito na ciência dominada quase que unicamente pelo método empírico, mas os elementos do inconsciente coletivo podem estar relacionados a vários temas e teorias que já foram conjecturadas nas ciências, mas que são pouco aceitas. Exemplos são algumas teorias de "dimensões" além do espaço-tempo conhecido, diferentes caminhos genéticos que deixam a teoria da evolução das espécies mais complexa do que a proposta feita no século 19 por Darwin etc... 

Minhas Experiências com Sonhos 

Desde meados de 2019, entendi que meus sonhos têm mais relação com alguma descrição espírita, mesmo após iniciar os estudos em psicologia: Vários dos meus sonhos mostraram nítidas evidências (dentro da possibilidade do que se pode chamar de evidência em "processos internos" da mente) de interações com outros indivíduos e até mesmo com a percepção de outras presenças, que se mostram como sentimentos alheios aos meus, frequentemente sem forma compreensível pelos 5 sentidos humanos. 

As presenças (a maioria manifesta só como sentimentos alheios) se mostraram totalmente diferentes das alucinações como eu as experimentei. Alucinação é um tema controverso que sempre toca a ontologia (estudo do ser, do existir, ou seja: assunto da filosofia) e defini-la apenas cientificamente é um reducionismo. Eu não trouxe fontes de autores que se proclamam cientistas com autoridade sobre o assunto, mas talvez concordando com uma visão psicanalítica e/ou psiquiátrica  em classificar alucinações como percepções que ocorrem durante uma condição patológica (pode ser desde uma febre até uma disfunção neurológica), eu entendo estes sentimentos e pensamentos percebidos por mim a partir do ano de 2019, como elementos externos em relação ao meu aparelho psíquico, devido aos seguintes fatores: 

Eles diferiam dos meus pensamentos e sentimentos do presente. Eram outros pensamentos e/ou sentimentos percebidos mentalmente por mim. Raras vezes eles pareceram invadir minha mente de modo brusco/ violento. Nestes casos sem efeitos físicos adicionais, algo que acompanhava minha percepção nítida e visceral, era uma certeza. Um entendimento - que não podia ser confundido com outro fenômeno. Sobre algo (sentimento, pensamento...) que não podia ser velado nem dissimulado. 

Às vezes eu os percebi se aproximando de mim, nestes casos geralmente surgiam acompanhados de algo físico que me afetava: Leves choques, solavancos, empurrões, estocadas com choques, ondas de choque que surgiam externamente, passando pela minha pele e atravessando meu corpo, formigamentos em partes existentes e inexistentes do meu corpo (estes últimos foram: sentir formigamento em um tipo de cordão atrás da nuca, formigamento em uma bíblia a uma distância aproximada de 150 cm, formigamento numa região esférica acima do topo da minha cabeça) 

Estes primeiros fenômenos mostram que havia uma inteligência por trás deles. E buscavam uma relação (hostil na maioria das vezes) comigo. Eles são semelhantes a alguns outros fenômenos muito melhores (e nada hostis) que aconteceram comigo, dos quais já dei uma prévia neste texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/08/amor-nao-e-alucinacao.html 

Os segundos fenômenos são os mais interessantes para o estudo dos sonhos: Eles nunca ocorreram antes de 2019, foram mais sutis do que os fenômenos citados anteriormente e quase se passaram por sonhos "comuns", se não fosse por alguns detalhes nítidos: 

Sintonia psíquica com o local - Cada lugar que eu visitava enquanto desperto, mudava o padrão de sonho (e de experiências mediúnicas) que eu tinha a noite: 

Os poucos motéis que visitei após 2019, causavam-me uma intrusão em minha mente, de imagens pré sono de mulheres e homens claramente excitados sexualmente, além de eventualmente me causarem choques em determinadas do meu corpo; Eu jamais passei por experiência igual ou similar a esta antes;

Um apartamento gerou um monte de imagens de história em quadrinhos e desenhos irrompendo e suprimindo (ou sobrepondo) meus pensamentos. Ocorreu em 2021 e eu já não lia HQ há uns 10 anos;

Passar noites numa pousada de praia causou-me uma invasão de imagens de foliões, zombeteiros e fanfarrões que sobrepunham violentamente meus pensamentos; 

Discussões oníricas - visualmente e sonoramente parecem um sonho "normal", onde discuto com pessoas. O problema é que o conteúdo às vezes é daquele nível de tolice que parece sem sentido, e às vezes parece com ideias expressas em diálogos e narrativas feitas por pessoas com quem eu realmente interagi durante a vigília. Além disto, as discussões são muito realísticas porque me causam um aborrecimento e/ou cansaço mental como se eu realmente passasse algumas horas da noite discutindo, frequentemente em desacordo com alguém. Para completar, estas discussões não ocorreram realmente durante o dia (na minha vigília/ "consciência") então é difícil ser um mero reflexo do cotidiano. Mesmo que eu considere que não exista um teor espiritual nestes "sonhos" de discussão, haveria no mínimo um fator inconsciente (de certo modo, coletivo): Onde eu e as pessoas com quem eu converso durante o dia, levassem as interpretações dos sentimentos e opiniões alheias para os sonhos. 

