segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

A sensualidade é materialista demais para o cristianismo?

 

Quando o espiritismo surgiu, no séc 19, a mídia mais inovadora era o telégrafo - não era muito progresso desde da imprensa de Gutenberg do séc 15. O transporte terrestre mais veloz eram locomotivas. Em suma, a velocidade de informação era lenta, assim como as relações interpessoais. As opiniões eram bem mais irrelevantes e menos propagadas se comparada com os séculos 20 e 21. Relatos de fantasmas, eventos sobrenaturais e afins certamente pululavam muito mais que hoje. O materialismo estava espalhado mais entre as elites, sejam econômicas ou "intelectuais" de cientistas e filósofos (brancos ocidentais). A própria palavra cientista era novidade daquele século. A África estava prestes a sofrer a pior exploração de toda sua história e a cultura oriental chegava lentamente como algo exótico ou místico no ocidente dividido entre o cristianismo institucionalizado pelas igrejas e os intelectuais influenciados pelo racionalismo antropocêntrico. Esse era o contexto onde foram feitos os estudos espíritas liderado por um linguista pertencente a um grupo de pedagogos revolucionários da Europa (em prática, o professor de Kardec, Pestalozzi, causou uma revolução no ensino). 
 Hoje uma pessoa que relata os fenômenos descritos como "mediúnicos" pelos fundadores do espiritismo, certamente será taxado de louco, pois o materialismo tomou quase que completamente as classes "intelectuais" e ameaça engolir a vasta classe de pessoas com pouco estudo: Consumismo, imediatismo, meritocracia, culto ao corpo, exposição em mídia social, empreendedorismo forçado, são algumas das ideologias materialistas enfiadas goela abaixo do povo. Até mesmo igrejas cristãs vendem a meritocracia e o culto às riquezas materiais, afinal o que é mais fácil: Explicar as parábolas de Jesus e falar da importância do bem e do espiritual, ou prometer recompensas na Terra à uma maioria de pessoas empobrecidas? A ignorância das massas serve para manter os poderosos que parasitam a civilização humana através da desigualdade e da exploração descontrolada de recursos humanos / naturais. Kardec alertava sobre isso: se o discurso que só a matéria existe se espalhar, ninguém vai se importar com a mente, muito menos com temas sobre o espírito, a desencarnação/ morte/ pós vida. Nada vai impedir que todos entrem numa louca busca egoísta por riquezas materiais e prazeres na Terra... (já indiquei a relação do materialismo filosófico com a ideologia/ estilo de vida materialista em alguns textos como neste aqui: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/06/os-perigos-dos-materialismos.html)
 E falando em busca por prazeres na Terra, entremos em um tema polêmico: 

O ato sexual é pecado na espiritualidades cristã? 
Há algumas poucas passagens no novo testamento sobre isto (não citarei o velho testamento, pois além de adequado a um povo mais rude e com menos progresso mental, tornaria o tema muito longo) - Mateus é um dos mais críticos aos atos sexuais, chegando a mencionar que Jesus falou da possibilidade de algumas pessoas se tornarem eunucas para seguí-lo, enquanto Paulo tenta delinear vagas regras sobre o assunto. Lucas critica mais o acúmulo de bens materiais, incluindo o dinheiro, deixando questões sexuais de lado. Pode-se entender os escritos de Mateus e Lucas, como duas alternativas diferentes entre si de resistir tentações da vida terrestre. Porém, focando na relação entre sexo e erro (pecado), é útil buscarmos outros evangelhos e aqui citarei 2 dos apócrifos: Tomé e Felipe. 
Em nenhum momento eles liberam a prática sexual para aqueles que querem seguir os ensinamentos de Cristo, mas porquê? Porque ambos focam na pureza de Cristo e esta pureza mental é a humildade e a esperança contínua de que todos seres humanos amem uns aos outros na ágape de Cristo - o amor incondicional, sem segundas intenções e sem busca por prazeres físicos ou materiais. 
Oras, então eles proíbem toda e qualquer atividade sexual? É claro que não, pois se fosse assim proibiriam a vida na Terra. Porém é bom lembrar que a humildade de Cristo e seu Pai, é amor e esperança do Criador. É como o amor de mãe para com toda sua criação e além, algo difícil de imaginar mesmo. 
Por um outro lado, Tomé torna este eixo de humildade/ amor/ esperança mais claro ao reforçar a importância de nos tornar como crianças: 

Como são os discípulos de Cristo (Tomé) 
Maria disse a Jesus: "Como são os teus discípulos?" 
 Jesus respondeu: "Eles são como crianças que se estabeleceram em um campo que não é deles. Quando os donos do campo vierem, eles dirão: 'Vamos recuperar nosso campo'. Então os meus discípulos (vão) se despir em suas presenças para que eles recuperem seu campo e lhe dêem de volta para eles. Por isso vos digo que, se o dono de uma casa sabe que o ladrão está chegando, ele começará sua vigília antes que ele chegue e não o deixará entrar na casa do seu domínio para levar para longe de seus bens. Você, então, esteja em guarda contra o mundo. 
Armem-se com grande força para que os ladrões não encontrem uma maneira de vir até vocês, caso a dificuldade que você espera (certamente) irá se materializar. Haja entre vós um homem de entendimento. Quando o grão amadureceu, ele veio rapidamente com sua foice na mão e colheu. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça". 
 Esta é uma passagem que mostra a importância da humildade e do desapego em relação às coisas materiais. A humildade também constitui a força de quem segue a lei divina de amor. 

 Desapego à matéria não é amor nem ódio (Filipe) 
Aquele que sai do mundo, e assim não pode mais ser detido pelo fato de estar no mundo, evidentemente está acima do desejo do [...] e do medo. 
Ele é mestre sobre [...]. 
Ele é superior à inveja. Se vier, eles o agarram e o estrangulam. E como este conseguirá escapar das grandes [...] potências? Como ele vai conseguir [...]? Há quem diga: "Somos fiéis" para que [...] os espíritos imundos e os demônios. Pois se eles tivessem o Espírito Santo, nenhum espírito imundo se apegaria a eles. Não tema a carne nem a ame. Se você a temer, ela ganhará domínio sobre você. Se você a ama, ela vai engolir e paralisar você. 
E assim ela habita neste mundo ou na ressurreição ou no lugar do meio. Deus me livre que eu seja encontrado lá! Neste mundo, existe o bem e o mal. Suas coisas boas não são boas, e suas coisas más não são más. Mas há mal depois deste mundo que é verdadeiramente mal - o que é chamado de "o meio". É a morte. Enquanto estamos neste mundo, convém que adquiramos a ressurreição, para que, quando nos despomos da carne, sejamos achados em repouso e não andemos no meio. Pois muitos se desviam no caminho. Pois é bom sair do mundo antes que se peque. 
 Neste texto de Filipe, “a morte”, aparece como um lugar onde as almas apegadas à carne e aos bens materiais ficam vagando. Já a ressurreição neste texto parece se referir à reencarnação em uma das moradas de Cristo, enfim, no Reino dos Céus. 
Desapegar-se do corpo é uma maneira de libertar a alma de seu domínio: Assim a pessoa evita o vício e se mantém fora de disputas mesquinhas/ materialistas. 

 O que entregar aos anjos e profetas (Tomé) 
Jesus disse: "Os anjos e os profetas virão a vocês e lhes darão o que vocês (já) têm. E vocês também, dêem-lhes o que vocês têm e digam a si mesmos: 'Quando eles virão e tomarão o que é deles?'" 
 Jesus diz que os anjos e profetas trazem algo para seus interlocutores. Certamente eles trazem o bem, os bons ensinamentos e os ouvintes de Jesus devem ser seus seguidores, os apóstolos, discípulos, enfim, os cristãos. Então é importante todos os cristãos perguntarem-se: Eu fiz o bem? Fiz tudo o que eu pude crendo na lei divina, que é de amor? 

 Jesus abençoa as crianças (Mateus, Marcos, Lucas) 
Apresentaram-lhe crianças para que lhes tocasse, mas os discípulos repreendiam os que as traziam.
 Jesus, porém, vendo isto, indignou-se, e disse-lhes: Deixai vir pequeninos a mim, e não os impeçais; porque deles é o reino de Deus. 
Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como criança, de maneira nenhuma entrará nele. 
E, tomando-as nos seus braços, e impondo-lhes as mãos, os abençoou. 
 Certamente a maior parte da sociedade da época de Jesus tratava as crianças sem carinho e sem entender que elas são muito dependentes dos pais (de quem as criam). Pois a preocupação com a criança indefesa só começou a se propagar no início do século 18, e o entendimento da necessidade infantil por afeto só se propagou com estudiosos como Pestalozzi durante o século 19 na Europa. Jesus já sabia da importância de tratar as crianças com expressões de bons sentimentos, como o carinho, e também sabia como elas estão abertas a aprender não só racionalmente/ cognitivamente, como também são abertas às emoções que os adultos transmitem a elas. Esta receptividade da criança pode ser comparada com uma humildade interior, ou seja, um dos requisitos básicos para seguir a Cristo e a lei divina de amor ao próximo e a Deus. Sem receptividade e sem humildade não se entra no reino dos céus, na verdade, nem se vive em paz na Terra. Ser receptivo não é ser frágil, nem aceitar qualquer ideia apresentada, afinal Jesus também exige de seus discípulos, vigilância e devoção à solidariedade. Ele diz “sejam pacíficos (inofensivos, simples) como a pomba e espertos (prudentes) como a serpente”. 

