quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Uma União... Seja Antiga ou Nova.

Um breve resumo da longa história do ecumenismo e do sincretismo religioso 

Quando estudei variadas mitologias entre os anos de 2015 e 2018, eu percebi vários elementos semelhantes entre algumas delas. Estas semelhanças variam entre quantidade e qualidade. Por exemplo, o mito grego do nascimento de Zeus e como seu pai, Cronos, tentou destruir ele e seus irmãos, é quase idêntico ao mito hitita/ hurrita (antigos reinos da Anatólia) de Tarhunt e seu pai Enlil. O mito de Enlil e seu pai Anu, deus dos céus, por sua vez, aparece nos antigos reinos da Mesopotâmia e é similar com o de Cronos e Urano, deus dos céus (Ouranos, o Caelus em Roma), contado pelos poetas gregos. Ao debruçar-me sobre as semelhanças inter religiosas do antigo politeísmo afro-eurasiático, fui descobrindo personagens e histórias semelhantes entre variadas culturas até que achei alguns vagos traços de semelhança entre judaísmo e antiga religião egípcia. 

Se ignorarmos a “visão” de Brahman como O Deus único e supremo no hinduísmo (há interpretações politeístas), o judaísmo possivelmente é a 1ª religião monoteísta da Terra, porém ao surgir entre pequenas tribos cercadas por impérios da antiguidade, a data de seu início é controversa. Numa visão religiosa hebraica/ judaica, ela certamente se inicia com Adão ou com seus filhos por volta dos anos 4000 aC ou 3900 aC. Porém numa visão mais cética baseada em evidências materiais é possível datá-la por volta de 1350 aC, aproximadamente durante o governo do faraó Akhenaton (reinado de 1353 aC a 1334 aC) no Egito. Interpretações mais reducionistas existem, mas não trato delas aqui. 

As curiosidades “inter religiosas” ou “sincréticas” me levaram a alguns caminhos: O caminho dos hermeneutas indicava que havia uma espiritualidade mediterrânea (egípcia, cananéia, judaica, mesopotâmica, hitita/ hurrita, greco-romana) que continha elementos em comum. Isto é abordado por Evêmero (~330 aC - 250 aC) e Eusébio de Cesaréia (265 - 339) - este último teria seguido a “linhagem” de estudos de Filo de Biblos e Sanconíaton. Porém estas linhas de estudo priorizam supostos rastros materiais possivelmente perdidos nos dias de hoje, e, ao traçar tal percurso, trata mais dos personagens como reis divinizados. O caminho do hermetismo (~100 - 300), ou do sincretismo religioso, vai indicar a mistura das práticas místicas e religiosas em si e mostra um elo entre judaísmo, helenismo (religiões gregas), zoroastrismo e politeísmo egípcio. Este último caminho possivelmente se ramifica através de trocas culturais e uma destas ramificações desemboca no pitagorismo. O pitagorismo em si parece ter sido centrado na misteriosa religião órfica da Grécia antiga, porém diferentemente da religião politeísta popular grega, este movimento filosófico religioso apresentava características de religiões de outras culturas (egípcia, mesopotâmica e talvez outras como a hindu, celta, iraniana etc) e aspectos mais racionais ao se aproximar da filosofia (precursora da ciência). Portanto, o pitagorismo se afastava da ritualística, dos frenesis e transes. É justamente por esta aproximação da racionalidade e do autocontrole/ consciência de si, que Platão aceita alguns elementos do pitagorismo. 

Com Platão e seu mestre, Sócrates, a questão ética, ou a questão do bem, finalmente é trazida para o centro da religiosidade e não só isso: para o centro da recém surgida filosofia ocidental. Obviamente divulgar a importância do bem, da razão, da justiça e do amor não é algo fácil: Mesmo com o espalhamento da cultura grega pelo mundo através do Império greco-macedônico de Alexandre, o Grande, as gerações de filósofos depois de Platão “fizeram reinterpretações, adaptações e ramificações” na filosofia. Apesar de revolucionar o modo ocidental de pensar, a Academia de Platão durou somente de 384 aC a 86 aC, pois foi destruída pelos exércitos romanos liderados por Susa. Este e outros fatos indicam que a filosofia fundada por Platão sofreu tentativas de silenciamento e perseguições. No século 1, durante o período “pacífico” do Império Romano (a Pax Romana) os acadêmicos (da academia de Platão) já não existiam mais e os filósofos céticos já haviam desvirtuado em algum nível a filosofia de Sócrates e Platão. Neste período surge o “médio platonismo” com filósofos tentando restaurar a originalidade da filosofia ocidental organizada por Platão, mas sem negar totalmente um sincretismo com outras filosofias. O termo platonismo me parece mais adequado para designar os “estudiosos” ou “seguidores” de Platão a partir deste momento da história. Neste período da história também aumentam a quantidade de sincretismos tanto filosóficos como religiosos e surge o cristianismo. 