Produtos e Impactos das Relações Humanas 

Possivelmente as pessoas se relacionam quase o tempo todo desde que a humanidade surgiu na Terra. Porém este relacionamento passou por diversas mudanças. Isto podemos ver em qualquer texto de história: especula-se comportamentos humanos da idade da pedra, depois da era do bronze, da antiguidade, da era medieval, da renascença, da modernidade e por fim, da pós modernidade. A "pós modernidade" é mais conhecida em nossa história por ser um dos períodos mais recentes e foi marcada pela pós verdade - a valorização das narrativas ante os fatos. Eu abordei este assunto neste texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/04/a-corrosao-social-persiste-atraves-das.html 

Acontece que todo ser humano tem sua capacidade de aprendizado e suas manifestações de afeto/ necessidades afetivas. Todos estes elementos não deixam de existir em momento algum. Eles só deixam de ser o alvo de nossa consciência por períodos mais ou menos longos. Como já mencionei em algum texto, deixar de existir não é científico, nem filosófico, nem religioso. Não é explicável, ainda mais quando falamos de coisas que saem de nossa atenção, mas podem voltar em algum tempo. Então todos estes elementos (memórias, pensamentos, sentimentos, interpretações etc) existem, independentemente do que a psiquiatria ou determinadas abordagens psicológicas afirmem sobre esta questão. A psicologia não é uma ciência única e coesa - como eu já mencionei, ela é fragmentada devido a velhas divergências de base teórica/ filosófica e de métodos investigativos. Mas isto não é a questão do momento. Neste texto eu trago a importância das relações e seu impacto na vida de cada pessoa. Eu trago a questão de como os elementos psíquicos moldados por estas relações não deixam de existir - pelo contrário eles contribuem com a construção de crenças e de personalidade das pessoas, sejam estas condizentes com a realidade externa ou não. Sejam elas nocivas ou saudáveis. Eu trago a questão que a mente é algo e que NÃO é simplesmente material. A mente não pode ser tocada, cheirada, muito menos extraída como um pedacinho de cérebro. Ela pode ter sim, uma relação com sinapses e potenciais elétricos, mas não se resume a isto, afinal sinapses estão mais para consequências de decisões psíquicas. A mente, ou aparelho psíquico, não é um Frankstein formado por pedacinhos, embora determinadas abordagens psicológicas possam classificá-las assim para terem parâmetros de estudo. A mente é algo mais ou menos coeso, mas nunca é algo totalmente aleatório, sem nexo algum, ou totalmente divisível em partes diferentes entre si. A mente e alguns de seus "elementos" afetam diversas partes do corpo, como podemos perceber nos efeitos psicossomáticos. A mente e seus sentimentos têm um forte elo com nosso coração, como indicam alguns estudos da psicologia cardíaca. Sendo algo consideravelmente coeso e que se comunica com praticamente o corpo todo, a mente é mais do que uma mera relação química do sistema nervoso com o ambiente externo. Ela é mais do que um aparelho psíquico se considerarmos que psíquico refere-se apenas elementos vinculados ao cérebro/ sistema nervoso. A mente é algo "imaterial" e/ou algo que conecta-se com uma dimensão "além". Classificar as experiências que mencionei como alucinações ou esquizofrenia é algo reducionista e/ ou preconceituoso. Com que propósito aceitaríamos tal classificação se esta não esclarece o assunto, não oferece soluções dentro de seu método materialista de investigação e nem permite deixar em aberto questões como a possibilidade da mente ter relação com dimensões além do espaço-tempo? 