 Como se tornar crianças do Reino dos Céus (Tomé, Filipe) 
Jesus viu crianças sendo amamentadas e disse aos seus discípulos: 
Estas crianças que estão sendo amamentadas são como aquelas que entram no Reino. Eles lhe disseram: Devemos nós, então, como crianças, entrar no Reino? 
Jesus lhes respondeu: Quando vocês fizerem o(s) dois um, e quando vocês fizerem o interior como o exterior e o exterior como o interior, e o acima como o abaixo, e quando você fizer o macho e a fêmea uma e a mesma, para que o macho não seja macho nem o feminino feminino; e quando você faz olhos no lugar de um olho, e uma mão no lugar de uma mão, e um pé no lugar de um pé, e uma semelhança no lugar de uma semelhança; então você vai adentrar [o Reino]. 
O Senhor fez tudo em um mistério, um batismo e uma crisma e uma eucaristia e uma redenção e uma câmara nupcial. [...] 
ele disse: "Eu vim para fazer as coisas de baixo como as de cima, e as de fora como as de dentro. Eu vim para uni-las no lugar." 
[...] aqui através de tipos [...] e imagens. 
 Tomé mostra que Jesus ensinava sobre a importância de abandonar o conceito de sexualidade: O homem não é melhor do que a mulher, nem vice-versa - pois ambos devem buscar características dos “dois lados” neutralizando a convenção social do que é um homem e do que é uma mulher. O verdadeiro amor, ou seja, o amor de Deus, pouco se importa com convenções terrestres de sexualidade/ “gênero”: Os sentimentos bons e puros estão muito acima de tabus, de interesses em prazeres sensoriais e de vantagens materiais. 
Interessante como isto também está de acordo com Sócrates e Platão: A busca pelo bem e pela verdade é essencialmente mental (de “psiquê”, ou seja, da alma), assim ela é muito mais sublime e mais importante do que os prazeres sensoriais intensos como os que envolvem a sensualidade e suas disputas, impulsos e vícios. 
Reforçando a importância do mental, ou seja, da alma, Jesus disse para seus discípulos tornarem seu exterior como o interior - Isto é ser verdadeiro (de certo modo, como a criança, que é espontânea, sem a mesquinharia, o preconceito e a malícia típicos de adultos), não esconder nada, tornar sua aparência externa harmoniosa com sua alma. Assim, o corpo puro, se torna como a alma, que em sua origem como criação de Deus, é luz pura: A luz no sentido espiritual, além do universo material. Isto é unir o corpo com o espírito, o gnóstico com o ortodoxo, o que pensa no bem da alma e do mundo espiritual e o que pensa no bem do corpo e no bem do mundo material. 

 Mistério da união profana e da união sagrada (Tomé, Filipe) 
Jesus disse: “Miserável é o corpo que depende de um corpo, e miserável é a alma que depende desses dois”. 
As formas de espírito maligno incluem as masculinas e as femininas. Os machos são aqueles que se unem com as almas que habitam uma forma feminina, mas as fêmeas são aqueles que se misturam com aqueles em forma masculina, embora alguém que foi desobediente. E ninguém poderá escapar deles, pois eles o detêm se ele não receber um poder masculino ou um poder feminino, o noivo e a noiva. Um os recebe da câmara nupcial espelhada. Quando as mulheres devassas vêem um homem sentado sozinho, elas saltam sobre ele e brincam com ele e o contaminam. Assim também os homens lascivos, quando vêem uma bela mulher sentada sozinha, a persuadem e a constrangem, querendo contaminá-la. Mas se virem o homem e sua mulher sentados um ao lado do outro, a mulher não pode entrar no homem, nem o homem entrar na mulher. Assim, se a imagem e o anjo estão unidos um ao outro, ninguém pode se aventurar a entrar no homem ou na mulher. 
 Muitos dos textos de Filipe e de Tomé foram feitos em linguagem não clara, parecendo abordar temas místicos e espirituais. 
Aqui Tomé diz que um corpo que depende de outro é miserável e qualquer alma que dependa desses dois corpos também é miserável. 
Filipe diz que espíritos malignos tem gênero, ou seja, um sexo. O espírito é alma, que em prática é mente, portanto, originalmente não possui um corpo físico dotado de órgão genital. Então ele deve indicar que estes são espíritos dependentes dos corpos/ apegados à carne, que buscam seres encarnados com alguma disposição a infidelidade ou ao sexismo. Encontrando tais seres, os espíritos agem sobre eles, pois estão apegados/ viciados às relações sexuais, ou seja aos dois corpos nestas condições. Mas os casais verdadeiramente unidos, ou seja, que se uniram sem interesses materialistas (sejam interesses financeiros, de bens ou interesses sexuais) e que honram um ao outro em amizade, buscando conhecer um ao outro, são invulneráveis a tais espíritos malignos. Estes casais verdadeiros estão mais “próximos ou unidos ao anjo”. 
Enfim, somente no final do texto, Filipe menciona o bem. A partir daí é importante lembrar que textos com tais argumentos só são relevantes se o bem for considerado como prioridade: É muito mais importante estudar o bem e praticá-lo do que teorizar sobre o mal. 

 O valor da alma e do corpo (Tomé, Filipe) 
Jesus disse: "Se a carne veio a existir por causa do espírito, é uma maravilha. Mas se o espírito veio a existir por causa do corpo, é uma maravilha das maravilhas. Na verdade, estou espantado com a forma como esta grande riqueza fez sua casa nesta pobreza." Ninguém vai esconder um grande objeto valioso em algo grande, mas muitas vezes alguém jogou incontáveis milhares em algo que vale um centavo. Compare a alma. É uma coisa preciosa e veio a estar em um corpo desprezível. 
 Estas citações (mais mentalistas/ espiritualistas) de Felipe e Tomé mostram como a alma em sua imortalidade é mais valiosa que o corpo, também colaborando para explicar o porquê da origem humilde de Jesus de Nazaré. O espiritismo reforça bastante este entendimento, pois de acordo com esta filosofia podemos evoluir de maneira praticamente infinita intelectualmente e sentimentalmente através de um número qualquer de encarnações/ reencarnações. A carne, ou seja, o corpo material / terrestre morre dentro de um período de tempo, mas o espírito prossegue em sua jornada em busca do bem maior, do Todo, de Deus. Quando Filipe compara o corpo com algo que vale um centavo e o chama de desprezível, não se trata de desprezar a vida alheia e sim, de não querer mais do que o necessário para si mesmo em vida. O corpo é temporário e não levamos bem material algum com nossa alma que pode e deve transcender para além da vida terrestre. Nós seres humanos, em prática somos essencialmente sentimento e pensamento, ou seja, alma. Temos instintos de sobrevivência e muito mais que isso: Temos capacidade de aprender, de expressarmos com artes, de inventarmos desde ferramentas até histórias, temos pequenos desejos e grandes sonhos ou objetivos, enfim possuímos complexidade em todo nosso âmbito mental (esta complexidade deve fazer parte da riqueza cuja Tomé indica que Jesus mencionou) e essa mente voltada a toda a diversidade na Terra possivelmente é uma parcela de nossa essência (alma), que tem um potencial literalmente transcendente. 

 Verdadeira causa das dissensões (1ª Epístola aos Coríntios) 
A vós, irmãos, não pude falar como homens espirituais, mas como a (homens) carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu vos dei leite a beber e não alimento sólido que ainda não podieis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto houver contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um modo totalmente humano? 
 Importante notar como as epístolas do apóstolo Paulo, escritas alguns anos após a morte de Jesus de Nazaré, trata os cristãos como seres humanos em seu contexto cotidiano de sua época (século 1) e local (Império Romano). 
 Paulo começa este texto explicando que não pode se comunicar aos cristãos como indivíduos espirituais, ou seja, os receptores de sua mensagem ainda não estavam desenvolvidos espiritualmente para receber as mensagens cristãs do apóstolo. Ele continua dizendo que passará seus ensinamentos como se estivesse dando leite às crianças, o que certamente explica porque Jesus deixou tantas mensagens na forma de parábolas. Por variados motivos, o povo chamado de carnal por Paulo, é o povo apegado à vida material: seja apegado às rotinas de trabalho, aos prazeres materiais, a determinadas pessoas e líderes, ao acúmulo de bens e riquezas como dinheiro etc. O mundo material é muito diverso e se apegar a ele, de acordo com Paulo, é a principal causa das contendas, ou seja, das disputas, rivalidades que acabam deixando Deus e sua lei de amor em segundo plano. Estes costumes rudimentares perduraram entre cristãos e pessoas de diversas outras religiões durante séculos depois da morte de Jesus, mais precisamente, ainda perduram até os dias de hoje, neste início de século 21, mas houve um lento e vago progresso: Com a divulgação da filosofia durante o período colonial, com a propagação das ciências e a revolução industrial na era moderna e com a difusão de sociedades mais democratizadas na pós-modernidade, a linguagem das parábolas vai se tornando obsoleta. Tanto que em meados do século 19, o movimento espírita tenta esclarecer várias das passagens de Cristo deixadas na forma de parábolas. 
 A soma (e / ou a intersecção) de todas estas passagens de textos cristãos arcaicos (do século 1 ao século 3) dão uma boa ideía da importância da humildade e da alma em detrimento à sexualidade e à priorização do corpo, dos prazeres do corpo e do acúmulo de bens materiais. Para finalizar, é interessante notar que a filosofia cristã do espiritismo reforça estas noções de maneira breve, se não for estudado os ensinamentos de Sócrates e Platão, pois uma das poucas menções espíritas sobre o assunto se dá no seguinte trecho do livro dos espíritos: 
 693. São contrários à lei da natureza as leis e os costumes humanos que têm por fim ou por efeito criar obstáculos à reprodução? 
 “Tudo o que embaraça a natureza em sua marcha é contrário à lei geral.” 
 a) — Entretanto, há espécies de seres vivos, animais e plantas, cuja reprodução indefinida seria nociva a outras espécies, e da qual o próprio homem acabaria por ser vítima. Pratica ele ato repreensível, impedindo essa reprodução? 
 “Deus concedeu ao homem, sobre todos os seres vivos, um poder de que ele deve usar, sem abusar. Pode, pois, regular a reprodução, de acordo com as necessidades; não deve, porém, opor-lhe obstáculos desnecessariamente. A ação inteligente do homem é um contrapeso que Deus dispôs para restabelecer o equilíbrio entre as forças da natureza, e é ainda isso o que o distingue dos animais, porque ele obra com conhecimento de causa. Mas os próprios animais também concorrem para a existência desse equilíbrio, porquanto o instinto de destruição que lhes foi dado faz com que, provendo à própria conservação, obstem ao desenvolvimento excessivo, quiçá perigoso, das espécies animais e vegetais de que se alimentam.” 
 694. Que se deve pensar dos usos cujo efeito consiste em obstar à reprodução, para satisfação da sensualidade? 
 “Isso mostra uma predominância do corpo sobre a alma e quanto o homem está apegado à matéria.” 
 Por fim, os ensinamentos de Sócrates distribuídos em algumas obras de Platão (como Filebos, Fedro, entre outros registros), ocasionalmente relacionam os prazeres sensoriais com o bem e com o mal, sendo possível chegar a uma classificação aproximada da seguinte maneira: Os prazeres mais suaves (da visão e da audição) são os mais próximos do bem, enquanto os mais ardentes (os sabores mais intensos ou deliciosos para o paladar e os prazeres sexuais para o tato, que são os que podem causar vícios) estão em uma posição oposta aos primeiros. Aqui segue um diagrama com um resumo sobre uma possível interpretação platônica sobre o assunto:

 


A conclusão pode parecer utópica nos dias de hoje: Tanto o cristianismo anterior ao século 19 (período que surge o espiritismo) como o posterior, indica que a sensualidade e a busca por prazer sexual estão mais para o erro (pecado) do que para uma atitude correta. Porém esta conclusão não contradiz a função básica do ato sexual que é a reprodução da espécie... Ela só bate de frente com a atual sociedade materialista que foi normalizando o sexismo, a vaidade e a objetificação do ser humano, principalmente da segunda metade do século 20 até este início de século 21.

