domingo, 25 de setembro de 2022

O Básico da Fé e da Espiritualidade

 

Tolerância inter-religiosa/ Respeito Espiritual 

Resumidamente decidi escrever este pequeno texto por ter esperança que as pessoas abram seus corações, abandonando o temor diante o diferente, e (em alguns casos) o orgulho, para se tornarem mais tolerantes e piedosas:

Você, que segue uma determinada religião ou espiritualidade, não precisa deixar sua crença, fé, espiritualidade ou religião para aceitar que as outras têm coisas certas. 
A verdade por trás disto tudo é o bem. Se uma religião, por exemplo, prega algo contrário ao bem, ela é uma farsa. Se ela despreza humildade, perdão, equidade e solidariedade, ela é destrutiva e nociva para toda a criação. Cada religião pode ter diferenças entre si, ao explicar quem está por trás da criação: Umas chamam de Deus, outras de Alá, de Yhwh (Javé), de Brahman, de Todo, ou o Todo, entre tantos outros nomes... O fato é que a criação é uma obra do bem, de amor e de esperança - Qualquer fé ou espiritualidade verdadeira mostra que seria ilógico afirmar que todo o universo é uma obra maligna ou de um destruidor. 
Você pode crer em Deus do seu jeito enquanto o outro crê do jeito dele; E se quiser saber se o outro está a favor ou contra tua espiritualidade/ fé e/ou contra Deus, basta ver o que ele diz e principalmente as atitudes dele - as obras e os resultados. 
Não é a igreja, nem o templo, nem a religião que determina quem crê e quem vive a lei divina de amor. Sendo divina esta lei que mostra a importância do amor, na forma de humildade, de piedade ou de solidariedade - ela é do Criador, portanto rege todos seres humanos independente de suas nacionalidades, culturas ou religiões. 
O Criador fez a todos e não prefere um ou outro: Ele aguarda que todos vivam o bem, ou seja sua lei, que faz bem a todos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Espiritismo, uma Filosofia entre a Ciência, o Cristianismo e o Platonismo

 

Estive lendo alguns textos espíritas da segunda metade do século 19 (da época de Kardec) e apesar de uma linguagem meio técnica e antiga, notei argumentos interessantes que posicionam o espiritismo diante os saberes da humanidade. Aqui cito dois textos e comento eles em seguida: 

"Um dia, Deus, em sua inesgotável caridade, permitiu que o homem visse a verdade varar as trevas. Esse dia foi o do advento do Cristo. Depois da luz viva, voltaram as trevas. Após alternativas de verdade e obscuridade, o mundo novamente se perdia. Então, semelhantemente aos profetas do Antigo Testamento, os Espíritos se puseram a falar e a vos advertir. O mundo está abalado em seus fundamentos; reboará o trovão. Sede firmes! 
 O Espiritismo é de ordem divina, pois que se assenta nas próprias leis da natureza, e estai certos de que tudo o que é de ordem divina tem grande e útil objetivo. O vosso mundo se perdia; a ciência, desenvolvida à custa do que é de ordem moral, mas conduzindo-vos ao bem-estar material, redundava em proveito do espírito das trevas. Como sabeis, cristãos, o coração e o amor têm de caminhar unidos à ciência. O reino do Cristo, ah! passados que são dezoito séculos e apesar do sangue de tantos mártires, ainda não veio. Cristãos, voltai para o Mestre, que vos quer salvar. Tudo é fácil àquele que crê e ama; o amor o enche de inefável alegria. Sim, meus filhos, o mundo está abalado; os bons Espíritos vo-lo dizem sobejamente; dobrai-vos à rajada que anuncia a tempestade, a fim de não serdes derrubados, isto é, preparai-vos e não imiteis as virgens loucas, que foram apanhadas desprevenidas à chegada do esposo. 
 A revolução que se apresta é antes moral do que material. Os grandes Espíritos, mensageiros divinos, sopram a fé, para que todos vós, obreiros esclarecidos e ardorosos, façais ouvir a vossa voz humilde, porquanto sois o grão de areia; mas, sem grãos de areia, não existiriam as montanhas." 