Por fim, estas experiências em meus sonhos são difíceis e muitas delas surgem acompanhadas de nítidas sensações magnéticas e/ ou elétricas. Golpes sutis adentrando minha cabeça ou outras partes do meu corpo, choques, percepção de um campo sutil em meu entorno, percepção de algo movendo este campo talvez eletromagnético. Seria muita criatividade de meu cérebro produzir alucinações tão inovadoras, sendo algumas de partes do corpo que sequer existem. Seria um esforço suicida e/ ou masoquista extraordinário, a minha mente produzir sentimentos alheios e/ ou externos que me atacam. É um esforço (ou má vontade) surreal algum suposto cientista, seja da psicologia, da medicina ou de qualquer outra área, alegar que eu imagino todas estas coisas. 

Com estas minhas experiências nada planejadas, o que eu suspeito é que o inconsciente como descrito na frente psicanalítica esconde questões trazidas pelo espiritismo no século 19. O "inconsciente" é em algum nível, ao menos durante o sono, a nossa consciência além. Além de nossa vida terrestre, mas carregada com interpretações, aprendizados ou equívocos experimentados enquanto despertos na terra. 

As sensações de choque e de um campo em meu entorno deve ser o que o espiritismo chama de períspirito. Este por sua vez é um tipo de campo eletromagnético (ou fluídico conforme terminologia do século 19) muito sutil que possivelmente transcende o espaço-tempo, pois existe da relação da mente (a alma, o espírito abstrato) com o meio em que se encontra. Para mim, a seguinte explicação do espiritismo, se adequa bem às minhas experiências: 

"Como vimos, o perispírito representa importante papel em todos os fenômenos da vida. Ele é a fonte de múltiplas afecções, cuja causa é em vão buscada pelo escalpelo na alteração dos órgãos, e contra as quais é impotente a terapêutica. Por sua expansão explicam-se, ainda, as reações de indivíduo a indivíduo, as atrações e repulsões instintivas, a ação magnética, etc. No Espírito livre, isto é, desencarnado, o perispírito substitui o corpo material. Ele é o agente sensitivo, o órgão através do qual o Espírito age. Pela natureza fluídica e expansiva do perispírito, o Espírito atinge o indivíduo sobre o qual quer agir, rodeia-o, envolve-o, penetra-o e o magnetiza."

A consciência de si mesmo e de seu arredor é de fundamental importância para todas as extensões da mente. Nestas discussões oníricas que descrevi, senti a falta de empatia, a falta de comprometimento, a falta da busca por aprendizado e a falta da priorização da solidariedade e da humildade (às vezes de minha parte, às vezes do outro com quem eu interagi). Enfim, se tudo o que experimento em vida é levado para interações que ocorrem mesmo quando estou dormindo, o sentido de vida, as relações e os sentimentos também têm grande relevância para nossa vida mental... Se eu fosse adaptar minhas experiências a uma narrativa junguiana, eu diria que as experiências de nossas relações são levadas ao inconsciente coletivo, podendo formar complexos e seus respectivos valores individuais (talvez, em outras linhas de pensamento, isto seja chamado de interpretações, sistema de crenças, sentido de vida etc). Particularmente, entendo que além de serem levadas para o"(s) inconsciente(s)", nossas experiências e relações certamente são levadas para uma vida além da que percebemos com nossos cinco sentidos aqui na Terra. 

Obviamente não tenho "provas científicas" de minhas experiências, mas, considerando que estou mais ou menos certo, o que seria importante levar para uma existência onde a matéria não existe nos estados sólidos, líquido nem gasoso? Certamente não é dinheiro nem status: Eu deduzo que seja melhor levar aspectos do bem: Humildade, receptividade, responsabilidade, paciência, amizade, determinação, solidariedade, entendimento e sabedoria. 

 

Apesar de consideradas "pouco científicas" pelos cientistas de base filosófica monista materialista, seguem as Fontes: 

C. S. Hall & V. J. Nordby - Introdução Psicologia Junguiana; 

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1862 Dezembro; 

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1863 Janeiro

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

As Margens entre Ciências Humanas/Biológicas e Misticismo

 

Falar de crenças ainda é um tabu no meio acadêmico/ científico. A psicologia que, em partes, deveria estudar seus efeitos e causas, está dividida. Tal divisão é profunda e é similar à que ocorre com alguns outros campos da ciência também. 