domingo, 18 de dezembro de 2022

Capitalismo não combina com Filosofia nem com Espiritualidade

 

A Psique e a Intencionalidade materialista 
 O consumismo e a suposta necessidade da produtividade formam uma cortina de fumaça e tanto no que se refere aos interesses e comportamentos das sociedades humanas - O discurso pró consumo fomenta a compra incessante de produtos e serviços, por isso é obviamente a favor da lucratividade das empresas e portanto a favor do capitalismo com pouca ou nenhuma regulação. Já o discurso pró produtividade pode ser disfarçado com argumentos meritocráticos (de merecimento de recompensas através de muito trabalho) ou até mesmo com argumentos progressistas. Além desses fatos, estes dois discursos são materialistas em todos os sentidos da palavra: Fomentam um estilo de vida materialista e têm suas origens em pressupostos filosóficos materialistas. Esta combinação ideológica/ comportamental de produtividade e consumismo talvez tenha se tornado a maior distração dos séculos na história (a nível coletivo) da civilização humana. 
 O ser humano sempre teve necessidade de acumular bens? Sempre teve desejo de consumir produtos incessantemente? 
 Para responder tais perguntas basta imaginarmos (pode ser superficialmente) como eram as sociedade humanas na idade da pedra lascada, ou paleolítico: Rudimentares, espalhadas, lutando por sobrevivência, sem noção de agricultura, sem indústria alguma e sem dinheiro nem sistema monetário (ainda bem). Assim foi por mais de 200.000 anos de história do homo sapiens (o período fica bem maior se considerarmos as outras espécies de hominídeos). 
 E na idade da pedra polida/ neolítico? Aí surgem trabalhos mais refinados, desde ferramentas até comunidades que podem ser consideradas as primeiras cidades. Possivelmente a agricultura surge no final deste período, pouco antes da transição para era dos metais que ocorreu por volta de 5000 aC - 4000 aC, ainda que em ritmo diferente nas diversas regiões do mundo. 
 E nas eras dos metais? Apesar do surgimento da moeda (dinheiro) como unidade de troca e precificação (monetária) e também do surgimento da escravidão, certamente não existiam os conceitos de produtividade nem o estilo de vida consumista... Talvez os primeiros traços estivessem surgindo em elites interesseiras (sacerdotes, dinastias etc), mas nada além disto, pois não haviam os meios para explorar as massas de maneira rápida e eficaz. O comércio começa a se desenvolver, principalmente de maneira mais rápida através do tráfego naval/ fluvial, o que permite o acesso a produtos de terras diferentes / distantes, ao menos para pequenas parcelas de algumas nações/ culturas. 
 Os períodos posteriores a estes (Antiguidade etc) e anteriores a Era Colonial/ Renascença, já possuem diversas elites enriquecidas, como as que viveram no Império Romano, nas Dinastias chinesas etc. Isso se estendeu através da era medieval até a ascensão do Império Otomano que desafiou aristocracias e burguesias européias ao terminar a conquista do moribundo estado Bizantino em 1453. Nesta mesma época as críticas à religião institucionalizada (a igreja católica até então) ganham força com razão. Porém o domínio otomano das principais rotas comerciais tornam os interesses econômicos das elites das sociedade humanas impossíveis de se esconder. Com o desenvolvimento das embarcações (galeões) e das armas de pólvora (canhões etc), os conflitos e as guerras vão adquirindo motivos cada vez mais econômicos, ou seja, de interesse financeiro e de recursos naturais, mesmo porque a cisão da igreja cristã entre católicos e protestantes facilitou o surgimento de novas elites na Europa, principalmente nas nações protestantes. No final da renascença e no inicio do iluminismo (século 17), as guerras por motivos religiosos vão diminuindo no ocidente, não porque os seres humanos foram ficando piedosos (é claro), mas principalmente porque as motivações foram mudando. E como foram mudando? Subitamente todas elites européias se tornaram ateístas? Foi uma epidemia psicopatológica de desejo por recursos naturais e financeiros? Nada disto. 
 Isto pouco se fala em aulas de história: Foram algumas das mudanças na filosofia que fomentou a mudança na postura das elites. Não, as elites não eram amantes da filosofia como Anaxágoras, Sócrates, Platão ou Aristóteles (os filósofos gregos dos séculos 6, 5 e 4 antes de Cristo). A filosofia após Rene Descartes passa por um embate de materialistas contra mentalistas e obviamente o primeiro grupo vence as disputas durante a era moderna. Embora isto trouxe benefícios como o desenvolvimento de diversas áreas de estudo (que viriam a ser chamadas de ciência só a partir de 1834), também reforçou uma postura niilista nas elites (sejam financeiras ou intelectuais, pois por muito tempo, estas "elites" se tratavam da mesma classe de pessoas). Esta "vitória do materialismo" sobre outros pontos de vista, foi a elevação de uma estreita visão ontológica ao estado de dogma (expliquei sobre ontologia e bases filosóficas das ciências em outros textos). Este pressuposto filosófico se estendeu para além das áreas de estudo, afetando as lideranças da sociedade e seus sistemas, fossem elas monarquias, ou sistemas democráticos que estavam a surgir. 
 Na Europa e na América colonizada por estes, de um modo geral, apenas burgueses, aristocratas e o alto clero tinham acesso ao ensino (como acesso às universidades) até por volta do ano de 1717, quando o rei da Prússia, Fredirch Willhelm I, sancionou a obrigatoriedade dos estudos para crianças de 5 a 12 anos de idade. Pouco depois ele ainda proibiu empregar tais crianças no mercado de trabalho até que terminassem os estudos, mas esta "universalização dos estudos" na Europa ficou restrita apenas aos povos germânicos por quase um século. Os demais países começam a garantir o acesso gratuito das massas aos estudos (o povo, ou seja, a maioria pobre das nações), somente após o término da revolução francesa, acesso esse trabalhado e fomentado por raros pensadores como Johann Heinrich Pestalozzi que começou a publicar suas obras em 1797. 
 Seria muita ingenuidade pensar que os filósofos europeus (Voltaire, Locke, Newton, entre tantos outros) que montaram as bases da ciência tradicional entre os anos de 1684 e 1777 priorizassem valores coletivos como equidade e justiça, ou posturas individuais como a humildade e a solidariedade nas sociedades de sua época... Levantar a história de cada um dos filósofos mais influentes do ocidente certamente é um trabalho árduo, mas não impossível (eu particularmente não pretendo mais mergulhar a fundo em artigos sobre história, pois já tive minha overdose). O pouco que li sobre grandes nomes foi o suficiente para constatar que todos pertenciam a uma classe média alta ou alta e que quando não defendiam a meritocracia, defendiam outras ideologias de valor dúbio, como por exemplo, o racionalismo mecanicista e o empirismo como uma doutrina filosófica que se projeta para além do método de investigação e construção de conhecimento (epistemologia). 
 Tais filósofos (pós Descartes e anteriores à Revolução Francesa) tidos como pais da ciência fizeram algumas críticas aos supostos males da sociedade de seu tempo, mas geralmente de modo pouco assertivo ou até mesmo pouco útil: Faziam críticas a determinados trechos da bíblia pouco relevantes (à trindade, ao batismo de Jesus, por exemplo, ao invés de criticarem os indivíduos que fazem uso da religião como ferramenta de enriquecimento e de poder), podiam até defender a mistura de raças, mas geralmente se omitiam sobre a escravidão e a comercialização de povos da África subsaariana, uns defendiam uma maior igualdade de gênero, mas permitindo escravidão infantil etc etc... É claro, os grupos "sociais" (elitizados) com quais eles conviviam também deveriam exercer alguma influência neles, porém ao meu ver, os nobres, burgueses, sacerdotes e militares que entraram no campo da filosofia do período iluminista eram formadores de opinião (como existem formadores de opinião hoje, no século 21), e portanto, exerciam mais influência do que eram influenciados e assim deveriam ter mais responsabilidades. Não estou remoendo o passado aqui, e sim, apenas levantando fatos dos quais pouco se falam, seja na história ensinadas no ensino médio, seja na academia. Pois desde o ensino médio ao curso superior, vejo narrativas extremamente ingênuas da história e do sistema sócio econômico que predomina no ocidente desde a era moderna: São professores que ignoram fatos de suma importância, preferindo uma narrativa reducionista (que eles devem considerar um resumo aceitável) que diminui a história da ciência e da filosofia, ignora a história dos filósofos e descrevem o capitalismo praticamente como se fosse uma razoável força da natureza, sem interesses de determinados grupos de pessoas por trás. Portanto faço esse brevíssimo levantamento para colocar a importância destes personagens históricos e suas obras em seu devido lugar, tirando-as da posição dogmática de verdades superiores, quase dignas de idolatria! 
 Esta é a sociedade ocidental (da Europa e da América colonizada) quando surgem as democracias. Os sistemas de governo democráticos (ou seja, que dão poder ao povo, ao menos, supostamente) surgiram em um cenário marcado por elites manipuladoras que ditavam o que era verdade, seja na ciência, na filosofia bastante distanciada dos autores socráticos e platônicos ou em outras áreas como economia e governo. A tal elite intelectual que formou as bases da ciência tradicional e dos sistemas social e econômico nem conseguiu se livrar das piores características da religião, que continuou cheia de fundamentalistas e manipuladores das massas. Isto porque apesar de algumas conquistas, o pensamento difundido foi predominantemente (e meramente) racionalista, se mantendo indiferente a diversas questões essenciais do ser humano. Os sistemas democráticos por exemplo (o presidencialismo e o parlamentarismo) foram instaurados nas nações já com uma burguesia bem enraizada, cheia de poder e influência na sociedade. A filosofia que formou as bases da ciência criticou mais os pontos insignificantes das religiões do que os pontos mais nocivos à humanidade, como os dogmas, a hierarquização (autoritária) e a manipulação dos fiéis para que poucos líderes adquirissem riqueza e/ ou poder. 
 Obviamente os estudos científicos permitiram o desenvolvimento de tecnologias e o surgimento da indústria (isto é bom), mas desde sua origem na elite intelectual da era moderna, a filosofia e a ciência, deixaram um espaço considerável para se fazer o mal, ou seja, favorecer mais as pequenas elites, prejudicando mais as massas. 
 É neste contexto após o iluminismo, que acaba pouco antes da partilha (invasão) da África (1885 a 1914) e das duas guerras mundiais (1914 a 1918 e 1939 a 1945), que surgem as doutrinas da produtividade e do consumismo. Oras, os sociólogos sabem que a era moderna e seu discurso de que o homem é o centro do universo (que supostamente podia descobrir e fazer tudo) caem por terra após estes eventos fomentados por doutrinas racistas, violentas, falaciosas e opressoras como o darwinismo social, o fascismo e o nazismo. [*] 
 Enfim, foi durante as duas últimas duas décadas da partilha da África pelas "potências" européias (um punhado de governantes e de empresários enriquecidos) que finalmente surgiu um questionamento embasado (a fenomenologia, um movimento intelectual filosófico/ científico surgido na 1ª década do século 20) sobre os pressupostos filosóficos que serviam de base da ciência tradicional newtoniana, que permanecia intocável desde o século 18. Assim, a fenomenologia refuta os pressupostos da ciência tradicional e passa a trabalhar a questão da intencionalidade. Não vou detalhar mais a fenomenologia, pois já apresentei um resumo em outro texto sobre este movimento que lentamente ganhou força, mas não o suficiente para renovar a ciência. De certo modo, a dominância do arcaico modelo atomista/ materialista nas ciências resistiu até mesmo às propostas de Einstein (1916) e de Bertalanffy (1927). 