O cristianismo é um conjunto de ensinamentos monoteísta, surgido no século 1, que mostra a importância verdadeira do amor. Não existiam igrejas cristãs quando Jesus de Nazaré, o Cristo, andou pela região do Levante propagando seus ensinamentos centrados no amor piedoso. Jesus não proibiu templos, mas nunca construiu um e nem ordenou a construção de templos, embora haja uma interpretação de que ele tenha dito algo deste tipo à Pedro. Jesus ensinou dentro de alguns templos judeus (sinagogas), mas não ensinou o judaísmo em si, pois ao trazer a ênfase no amor a tudo, não admitiu absurdos como a vingança aceita entre judeus. Além disso, Jesus passou a maior parte do tempo caminhando e auxiliando os mais necessitados e rejeitados. Não há algo errado especificamente em assistir cultos ou missas, mas a prática cristã vai muito além dos templos e igrejas: Ela é um modo de pensar, expressar e agir no mundo. Um modo centrado no amor piedoso, pois o monoteísmo ensinado por Jesus Cristo não é sinônimo de “povo escolhido”, muito menos sinônimo de separatividade. É união entre todos filhos de Deus, ou seja, entre toda a humanidade, entre toda a vida, por mais difícil que isso pareça. Isso por si só já deveria mostrar de maneira óbvia que os ensinamentos cristãos não foram difundidos para se formar grupos fechados: Os cristãos devem se pautar por semelhanças e por igualdade entre as religiões, as espiritualidades e as filosofias, pois as diferenças só deveriam ser causa de afastamento quando entrassem em contradição clara contra os ensinamentos de Jesus, ou seja, contra o amor, a piedade, a solidariedade e a humildade. Os ensinamentos de Cristo têm esse claro viés ecumênico: Jesus busca harmonia mesmo com aqueles que têm cultura e modos diferentes dos seus. O cristianismo e o ecumenismo exigem amor e equidade. 

Uma busca pela visão ecumênica do cristianismo

O amor então é o centro dos ensinamentos de Jesus Cristo, sendo a dádiva e a virtude mais preciosa que Deus deu aos seres humanos. 

Por volta dos séculos 1 e 2, após a morte de Jesus, são feitos os escritos essenciais do cristianismo e começam a surgir algumas divergências no que se refere a diversos detalhes da doutrina, assim começa a se formar o que entende-se por religiões (cristãs, neste caso). Estas divergências certamente ocorreram pela influência de outras doutrinas religiosas, outras filosofias e outras culturas espiritualistas, conforme pessoas de diferentes regiões se interessavam pelo cristianismo e entendiam verdades em seus ensinamentos. Porém neste período o cristianismo era pouco ou nada aceito entre pessoas em posição de poder social e/ ou econômico. 

O cristianismo só começou a ser institucionalizado na forma de igrejas de maneira significativa no século 4, ou seja, cerca de 3 séculos após a morte de Jesus, quando os imperadores romanos começaram a mostrar determinados interesses na doutrina, obscurecendo a importância do tema central cristão: O amor. 

 O evangelho contado pelos apóstolos Mateus, Marcos, Lucas e João é considerado o centro dos ensinamentos de Jesus Cristo, conforme as religiões cristãs, e diversas foram suas interpretações ao longo da história. 

Os evangelhos de Tomé e de Filipe têm alguns temas mais místicos, outros mais reveladores e alguns mais controversos, em relação ao evangelho aceito dos 4 apóstolos nas religiões. Embora o de Tomé tenha várias semelhanças com os evangelhos de Lucas, Marcos e Mateus, o texto atribuído a Filipe é notoriamente de uma época posterior aos apóstolos que viveram com Jesus. 

As explicações que darei nos próximos textos sobre o cristianismo e o ecumenismo levam em consideração a atenção especial que Jesus deu à vida na Terra. Esta atenção foi voltada principalmente aos mais necessitados, que mal tinham o básico para viver: cegos, surdos, leprosos, desabrigados, famintos, crianças, mulheres, prostitutas e outras pessoas vulneráveis. Estas pessoas eram muitas, pois o sistema social e econômico, não muito diferente dos dias atuais, era cheio de injustiças e iniquidade durante a época do Império Romano em que Jesus andou pela Terra. Este sistema injusto, inútil para a maioria das pessoas que eram pobres, está ligado às críticas que Jesus faz aos ricos, aos líderes religiosos e ao dinheiro. 

Além disto, um tema tão importante quanto este é a vida espiritual tratada por Jesus: Jesus menciona em diversas passagens a importância de se fazer o bem, não apenas para propagar o amor e a equidade na Terra, mas também para que as pessoas (suas almas, ou espíritos) pudessem alcançar o reino dos céus, ou, uma das moradas de Cristo. A prática e a teoria do cristianismo tem coerência entre si: Não faz sentido alegar ser cristão e não pôr em prática o amor piedoso. Este amor pede atitude solidária com as pessoas. Além disto, não adianta realizar ajuda material a alguns indivíduos ou grupos e pensar de modo egoísta ou planejar atos nocivos contra outros. 

Eu abordarei passagens da bíblia, particularmente os ensinamentos de Jesus Cristo, seguidos por observações que podem ter influência de diversas “espiritualidades”, sejam elas filosofias ou teologias. Alguns exemplos são: O platonismo, o espiritismo de Allan Kardec, a Kriya Yoga e a teologia da libertação. 