Em outro texto ( https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/07/a-alma-um-tema-talvez-inconclusivo-mas.html ) mencionei um médico, que ao observar pacientes que passaram por EQM, teorizou que a “consciência” existe além do cérebro. Uma "afronta" aos materialistas/ empiristas, feita por alguém que basicamente estudou uma ciência alicerçada sobre o método empírico: A medicina. Por um outro lado, a Organização Mundial da Saúde já admite que a espiritualidade tem sua importância na saúde mental de muitas pessoas. O Consciente/ a Consciência e as Crenças As crenças, se levadas a sério, têm sua influência não necessariamente na consciência - muitas vezes elas ficam no subconsciente (ou inconsciente) até serem resgatadas pela consciência. Obviamente toda informação em nossa mente/ aparelho psíquico, seja uma memória, um sentimento ou mesmo uma interpretação, não deixam de existir em momento algum: Elas apenas ficam inativas ou fora da percepção da consciência por determinados períodos (afinal, deixar de existir para voltar a existir depois de algum tempo, não é muito científico). Isto é claro nos estudos psicológicos da frente psicanalítica, sejam estudos de Freud, de Jung ou de outro estudioso desta área. Uma crença levada a sério é “um acreditar”, podendo ser considerada uma “certeza” da pessoa que acredita. 

Na frente fenomenológica da psicologia, esta crença faz parte da realidade do indivíduo. Afinal, para se estudar uma pessoa em particular (paciente, cliente etc), deve-se não só evitar preconceitos, como também suspender bases teóricas generalistas, que às vezes, por não levar em consideração os fatos particulares de cada pessoa, acabam colaborando para diagnósticos errados. Nestas abordagens fenomenológicas a consciência é uma atividade direcionada, sempre sendo uma consciência de algo, o que as aproximam da teoria geral dos sistemas. Sendo assim, a consciência do psicoterapeuta trabalha desvelando os “acidentes” (de certo modo, os fatos históricos constituintes do objeto/ ser) para chegar à essência do "objeto" (paciente etc). Então, mesmo com as diferenças entre psicanálise e fenomenologia, pode-se notar que a consciência (o consciente) é um elemento ativo do aparelho psíquico. Em ambas bases de estudo (quer você considere científicas ou não) a consciência não tem substância perceptível pelos 5 sentidos humanos, mas lida com informações captadas pelos sentidos e com intenções e elementos mais “profundos” de nossas mentes, sendo que estes últimos a frente psicanalítica posiciona no inconsciente. 

Voltando à pessoa que crê em algo, o seu interesse e/ou a sua fascinação são “aberturas” na mente que podem ser consideradas vulnerabilidades. Isto ocorre porque, em um relacionamento com outro indivíduo por exemplo, o interesse e a fascinação permitem a criação de um elo ou empatia com uma “pessoa”. Se esta pessoa for mal intencionada ela pode usar desta abertura psíquica para “atacar” o indivíduo fascinado ou vulnerável. Este ataque não é necessariamente algo destrutivo, podendo ser uma influência que se transmite pelo inconsciente. Uma manipulação emocional já pode ser considerada como uma influência mais naturalmente perceptível. 

Esta influência é “tratada” pela hipnose e por diversos meios chamados de mágicos, místicos e afins. Nestes últimos meios ela é frequentemente considerada um ataque astral. 

 

Das Teorias Místicas até as Científicas 

Ataques astrais podem ser feitos à distância quando o atacante tem um objeto do alvo em posse. Este tipo de ataque é mais difícil de ser realizado e recebe vários outros nomes genéricos pouco precisos, desde magia negra até vudu… 

Não estar com a mente, ou talvez mais precisamente, o inconsciente, aberto, é uma maneira efetiva de defesa contra influências nocivas (ou ataques astrais). Tranquilidade, estabilidade e fé são meios de defesa contra ataques astrais. Certamente estados de depressão e ansiedade são estados de vulnerabilidade, pois estão relacionados a vazios (literais) afetivos/ existenciais. 

É óbvio que céticos materialistas abominam estes fatos, geralmente negando-os pelo fato de praticamente não poderem ser detectados no espaço-tempo conhecido, como por exemplo, na atmosfera ou nos corpos humanos. 

Há teorias que afirmam que sentimentos e interações como essas afetam muito sutilmente os campos eletromagnéticos (não estou falando necessariamente de Kardec aqui, temos estudos muito mais recentes feitos pelo Heartmath Institute Research Center e por outros cientistas)… Isto deve explicar porque é mais fácil realizar ataques próximos, pois nestes casos os corpos ou cérebros devem manifestar algum tipo de campo sutil, ainda pouco conhecido na atualidade. 

Note que sofrimentos psíquicos, dos quais os leigos chamam de momento difícil, podem gerar vulnerabilidades. Todo sentimento negativo acaba se relacionando com algum tipo de sofrimento e pode eventualmente constituir psicopatologias ou comportamentos doentios. O termo doentio é usado aqui para definir nocivo - algo que propaga sofrimento, dificuldades e, em alguns casos mais extremos, doença e morte. 