 "Surgem" as doutrinas da produtividade e do consumismo 
 Após o fim da 2ª guerra e da era moderna então surgiu um vácuo de doutrinas dominantes, ao menos no ocidente. É neste período de desenvolvimento industrial que são colocadas em prática as doutrinas da produtividade e do consumismo. E quem colocou em prática? As massas empobrecidas? Obviamente não. Quem propagou tais doutrinas foram novamente as elites, desta vez nem tão intelectuais assim, já que não havia mais necessidade de tanto intelectualismo: As mídias foram ampliadas pela industrialização, dando origem aos meios de comunicação em massa logo no período entre guerras. 
 Resumidamente, o discurso pró produtividade começa com Taylor e Ford (posso estar esquecendo de outros nomes), que tornaram-se modelos para o mundo empresarial por décadas, ao priorizar a qualidade e a velocidade da linha de produção da indústria. 
 Obviamente estes "gênios" praticamente esqueceram-se dos fatores humanos (ou não se importaram), como pressão no ambiente de trabalho e de variadas dificuldades sociais e econômicas que os trabalhadores enfrentavam em suas vidas profissionais. 
 Como eu não estudarei mais história, não trarei nomes de indivíduos poderosos específicos que fomentaram o consumismo e o acúmulo de bens. Basta entender que isto foi fomentado através da televisão, rádio, revistas e jornais, diretamente e indiretamente, em muitos dos filmes, séries, programas de auditório, matérias supostamente jornalísticas ou de entretenimento e principalmente em propagandas (geralmente das maiores empresas de qualquer segmento), desde o fim dos anos 50 até meados dos anos 90. Sim, muita "água rolou" neste tempo, como por exemplo, uma certa oficialização e propagação do liberalismo "renovado", ou seja, do neoliberalismo (direita), contra todos movimentos a favor da sociedade, da equidade e da infraestrutura dos países (esquerda). Em suma a nova direita venceu a esquerda na guerra fria, penetrando até mesmo nações que não estavam envolvidas diretamente em tal conflito. 
 Após os anos 90, com a proliferação da internet e das mídias digitais as falácias a favor de multimilionários e contra a maioria empobrecida das nações se intensificou: o conceito de pós verdade onde as narrativas sobrepõem os fatos, foi levado às últimas consequências, espalhando mentiras (fake news) surreais... Isto sem contar os algoritmos criados pelas empresas de mídia digital que fomentam "bolhas" de segmentação social ("panelinhas", grupos rivais religiosos, políticos etc). Mas a coisa não para por aí: O discurso meritocrata sobrevive, incitando a auto exploração ao lado da anulação de direitos dos trabalhadores em diversas sociedades - marcas registradas do neoliberalismo, ou seja, do capitalismo mais desregulado. 
 Até aqui levantei uma série de problemas, mas não mostrei argumentos contrários nem propostas alternativas... Como ajudar as massas de pessoas atarefadas pelo sistema capitalista? Recomendar que façam suas escolha seguindo a fé ou seu coração lhes parecerá mera ingenuidade, pois os discursos da produtividade e/ou da competitividade convenceram-os pelo medo ou pela fascinação. 
 O discurso da produtividade em geral alega uma suposta necessidade no trabalho submisso e/ou exagerado/ exaustivo. Utiliza/ causa uma dessensibilização nas pessoas, fomentando um sutil mas significante desprezo pela importância dos sentimentos, do sentir e das expressões... 

 Contra a falácia da produtividade e do consumismo 
 Então, uma possível resposta é contra-atacar o discurso, explicando/ mostrando a importância do sentimento e da condição mental. É preciso levantar a questão da intenção (como a fenomenologia fez ao trazer a intencionalidade) e dos motivos que levam as pessoas fazerem escolhas, mas não basta explicar friamente, pois estes discursos capitalistas são notoriamente frios (talvez, em alguns pontos, ao priorizar o ganho pessoal sobre o cuidar do próximo e do convívio pacífico, os discursos sejam perversos mesmo). 
 Tanto a psicologia, como a psiquiatria e até mesmo a religião indicam que o sentimento é interno da mente/ alma de cada indivíduo e não deve se adaptar à uma cobrança externa indiferente ao seu bem-estar. 
 A importância desse fator interno é tanta que ele determina as emoções e o sentir. Em estudos psicológicos, como os da logoterapia por exemplo, ele liga-se às motivações e às crenças que podem ser muito profundas. Este(s) sentimento(s) determinam um sentido de vida da pessoa. Este sentido resumidamente é uma busca por algo além de si: a busca por um grande amor em Vida, uma fé ou crença em algo maior, como o Criador, o Todo e/ ou Deus ou a busca pela realização de um objetivo, um projeto ou missão.
 Já a religião cristã, em sua origem, é praticamente contrária a estas doutrinas da produtividade e do acúmulo e consumo de bens, pois indica a importância do amor ao próximo e à tudo (Deus e sua criação). Várias passagens desde Isaias, até os 4 evangelhos sobre a vida de Jesus e os atos dos apóstolos indicam isto: 
 
..."Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. 
 Jesus disse: "É impossível que um homem (simultaneamente) monte dois cavalos ou estique dois arcos. Nenhum homem bebe vinho velho e imediatamente deseja beber vinho novo. Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom (riqueza, luxo). Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? 
 Olhai para as aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas? 
 E qual de vós poderá, com todos os seus cuidados, acrescentar um côvado à sua estatura? E, quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; 
 Dá a qualquer que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir. 
 E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também. Se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. 
 E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo. 
 E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto." 
 E pediu-lhe um da multidão: Mestre, dize a meus irmãos que repartam comigo a herança. Mas ele lhe disse: "Ó homem, quem me fez um divisor?" Quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós? 
 Voltou-se para os discípulos e disse-lhes: "Não sou um divisor, eu sou?" Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui. E propôs-lhe uma parábola, dizendo: "Havia um homem rico que tinha muito dinheiro e não lhe faltava nada. Ele disse: Eu colocarei meu dinheiro em uso para que eu possa semear, plantar, colher e encher meu armazém com a produção. Seus campos produziram com abundância; E pensava consigo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. 
 E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Tais eram suas intenções, mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? naquela mesma noite ele morreu. 
 Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus." 
 Um homem de posição se aproximou de Jesus e lhe perguntou: "Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna? " 
 Respondeu-lhe Jesus: "Por que você me pergunta sobre o que é bom? Há somente um que é bom (Deus). Se você quer entrar na vida, obedeça aos mandamentos". 
 "Quais? ", perguntou ele. 
 Jesus respondeu: " ‘Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe’ e ‘amarás o teu próximo como a ti mesmo’". 
 Disse-lhe o jovem: "A tudo isso tenho obedecido. O que me falta ainda? " 
 Jesus respondeu: "Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me". Ouvindo isso, o jovem afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas. 
 Então Jesus disse aos discípulos: "Digo-lhes a verdade: Dificilmente um rico entrará no Reino dos céus. E lhes digo ainda: é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus". 
 Ora, havia um homem rico, e vestia-se de púrpura e de linho finíssimo, e vivia todos os dias regalada e esplendidamente. Havia também um certo mendigo, chamado Lázaro, que jazia cheio de chagas à porta daquele; E desejava alimentar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e os próprios cães vinham lamber-lhe as chagas. 
 Aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. 
 E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado. E, além disso, está posto um grande abismo entre nós e vós, de sorte que os que quisessem passar daqui para vós não poderiam, nem tampouco os de lá passar para cá. 
 E disse ele: Rogo-te, pois, ó pai, que o mandes à casa de meu pai, Pois tenho cinco irmãos; para que lhes dê testemunho, a fim de que não venham também para este lugar de tormento. 
 Disse-lhe Abraão: Têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. 
 E disse ele: Não, pai Abraão; mas, se algum dentre os mortos fosse ter com eles, arrepender-se-iam. 
 Porém, Abraão lhe disse: Se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que algum dos mortos ressuscite. 

 A produtividade em si não deveria fazer mal contanto que respeitasse as necessidades básicas das pessoas que vão desde as fisiológicas como as sociais, de lazer, condições dignas de transporte, moradia etc. Obviamente para manter a saúde mental das pessoas e permitir a prática de suas respectivas espiritualidades, o consumo e aquisição de bens na sociedade deveriam ser moderados e certamente regulados para evitar injustiças. 
 Nota-se então que os discursos que priorizam a produtividade, o consumo incessante e o acúmulo de bens, são contrários ao sentido de vida, que se baseia num sentimento esperançoso de amor à alguém ou a uma tarefa/ missão/ fé. Tais discursos causam o vazio existencial bem como dificultam relacionamentos empurrando as pessoas para um vazio afetivo, podendo gerar depressão, stress e ansiedade. Além disto tudo, são movimentos contrários à doutrina de amor ensinada no cristianismo - São discursos de esvaziamento sentimental e emocional que pressionam as pessoas seja fomentando medo ou desejos insaciáveis como a ganância entre outros comportamentos nocivos... 

domingo, 27 de novembro de 2022

O Bem não é só espiritual

 

A espiritualidade não é separável do Bem. O bem aqui refere-se a um conjunto de sentimentos, virtudes e práticas: receptividade, veracidade, amor, amizade, esperança, solidariedade... 
O bem existe, em cada pessoa, em níveis maiores ou menores. E pode ser expresso, pensado e praticado. A expressão é sua exposição, o pensar é sua renovação e o praticar é laborar/ trabalhar e cuidar. 
O bem então deve orientar todos saberes. A religião, a filosofia e a ciência... 