 Kardec Respondendo ataques de cientistas materialistas: 
"Ninguém é bom juiz senão em assuntos de sua competência. Se quisermos construir uma casa, chamaremos um músico? Se estivermos doentes, preferiremos ser tratados por um arquiteto? Se tivermos um processo, aconselhar-nos-emos com um dançarino? Enfim, caso se trate de uma questão de teologia, pediremos a sua solução a um químico ou a um astrônomo? Não. Cada qual no seu ofício. As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que podemos manejar à vontade. Os fenômenos por ela produzidos têm como agentes forças materiais. Os do Espiritismo têm como agentes inteligências que possuem sua independência, seu livre-arbítrio, e de modo algum se submetem aos nossos caprichos. Escapam destarte aos nossos processos anatômicos ou de laboratório, bem como aos nossos cálculos e, por consequência, não são mais de alçada da ciência propriamente dita. A ciência errou, pois, ao querer experimentar os Espíritos como uma pilha de Volta. Ela partiu de uma ideia fixa, preconcebida, à qual se aferra e quer forçosamente ligar à ideia nova. Fracassou, e assim devia ser, porque agiu a partir de uma analogia que não existe. Depois, sem ir mais longe, concluiu pela negativa: julgamento temerário, que o tempo diariamente se encarrega de reformar, como reformou tantos outros, e aqueles que o pronunciarem, serão por sua vez sentenciados pela vergonha de haverem levianamente assumido uma posição falsa contra o infinito poder do Criador. Assim, pois, as corporações científicas não devem, nem deverão jamais pronunciar-se sobre o assunto, pois ele não é mais de sua alçada do que o direito de decretar que Deus existe. É, pois, um erro tomá-las como juiz. Mas quem será o juiz? Arrogam-se os espíritas o direito de impor as próprias ideias? Não. O grande juiz, o juiz soberano é a opinião pública, e quando essa opinião se formar pelo assentimento das massas e dos homens esclarecidos, os cientistas oficiais a aceitarão como indivíduos e se submeterão à força das circunstâncias. Deixemos passar uma geração e com ela os preconceitos do amor próprio que se obstina, e veremos acontecer com o Espiritismo o mesmo que aconteceu com tantas outras verdades combatidas e que atualmente seria ridículo pôr em dúvida. Hoje os crentes são chamados de loucos, amanhã assim serão chamados aqueles que não creem, exatamente como outrora eram considerados loucos os que acreditavam que a Terra gira, o que não a impediu de girar. “Dizem que os seres invisíveis se comunicam. Por que não? Antes da invenção do microscópio suspeitávamos da existência desses milhares de animálculos que causavam tanta devastação em nossa economia? Onde a impossibilidade material da existência, no espaço, de seres que escapam aos nossos sentidos? Acaso teríamos a ridícula pretensão de saber tudo e dizer a Deus que ele não nos pode ensinar mais nada? Se esses invisíveis que nos cercam são inteligentes, por que não se comunicariam conosco? Se estão em relação com os homens, devem representar um papel no destino e nos acontecimentos. Quem sabe se não serão uma das potências da Natureza, uma dessas forças ocultas que não suspeitamos? Que novo horizonte isto abre ao pensamento! Que vasto campo de observação! A descoberta do mundo invisível seria muito diversa da descoberta dos infinitamente pequenos. Seria mais que uma descoberta: seria toda uma revolução nas ideias. 
Quantas coisas misteriosas seriam explicadas! Os que nisto acreditam são levados ao ridículo, mas o que isto prova? Não aconteceu o mesmo com todas as grandes descobertas? Cristóvão Colombo não foi repelido, coberto de desgostos e considerado um insensato? Essas ideias, disseram, são tão estranhas que a razão as recusa. Teríamos rido na cara de quem, há somente meio século, tivesse dito que em apenas alguns minutos nos corresponderíamos de um a outro extremo do mundo; que em algumas horas atravessaríamos a França; que com o vapor de um pouco de água fervente um navio navegaria contra o vento; que da água seriam tirados os meios de iluminar e de aquecer? Se um homem se tivesse proposto iluminar toda Paris em um minuto, com uma única fonte de uma substância invisível, teria sido enviado ao hospício. Seria acaso mais prodigioso que o espaço fosse povoado de seres pensantes que, depois de haverem vivido na Terra, deixaram o se envoltório material? Não encontramos no fato a explicação de uma porção de crenças que remontam à mais alta Antiguidade? Não é a confirmação da existência da alma, de sua individualidade depois da morte? Não é a prova da própria base da religião? Mas a religião só vagamente nos diz o que se tornam as almas. O Espiritismo o define. Que podem objetar os materialistas e os ateus? Vale a pena aprofundar semelhantes coisas”. 
 Eis as reflexões de um cientista, mas de um cientista despretensioso. São também as de uma porção de homens esclarecidos, que refletiram, estudaram seriamente, sem ideias preconcebidas e tiveram a modéstia de não dizer: Não compreendo, portanto não existe. Sua convicção formou-se pela observação e pelo recolhimento. 
Há céticos que negam até a evidência e aos quais nem milagres convenceriam. Há mesmo os que ficariam muito aborrecidos se fossem obrigados a crer, pois o seu amor-próprio sofreria ao confessar que se enganaram. Que responder a criaturas que por toda parte não enxergam senão ilusão e charlatanismo? Nada. É preciso deixá-las tranquilas e dizerem, enquanto quiserem, que nada viram e, até, que nada lhes pudemos fazer ver. Ao lado desses céticos endurecidos, há os que querem ver a seu modo. Formada uma opinião, a esta tudo querem submeter, não compreendendo que haja fenômenos que não se submetam à sua vontade. Ou não sabem, ou não se querem curvar às condições necessárias. 
Aos olhos do observador atento e assíduo multiplicaram-se os fenômenos, confirmando-se reciprocamente, mas aquele que pensa que basta virar a manivela para movimentar a máquina, engana-se redondamente. Que faz o naturalista que deseja estudar os costumes de um animal? Acaso lhe ordena que faça isto ou aquilo, a fim de ter a oportunidade de observá-lo à vontade e conforme as suas conveniências? Não. Ele sabe perfeitamente que não será obedecido. Mas espia as manifestações espontâneas de seu instinto; espera-as e as observa de passagem. 
 O simples bom-senso nos mostra que, com mais forte razão, assim deve ser com os Espíritos, que são inteligências muito mais independentes que a dos animais." 