 De acordo com teorias místicas, cascas astrais são formas residuais relacionadas aos corpos astrais (talvez às almas desencarnadas também). Ao atingir outros níveis de consciência (ou acessar planos superiores também?), a casca astral pode se dissolver ou permanecer algum “tempo” no plano astral, servindo para mentes (inconscientes ou espíritos) encarnadas ou desencarnadas. Esta casca pode ser habitada por elementais ou por vontades e desejos naquele nível de “consciência” (que a casca ficou). Sejam mentes ou espíritos, eles são apegados à vida terrestre e tendem a buscar “energias” como parasitas. 

Praticamente todos esses elementos são discutidos apenas entre místicos porque lidam com o “imaterial” ou incorpóreo. Porém eles também trabalham os sentimentos e o inconsciente, ocasionalmente chamado de subconsciente. Como mencionado anteriormente, de acordo com alguns métodos utilizados na psicologia, a consciência funciona como uma projeção de luz, ou talvez como um olhar. Ela é constituída de elementos como o direcionamento da atenção, da intencionalidade. Tais elementos interagem de maneira cíclica com o meio ambiente e com a própria mente: às vezes por ação, às vezes por reação. 

Este ciclo se estende até variadas "profundidades" do aparelho psíquico, atingindo o que as abordagens psicanalíticas chamam de inconsciente. Portanto afetam o sentimento também. Por fim, estas relações dos elementos do aparelho psíquico também interagem com o respectivo corpo. Assim, podemos considerar relações: 

Psíquica-psíquica: Da mente consigo mesma (ao pensar, lembrar) ou com outra mente (ao influenciar uma ou mais pessoas); 

Psíquica-corporal: Da mente com o próprio corpo (fatores psicossomáticos); 

Psíquica-social: Da mente com ambiente externo (interpretações de diversos elementos do ambiente etc); 

Psíquica-espiritual: Da mente com elementos pouco estudados e compreendidos, que geralmente passam pelo inconsciente (experiências transcendentais, visões e afins). Este último ainda é pouco aceito nas ciências do século XXI, mas alguns órgãos como a OMS (já mencionada anteriormente) já admite a importância da espiritualidade/ religiosidade na saúde de algumas pessoas. 

Nas teorias místicas, chakras e sefirots estão muito ligados aos sentimentos (emoções não necessariamente manifestadas no mundo físico). Eles relacionam-se com o aparelho psíquico e com o corpo físico, sendo que o aparelho psíquico existe no corpo astral, ou é sinônimo deste. Obviamente estas teorias não têm embasamento científico, mesmo porque são mais antigas do que o iluminismo europeu, e portanto, mais antigas do que chamamos de ciência. Mas mesmo nas ciências atuais, temos alguns estudos tímidos (por falta de transdisciplinaridade) sobre as relações do cérebro com outros pontos do corpo, seja com o sistema cardiovascular ou com o endócrino. (vide os estudos do Instituto Heartmath e de Srini Pillay, professor de psiquiatria da escola médica de Harvard) 

Nas teorias mais espiritualistas/ místicas, os sofrimentos podem atrair espíritos que buscam energias. Sofrimentos superficiais mas persistentes ou ampliados por desejos individualistas, egoístas, inveja e sentimentos similares podem ser destrutivos também “nestas teorias” e não apenas na psicologia cardíaca. 

Pensamentos e sentimentos, como praticamente tudo, depende de algum nível de relação. Sendo assim, podemos considerar uma pessoa demonstrando raiva, geralmente não atrai uma pessoa alegre. Atraímos o que pensamos, mas imaginar que só somos felizes com algumas determinadas coisas não atrai tal coisa. Isto ocorre porque há uma "infelicidade'' no caminho, por exemplo: “Só serei feliz quando tiver uma determinada casa”. Esta afirmação não só impõe uma condição, ela está centrada nesta condição que não é uma realidade naquele momento e que está obstruindo a felicidade. Ela também não afirma que a pessoa terá a casa, ela afirma que a felicidade só será alcançada SE aquela condição for satisfeita. A afirmação atira para o futuro, e por si só, jamais traz para o presente a “tão desejada condição”. Nas abordagens fenomenológicas da psicologia, esta condição certamente é nociva ao paciente/ cliente: É o que ele escolhe fazer com seu respectivo desejo ou dificuldade. 

*texto originalmente publicado em agosto de 2021, no blog Nea Ekklesia

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