A religião, ou mais atualmente a espiritualidade, deveria ser a expressão do bem que é aproximadamente os sentimentos citados no início do texto. Uma forma de expressar tais sentimentos é amizade. É claro que não se trata de uma amizade superficial ou interesseira, pois a espiritualidade e a religiosidade lidam com o sentir e o sentimento, de maneira profunda e/ ou ampla. 
Esta amizade espiritualizada é uma amizade com o Todo, com a criação... No cristianismo é chamada de amor a Deus e ao próximo como a si mesmo. Ou seja, a verdadeira religião ou verdadeira espiritualidade deveria fomentar a expressão de bons sentimentos. Sendo assim deveria propagar: 
receptividade e criatividade ao invés de impor visões de mundo; 
 amizade e devoção ao bem ao invés de orgulho, clubismo e rivalidade; 
tolerância, misericórdia e esperança ao invés de intolerância, paranoia e ódio; 

A filosofia por sua vez trata da amizade pelo saber, que não é apenas o "amor ao saber" que poderia significar o "gostar de estudar", mas também abrange uma postura de estudar para gostar, ou seja, para propagar o amor e o bem. 
Esta postura de propagar o bem, dá a função à filosofia de difundir a equidade e a liberdade de pensamento. Trata-se de dar chance a todos estudarem o que quiserem e evitar que determinados pensamentos individuais (ideologias excludentes, ou eugenistas, violentas etc) se imponham à sociedade de maneira opressiva. 
O saber filosófico também deve fomentar o progresso, repensando as bases e os métodos de construção de conhecimento.
Por fim a filosofia deve propagar o zelo e atenção ao pensamento. Isto não é apenas uma auto-consciência, mas também o cuidado para que uma forma de pensamento/ ideologia não se espalhe de maneira mentirosa como as manipulações e a boataria (fake news etc). 

Finalmente a ciência deveria trabalhar estudando e resolvendo as questões da vida terrena: A saúde dos seres vivos e todas suas áreas correlacionadas (zoologia, botânica, genética, bioquímica, medicina, fisioterapia, nutrição etc). Deveria se preocupar com o bem-estar dos seres vivos, com o meio-ambiente, desde a utilização de seus recursos até sua preservação (o que abrange as áreas da astronomia, astrofísica, física, geofísica, geologia, mineralogia, geoquímica etc). Por fim deveria estudar e cuidar da gestão da natureza e da civilização com suas relações sociais (através das áreas da sociologia, economia, política, gestão ambiental, agronomia etc). 
Obviamente, assim como existem fenômenos que devem ser estudados por mais de uma área da ciência (multidisicplinar etc), também haverão alguns temas "transitando" entre os saberes científicos/ filosóficos/ religiosos. O que mostra a importância de se pautar pelo bem em todos os saberes.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

O que é superior?

 

Os termos super, ultra e hiper se referem a coisas que supassam, transcendem, vão além. Que coisas? Vão além de que? Qualquer coisa que vá além do que podemos imaginar, entender ou sentir é um exemplo. 
 Aqui vou recontar de um modo diferente as experiências de êxtase que tive. Sem ordem cronológica do ponto de vista deste terráqueozinho, mesmo porque ordem cronológica está submetido à curvatura-espaço tempo e o que eu vi e senti possivelmente está além das 3 dimensões que vivemos. Mas, antes vou citar o trecho do evangelho de João, onde Jesus ensina a um judeu proeminente sobre como ocorre a condenação da alma (quando a hora chegar, certamente com a morte do corpo) 
 "Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. (...) E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas." 
 Alma ou espírito estão muito mais para sentimento, pensamento e lembranças - não há cérebro nem orgãos sensoriais como olhos ou ouvidos, nem boca para falar ou calar porque não há corpo. 
 Os espíritos mais próximos de Deus são puros, certamente o que as religiões cristãs chamam de anjos. Eles estão relacionados de alguma forma com a luz, por isso não se trata só de uma maneira de Jesus falar. Os relatos das pessoas que viram "bons espíritos, anjos ou uma das moradas de Cristo" geralmente envolvem uma descrição sobre um lugar luminoso, uma luz etc (os meus relatos inclusos). 
 Aqui seguem as definições mais aceitas sobre a luz hoje em nossa limitada visão de habitantes deste pífio planeta na vastidão infinita do espaço é: A luz é um tipo de onda eletromagnética visível, formada pela propagação em conjunto de um campo elétrico e um magnético. A velocidade da luz é absoluta e tem sempre o mesmo valor, não importa se a medimos em um laboratório fixo na Terra ou em uma nave espacial viajando a grandes velocidades. 
 Convenhamos, se houve um ser humano que entendeu mais de física do que a maioria, foi Albert Einstein. Sua teoria da relatividade foi entendida por uma maioria ou por um grupo de pensadores mais influentes, como se fosse uma teoria apenas do campo (disciplina) da física. Porém, ao propor esta teoria que indica que a curvatura espaço-tempo é relativa e a velocidade da luz é absoluta, Einstein praticamente deu um modelo ontológico à humanidade, ou seja, uma área da filosofia que estuda a existência e foi debatida por décadas como base teórica (filosófica) para as ciências. Trata-se então, em prática, de um novo modelo científico que pode e deve substituir o velho modelo iluminista e antropocêntrico de pensadores dos século 17 e 18, como Isaac Newton etc. Não à toa, uma década após Albert Einstein na 2ª década do século 20, o biólogo húngaro, Ludwig von Bertalanffy, chegou à uma conclusão parecida com a de Einstein, ao perceber que campos de estudos biológicos como a medicina, estavam cada vez mais segmentados (separados), dificultando o entendimento do corpo humano por exemplo. 
 Oras, então toda a ciência anterior a esses dois caras foi imprestável? O que isso tem a ver com a luz, com o êxtase espiritual ou com Deus? 
 Primeiramente, a ciência anterior à Einstein e Bertalanffy não foi imprestável. Ela descobriu muitas coisas dentro das limitações de sua base teórica e de seus métodos de investigação. Em segundo lugar, tem tudo a ver com a luz, ao menos para quem crê que só existe luz dentro das 3 dimensões onde existimos... Inserida na curvatura espaço-tempo, se é que é válido expressar assim. Porém existem dúvidas sobre grandezas como o espaço-tempo, a luz e principalmente, sua velocidade, assim como existem dúvidas sobre um monte de outros assuntos da física, a "nível macro cósmico e microscópico" (não gosto destes últimos termos, mas entendo pouco de física, e esta disciplina não é o foco aqui). O "X" da questão é: A mente existe e não conseguiram evidências que ela seja apenas efeitos eletroquímicos nem nada detectável por nossos 5 sentidos humanos. 
 Então a mente, ou é algo insubstancial, inexplicável como algo completamente além de nossa compreensão, ou é algo muito sutil, que transcende o corpo de alguma forma. É com ela que alcançamos "a luz que existe além do espaço-tempo". Porém a mente não é só a parte racional, vinculada somente ao cérebro - somos sentimentos, vinculados ao coração, como é possível notar em alguns efeitos psicossomáticos. E sentimentos são algo de grande importância nestas experiências transcendentais. 
 Oras, o Criador fez todo universo num movimento de retração ou de expansão? De ódio ou de esperança? Obviamente, de expansão, de esperança. 
 Quando eu tive minha segunda experiência de êxtase o que eu fiz foi implorar por esperança. 
 Quando eu tive a primeira eu simplesmente sabia que o bem era mais importante do que TODOS os outros assuntos dos seres humanos na Terra e além. Não, eu não sabia se existia alma, ou espírito, nem era religioso, pois em prática eu era ateu, diferente de quando eu tive a segunda experiência, quando eu já sabia da existência da alma, dos espíritos e de Deus. Ambas experiências estavam notoriamente além da minha capacidade de imaginação e eram muito mais reais e nítidas do que as alucinações que eu tive em estados febris (patológicos, como gripes fortes etc) de minha infância. Isto eu explico a seguir: 
 Na primeira experiência eu vi seres de luz, que se comunicavam aproximando-se uns dos outros. Ao ver, eu simplesmente soube que eles se comunicavam e isto é difícil de explicar do ponto de vista pifiamente terráqueo. Eles existiam MAIS do que nós, isto é uma maneira mais precisa de explicar. Por isso a certeza* (*palavra insuficiente) para (tentar) explicar o que eu vi/ percebi. Pareciam grandes quantidades de informação passadas com a mera aproximação e não havia nada a esconder e era tudo muito pacífico na primeira experiência. 
 Na segunda experiência eu vi inúmeras vidas inteiras, como se cada vida fosse um átomo ou partícula daquela luz. E "a luz" amava profundamente, eu, e tudo além. Eu reconheci como algo que senti da minha mãe em algum momento de minha existência e esta foi uma das razões que reconheci que era amor muito puro. E era mais real do que esta minha vida terráquea, esta é a segunda razão pela qual entendi que o amor transcende esta existência. O detalhe é que ao fim da experiência, além de me sentir restaurado das várias noites as quais eu tinha dormido menos de 3 horas cada, eu senti algo "ruim": Mas esse algo ruim era meu - eram minhas impurezas (vaidades, egoísmos etc) que me fizeram encolher-me mentalmente de vergonha diante "a luz" tão pura (imagino Deus... em minha pequenez não saberia dizer mais sobre) por uma fração minúscula de tempo/ segundo. 
 A mente existe e se não for a alma, é ao menos, parte desta. A partir daí, é interessante esforçarmos para abandonarmos o conceito simplório de existir e não existir (só existe ou não existe), mesmo porque discutir o não existir é bem... digno de inexistir. Deveria inexistir tal discussão. Interessante é falar e almejar o que existe e o que existe mais, porque coisas devem existir mais e menos umas em relação às outras. E embora pareça que existam mais coisas ruins do que boas, isto é só nossa percepção num planetinha possivelmente insiginificante no infinito. Seja o infinito 3D, 4D, 5D ou mais"D"... Então, pelo que percebi em minhas experiências, das quais chamo de êxtase, o que existe mais é o que faz bem a TODOS. É humildade (que é básico), receptividade (que rege relações), atenção (que rege veracidade e busca pela verdade), paciência (que rege superação), devoção (que rege amizade/ honra), força de vontade (que rege impulsos e julgamento individual) e piedade (que rege solidariedade)... É também a busca pela verdade com estudo e bom-senso... é tudo isto que nos leva a luz que Jesus diz à Nicodemos citada no texto do apóstolo João. É o que leva ao divino, ao Criador, ao Todo. 
 Imagine Deus (ou que seja alguém "mais próximo de nós", e assim, mais fácil: Os anjos ou arcanjos/ os espíritos muito elevados). Não se trata de um cara meramente bacaninha. Não se trata de um gênio intelectual, nem de alguém que ama demais algumas poucas pessoas, muito menos de alguém severo ou punidor (isto deveria ser óbvio). 
 Deus (ou o mais puro dos anjos) trata-se da mente com o maior conhecimento unido a um amor que transcende tudo o que existe as 3 dimensões (ambos atributos transcendem). Ultrapassam praticamente tudo que existiu na Terra e certamente também em outros planetas que tenham vida. Que estuda, entende e com humildade, busca entender mais. Quem é receptivo, ama e com humildade, espera. Espera quem? Espera a todos, mas não de forma inativa e sim criando com amor, porque sua esperança é o que rege ciclos de criação e destruição cósmica. 
 O superior então criou tudo, certamente por esperança infinita. Superior então é o que serve ao menor, ao inferior, com receptividade serve às formas de vida, incluindo nós seres-humanos que tanto erramos ao desprezar diversos aspectos da obra do Criador. 
 A essência do superior é o amor, por isso Cristo propagou a lei de amor: Amar a Deus/ o Todo e amar o próximo como a si mesmo. Este amor que parece tão difícil de por em prática certamente contém dois elementos que eu já citei neste e em outros textos meus: A humildade interna (que por enquanto chamo de receptividade) e a esperança. Por isso todo discurso, argumento e ideologia contra a humildade e contra a esperança são nocivos ou imprestáveis. Por mais difícil que as coisas sejam, há esperança, pois nada sabemos sobre as vastas possibilidades de futuro em nosso universo 3D inserido na curvatura espaço-tempo e sabemos menos ainda das possibilidades que estão além desta tal curvatura que molda nossa realidade.