O Percurso da Filosofia e da Ciência - Onde se encaixa o Espiritsmo 
Nestes dois textos Kardec recua com a proposição de que o espiritismo é uma ciência (feita em outro texto seu). Importante notar que na época de suas publicações (1858-1869), o termo cientista era uma definição bastante recente, pois só em 1834 foi adotada tal palavra para substituir a terminologia anterior: Filósofo naturalista, ou filósofo natural. 
Embora existiram filósofos naturalistas antes de Sócrates e Platão, podemos considerar que a filosofia natural tem suas bases nos estudos de Aristóteles (século 3 a.C.) que separou-se de alguns conceitos mais mentalistas/ espiritualistas de Platão e Sócrates. As teorias aristotélicas foram sendo suprimidas durante o Império Romano, juntamente com a filosofia socrática/ platônica, praticamente desaparecendo da Europa após a queda do Império Romano Ocidental e certamente tendo como um dos últimos divulgadores, o sacerdote Agostinho de Hipona. A partir daí ela sobrevive na pandidakterion do Império Romano ("bizantino") e chega ao Império Omíada / Califado Rashidum (Árabe) no século 7 d.C, ganhando força entre os séculos 11 e 12, quando os Europeus voltam a estudá-la efetivamente mais ou menos durante o período de fundação das primeiras universidades (católicas) européias. Depois disto, a filosofia natural só começa a se desvincular da religião após o fim dos concílios entre a igreja católica romana e a católica ortodoxa em meados do século 15 (entre 1431 e 1438). Em 1687, o físico inglês, Isaac Newton, começa a busca de uma nova concepção de filosofia natural, com as bases mais matemáticas e materialistas e em 1690, o filósofo inglês, John Locke, lança o método empírico que viria a se consolidar como uma posição filosófica específica. Apesar do trabalho destes estudiosos, outras linhas de estudo surgiram em paralelo, desde o dualismo de René Descartes, até o mentalismo de vários outros filósofos que, de modo geral, concorreram com as demais filosofias. Como, só em 1834 os ingleses cunharam um termo que fomentaria a separação da ciência e filosofia, entende-se que o processo de distinção desta área do saber em relação à filosofia foi gradual e se estendeu aproximadamente até as três primeiras décadas do século 20 com a teoria da falseabilidade. 
 Resumidamente, pode-se entender que a ciência é composta por uma ontologia (que determina os pressupostos filosóficos) materialista e por uma epistemologia, ou seja, método de investigação, que trabalha com a reprodutibilidade das experiências e com evidências (sensoriais), enquanto a filosofia trabalha com conjecturas, racionalização e reflexões para se alcançar um entendimento, ou seja, permite conceitos além da demonstração física, perceptível pelos 5 sentidos humanos. Assim, podemos entender a filosofia como um amplo campo de estudos, ou uma área do saber, que de certo modo pode fazer o caminho ou o meio termo entre o saber religioso (espiritual, transcendental etc) e o saber científico. 
Neste caso, o que talvez Kardec não tivesse certeza, é que o espiritismo é mais uma filosofia do que uma religião ou uma ciência - exatamente porque tentou construir uma ponte entre os dois saberes: Na conclusão do 1ª texto aqui mencionado, Kardec (a mensagem tem características típicas das psicografadas) alega que a ciência até então havia se desenvolvido sacrificando a moral, ou seja, sobrepondo a importância da empatia solidária, deixando a importância dos bons sentimentos nas sociedades humanas em segundo plano! Ainda confirma que o "coração" e o amor têm que seguir unidos à ciência e alerta que virá a tempestade, possivelmente se referindo a frieza propagada pelo niilismo e pelo materialismo que colaborou com teorias eugenistas como o darwinismo social, teorias racistas e paranoicas como o nazismo e teorias punitivistas e brutais como o fascismo. Tudo isto resultou em uma busca inconsequente por riquezas marcada pela corrupção dos maiores bancos e corporações da Europa e EUA, pela partilha e invasão da África (1885 a 1914) e é claro em duas guerras mundiais (1914 a 1918 e 1939 a 1945)! Esta é toda uma realidade notável do fim do iluminismo e da era moderna, perceptível na época de Kardec e nas próximas 7 décadas... E pode-se considerar que não acabou, pois o progresso, que faz parte da evolução da espécie humana e de suas pulsões de vida, é constantemente ameaçado por impulsos de destruição e morte. Estas forças por trás do inconsciente de fato movem o comportamento humano, mas para os cientistas em geral elas são biológicas ou no máximo mentais, enquanto para os espíritas e espiritualistas, elas frequentemente podem ser algo a mais - transcendentais, ou seja, espirituais. 
No 2º texto, ao indicar (voluntariamente ou não) que o espiritismo está entre o saber religioso e o saber científico, Kardec aponta o espiritismo como uma filosofia. Isto realmente se faz necessário, uma vez que pouco a pouco, na história da filosofia, ela foi sendo reduzida, ou "devorada" pela ciência que nascia como o saber soberano, com pretensões de invalidar não só a filosofia, mas primariamente a religião junto de toda a espiritualidade. Este processo de "defensores da ciência" atacarem os demais saberes chega a seu ápice na primeira metade do século 20, onde filósofos liberais (no sentido econômico), como Karl Popper, membro da sociedade de Mont Perelin, atacaram praticamente todos os saberes de bases mentalistas e espiritualistas - desde Freud, passando por Jung até toda religião e espiritualidade real, ou seja, atacou os espíritas de lambuja. Para quem não sabe, a sociedade de qual o famoso filósofo participava foi um dos primeiros grupos ativistas neoliberais do mundo, cujo objetivo era suprimir todos movimentos de esquerda moderados ou extremistas (ou seja, era um grupo de extrema direita sob uma máscara de defensor da liberdade e de racionalidade científica). Este ataque a todos esses saberes serviu para manter a ciência nas bases newtonianas e no método empírico, deixando em segundo plano (intencionalmente ou não) teorias como as da relatividade de Einstein. 
Não é difícil então ver que o cenário mundial até a virada dos anos 50 aos 60 do século 20 era de tensão pós guerra mundial - Um cenário de medo de novos conflitos e de ameaças entre o ocidente predominantemente liberal/ capitalista contra o oriente mais socialista. Um ocidente ainda marcado pelos vestígios do imperialismo britânico, pela cobrança de produtividade e de consumo feita pelas grandes indústrias e corporações e pela ascensão das "potências mundiais" (EUA e URSS) cada vez mais intervencionista nos demais países. Uma ascensão intrusiva e exploratória sob a máscara de negócios internacionais e globalização por parte dos EUA e uma ascensão mais político-militar da URSS. 
A primeira mudança nos saberes deste período iniciou-se com a teoria geral dos sistemas, uma teoria científica surgida na área da biologia (mas que se expandiu para outras ciências) que considera a existência através de relações... O que por coincidência ou não, se aproxima da teoria da relatividade, de que a existência ocorre por... relações, como diz a própria etimologia da palavra. Estas teorias afastam-se da base materialista da ciência (ao cogitarem trabalhar com campos e ondas a níveis sub atômicos por exemplo), assim como também se distanciam do método empírico por serem menos práticas.
Enfim, este período pós guerras mundiais e de começo da guerra fria, fez eclodir os movimentos sociais dos anos 60 em variados países, que apesar de suas pautas bastante humanas (paz, amor, igualdade etc) ainda tem muito o que fazer, pois gerou poucos bons resultados, ou seja ainda não alcançou totalmente seus objetivos. 
Concluindo, como filosofia, parece que o espiritismo deve sofrer poucas mudanças devido a evolução da ciência. Talvez as mudanças principais devam ocorrer devido a alguns ajustes, ao revisar posturas antiquadas da época de sua fundação na segunda metade do século 19. Afinal se o espiritismo é uma filosofia complementar ao cristianismo e a ciência, buscando a união do amor com a ciência, ela jamais deve esquecer-se da importância de propagar o amor ao próximo, que significa o amor à toda humanidade e à toda criação. Jamais deve permitir que ocorram movimentos insensíveis ou cruéis sob a máscara de busca por justiça, progresso frio e/ ou apenas tecnológico ou qualquer outra mentira. O egoísmo penetra todas as áreas do saber: como materialismo na ciência, indiferença na filosofia, obscurantismo e ódio na religião e por isto a humildade é base para que se ocorra progresso verdadeiro nos 3 saberes. Esta humildade deve cessar rixas e permitir que o bem, seja na forma de um acolhimento crescente e/ ou na forma do amor, como citado no texto espírita, caminhe junto com a ciência. 

Fontes: 
O Evangelho segundo o espiritismo;
Revista Espírita de Estudos Psicológicos - junho de 1859; 
Encyclopedia Britannica, Higher Education in the Byzantine Empire, 2008, O.Ed.
História geral, moderna e contemporânea - Borges Hermida;

domingo, 24 de julho de 2022

Humildade: do Biopsicossocial à Espiritualidade

Humildade é o começo e o fim de tudo que é bom. Tudo começa na humildade, no realizar os atos assumindo que não se conhece tudo: Assim começa a vida, os relacionamentos, os estudos, a espiritualidade... 

Particularmente, eu pensava que seu oposto era o orgulho, mas seu oposto certamente é a desistência/ o ceticismo pessimista/ o negacionismo materialista. 

A humildade é prática e é a ausência de toda e qualquer suposição, portanto é ausência de preconceito também. Isto é pré requisito para construir conhecimento e para conviver em sociedade. Assim também é para justiça - presunção da inocência nada mais é do que assumir que ainda não se conhece o outro a ser investigado ou julgado... 
A humildade assim nos direciona ao que é justo e ao que é belo. Nos direciona ao bem. Seu oposto direciona ao mal obviamente. 
Tudo começa na humildade. A vida terrestre começa assim, seja num olhar objetivo ou em um olhar  mais amplo. 
Para as doutrinas e filosofias espiritualistas, as almas se aperfeiçoam nascendo/ renascendo na Terra - pode-se dizer reencarnando. O verdadeiro aprendizado passa por isso: é preciso agir e interagir com alguma disposição ou aceitação ao novo e/ ou ao diferente/ o que era desconhecido até então.
Não se trata de perfeccionismo, pois o humilde não exige dos outros, por isso alguns podem pensar que humildade é ingenuidade ou ignorância, mas não é. Humildade é estar disposto a aprender e não se considerar melhor que os outros. Esta humildade possibilita o indivíduo se aperfeiçoar, portanto, após um processo de busca e aprendizado, permite se tornar perfeito. 