O “platonismo” é a raiz e o cerne da filosofia de todo ocidente (basicamente Europa e América após a colonização). Surgida na Grécia clássica (do século 4 antes de Cristo) a filosofia desenvolvida por Platão é baseada nos ensinamentos e diálogos de Sócrates, mas com influência de alguns filósofos anteriores, como Anaxágoras, Parmênides e Pitágoras. Como mencionei anteriormente, a filosofia platônica incita a busca pela sabedoria e pela verdade, que naturalmente deve levar ao que é bom, belo e justo. 

O espiritismo baseia-se nos textos do pedagogo e tradutor francês, Hippolyte Léon Denizard (Allan Kardec), que buscou aproximar o cristianismo à ciência, passando inevitavelmente por questões filosóficas. Ao trazer o tema da reencarnação, o espiritismo, surgido no século 19, explica muitos conceitos espirituais, também se aproximando de várias religiões, muitas delas já extintas: A religião órfica grega, o druidismo dos celtas, vertentes do hinduísmo etc. Apesar da centralidade no cristianismo, Kardec diz que o espiritismo aceita pessoas de todos os credos, ou seja, de todas as religiões, provando ser um movimento filosófico espiritualista ecumênico. 

É importante lembrar que na época em que o espiritismo foi fundado, os evangelhos de Tomé e de Filipe estavam ocultos (nas cavernas de Nag Hammadi - Egito) há séculos. Estes 2 evangelhos só vieram a público após o ano de 1945. 

A Kriya Yoga é um dos vários tipos de yoga do Sanatana Dharma (hinduísmo) que mantém o universalismo desta espiritualidade. Kri-ya significa ação divina, ou agir com Deus e Yoga é principalmente traduzido como união ou disciplina - assim, uma possível tradução é união com Deus pela ação. Esta ação se dá por técnicas psicofisiológicas, como o controle da respiração e a meditação (perceber as próprias atividades mentais e o aquietamento da mente). Tais técnicas geralmente levam-se anos para serem dominadas e são importantes para o “kriya yogi” adquirir controle de sua mente sensorial e seu intelecto, banindo o desejo, a ira e o medo, para então atingir a consciência de Deus. Ainda que possa parecer indiferente ao meio, o método da Kriya Yoga propõe libertar a alma da prisão do ego ao “respirar o ar profundo” da onipresença. 

O guru Babaji, no século 19, restaurou e propagou esta yoga que une as práticas de outros 4 tipos de yoga. Seu discípulo Lahiri Mahasaya difunde a Kriya na Índia estimulando o viver com simplicidade, o pensar com elevação e a fraternidade universal, enquanto os seus sucessores Yukteswar, Yogananda e Hariharananda, revelam a unidade básica entre os ensinamentos de Jesus Cristo e os de Bhagavan Krishna, preconizando a compreensão cultural e espiritual entre ocidente e oriente. 

Por fim, a teologia da libertação, é um movimento cristão surgido por volta de 1970 na América Latina e faz um resgate da importância da prática dos ensinamentos de Jesus: A solidariedade para com os mais vulneráveis e para com os necessitados e uma busca por equidade entre os seres humanos. 

Há diferenças entre todos esses caminhos? Sim, mas ao invés de priorizar diferenças, o mais importante é buscar as semelhanças que indicam coerência entre as religiões e espiritualidades. Tais semelhanças evitam conflitos e permitem uma união, ainda que naturalmente essa união ocorra de maneira gradual ou lenta.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Sobre a Institucionalização do Cristianismo

 Breve reflexão sobre instituição e institucionalização 

A palavra instituto vem do latim "Institutius" que significa definir, estabelecer, de In + statuere (em + fazer ficar em pé). Adquiriu sentido geral de fundar, introduzir a partir do século 15. O significado de organização, social, surgiu no século 19. 

O termo institucionalização também passou a ser empregado com significado negativo, de sistemas criados com fins e razões benéficas, que por qualquer motivo (por interesses particulares, ou tentativa de controle social) tornaram-se inflexíveis, causando prejuízos aos seres humanos. 

Nota-se que em seu significado original, esta palavra se assemelha à palavra estrutura, com a diferença que esta última se refere a juntar ou combinar as partes para construir algo. Estrutura então exprime arranjo, junção e disposição - modo de edificar, enquanto instituição é uma edificação estabelecida de um estado ou de uma comunidade. 

Edificar, vem da palavra edifício (do latim, aedes), que designava uma mansão do Império Romano. Estas mansões não eram como conhecemos hoje: Elas tinham até 5 andares e abrigavam várias pessoas das baixas classes sociais, servindo de moradias e também de espaço para atividades.

A diferença entre instituição e constituição então é expressa pelo prefixo: In significa "em" e con significa "juntos, em simultâneo, companhia". 

Toda esta explicação deveria nos orientar. Embora as palavras tenham seus significados mais ou menos alterados com o passar do tempo, as suas origens deveriam ser regularmente verificadas para trazer entendimento de suas utilizações. 