sábado, 15 de outubro de 2022

Tomé, Filipe e o cristianismo - Convergindo textos religiosos com base no Bem

 

Eu acho interessante a proposta de buscar as semelhanças entre as espiritualidades e o que há em comum entre as religiões. Não para afirmar qual é mais correta, mas sim para buscar o que é bom para todos. Obviamente isto pode parecer utópico, subjetivo demais, delirante e/ou impossível, mas para evitar tentativas de controle sobre comunidade e movimentos de cisão e divisão entre as pessoas, basta considerarmos a importância de algumas coisas básicas: Humildade (ou presunção da ignorância), amor e esperança. Resumidamente empenhar-se em viver tais preceitos deve nos servir de guia para buscar a união benéfica das variadas espiritualidades. 
Neste texto traço as possíveis relações que aproximam os evangelhos de Filipe dos demais ensinamentos cristãos - principalmente dos 4 evangelhos das igrejas cristãs (João, Lucas, Marcos e Mateus) e da filosofia cristã espírita. Eu pensei em analisar e descrever algum conteúdo do evangelho de Tomé também, mas o texto ficaria muito extenso. 
Há poucos meses li os evangelhos de Tomé e de Filipe, chamados de apócrifos por aí a fora. Ao buscar informações sobre tais evangelhos se encontram variadas opiniões sobre suas origens, validade etc etc. As opiniões podem se basear tanto em fatores físicos que tentam traçar a data em que tais textos foram escritos e quem os escreveu, como em fatores de interpretação do conteúdo. Eu considero este último fator (conteúdo) mais importante, mas obviamente não concordo com muitas das interpretações sobre tais textos. Resumidamente chamarei de duas linhas de pensamento, estas opiniões das quais eu tenho algumas críticas: A primeira eu chamaria de materialista (ou talvez de sensacionalista): É a redução de Jesus de Nazaré a uma pessoa comum, que tinha algumas atitudes mais próximas das pessoas comuns, não no sentido de sensibilizar-se como Marcos mostra em seus textos. A segunda é a linha esotérica (talvez ocultista), onde místicos (sejam teólogos, sacerdotes etc) realmente se aprofundam no misticismo priorizando tal tipo de leitura e interpretação dos textos. 
Discutirei basicamente a visão materialista do evangelho de Filipe (vale citar que leitores mais céticos acham que estes textos foram escritos por cristãos um ou dois séculos após a morte do apóstolo Filipe): 
Os defensores desta interpretação alegam que Jesus não foi crucificado nem morto de qualquer maneira por seus opositores (nem por fariseus nem por Poncio Pilatus nem por escribas etc). Também dizem que se ele beijava Maria Magdalena na boca como o texto indica, era porque a amava como mulher (no sentido vulgar / popular). É desta linha de pensamento que surgem os argumentos que ele teria formado família (filhos com Magdalena) e fugido para a "França", porém isto não está escrito no evangelho de Filipe (talvez esteja em outro que eu não li, como o evangelho atribuído a Magdalena). Vale lembrar que a França só viria a se formar após o Reino dos Francos, séculos depois do período em que viveu Jesus de Nazaré e seus apóstolos, então o correto seria afirmar que ele fugiu para a Gália, certamente tomada pelo Império Romano durante o século 1. 
Contra esta interpretação devo perguntar quando o texto de Felipe (ou de seja lá quem for que escreveu este evangelho) menciona que não se morre para ressuscitar, ele está automaticamente negando que Jesus foi morto por seus opositores? 
E se os textos deste evangelho não mencionassem fato algum sobre a morte de Jesus, isto significaria que Jesus escapou de seus perseguidores? Não, na verdade o texto apenas poderia deixar tal questão em aberto. 
A questão sobre este mesmo tema é: 
O termo ressurreição surge neste texto possivelmente em dois sentidos, como nos evangelhos dos 4 apóstolos aceitos nas religiões cristãs: Ele surge expressando o trazer de volta a vida (como na ressurreição de Lázaro, do filho da viúva de Naim e na do próprio Jesus) e expressando o "vir ao mundo dos vivos" / "erguer-se entre os vivos, ou seja, na vida (material)". Esta última expressão está mais de acordo com as explicações e interpretações espíritas do que com a ideia de que Jesus teria escapado dos fariseus e de outros opositores (coisa que o evangelho de Filipe não afirma em momento algum). O evangelho de Filipe então está dizendo que Jesus encarnou na Terra para realizar o que realizou (as curas, as pregações que indicam o caminho da salvação etc) - está afirmando que ele não era um mero boato, nem um farsante, nem algum tipo de truque ou um espírito desencarnado. 
Encerrando este tema sobre se Jesus de Nazaré morreu ou não por causa de seus perseguidores (fariseus etc), este parágrafo de Filipe está de acordo com os demais apóstolos: "Cristo veio para resgatar alguns, para salvar outros, para redimir outros. Ele resgatou aqueles que eram estranhos e os fez seus. E ele separou os seus, aqueles a quem deu como penhor de acordo com o seu plano. Não foi apenas quando ele apareceu que ele voluntariamente deu sua vida, mas ele voluntariamente deu sua vida desde o dia em que o mundo veio a existir."
Ou seja, a morte de Jesus na Terra é a segunda vez que ele se entrega (ou se "sacrifica") pelo bem.

 O trecho sobre Maria Magdalena, cujo parece faltar algumas palavras nos dois primeiros parágrafos, mostra os demais discípulos (o texto não cita se são todos ou alguns) indignados pelo fato de Jesus mostrar mais amor por Maria Magdalena do que por eles. Eis o terceiro parágrafo: Eles lhe disseram: "Por que você a ama mais do que todos nós?" O Salvador respondeu e disse-lhes: "Por que eu não os amo como ela? Quando um cego e um que vê estão juntos na escuridão, eles não são diferentes um do outro. Quando a luz vem, então aquele que vê, verá a luz, e o cego ficará nas trevas”
É claro, que cada pessoa pode interpretar a resposta de Jesus de um jeito particular, mas para que não vire uma discussão de meras opiniões, dando abertura para argumentos ateístas, charlatães ou até mesmo contrários aos ensinamentos do cristianismo, é importante trazer todos os diálogos de Jesus para o centro de seus ensinamentos. E o centro dos ensinamentos de Cristo é o amor a Deus e ao próximo (a todos seres humanos, pois todos são obras do Criador). Assim, é mais fácil entender que Jesus se aproximava de Maria Magdalena para salvá-la. Pois assim quando "viesse a luz", ao amar seu parceiro Jesus, Maria Magdalena já não estaria mais "cega" (não estaria mais na escuridão, termos para designar pecado, erro). Esta interpretação complementaria a passagem de João Evangelista, o único apóstolo a mencionar que quando Jesus, após sua morte, apareceu diante Magdalena, a chamou pelo nome. Este é o momento em que a "luz vem" para Maria Magdalena e os demais apóstolos têm dificuldade para crer que ela tenha visto Jesus Cristo. 
Se o evangelho de Filipe complementa o de João desta forma, então ele não pode nem mesmo insinuar que Jesus (fisicamente/ materialmente) não tenha morrido. 
Alguns podem entender a morte de Jesus crucificado como uma invenção por "X" motivos. Aqui eu mostro que o evangelho de Filipe nada diz a respeito sobre o destino final do corpo de Jesus ou de como foi sua morte, ou passagem para outra existência. 
Muitos dos textos deste evangelho tentam descrever como Jesus surgiu na Terra, porém com uma aparente limitação de linguagem, certamente como Kardec menciona em seus escritos durante o século 19: Os judeus e povos relacionados a estes na época em que Jesus viveu na Terra (século 1) não tinham uma palavra para designar a encarnação nem a reencarnação. Assim, Filipe como alguns outros profetas judeus e apóstolos de Cristo, usavam o termo "ressurreição" tanto para falar da reencarnação como para falar de ressuscitar um morto (como mencionei anteriormente sobre Lázaro e a viúva de Naim). 
Neste ponto, muitos espíritas poderiam discordar, apelando ao argumento que nenhum tipo de ressurreição existe. Eu porém, discordo deste extremismo, pois não achei tal afirmação nos textos espíritas de Kardec. Kardec fala sim que a palavra ressurreição é usada para falar da reencarnação e dá os exemplos em quais textos da bíblia eles são utilizados: Em "Jó" (escrito Job em algumas versões) e nas passagens que falam de João Batista, como sendo a reencarnação do profeta Elias. Além disto, espíritas poderiam afirmar que trazer o corpo de volta a vida não é uma ressurreição porque o períspirito permite que um médium possa realizar reanimação do corpo se este morreu dentro de um prazo aproximado de até 3 dias... Não me lembro qual espírita afirmou isto, mas não importa, aqui o assunto vira um tecnicismo que se afasta muito do essencial do cristianismo, que é a lei de amor. É muito fútil e até nocivo discutir se este possível fenômeno deve ser chamado de reanimação ou ressurreição. São estes tipos de discussão que geram cisão, clubismo e fomentam rivalidades (entre outros possíveis sentimentos ruins) baseadas em orgulhos patéticos. 
Por falar em como Jesus surgiu na Terra, o evangelho de Filipe toca em mais uma polêmica: Ele diz que Jesus não nasceu de Maria, ao menos não do jeito convencional. Ele foi concebido pelo Espírito Santo, e de acordo com os textos deste evangelho, o Espírito Santo está mais para uma entidade feminina do que para masculina. Segue o parágrafo onde entende-se tais fatos: "Alguns diziam: “Maria concebeu pelo Espírito Santo”. Eles estão em erro. Eles não sabem o que estão dizendo. Quando uma mulher concebeu de uma mulher? Maria é a virgem que nenhum poder contaminou.
Embora possa parecer fútil tal discussão, creio ser possível tirar pontos proveitosos deste texto de Filipe (ou de outro que tenha escrito isto). Proveitoso para união de diferentes religiões/ espiritualidades e convergência de diferentes textos religiosos: Ao afirmar que Maria não podia conceber do Espírito Santo, com a pergunta "Quando uma mulher concebeu de uma mulher?", Filipe aproxima-se dos textos de Mani, cujo fundou a religião judaico-cristã no século 3, conhecida como maniqueísmo. Apesar de não me aprofundar no maniqueísmo (nem sei se é possível), entendo que nesta religião o seu "profeta fundador" cita o Deus Criador, a Mãe da Vida (Espírito Vivo) e o Homem Original, de modo semelhante a uma santíssima trindade. Este argumento também se aproxima com um conceito muito bonito da obra "Cidade Mística de Deus" que diz que Deus planejou a mulher (ou o feminino) desde o início dos tempos, antes do surgimento da vida material no universo. É uma obra que mostra muitos defeitos da época (machista) em que foi escrita, e certamente da influência dos indivíduos poderosos da igreja católica e da nobreza espanhola, mas que tem alguns pontos positivos como este mencionado acima. 
Além do mais, os textos de Filipe não tiram a pureza de Maria, pois afirma que ela não foi contaminada por poder algum. Assim, Maria pode ter sido escolhida por Deus para cuidar de Jesus desde sua tenra infância. Pode ter até mesmo carregado Jesus em seu ventre... Mas é apenas isto. 
O evangelho de Tomé colabora com esta visão no seguinte trecho: "Jesus disse: Quando você vir alguém que não nasceu de mulher, prostrai-vos sobre os vossos rostos e adorai-o. Aquele é seu pai.
Porém não vou me aprofundar mais sobre o evangelho de Tomé, nem sobre possíveis interpretações místicas neste texto. 
Poder entender uma concordância entre o evangelhos de Filipe e de Tomé com os demais evangelhos e com o espiritismo (e até mesmo com o maniqueísmo), já é um bom passo para união entre espiritualistas e religiosos cristãos, ou próximos / amigáveis ao cristianismo.