No início do texto mencionei que humildade era o começo (o pré requisito de todos saberes), mas também o fim e aqui vai o motivo: Todas as pesquisas e obras realizadas com fim mesquinho não constituem progresso de verdade, pois visam benefício de uns poucos e causa malefícios a uma maioria. Isto é um desequilíbrio que causa transtornos, dificuldades e até mesmo destruição na civilização. O progresso, como costumo ressaltar, requer uma empatia solidária - se mostrando contra a indiferença e o egoísmo. O progresso (começando na humildade) requer uma visão do coletivo e do todo, com esperança de melhora e de paz. Portanto a humildade está no fim também.


terça-feira, 12 de julho de 2022

O Bom Julgamento não tolera Vingança

Desmistificando a Esquerda e a Direita nos meios Esotéricos e Espirituais / Religiosos 

Há meses venho me decepcionando com pessoas supostamente espiritualizadas: Seja entre espíritas ou entre umbandistas. Entendo que não se trata de olhar toda religião ou doutrina deles como errada (mesmo porque entendo e aceito muita explicação do espiritismo e até algumas coisas da umbanda), afinal isto seria julgar. O que me incomodou foram alguns conceitos que muitos deles levantam como verdades em torno de como funciona a justiça espiritual, suas penas e punições. É o fato destas pessoas acharem que os espíritos que punem os pecadores e/ou malfeitores, ou seja, os algozes, os carrascos e afins, fazem parte de algo digno, ou até mesmo que exercem uma função de justiça mais ou menos elevada. Se tratando das religiões e filosofias que lidam com o assunto dos espíritos, algumas perguntas são (ou deveriam ser) mais recorrentes: 
Porque Deus permite que os espíritos nas "trevas" ou mais "trevosos" (zombeteiros, infelizes e impuros), atormentem os encarnados? 
Estes espíritos servem para cumprir as missões grosseiras, como punir encarnados vaidosos, egoístas, preguiçosos, gananciosos etc. Muitas vezes estes espíritos não sabem que estão realizando uma tarefa/ missão, permitida por Deus, pois eles se comprazem em atormentar os outros e fazem isso por prazer, sem receber ordens específicas. Isto é indicado no Livro dos Espíritos: 
570. Os Espíritos percebem sempre os desígnios que lhes compete executar? 
 “Não. Muitos há que são instrumentos cegos. Outros, porém, sabem muito bem com que fim atuam.” 
 571. Só os Espíritos elevados desempenham missões? 
 “A importância das missões corresponde às capacidades e à elevação do Espírito. O mensageiro que leva um telegrama ao seu destinatário também desempenha uma missão, se bem que diversa da de um general.” 
Os espíritos que atormentam e punem ganham acesso aos que precisam de correção/ punição, através de afinidade / por semelhanças, pois possuem propensões, gostos e intenções egoístas e vaidosas parecidas com as do encarnado que é o alvo de suas obsessões, fascinações ou subjugações. 
Estes espíritos inferiores são numerosos em torno de mundos onde ainda há muita iniquidade e injustiça, logo não representam a justiça em si, pois não são justos. Portanto eles jamais poderiam ser confundidos com anjos / espíritos elevados - eles são no máximo semelhantes aos habitantes encarnados do mundo onde interagem. Em geral não devem ter um bom juízo, ou seja, raramente devem ter uma boa noção de justiça, ainda mais, uma justiça superior e/ou divina. A justiça, ou o bom julgamento, não fazem parte de seus objetivos, aspirações nem intenções. 
O judaísmo místico e o cristianismo onde o espiritismo se apoia, explicam isto: A justiça representada por ordens angelicais (espíritos superiores) e/ou representadas em diagramas como a árvore da vida judaica/ hermética, não se trata destes espíritos que se comprazem em atormentar os encarnados, servindo como carrascos e executores. Esta justiça superior, chamada de Geburah no judaísmo místico (Força, Julgamento), está mais para a mão esquerda citada por Jesus: "quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita..." Esta passagem não trata só de ser discreto enquanto se faz um ato de caridade: ela também tem o significado místico onde a mão esquerda sendo o julgamento, não deve olhar o que a piedade (mão direita) faz, para não julgar o assistido, o socorrido. A justiça, ou a força no caminho do bem, é olhar a trave no próprio olho antes de incomodar-se com o cisco no olho alheio. Afinal de contas, quando falamos da sefirat Geburah ou de sua ordem angelical equivalente, estamos falando não só do caminho do progresso rumo à Deus, como estamos falando de um estado elevado de consciência ou de existência: A força de vontade, o bom juízo, o bom julgamento. 
Esta força de vontade voltada ao bem, ao lado da misericórdia e da piedade (que por sua vez, regem a caridade e a solidariedade) é o que deve fomentar a espontaneidade das boas ações, bons sentimentos etc. Geburah, a Força, o (bom) Julgamento é uma sefirat do lado esquerdo da árvore da vida, e à sua direita está Chesed, a Misericórdia, a Piedade. 




Portanto a esquerda não se trata de julgar os outros, nem de punir terceiros - As virtudes, ou sejam, as sefirats da esquerda - Hod, Geburah e Binah estão mais para o caminho da auto-correção, pois o Julgamento (Geburah) é a força de vontade para resistir as tentações e é ou faz parte da confiança em Deus! 
Quando ficamos impedidos de nos dedicar à solidariedade, ao ensinamento da lei divina de amor (ao ajudar o próximo mais diretamente - o caminho espiritual da direita), resta-nos só um caminho mais recluso, como o das orações, da escrita e da força de vontade para não cair nas tentações (seja de prazeres mesquinhos, ou de ofender o próximo etc). É o caso da (santa) Teresa d'Ávila, por exemplo, que era uma freira espiritualizada do século 16 que não tinha o direito de ensinar ao povo pelo fato de ser mulher. Santa Teresa D'Ávila teve uma vida cristã humilde, cheia de restrições, mas escreveu sobre suas experiências transcendentais/ místicas, conscientemente ou inconscientemente traçou paralelos com religiões orientais, além de trabalhar em obras de caridade e em raras oportunidades de discursar para alguns grupos de pessoas. Este caminho mais recluso e/ ou contemplativo é o caminho da esquerda e não se trata de punir pecadores! Aquele que pune o próximo, não está na esquerda da espiritualidade, nem do esoterismo, nem de coisa alguma - está imerso em pensamentos, sentimentos e atitudes inferiores, no máximo seguindo o lema "olho por olho e dente por dente", um caminho de meras retaliações e vinganças. 
A vingança é um ato rasteiro, onde se continua as ações ofensivas e/ou agressivas e por isso ela é condenada por várias religiões como o budismo, todas vertentes do cristianismo (catolicismo, protestantismo, espiritismo etc) e em algumas outras religiões e vertentes destas.