No caso das religiões eu vi mais um emprego negativo da palavra institucionalização: Geralmente se refere como as igrejas (cristãs, por exemplo), ao admitirem hierarquias e priorizarem dogmas, deixaram de lado os ensinamentos de Jesus Cristo, transformando-se em ferramentas de poder ao longo da história. Trago um possível exemplo deste processo à seguir.

Como alguns dogmas invadiram o cristianismo e se mantiveram nas igrejas 

No ano 553, foi reunido o 2º Concílio de Constantinopla pelo imperador romano (bizantino) Justiniano I, que se interessava em acabar com as dissensões na igreja cristã (já chamada de católica na época). Neste concílio foram proibidas e consideradas hereges as seguintes doutrinas: 

Do nestorianismo, marcada pela afirmação de que Maria é mãe de Jesus e não de Deus, pois a natureza divina de Jesus é separada da natureza humana; 

A doutrina de Orígenes que aceitava a transmigração das almas (a reencarnação das almas, possivelmente baseada em Platão) e a possibilidade da Apocatástase onde todas as almas seriam salvas e unidas a Deus; 

E a doutrina monofisista que afirmava que Jesus tinha só uma natureza divina mesmo encarnado. 

Como resultado do concílio afirmava-se que Jesus era simultaneamente humano e Deus, filho de Maria e que as almas de pecadores seriam condenadas eternamente, jamais encontrando Deus. 

Com um breve estudo sobre tal evento não é difícil entender as intenções e resultados de tal concílio. Note que os assuntos todos têm como tema central a espiritualidade: De onde vem e para onde vão as almas, natureza divina de cristo etc. São temas impossíveis de se tornarem dogmas sem desprezar o ensinamento central de Jesus Cristo: O amor (ao próximo, a si e a Deus). Um amor obviamente piedoso acima de tudo, do qual não vou detalhar aqui - basta ler as passagens de Jesus na bíblia. 

Voltemos a resolução do concílio "ecumênico" (!?): Proibições e queimas de escritos/ livros de teorias sobre a alma e a divindade. O que há de ecumênico nisto? 

Nada. 

O que há de cristão no resultado desse concílio? 

Nada. 

Nada disto está nos ensinamentos de Jesus Cristo: Para Jesus, o que importa é viver a lei divina, que é de amor - Amor este sereno e que dá esperança para a humanidade! 

O resultado deste (e de tantos outros concílios da igreja) é meramente um passo para deformar os ensinamentos de Cristo, impondo regras proibitivas, que tentam formar a imagem de um Cristo autoridade, pois o concílio praticamente diz: Jesus nasceu humano mas era Deus e filho de Maria ao mesmo tempo. Para que isto? Jesus mandou seus apóstolos chamarem Maria de mãe de Deus? Certamente não. Jesus fez pregações alegando que almas não reencarnam? Certamente não. Na verdade ele insinua sutilmente o contrário ao falar que João é o Elias que muitos aguardavam, e, ao falar à Nicodemos que é preciso nascer de novo. 

Enfim, este é um tema simples: A religião não existe sem uma história, então os cristãos que frequentam uma igreja (seja católica, evangélica etc) tem basicamente duas opções para não serem enganados: 

A 1ª opção é simples: Colocar os ensinamentos de Jesus Cristo (os evangelhos dos 4 apóstolos: João, Marcos, Mateus e Lucas) acima de todas os argumentos não mencionados por Cristo evitando aqueles que contrariem seu amor piedoso, e assim, também acima das outras passagens da bíblia, pois nenhum outro profeta da bíblia tem ensinamentos mais importante do que os de Cristo - Todos eles são menos importantes e devem ser somente complementares ou até mesmo desconsiderados caso contradigam qualquer um dos ensinamentos de Cristo. Isto é óbvio: o que vale mais? Os vários personagens da bíblia que cometeram erros (matar religiosos divergentes, acumular riquezas, participar de guerras) ou Jesus Cristo que ajudou os necessitados durante toda a sua passagem na Terra e ainda morreu torturado e crucificado? 

A 2ª opção vai exigir que o cristão dedique um tempo para estudar a história do cristianismo, mas não só uma época ou um evento: De preferência o máximo possível, desde as pregações de Jesus (da bíblia mesmo, é claro), passando pelo cristianismo primitivo dos séculos 1 ao 4, pelos concílios dos séculos 5 ao 10, pelo cisma da igreja/ a divisão em igreja apostólica romana e ortodoxa, a fundação das universidades católicas e o surgimento de ordens dissidentes até a renascença! É muita coisa? Sim, mas é uma tentativa de entender os interesses por trás da religião e estes interesses não foram só dos católicos. Por exemplo, o concílio que eu trouxe neste texto é aceito não só pelos católicos, mas também pelo luteranismo e algumas outras igrejas protestantes!

Porque? Certamente não foi por bondade dos fundadores do protestantismo durante o início do século 16. Como alguém manteria tais resoluções claramente centralizadoras de poder como parte dos ensinamentos de Cristo? Como alguém propõe renovar a igreja aceitando resoluções de quase 1000 anos atrás?! Tais questões deveriam ser abertas novamente, como eram antes do concílio da igreja do ano 553, pois são meras conjecturas elevadas ao status de dogmas.