domingo, 25 de setembro de 2022

O Básico da Fé e da Espiritualidade

 

Tolerância inter-religiosa/ Respeito Espiritual 

Resumidamente decidi escrever este pequeno texto por ter esperança que as pessoas abram seus corações, abandonando o temor diante o diferente, e (em alguns casos) o orgulho, para se tornarem mais tolerantes e piedosas:

Você, que segue uma determinada religião ou espiritualidade, não precisa deixar sua crença, fé, espiritualidade ou religião para aceitar que as outras têm coisas certas. 
A verdade por trás disto tudo é o bem. Se uma religião, por exemplo, prega algo contrário ao bem, ela é uma farsa. Se ela despreza humildade, perdão, equidade e solidariedade, ela é destrutiva e nociva para toda a criação. Cada religião pode ter diferenças entre si, ao explicar quem está por trás da criação: Umas chamam de Deus, outras de Alá, de Yhwh (Javé), de Brahman, de Todo, ou o Todo, entre tantos outros nomes... O fato é que a criação é uma obra do bem, de amor e de esperança - Qualquer fé ou espiritualidade verdadeira mostra que seria ilógico afirmar que todo o universo é uma obra maligna ou de um destruidor. 
Você pode crer em Deus do seu jeito enquanto o outro crê do jeito dele; E se quiser saber se o outro está a favor ou contra tua espiritualidade/ fé e/ou contra Deus, basta ver o que ele diz e principalmente as atitudes dele - as obras e os resultados. 
Não é a igreja, nem o templo, nem a religião que determina quem crê e quem vive a lei divina de amor. Sendo divina esta lei que mostra a importância do amor, na forma de humildade, de piedade ou de solidariedade - ela é do Criador, portanto rege todos seres humanos independente de suas nacionalidades, culturas ou religiões. 
O Criador fez a todos e não prefere um ou outro: Ele aguarda que todos vivam o bem, ou seja sua lei, que faz bem a todos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Espiritismo, uma Filosofia entre a Ciência, o Cristianismo e o Platonismo

 

Estive lendo alguns textos espíritas da segunda metade do século 19 (da época de Kardec) e apesar de uma linguagem meio técnica e antiga, notei argumentos interessantes que posicionam o espiritismo diante os saberes da humanidade. Aqui cito dois textos e comento eles em seguida: 

"Um dia, Deus, em sua inesgotável caridade, permitiu que o homem visse a verdade varar as trevas. Esse dia foi o do advento do Cristo. Depois da luz viva, voltaram as trevas. Após alternativas de verdade e obscuridade, o mundo novamente se perdia. Então, semelhantemente aos profetas do Antigo Testamento, os Espíritos se puseram a falar e a vos advertir. O mundo está abalado em seus fundamentos; reboará o trovão. Sede firmes! 
 O Espiritismo é de ordem divina, pois que se assenta nas próprias leis da natureza, e estai certos de que tudo o que é de ordem divina tem grande e útil objetivo. O vosso mundo se perdia; a ciência, desenvolvida à custa do que é de ordem moral, mas conduzindo-vos ao bem-estar material, redundava em proveito do espírito das trevas. Como sabeis, cristãos, o coração e o amor têm de caminhar unidos à ciência. O reino do Cristo, ah! passados que são dezoito séculos e apesar do sangue de tantos mártires, ainda não veio. Cristãos, voltai para o Mestre, que vos quer salvar. Tudo é fácil àquele que crê e ama; o amor o enche de inefável alegria. Sim, meus filhos, o mundo está abalado; os bons Espíritos vo-lo dizem sobejamente; dobrai-vos à rajada que anuncia a tempestade, a fim de não serdes derrubados, isto é, preparai-vos e não imiteis as virgens loucas, que foram apanhadas desprevenidas à chegada do esposo. 
 A revolução que se apresta é antes moral do que material. Os grandes Espíritos, mensageiros divinos, sopram a fé, para que todos vós, obreiros esclarecidos e ardorosos, façais ouvir a vossa voz humilde, porquanto sois o grão de areia; mas, sem grãos de areia, não existiriam as montanhas." 

 Kardec Respondendo ataques de cientistas materialistas: 
"Ninguém é bom juiz senão em assuntos de sua competência. Se quisermos construir uma casa, chamaremos um músico? Se estivermos doentes, preferiremos ser tratados por um arquiteto? Se tivermos um processo, aconselhar-nos-emos com um dançarino? Enfim, caso se trate de uma questão de teologia, pediremos a sua solução a um químico ou a um astrônomo? Não. Cada qual no seu ofício. As ciências vulgares repousam sobre as propriedades da matéria, que podemos manejar à vontade. Os fenômenos por ela produzidos têm como agentes forças materiais. Os do Espiritismo têm como agentes inteligências que possuem sua independência, seu livre-arbítrio, e de modo algum se submetem aos nossos caprichos. Escapam destarte aos nossos processos anatômicos ou de laboratório, bem como aos nossos cálculos e, por consequência, não são mais de alçada da ciência propriamente dita. A ciência errou, pois, ao querer experimentar os Espíritos como uma pilha de Volta. Ela partiu de uma ideia fixa, preconcebida, à qual se aferra e quer forçosamente ligar à ideia nova. Fracassou, e assim devia ser, porque agiu a partir de uma analogia que não existe. Depois, sem ir mais longe, concluiu pela negativa: julgamento temerário, que o tempo diariamente se encarrega de reformar, como reformou tantos outros, e aqueles que o pronunciarem, serão por sua vez sentenciados pela vergonha de haverem levianamente assumido uma posição falsa contra o infinito poder do Criador. Assim, pois, as corporações científicas não devem, nem deverão jamais pronunciar-se sobre o assunto, pois ele não é mais de sua alçada do que o direito de decretar que Deus existe. É, pois, um erro tomá-las como juiz. Mas quem será o juiz? Arrogam-se os espíritas o direito de impor as próprias ideias? Não. O grande juiz, o juiz soberano é a opinião pública, e quando essa opinião se formar pelo assentimento das massas e dos homens esclarecidos, os cientistas oficiais a aceitarão como indivíduos e se submeterão à força das circunstâncias. Deixemos passar uma geração e com ela os preconceitos do amor próprio que se obstina, e veremos acontecer com o Espiritismo o mesmo que aconteceu com tantas outras verdades combatidas e que atualmente seria ridículo pôr em dúvida. Hoje os crentes são chamados de loucos, amanhã assim serão chamados aqueles que não creem, exatamente como outrora eram considerados loucos os que acreditavam que a Terra gira, o que não a impediu de girar. “Dizem que os seres invisíveis se comunicam. Por que não? Antes da invenção do microscópio suspeitávamos da existência desses milhares de animálculos que causavam tanta devastação em nossa economia? Onde a impossibilidade material da existência, no espaço, de seres que escapam aos nossos sentidos? Acaso teríamos a ridícula pretensão de saber tudo e dizer a Deus que ele não nos pode ensinar mais nada? Se esses invisíveis que nos cercam são inteligentes, por que não se comunicariam conosco? Se estão em relação com os homens, devem representar um papel no destino e nos acontecimentos. Quem sabe se não serão uma das potências da Natureza, uma dessas forças ocultas que não suspeitamos? Que novo horizonte isto abre ao pensamento! Que vasto campo de observação! A descoberta do mundo invisível seria muito diversa da descoberta dos infinitamente pequenos. Seria mais que uma descoberta: seria toda uma revolução nas ideias. 
Quantas coisas misteriosas seriam explicadas! Os que nisto acreditam são levados ao ridículo, mas o que isto prova? Não aconteceu o mesmo com todas as grandes descobertas? Cristóvão Colombo não foi repelido, coberto de desgostos e considerado um insensato? Essas ideias, disseram, são tão estranhas que a razão as recusa. Teríamos rido na cara de quem, há somente meio século, tivesse dito que em apenas alguns minutos nos corresponderíamos de um a outro extremo do mundo; que em algumas horas atravessaríamos a França; que com o vapor de um pouco de água fervente um navio navegaria contra o vento; que da água seriam tirados os meios de iluminar e de aquecer? Se um homem se tivesse proposto iluminar toda Paris em um minuto, com uma única fonte de uma substância invisível, teria sido enviado ao hospício. Seria acaso mais prodigioso que o espaço fosse povoado de seres pensantes que, depois de haverem vivido na Terra, deixaram o se envoltório material? Não encontramos no fato a explicação de uma porção de crenças que remontam à mais alta Antiguidade? Não é a confirmação da existência da alma, de sua individualidade depois da morte? Não é a prova da própria base da religião? Mas a religião só vagamente nos diz o que se tornam as almas. O Espiritismo o define. Que podem objetar os materialistas e os ateus? Vale a pena aprofundar semelhantes coisas”. 
 Eis as reflexões de um cientista, mas de um cientista despretensioso. São também as de uma porção de homens esclarecidos, que refletiram, estudaram seriamente, sem ideias preconcebidas e tiveram a modéstia de não dizer: Não compreendo, portanto não existe. Sua convicção formou-se pela observação e pelo recolhimento. 
Há céticos que negam até a evidência e aos quais nem milagres convenceriam. Há mesmo os que ficariam muito aborrecidos se fossem obrigados a crer, pois o seu amor-próprio sofreria ao confessar que se enganaram. Que responder a criaturas que por toda parte não enxergam senão ilusão e charlatanismo? Nada. É preciso deixá-las tranquilas e dizerem, enquanto quiserem, que nada viram e, até, que nada lhes pudemos fazer ver. Ao lado desses céticos endurecidos, há os que querem ver a seu modo. Formada uma opinião, a esta tudo querem submeter, não compreendendo que haja fenômenos que não se submetam à sua vontade. Ou não sabem, ou não se querem curvar às condições necessárias. 
Aos olhos do observador atento e assíduo multiplicaram-se os fenômenos, confirmando-se reciprocamente, mas aquele que pensa que basta virar a manivela para movimentar a máquina, engana-se redondamente. Que faz o naturalista que deseja estudar os costumes de um animal? Acaso lhe ordena que faça isto ou aquilo, a fim de ter a oportunidade de observá-lo à vontade e conforme as suas conveniências? Não. Ele sabe perfeitamente que não será obedecido. Mas espia as manifestações espontâneas de seu instinto; espera-as e as observa de passagem. 
 O simples bom-senso nos mostra que, com mais forte razão, assim deve ser com os Espíritos, que são inteligências muito mais independentes que a dos animais." 