quinta-feira, 30 de junho de 2022

A Existência é o Bem

 

Uma Explicação Poética do Bem na Espiritualidade
 
 O poeta Khalil Gibran completa a explicação de Kardec sobre a inexistência de demônios, que na verdade nada mais são do que seres desencarnados infelizes. 
 Ele também completa uma explicação teológica presente em algumas religiões como em alguma vertente do budismo. O todo, ou todo cosmo/ toda criação, a verdade, pode ser comparado com Deus, único, onipresente e onipotente em sua bondade infinita. Seu oposto é o nada que é a mentira a maldade. Parece estranho? Talvez, mas observemos o poema de Gibran: 
 "E um dos anciãos da cidade disse: Fala-nos do Bem e do Mal. 
 E ele respondeu: 
 Do bem dentro de vós, eu posso falar, mas não do mal. 
 Pois o que é o mal além do bem torturado em sua própria fome e sede?" 
 "Quando sois bons, sois inteiros. Mas quando não sois inteiros, não sois maus. 
 Pois uma casa dividida não é um covil de ladrões: é só uma casa dividida." 
 "sois bons quando buscais dar de vós mesmos. Mas não sois maus quando buscais obter para si mesmos. Pois quando lutais para ganhar, sois só uma raiz ligada à terra que suga em seu seio. Certamente os frutos não podem dizer à raiz: seja como eu, generoso da vossa abundância. Pois para o fruto dar é uma necessidade, como receber é uma necessidade para a raiz". 
 Então, podemos entender que os seres benignos ajudam outros. Porém os que prejudicam os outros são seres enganados. Os primeiros estão acertando, enquanto os segundos estão errando. Inclusive, a origem da palavra pecado (peccátu em latim e hamartáno em grego) vem de hhatá em hebraico, que por sua vez, significa erro. 
 O que almeja o superior, o bem maior/ universal, a Deus, guiado pela verdade: acerta. O que nega o bem, é usado pelo nada, enganado pela mentira: erra. 
 Assim, o primeiro serve a Deus e portanto, serve à todos e/ ou a um bem maior. O segundo que é o "mal", simplesmente não presta para coisa alguma e se ele se arrepende sinceramente, torna-se digno de perdão e de uma nova chance, mas enquanto persiste no erro, para nada serve.
 Importante notar que nesta concepção o mau, o nada e o erro / pecado, são praticamente sinônimos o que faz com que o bem, o todo (Deus, na visão teísta) e o certo / a virtude estão interligados entre si da mesma maneira. Assim o egoísta, o orgulhoso/ narcisista, o ganancioso são pessoas erradas, ou seja enganadas, porque não favorecem ninguém além de si mesmos (mais precisamente, não favorecem nem a si mesmos). Isto está relativamente de acordo não só com uma espiritualidade cristã (com qualquer espiritualidade sincera), mas até mesmo com a teoria geral dos sistemas (de que tudo existe por relações e para relações). Não se trata em dizer que pessoas que reconhecemos como más (os avarentos, os violentos, os mentirosos etc) sejam inocentes ou coitadinhas e sim de mostrar como são indivíduos que estão no vício/ no erro. São infelizes, porque nunca estão felizes com coisa alguma. 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Militarismo e Espiritualidade tem algum nexo entre si?

 

No meio do ano retrasado, escrevi um texto onde citei alguns perigos do sensacionalismo propagado pelas diversas mídias sociais e pelas mídias de massa, combinado com o punitivismo fomentado entre as classes militares do Brasil (seja polícia, exército ou qualquer outra): https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/07/o-sensacionalismo-da-punicao.html

 A verdade é que os comportamentos fomentados por estas ideologias há décadas está trazendo consequências desastrosas. São ações de violência e até de extermínio: Só neste mês de maio de 2022, tivemos aqui no Brasil, tais casos em São Paulo, Rio de Janeiro e Sergipe. Utiliza-se força letal de maneira tão descontrolada contra suspeitos e criminosos pé de chinelo (sim, indivíduos envolvidos em crimes de valor insignificantes, afinal ladrões multimilionários continuam livres), que às vezes sobra violência para qualquer um que esteja no caminho - seja moradores de favelas, ou até mesmo transitantes que estejam próximos às operações policiais. O curioso é que há uma vasta camada da sociedade que apoia tais atos de violência, sendo boa parte desta "camada" supostamente religiosa, mais precisamente, "cristã". Este "cristianismo" conivente com a violência vem se propagando há tantos anos, que é difícil estabelecer um período preciso de quando ele tenha começado. 

Os movimentos obscurantistas que geralmente apoiam ou ignoram a propagação da violência devem ter alternado de religião para religião, de tempos em tempos. Em geral esses movimentos são liderados por pastores, padres e dirigentes defensores da insensibilidade em relação à todos que não façam parte de seus seletos grupos, embora alguns destes líderes cheguem a defender abertamente o uso da violência para matar. Alguém poderia dizer, "ah, mas tá na bíblia que Deus permitia matar infiéis" (velho testamento)... É aí que eu reforço algumas das observações feitas pelo fundador do espiritismo (Kardec) e vou além: Kardec dizia que o antigo testamento era essencialmente voltado a um povo primitivo, rude e com tendências violentas. Eu digo que o velho testamento, salvo algumas partes que priorizam a solidariedade, poderia ser excluído das religiões verdadeiramente cristãs. Não porque é tudo imprestável ali, mas por dois motivos: Primeiro, realmente se tratava de ensinamentos voltados a povos imersos em guerras e que sequer cogitavam a idéia de progresso. É uma ignorância enorme fingir que os povos da idade do bronze e do ferro (desde aproximadamente 3500 anos antes de Cristo até 470 antes de Cristo) não guerreavam por motivos absolutamente indefensáveis. As guerras eram mais frequentes do que os tempos atuais desse início do século 21 e não havia busca significativa de progresso, seja social ou tecnológico. Além das guerras registradas nos grandes impérios que tinham uma história escrita, existiam inúmeras outras guerras não registradas em povos e civilizações que não tinham uma linguagem escrita até o século 1. Em segundo lugar, o velho testamento era voltado a um pequeno grupo social ou uma cultura específica do oriente médio (hebraica/ judaica). A religião judaica se misturava com noções de sociedade e nação, invocando certo patriotismo pertencente somente àquela época e local (mais ou menos onde situa-se Israel até este início de século 21). O que as sociedades de vários outros países com estudo débil e/ou defasado dos dias de hoje podem entender ou aprender com tais "textos religiosos"?? Oras, se pastores e padres corruptos conseguem distorcer o significado das parábolas de Jesus, o que não conseguiriam usar maliciosamente do velho testamento? É fácil tais líderes fomentarem rixas e defender violência distorcendo diversos trechos da bíblia, e certamente, mais fácil é usar trechos do velho testamento com esta finalidade. 