Enfim, talvez eu exija demais dos cristãos... Entendo que nós ocidentais (ainda hoje, neste início de século 21) raramente recebemos um ensino crítico sobre a utilização da religião, da política e da economia como ferramentas de poder. Particularmente tive a sorte de aprender no ensino médio sobre as revoluções cristãs de Jan Hus e de Savonarola, mas hoje com a internet basta digitar esses nomes num "Google" para achar vários sites que contam a história. Para os interessados recomendo fortemente ler sobre Jan Hus e as guerras hussitas, tema importante da história do cristianismo e da Europa. Se sobrar um tempo leia sobre as rebeliões cristãs florentinas nas quais Savonarola foi um dos personagens principais. Só que se tratando de Florença, o assunto é mais complexo e também é bom fazer (ao menos breves) leituras sobre como o platonismo ganhou força ali fomentando a renascença, com Marcílio Ficino entre outros filósofos que atuaram na península italiana naquela época. 

Nem tudo foi conflito, violência e guerra - A renascença, diferente da época do 2º Concílio de Constantinopla (Idade das Trevas), foi importante por causa de seus bons frutos como a propagação da filosofia e das artes e não por causa de disputas por poder religioso ou poder econômico. 

Fontes:

See, e.g. Lutheran–Orthodox Joint Commission, Seventh Meeting, The Ecumenical Councils, Common Statement, 1993, available at Lutheran–Orthodox Joint Commission (B. I. 5a. "We agree on the doctrine of God, the Holy Trinity, as formulated by the Ecumenical Councils of Nicaea and Constantinople and on the doctrine of the person of Christ as formulated by the first four Ecumenical Councils.").
 

Leo Donald Davis (1983), "Chapter 6 Council of Constantinople II, 553", The First Seven Ecumenical Councils (325–787): Their History and Theology, Collegeville, Minnesota: The Liturgical Press, pp. 242–248, ISBN 978-0814656167, retrieved 2014-08-23
 

 

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Para uma Necessidade Social da Doutrina Espírita

 

 O que é espiritismo? Uma religião? Uma filosofia? Tais questões eu abordei neste texto: https://novotemplodauniao.blogspot.com/2022/08/estive-lendo-alguns-textos-espiritas-da.html então trago outra questão tão ou mais importante do que estas: Os centros espíritas representam bem o espiritismo proposto por Allan Kardec?

Não exatamente... Primariamente, os centros espíritas no Brasil desde meados do século 20 desempenham um papel principal de assistência pontual, seja com atendimento "espiritualizado" ou seja com doações para "ONGs" e / ou para determinados grupos de pessoas necessitadas. 

A filosofia espírita escrita (ou decodificada, que seja...) por Kardec mostra preocupação com o desenvolvimento moral e intelectual da humanidade e com isso, mostra também uma busca pelo progresso ao nível coletivo, ou seja, social.

Assim é possível notar que falta a continuidade ideológica social no meio espírita; As explicações espíritas com sua visão espiritual do ser humano e da história requerem uma atuação social também! Fazer do espiritismo algo exclusivamente contemplativo por causa da importância da evolução moral, é contraditório e alienado, pois a proposta filosófica espírita também deve intervir nas lutas sociais conforme a ação criadora dos espíritos que visam o progresso da humanidade... Em outras palavras, espíritos progressistas. 

A proposta de Kardec não é de um espiritismo determinista nem exclusivamente mediúnico! Ela se liga ao humano físico e moral, buscando o progresso coletivo da humanidade como já mencionado. Assim o espiritismo deve se preocupar também com a justiça à nível social, com a democracia e com o bem estar físico e principalmente psíquico do povo, pois estes temas estão vinculados à luta da sociedade e aos resultados do progresso. 

A desigualdade de nossas sociedades não é só sócio econômica, também engloba preconceitos de origem psíquica (raciais, sexuais, culturais etc); Infelizmente há desvalorização de pensamentos sociológicos nos meios espíritas... As pessoas que não lêem as obras de Kardec (incluindo as Revistas Espíritas/ Jornal de Estudos Psicológicos) enxergam o espiritismo como mais uma mera religião de classe média e/ou alta. 

Kardec não era partidário nem fã de político algum, mesmo porque viveu sob uma monarquia (de Napoleão III), mas nunca proibiu assuntos abordados pela política dentro do espiritismo, pelo contrário: mostrou também uma preocupação com o progresso da humanidade e com fatores sociais. Alguns dos espíritos consultados em suas sessões mediúnicas eram socialistas, embora fosse o movimento chamado pejorativamente de utópico após a ascensão do socialismo "científico", este mais novo que era materialista. O socialismo por sua vez deveria também buscar resolver questões éticas e psicológicas; O materialismo manifestado como verdade absoluta (que acaba desencadeando a busca por riquezas materiais ou um estilo de vida hedonista de prazeres materiais como exemplifico neste texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/06/os-perigos-dos-materialismos.html) contradiz a busca por justiça, por equidade e por progresso social, moral e ético. A objetividade é importante para vermos as imperfeições cotidianas sociais e econômicas e então, buscarmos soluções. O destino social da humanidade está ligado ao processo evolutivo do mundo, que o espiritismo também busca ... 