O Percurso da Filosofia e da Ciência - Onde se encaixa o Espiritsmo 
Nestes dois textos Kardec recua com a proposição de que o espiritismo é uma ciência (feita em outro texto seu). Importante notar que na época de suas publicações (1858-1869), o termo cientista era uma definição bastante recente, pois só em 1834 foi adotada tal palavra para substituir a terminologia anterior: Filósofo naturalista, ou filósofo natural. 
Embora existiram filósofos naturalistas antes de Sócrates e Platão, podemos considerar que a filosofia natural tem suas bases nos estudos de Aristóteles (século 3 a.C.) que separou-se de alguns conceitos mais mentalistas/ espiritualistas de Platão e Sócrates. As teorias aristotélicas foram sendo suprimidas durante o Império Romano, juntamente com a filosofia socrática/ platônica, praticamente desaparecendo da Europa após a queda do Império Romano Ocidental e certamente tendo como um dos últimos divulgadores, o sacerdote Agostinho de Hipona. A partir daí ela sobrevive na pandidakterion do Império Romano ("bizantino") e chega ao Império Omíada / Califado Rashidum (Árabe) no século 7 d.C, ganhando força entre os séculos 11 e 12, quando os Europeus voltam a estudá-la efetivamente mais ou menos durante o período de fundação das primeiras universidades (católicas) européias. Depois disto, a filosofia natural só começa a se desvincular da religião após o fim dos concílios entre a igreja católica romana e a católica ortodoxa em meados do século 15 (entre 1431 e 1438). Em 1687, o físico inglês, Isaac Newton, começa a busca de uma nova concepção de filosofia natural, com as bases mais matemáticas e materialistas e em 1690, o filósofo inglês, John Locke, lança o método empírico que viria a se consolidar como uma posição filosófica específica. Apesar do trabalho destes estudiosos, outras linhas de estudo surgiram em paralelo, desde o dualismo de René Descartes, até o mentalismo de vários outros filósofos que, de modo geral, concorreram com as demais filosofias. Como, só em 1834 os ingleses cunharam um termo que fomentaria a separação da ciência e filosofia, entende-se que o processo de distinção desta área do saber em relação à filosofia foi gradual e se estendeu aproximadamente até as três primeiras décadas do século 20 com a teoria da falseabilidade. 
 Resumidamente, pode-se entender que a ciência é composta por uma ontologia (que determina os pressupostos filosóficos) materialista e por uma epistemologia, ou seja, método de investigação, que trabalha com a reprodutibilidade das experiências e com evidências (sensoriais), enquanto a filosofia trabalha com conjecturas, racionalização e reflexões para se alcançar um entendimento, ou seja, permite conceitos além da demonstração física, perceptível pelos 5 sentidos humanos. Assim, podemos entender a filosofia como um amplo campo de estudos, ou uma área do saber, que de certo modo pode fazer o caminho ou o meio termo entre o saber religioso (espiritual, transcendental etc) e o saber científico. 
Neste caso, o que talvez Kardec não tivesse certeza, é que o espiritismo é mais uma filosofia do que uma religião ou uma ciência - exatamente porque tentou construir uma ponte entre os dois saberes: Na conclusão do 1ª texto aqui mencionado, Kardec (a mensagem tem características típicas das psicografadas) alega que a ciência até então havia se desenvolvido sacrificando a moral, ou seja, sobrepondo a importância da empatia solidária, deixando a importância dos bons sentimentos nas sociedades humanas em segundo plano! Ainda confirma que o "coração" e o amor têm que seguir unidos à ciência e alerta que virá a tempestade, possivelmente se referindo a frieza propagada pelo niilismo e pelo materialismo que colaborou com teorias eugenistas como o darwinismo social, teorias racistas e paranoicas como o nazismo e teorias punitivistas e brutais como o fascismo. Tudo isto resultou em uma busca inconsequente por riquezas marcada pela corrupção dos maiores bancos e corporações da Europa e EUA, pela partilha e invasão da África (1885 a 1914) e é claro em duas guerras mundiais (1914 a 1918 e 1939 a 1945)! Esta é toda uma realidade notável do fim do iluminismo e da era moderna, perceptível na época de Kardec e nas próximas 7 décadas... E pode-se considerar que não acabou, pois o progresso, que faz parte da evolução da espécie humana e de suas pulsões de vida, é constantemente ameaçado por impulsos de destruição e morte. Estas forças por trás do inconsciente de fato movem o comportamento humano, mas para os cientistas em geral elas são biológicas ou no máximo mentais, enquanto para os espíritas e espiritualistas, elas frequentemente podem ser algo a mais - transcendentais, ou seja, espirituais. 
No 2º texto, ao indicar (voluntariamente ou não) que o espiritismo está entre o saber religioso e o saber científico, Kardec aponta o espiritismo como uma filosofia. Isto realmente se faz necessário, uma vez que pouco a pouco, na história da filosofia, ela foi sendo reduzida, ou "devorada" pela ciência que nascia como o saber soberano, com pretensões de invalidar não só a filosofia, mas primariamente a religião junto de toda a espiritualidade. Este processo de "defensores da ciência" atacarem os demais saberes chega a seu ápice na primeira metade do século 20, onde filósofos liberais (no sentido econômico), como Karl Popper, membro da sociedade de Mont Perelin, atacaram praticamente todos os saberes de bases mentalistas e espiritualistas - desde Freud, passando por Jung até toda religião e espiritualidade real, ou seja, atacou os espíritas de lambuja. Para quem não sabe, a sociedade de qual o famoso filósofo participava foi um dos primeiros grupos ativistas neoliberais do mundo, cujo objetivo era suprimir todos movimentos de esquerda moderados ou extremistas (ou seja, era um grupo de extrema direita sob uma máscara de defensor da liberdade e de racionalidade científica). Este ataque a todos esses saberes serviu para manter a ciência nas bases newtonianas e no método empírico, deixando em segundo plano (intencionalmente ou não) teorias como as da relatividade de Einstein. 
Não é difícil então ver que o cenário mundial até a virada dos anos 50 aos 60 do século 20 era de tensão pós guerra mundial - Um cenário de medo de novos conflitos e de ameaças entre o ocidente predominantemente liberal/ capitalista contra o oriente mais socialista. Um ocidente ainda marcado pelos vestígios do imperialismo britânico, pela cobrança de produtividade e de consumo feita pelas grandes indústrias e corporações e pela ascensão das "potências mundiais" (EUA e URSS) cada vez mais intervencionista nos demais países. Uma ascensão intrusiva e exploratória sob a máscara de negócios internacionais e globalização por parte dos EUA e uma ascensão mais político-militar da URSS. 
A primeira mudança nos saberes deste período iniciou-se com a teoria geral dos sistemas, uma teoria científica surgida na área da biologia (mas que se expandiu para outras ciências) que considera a existência através de relações... O que por coincidência ou não, se aproxima da teoria da relatividade, de que a existência ocorre por... relações, como diz a própria etimologia da palavra. Estas teorias afastam-se da base materialista da ciência (ao cogitarem trabalhar com campos e ondas a níveis sub atômicos por exemplo), assim como também se distanciam do método empírico por serem menos práticas.
Enfim, este período pós guerras mundiais e de começo da guerra fria, fez eclodir os movimentos sociais dos anos 60 em variados países, que apesar de suas pautas bastante humanas (paz, amor, igualdade etc) ainda tem muito o que fazer, pois gerou poucos bons resultados, ou seja ainda não alcançou totalmente seus objetivos. 
Concluindo, como filosofia, parece que o espiritismo deve sofrer poucas mudanças devido a evolução da ciência. Talvez as mudanças principais devam ocorrer devido a alguns ajustes, ao revisar posturas antiquadas da época de sua fundação na segunda metade do século 19. Afinal se o espiritismo é uma filosofia complementar ao cristianismo e a ciência, buscando a união do amor com a ciência, ela jamais deve esquecer-se da importância de propagar o amor ao próximo, que significa o amor à toda humanidade e à toda criação. Jamais deve permitir que ocorram movimentos insensíveis ou cruéis sob a máscara de busca por justiça, progresso frio e/ ou apenas tecnológico ou qualquer outra mentira. O egoísmo penetra todas as áreas do saber: como materialismo na ciência, indiferença na filosofia, obscurantismo e ódio na religião e por isto a humildade é base para que se ocorra progresso verdadeiro nos 3 saberes. Esta humildade deve cessar rixas e permitir que o bem, seja na forma de um acolhimento crescente e/ ou na forma do amor, como citado no texto espírita, caminhe junto com a ciência. 

Fontes: 
O Evangelho segundo o espiritismo;
Revista Espírita de Estudos Psicológicos - junho de 1859; 
Encyclopedia Britannica, Higher Education in the Byzantine Empire, 2008, O.Ed.
História geral, moderna e contemporânea - Borges Hermida;

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

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