 Mas apesar de tudo isto, toda violência é contrária aos ensinamentos verdadeiramente espirituais dos textos religiosos. É possível encontrar ensinamentos sobre a importância do perdão, da solidariedade e da equidade em inúmeros textos: Desde Isaias e os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João sobre Jesus até textos sobre personagens de outras religiões, como Krishna no Bhagavad gita, Buda, Rumi no islamismo etc. A violência é fruto de uma sociedade que aceita a brutalidade e essa brutalidade é contra o perdão e contra qualquer forma de progresso e evolução. Mesmo porque se o perdão for extinto da humanidade, as pessoas se destruiriam de tal maneira que seria impossível qualquer forma de progresso. A brutalidade só conseguiu se manter por milênios na civilização humana por causa de movimentos contra o perdão, a tolerância e a solidariedade. Na idade média, as guerras aconteceram debaixo do nariz da igreja européia por causa que o alto clero corrupto manipulou significante parte da sociedade com conservadorimo e obscurantismo. Já na era moderna até os dias de hoje, a brutalidade no ocidente (América e Europa) se propagou principalmente através de ideologias que idolatravam um determinado grupo de pessoas, como o machismo e o militarismo. Duas das principais ideologias por trás da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, eram altamente militaristas: o nazismo e o fascismo. Se não houvesse o culto ao "machão", o militarismo nem conseguiria se sustentar, pois não existiria toda a classe de pessoas dessensibilizadas e obedientes (seja a um líder ou a uma ideologia que cria inimigos do nada) espalhada por diversos países e prontas para utilizar armas. 

As ações desta classe militar, sejam operações que nunca pegam os criminosos ricos ou seja em guerras, se apoiam em discursos mentirosos que defendem os lucros do comércio de armas e/ ou defendem a ideia que supostos inimigos perigosos estão tramando algo contra uma nação. Operações policiais e guerras não tem relação alguma com os ensinamentos de Jesus Cristo ou de Buda (nem com outros líderes verdadeiramente espiritualistas). Ações de violência ou de mera punição na Terra, nada têm de espiritualidade, nem da verdadeira fé. Este militarismo é fruto de paixões terrestres, ou seja, defende os que se entregam à ganância, à intolerância, à fúria, ao orgulho, à boataria e/ ou ao imediatismo. E nada disto é espiritual ou sequer contém alguma espiritualidade. Como poderia ser uma existência pós terrena daqueles que matam por uma destas causas? Como seria o "destino espiritual" de alguém que venera armas e punitivismo? Certamente não se trata de um destino pacífico...

quinta-feira, 21 de abril de 2022

O Inconsciente para o Espiritismo

 

Nos meus 3 últimos anos em que estive buscando desenvolver minha espiritualidade, não encontrei textos que relacionassem o inconsciente descrito pela frente psicológica de estudos com o espiritismo. Talvez eu não li o bastante ainda, mas como estou estudando psicologia e tive experiências mediúnicas, tomei a liberdade de escrever sobre. 

 Construção Psíquica 
 Todos nós seres humanos aprendemos coisas desde a tenra infância. Mas porque temos facilidade para guardar certas memórias e não outras? Porque gostamos mais de determinados assuntos? Porque uns sucumbem mais às pulsões de vida (instintos), gerando compulsão por alimento ou por sexo? Porque outros sucumbem mais às pulsões de morte tornando-se violentos ou fascinados por armas e conflitos como lutas ou guerras? Porque uns lembram de muitos sonhos enquanto outros não lembram, chegando a alegar que não sonham? 
 As explicações psicológicas são vastas e distintas entre si, pois são variadas frentes com bases diferentes, sendo que cada frente tem várias abordagens de autores diferentes. Sendo assim, farei observações influenciadas pelas frentes psicanalítica e fenomenológica sobre a psiquê (do grego psyché, ou seja, alma): Como prévia vale citar que se tratando de memórias, de sentimentos e de sonhos há de se entender que são processos "internos" do ser humano: A "mente" só expõe pensamentos e sentimentos através de palavras e de expressões, sejam vocais etc. Os sonhos não são expressos a não ser por descrições... 
 Nós, seres humanos, somos submetidos às experiências e sensações praticamente o tempo todo: com familiares, com colegas de estudo e de trabalho, com pessoas nas ruas etc. Além da interação direta com outros seres humanos, uns assistem televisão, outros vêem as redes sociais, outros interagem com jogos etc. Tudo isto é experienciado, podendo ser frequentemente lembrado ou predominantemente esquecido. Como as memórias não deixam de existir, a explicação da frente psicanalítica de estudos afirma que elas ficam no inconsciente do aparelho psíquico (mente). Embora alguns conteúdos jamais retornem a consciência por motivos de trauma, repulsa, irritabilidade, complexidade ou outra dificuldade em lidar com eles, existem conteúdos psíquicos que escolhemos trazer à tona ou não. Estes dependem mais do valor que atribuímos a eles: podem ser entendidos como mais significantes ou menos significantes. 
 Por mais que tais conteúdos (internos) tenham uma ligação com o cérebro humano e seus processos, como as sinapses, eles não são considerados materiais e nem são perceptíveis por pessoas que não sejam nós mesmos. Por esta razão, para traçar as relações do inconsciente da mente humana com o espiritismo, escolho utilizar as bases da frente psicanalítica de estudos. Porém não me limito a teoria de Freud que foca na libido e em questões oriundas das pulsões. Isto seria limitar-me ao "estado natural" das fases de desenvolvimento humano descritas por Pestalozzi, ou talvez, no máximo, ao "estágio estético" da filosofia de Kierkegaard. Para traçar as relações com uma teoria mais plural e filosófica como o espiritismo, é preciso considerar que o inconsciente humano é mais do que a fonte de instintos e o depósito de experiências psíquicas reprimidas. Daí então, Jung, com sua psicologia analítica, nos mostra uma boa base de estudos. Jung admite que o inconsciente pode ter elementos psíquicos que vão além de instintos, experiências traumáticas e memórias esquecidas: Nele existiriam também a intuição, criatividade (que seriam enquadradas na sublimação por Freud), tendências à estagnação e até mesmo uma profundidade maior chamada de inconsciente coletivo. Obviamente, esta teoria não comporta a concepção de espíritos que foi altamente rechaçada pela maioria materialista do meio científico (no mínimo, desde meados do século 19 até este início de século 21), mas como o inconsciente coletivo vai além de possíveis elementos psíquicos de origem genética, relacionando com o conceito de sincronicidade e elementos independentes do espaço-tempo, é possível entender que há uma “lacuna” aí, onde o espiritismo pode explicar alguns fenômenos. 