O capitalismo / neoliberalismo não é só um sistema econômico; ele é ideológico, pois dita comportamentos e procurar distrair a humanidade deixando-a acomodada ou submissa. Não bastam só gestos de boa vontade para combater um sistema materialista de vida que retarda a marcha natural da evolução, através da defesa o enriquecimento de poucos que já têm muito, da opressão dos mais pobres e necessitados e da alienação da humanidade. Para se combater todo esse sistema de injustiça é preciso o progresso moral, intelectual e social, com participação através do ativismo, da política, da educação não só técnico-profissional, mas também psicológica, social, histórica etc. Isto explica o porquê alguns estudiosos espíritas ativistas atuaram em áreas como pedagogia e filosofia: Eurípedes Barsanulfo, Anália Franco, Herculano Pires, Humberto Mariotti entre outros foram exemplos de pessoas que puseram em prática a filosofia espírita. 

Os centros espíritas parecem predominantemente tomados por um modelo religioso fechado em si, o que deixa o aspecto filosófico em segundo plano, e permite que o estilo de vida materialista propagado pelo neo liberalismo / capitalismo se propague e influencie até mesmo os frequentadores de tais centros.

Ignorar a realidade social, o progresso da humanidade e a desigualdade no mundo em que vivemos contradiz o espiritismo, pois também contradiz o cristianismo. Seja a partir de uma postura racional de progresso ou uma postura emocional de amor, os espíritas (bem como pessoas humanistas, progressistas ou pessoas de qualquer fé/ espiritualidade verdadeira) devem atuar na sociedade levando em consideração estas questões e buscando progresso, justiça, equidade. Isto faz parte da lei de amar o próximo como a si mesmo, como pode ser visto na seguinte passagem do evangelho:

Mensagem de João Batista a Jesus (Tomé, Mateus, Lucas

E João, ouvindo no cárcere falar dos feitos de Cristo, chamou 2 dos seus discípulos e enviou-os a Jesus, dizendo: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?

Quando aqueles homens chegaram junto a Jesus, disseram: João o Batista enviou-nos a perguntar-te: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?

E, na mesma hora, curou muitos de enfermidades, e males, e espíritos maus, e deu vista a muitos cegos.

Então, Jesus disse-lhes: Ide, e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho. E bem-aventurado é aquele que em mim se não escandalizar.

E, tendo-se retirado os mensageiros de João, Jesus começou a dizer à multidão acerca de João: Que saístes a ver no deserto? uma cana abalada pelo vento?

Mas que saístes a ver? um homem trajado de vestes delicadas? Eis que os que andam com preciosas vestes, e em delícias, estão nos paços reais (palácios).

Mas que saístes a ver? um profeta? Sim, vos digo, e muito mais do que profeta.

Este é aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu anjo diante da tua face, O qual preparará diante de ti o teu caminho.

E eu vos digo que, entre os nascidos de mulheres, desde Adão até João o Batista, não há ninguém tão superior a João Batista que seus olhos não devem ser abaixados (diante dele); mas o menor no reino de Deus é maior do que ele. Ainda assim eu digo que qualquer um de vocês que venha a ser uma criança conhecerá o Reino e se tornará superior a João. E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

E todo o povo que o ouviu e os publicanos, tendo sido batizados com o batismo de João, justificaram a Deus. Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele.

E disse o Senhor: A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes?

São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.

Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio;

Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores.

Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos


Esta passagem, de acordo com a filosofia espírita, Jesus não só explica o percurso da existência do profeta João, mostrando seu valor e importância, como também anuncia a imortalidade da alma, indicando que este é a reencarnação de Elias. 

De tempos em tempos Deus enviou escolhidos, sejam profetas ou indivíduos inspirados, para propagar seus ensinamentos. Porém, muitas vezes, estes escolhidos de Deus para propagar a bondade e a equidade, foram atacados, rechaçados, feridos e até mesmo mortos.

Jesus também afirma que fazem violência contra o Reino dos Céus. Isto pode se referir aos variados movimentos contrários ao bem e à verdadeira espiritualidade. O judaísmo do século 1, além de estar dividido em variadas seitas, estava em sua maioria tomado por sacerdotes corruptos, ou seja, que manipulavam o povo para se manter em posição social e econômica superior e negavam a vida eterna às pessoas. Estes interesses egoístas e tentativas de manipulação certamente se espalhavam por diversas outras religiões dentro e fora do Império Romano e ainda existem hoje no início do século 21.

Por fim, Jesus utiliza a parábola dos meninos que tocaram flauta e cantaram lamentações: Os meninos, assim como as crianças em outras passagens, invocam a importância da humildade. A partir da atitude humilde, Deus ofereceu 2 caminhos: uma para “dançar ao som das flautas” e outro para “se juntar aos cantos de lamentação”. O 1º é o mesmo da parábola da festa (bodas) de casamento - O caminho de Jesus, xingado de comilão, beberrão e amigo dos pecadores, trata-se de viver com alegria, socorrendo os mais necessitados e compartilhando o que se tem em vida e o 2º é o caminho da vigilância, onde tira-se “a trave do próprio olho” para viver em humildade instruindo os demais a abandonarem a ganância e a luxúria, enfim mostrar que deve-se abandonar o egoísmo e praticar a solidariedade, como João Batista fazia e foi acusado de “endemoniado”. Isto mostra como os sacerdotes corruptos só estavam interessados em manter o poder e o prestígio em suas seitas: Recusavam a Deus e sua lei de amor, difamando e atacando Jesus de Nazaré, o Cristo, e os profetas como João Batista. 

O espiritismo como filosofia cristã não só deve estar em acordo com tais ensinamentos, como também estão de acordo com os ensinamentos de Sócrates e Platão... Que aliás, tinham suas semelhanças, respectivamente com Jesus e João Batista, mas não trarei tais detalhes aqui - A intenção deste texto é só evidenciar a necessidade de reaproximar o espiritismo da prática cristã (solidariedade, piedade, equidade, verdade etc), que está de acordo com valores da filosofia socrática/ platônica (o bem/ kalos*, crítica aos discursos falaciosos** e ao hedonismo) e também com muitas das medidas práticas do socialismo (combate à pobreza, à desigualdade e às injustiças geradas pela ganância, crítica à alienação etc), desde antes das publicações de um contemporâneo de Kardec, chamado Karl Marx.

 

*kalos é a palavra grega similar à fine (em inglês) que inclui o bem e a beleza; 

**a retórica: método de exposição usado pelos sofistas, onde ignorava-se a verdade buscando persuadir os ouvintes. 

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

A Relação entre Religião, Espiritualidade e Filosofia: Quais são as finalidades em Comum?

 

Espiritualidade e fé não são Religião 

Há quem diga que existem inúmeras espiritualidades e há quem diga que existem diferentes caminhos para se desenvolver a espiritualidade. Entendo que a segunda expressão faça mais sentido do que a primeira e farei uma breve explicação sobre isso: A espiritualidade é um termo que só passou a ser difundido a partir do século 20, pois antes disso só se utilizavam as palavras religião e religiosidade, ao menos na cultura ocidental (na Europa e nos países colonizados pelos europeus). Certamente isto se deve ao fato da dominância das religiões judaico-cristãs um tanto institucionalizadas sobre a cultura ocidental (destaque para as igrejas católicas e protestantes), que dificultavam o desenvolvimento de uma espiritualidade independente de igrejas e de rótulos. 

A espiritualidade é um termo abrangente que serve para indicar não só a religiosidade, mas também fé e a dedicação espiritual independente das religiões tão dominadas por hierarquias e cheias de dogmas. A espiritualidade então é o que há em comum entre as religiões fora de seus espaços institucionalizados, ou seja, fora das igrejas, dos templos e de grupos com líderes influentes - Ela faz a clara distinção entre fé / devoção espiritual e a utilização de argumentos religiosos como ferramenta de poder. Desta forma entende-se que a espiritualidade e sua abrangência é o que há em comum entre as religiões, não o que separa - A espiritualidade não discute visões particulares de mundo, não impõe regras sobre a fé alheia ou sobre as pessoas que não tem uma fé ou uma espiritualidade. Estando ligado ao que há de comum entre os ensinamentos espirituais, a espiritualidade certamente busca uma (re) ligação com o todo, assim não é preciso dizer que existem várias espiritualidades - É mais correto afirmar que existem diversos caminhos de desenvolvimento espiritual, mas a espiritualidade é uma só, independente de quantos recortes certas pessoas façam sobre o assunto. 

Um olhar da frente psicanalítica sobre a espiritualidade 

A frente psicanalítica de psicologia é constituída pela obra de diversos autores, sendo alguns dos mais famosos Sigmund Freud e Carl Gustav Jung. Os 2 autores que desenvolveram abordagens diferentes entre si, utilizam uma mesma base, o que permite-nos entender que ambos compartilham de uma visão da existência similar entre si - A teoria da mente e/ ou a ontologia das duas abordagens psicológicas (a psicanálise de Freud e a psicologia analítica de Jung) são essencialmente a mesma apesar de algumas diferenças nas terminologias. Ambas consideram que a psique, ou, o aparelho psíquico, é essencialmente constituído pelo consciente e pelo inconsciente. 

Freud particularmente tinha uma visão que ficava entre negativa e reducionista não só da religião, mas também da religiosidade e de sentimentos relacionados a esta, seja a fé, a espiritualidade etc. Jung de modo bem diferente era mais aberto à religiosidade e até estudou alguns de seus aspectos, não a considerando como um mero fator patológico. 

A época em que os 2 autores viveram (as 3 últimas décadas do séc 19 e as 3 primeiras do século 20) foi um período de grande crítica à tudo relativo a religião e à religiosidade dentro da academia e dos meios científicos - até as descobertas de Einstein e de Heisenberg e a difusão de suas teorias, o materialismo era praticamente a única base das ciências, ou seja o pressuposto filosófico/ "ontologia" dominante nas ciências - o que também mantinha o empirismo como único método válido de se construir conhecimento (praticamente reduzia a epistemologia ao saber científico, relegando a filosofia a um segundo plano, seja subordinada à ciência, ou excluída sem ser um saber válido). O "pai do positivismo", Auguste Comte, durante o século 19 tinha elevado a física como uma das ciências superiores (devido seu enfoque na objetividade), o que consequentemente deixava qualquer ciência humana como inferior - Resumidamente, neste processo que se deu no meio científico, muitos sociólogos e psicólogos buscaram argumentos materialistas para defender suas "visões científicas". Este possivelmente é um dos motivos pelo qual a obra de Wundt passou a ser gradativamente menosprezada, mesmo este sendo considerado o fundador da psicologia. 