 O que “submerge e emerge” do Inconsciente 
 Para voltarmos a abordar o inconsciente do aparelho psíquico, é útil um resumo sobre o consciente: 
 Para as abordagens fenomenológicas da psicologia, a consciência é atividade direcionada. Não é um depósito nem passiva, pois ela é sempre consciência de algo. Mais do que o uso dos 5 sentidos, ela tem/ gera a intencionalidade (que é o modo como a consciência visa algo). Portanto a consciência não tem dureza nem substância e não existe sem uma relação (seja em relação às coisas percebidas pelos sentidos, ou ao próprio pensamento etc): ela se projeta em direção às coisas. O ato de conhecer é o Ego (Eu). O encontro da consciência com o objeto é a relação bipolar que constitui o conhecimento. 
 Para a psicanálise a consciência é a percepção da realidade externa e de estímulos internos, pensamento; É qualidade momentânea, que diz respeito àquilo do que estamos cientes no aqui e agora; Consciência não é o atributo principal da mente - é fugaz, ou encobridor, pois não armazena. Em uma topologia seria como uma membrana no aparelho psíquico - A lembrança no momento que chega; Atividade mental não ocorre ao acaso, pois há continuidade na atividade mental, cuja muitas vezes os motivos estão no Inconsciente; 
 A psicologia analítica pouco difere a consciência em relação à psicanálise: A consciência é a mente no presente, percebendo e interagindo com o entorno. Em geral é mais racional do que o inconsciente; 
 Agora analisemos: Quantas experiências da realidade externa e quantos estímulos internos tivemos em nossas vidas. O quanto conseguimos nos lembrar e quanto não conseguimos? Assim, entende-se que temos uma quantia gigantesca (incalculável para o ser humano) de informações que ficam latentes em nossa mente. São inúmeros detalhes (tamanhos, formas, cores, sons e seus ritmos, timbres, cheiros, sabores etc) de objetos, de forças da natureza, de seres vivos, de paisagens, de incontáveis movimentos e momentos, enfim, cada milésimo de segundo percebido pelos nossos sentidos. Isso sem contar nossos sentimentos e pensamentos ao longo de toda vida. Nenhum deles deixa de existir durante nossa vida - todas estas percepções e suas impressões, interpretadas por nós em inúmeros momentos, ocasionalmente ou regularmente relembradas, reprimidas ou representadas e expressas ficam no inconsciente, e portanto, para o espiritismo, “ficam” na alma. Como nada disto desaparece como um passe de mágica, entende-se que temos esta quantidade absurda de informações em nosso inconsciente, enquanto nosso consciente interage basicamente com o presente. Uma interação do consciente com o passado só pode ser feita parcialmente, resgatando porções da memória individual ou através de sensações de nostalgia e saudades, enquanto uma interação com o futuro seria feita apenas imaginado, ou mais raramente, vislumbrando algo (uma cena, um sentimento, impressão etc) através de algum tipo de intuição. 
 Então o que tiramos e colocamos no inconsciente? Obviamente isto varia muito de pessoa para pessoa, mas tentarei trazer alguns possíveis exemplos: 
 Se uma pessoa tem uma grande desilusão a respeito de outra pessoa ou sobre determinado assunto, obviamente esta decepção não desaparece da noite para o dia. Na verdade, se não houver uma busca para superar ou contornar uma dificuldade como a perda de esperança, certamente tal elemento ficará no inconsciente, servindo como parâmetro para futuras decisões (ou falta de decisões), comportamentos etc. 
 Outro exemplo é, se uma pessoa ouve a um discurso de grande apelo emocional, que coloca a culpa de seus problemas, ou a culpa dos problemas de todos seus entes queridos, em um indivíduo inocente, ou em uma pessoa que pouco tem a ver com tais problemas, esta crença na mentira ficará no inconsciente, pois no consciente apenas “transitam” as experiências essencialmente do presente. Após a recepção, ocorre a interpretação, aceitação ou recusa e o resultado disto fica no inconsciente. 
 A combinação de todas as experiências e interpretações poderia formar o que a psicologia analítica chama de complexo, apesar que seu autor, Jung, cogita que estes podem vir de origens e elementos mais “antigos”, seja de experiências da tenra infância, do inconsciente coletivo, de fatores genéticos ou de outro fator… 
 Enfim, é útil reforçar o que já mencionei antes: Uma quantidade gigantesca de informações “submergem” (são deixadas ou colocadas por nós como indivíduos) em nosso inconsciente, pois nada simplesmente some “para sempre” para depois “ressurgir do nada”: A consciência do ser humano pode ou não resgatar determinadas “informações” para o presente. 

 Inconsciente: "Alucinações", Sonhos e Espíritos 
 Poderia ser o inconsciente então algo como uma prisão ou masmorra sólida e segura para todo nosso colossal conteúdo “psíquico” esquecido, reprimido etc? Não. 
 Além de todo conteúdo / informação oriunda de nossas experiências em nossa vida, o inconsciente deve guardar nossos instintos de sobrevivência. São impulsos rudimentares, mas que servem para buscarmos coisas essenciais para se viver na Terra… Como os animais. Rudimentar neste caso é uma palavra bem precisa: Como podemos notar, o ser humano é uma forma de vida muito mais complexa do que os instintos, a partir do momento que interpreta todas experiências mencionadas anteriormente, transformando esses “dados” em informação mais ou menos coesa, e muitas vezes, subjetiva. 
 Agora que vimos que no inconsciente ficam estes elementos tão distintos entre si (os instintos, as interpretações das diversas experiências, as memórias, o aprendizado, as preferências etc) podemos imaginar que o inconsciente não seja algo exatamente quieto e inativo… Mas se somos essencialmente a consciência, o que seria essa atividade no inconsciente? Um “eu além”? Um “eu dormente”? Estas ideias e/ou dúvidas incomodam terrivelmente algumas pessoas, inclusive, alguns psicólogos materialistas que vi ao longo da minha vida. A verdade é que a psicologia tem muito de filosofia, pois o campo que estuda a “existência” e suas “variáveis” pertence à filosofia. É ilógico e estapafúrdio IGNORAR tudo o que mencionei anteriormente e querer se auto denominar “cientista do comportamento humano” ou psicólogo. Obviamente o psicólogo não deve ficar remoendo e cavucando insistentemente a vastidão de conteúdo inconsciente de seus pacientes/ clientes, mas desconsiderar todas estas informações é no mínimo muito estranho. Essa discussão é longa na psicologia, mas só se tornou longa só porque há uma repulsa generalizada pelo “imaterial” e pela filosofia como campo interseccionado com a psicologia. 
 Pois bem, aqui entram os temas “polêmicos” que não deveriam ser da alçada dos estudos objetivos, ou seja, não deveriam se limitar à ciência, que é um campo do saber essencialmente materialista: As alucinações. O que são alucinações, afinal? 
 É fútil se ater a uma explicação racional que busca uma neutralidade (falsa) e que se apoia em pressupostos materialistas. Eu poderia trazer uma explicação feita em alguma obra da frente psicanalítica de estudos, explicando que são percepções únicas de um indivíduo em estado psicopatológico (ou algo assim), mas mesmo esta explicação racionalista já foi sobreposta por outras mais reducionistas ao longo do século 20. 
 Então podemos concluir que a alucinação é o real para um indivíduo e não para outro. Não se trata da realidade compartilhada pela maioria das pessoas. É claro, que se este “real” está causando um grande mal ao indivíduo e/ou às pessoas à sua volta, é preciso encontrar uma solução que traga o bem a todos, ou, ao menos, à maioria das pessoas nesta relação. 
 E os sonhos? Os sonhos são a prova da atividade em nossa inconsciência. 
 Diferentes autores da psicologia propuseram diferentes motivos e causas para os sonhos. Se tratando da mente humana e todos seus elementos que não são materiais, portanto não podem ser cheirados, agarrados nem cortados (etc etc), é preciso admitir uma base de estudos mais aberta do que as materialistas (uma dessas bases é a fenomenologia), ou mais plural. Esta última eu indico a possibilidade de utilizar o espiritismo, como filosofia que admite uma existência plural (do “ser humano”, da vida). Assim como a psicanálise certamente deve ter conseguido explicar alguns sonhos e a psicologia analítica, outros, o espiritismo pode explicar alguns destes fenômenos. 
 O espiritismo obviamente não se baseia nos pressupostos materialistas e raramente utiliza o método empírico de investigação, afinal se há uma inteligência/ mente capaz de “sumir e aparecer” interagindo com objetos ou formas de vida, é claro que esta “mente” não precisa se dispor a reprodutibilidade das experiências. Apesar de tentar uma aproximação de temas espirituais (que eram religiosos até o século 19) com a ciência, o espiritismo está mais para uma filosofia, onde estuda-se fenômenos predominantemente psíquicos, através de percepções (muitas vezes internas e não dos 5 sentidos), interpretações, reflexões etc. 

 Espiritismo e o Inconsciente 
 É através do inconsciente que as mentes desencarnadas, ou espíritos, interagem com os vivos. Se é quando dormimos, que nos desprendemos do corpo e interagimos com outras almas (o que essencialmente não difere de mente ou espírito), é claro que o sonho servirá como uma releitura ou véu sobre o que se passa neste momento da existência. 
 O que a psicologia analítica chama de inconsciente coletivo pode ser, ao menos em parte, o que o espiritismo chama de mundo (“Invisível”) dos espíritos, ou o que a linguagem esotérica chama de plano astral. 
 Ora, o que fariam os espíritos neste estágio de existência (enquanto o corpo dorme)? Tomariam cerveja e comeriam churrasco? Certamente não, já que não são um estado de existência “material” - Ou ao menos, não são corpóreos/ não são sólidos, nem líquidos, nem gasosos etc… 
 Aí entra a religião, ou o que chamamos hoje de espiritualidade. A verdadeira espiritualidade não prioriza o material, muito menos os prazeres materiais e os excessos destes e seus vícios, que podem causar desde disputas desnecessárias, até violências etc. Nós, seres humanos, existimos para evoluir mentalmente, ou seja, racionalmente e sentimentalmente - não é difícil perceber isto, basta comparar o potencial do homo sapiens com as inúmeras outras espécies de vida da Terra. 
 Então se a mente inconsciente, ou o espírito durante o sono, realmente está priorizando simulações de prazeres materiais, há algo errado com esta “porção” incorpórea/ “imaterial” do ser em questão. Pois a priorização de prazeres materiais está intimamente ligada com comportamentos conscientes que alternam entre a superficialidade e a ganância. Nas sociedades esta priorização é fomentada pelos discursos de fins mercadológicos que obviamente relegam a um segundo plano o ser humano, suas inter relações e o meio ambiente: Consumismo, culto ao corpo, hiper sexualização, meritocracia na busca incessante por dinheiro, status etc. 
 Ora, a propagação das ideias consumistas e alienantes dos maiores beneficiários do capitalismo, convencendo inúmeras mentes humanas de que tais ignorâncias são o mais importante fator da existência, gera e alimenta todo um inconsciente coletivo, ou um mundo dos espíritos/ plano astral, severamente contaminado por mentiras que geram rivalidade e insensibilidade. 
 Para se fazer tal estrago nas mentes (ou almas) humanas, nem chega a ser necessário a propagação de discursos violentos como os de nazistas e de fascistas. Todas essas almas ou mentes levadas por discursos de fortes sentimentos negativos (como ódio e intolerância) ou levados à dessensibilização (desprezo ou supressão dos sentimentos) e ao materialismo escrachado não estão se desenvolvendo em seus potenciais. Na verdade elas estão prejudicando ou até mesmo danificando umas às outras. A diferença é que os discursos objetificadores, mercadológicos, enfim consumistas, parecem destruir de maneira mais lenta e menos “explosiva” a humanidade, se comparada com as ideologias violentas por trás da 2ª guerra mundial. 
 Na verdade, em muitos casos, não é necessário nem estudar porções inconscientes da mente/ alma para saber disto: Podemos ver em qualquer artigo, seja da sociologia, da psicologia ou do jornalismo, que aborde o adoecimento mental em massa da civilização humana. 
 Mas vale citar o espiritismo se tratando deste assunto da psicologia social. Todo ser humano tem alma e todos se relacionam uns com os outros. Todas experiências são levadas para além da vida consciente na Terra, ou seja, o espiritismo não deve se alienar nestas questões. O espírita verdadeiro sabe sim da importância do desenvolvimento individual, mas não pode ignorar estes fatores psicossociais e deve buscar o conhecimento e o bem de si mesmo e do próximo até mesmo em algumas questões sociais / econômicas. Não se trata meramente de escolher um lado na política ou um partido: é uma questão de se informar deixando de olhar só o próprio umbigo. Abandonando o egoísmo e o conservadorismo que nega a ciência e o bem estar do próximo. O fundador do espiritismo, Kardec, não deu o nome ao seu periódico de “Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos” à toa. Foi uma escolha, pois ele mesmo afirmou que a humanidade estava entrando na “era psicológica”. 
 Aqui a crítica não é só ao espiritismo: é a todo campo de estudo e a todo estudioso - todo aquele que tem um “curso superior”. Afinal, ter um ensino (verdadeiramente) “superior” implica em humildade para aprender sempre. Ser superior é servir o mais necessitado. Se por qualquer motivo não podes dedicar-se a auxiliar o próximo, ao menos lute para não levar conteúdos nocivos para tua alma (teu inconsciente) e se já levaste, é bom esforçar-se para reparar isto, porque uma alma infeliz é ruim para espiritualistas (pois lhe afetará no futuro) e até mesmo para os materialistas (porque afeta o presente).

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...