 A aproximação que Freud faz do materialismo pode ser notada na centralidade das questões sexuais/ biológicas em sua teoria (libido, id, pulsão de vida...), porém sua teoria da mente, assim como a de Jung, ainda é aparentemente dualista - Em momento algum Freud identifica a mente como meramente neurológica, nem a localiza no sistema nervoso. Estas tentativas talvez tenham sido feitas por estudiosos de outras áreas das quais não me aprofundarei aqui. 

Neste quesito então, considero a teoria de Jung não totalmente condizente com o saber espiritual e/ou religioso, porém mais interdisciplinar ou menos reducionista, ao lidar com esta questão. Não utilizarei conceitos específicos de sua teoria como o inconsciente coletivo: Se necessário mencionarei somente sua base (a teoria da mente, os pressupostos filosóficos ou a ontologia) para entendermos a relação da psiquê com a espiritualidade. 

A Espiritualidade vai além de Palavras 

Este é um fato que dificulta qualquer estudo sobre a espiritualidade: Espiritualidade envolve elementos internos do ser humano, de sua psiquê e não envolve diretamente os aspectos mais racionais e sim o sentir e os sentimentos. Os sentimentos por sua vez são expressos por emoções (riso, choro, entonações vocais, gestos faciais, corporais etc). 

Ainda assim a psicologia pode investigar alguma porção da mente e como esta lida com a espiritualidade. Pois uma vez que todo ser humano existe na realidade material e interage com seu meio (social etc), a espiritualidade inevitavelmente envolve questões filosóficas como ética, ontologia (visão do ser e do existir) etc. A psicologia nasceu da filosofia e diversos autores desde Wundt até os fenomenólogos devem ter reconhecido isto. Jung, por sua vez, estuda os valores, embora mais os individuais do que os universais. 

Vamos nos ater então a questão ética da espiritualidade: A espiritualidade pode existir separadamente do(s) valor(es) universais? Certamente não. Ao menos não se levarmos em conta o que há em comum entre os ensinamentos espirituais de cada "religião": Todos eles levam em conta, para não dizer, centralizam seus objetivos, em valores universais, tais como humildade, solidariedade, paciência, auto conhecimento (talvez o zelo, no ocidente), a devoção, a serenidade, o amor, a esperança etc. Nem todos esses nomes individualmente irão aparecer nas diferentes religiosidades ou caminhos espirituais, mas muitos deles surgem indicando no mínimo uma intersecção entre tais caminhos, crenças e/ ou práticas espirituais. 

Estes pontos de intersecção não aparecem somente e isoladamente no início de cada percurso / prática espiritual - Eles surgem desde o início até os fins, ou "objetivos" de cada religiosidade - por isto reafirmo que a espiritualidade é algo universal, pois todos caminhos espirituais nascem com determinadas semelhanças e convergem em um valor universal. É por este mesmo motivo que surgiram movimentos ecumênicos ao longo da história da humanidade - muitas pessoas viram essas intersecções, semelhanças e convergências entre diferentes religiões e caminhos espirituais! 

O que o ser humano adquire ao se dedicar à espiritualidade? 

Dedicar-se à espiritualidade é devotar-se, percorrer um caminho sem se contradizer, em sintonia e/ou busca com valores universais sem voltar atrás - valores estes, que estão além dos individuais. Embora cada indivíduo possa valorizar tal e tal coisa (objeto, ser vivo, grupo, sentimento, estudo etc), os valores universais, como mencionei em outro texto (https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/08/psique-e-importancia-dos-valores.html), são aqueles que não só são bem absorvidos pelo indivíduo, como também têm utilidade geral para toda a humanidade e sua coexistência harmoniosa e diversa. 

A dedicação ou devoção é necessária porque tais valores não surgirão repentinamente nem são absorvidos instantaneamente pelas pessoas. O processo é mental (de sentir, refletir, meditar etc) e também prático, ou seja, de vivenciar e realizar tais ensinamentos em relação ao meio e "ao próximo", ou seja, às demais pessoas. Neste percurso o praticante da espiritualidade, seja ela qual for, vai deixando de lado os interesses mesquinhos, em sua maioria (obviamente) materiais. Isto mostra o quão a "religiosidade" materialista é uma farsa: A realidade interna de cada ser, de cada psiquê, mente ou alma, não é material: É sentimento, pensamento (etc...) como mencionei em diversos textos meus. Expressões da religiosidade materialista, ou seja, que mostram-se centralizadas na matéria perceptível, são essencialmente teologias da prosperidade, como por exemplo, as pregadas por coachs quânticos que idolatram a meritocracia e por pastores que prometem recompensas materiais e enriquecimento de seus fiéis. A realidade material/ perceptível tem sua importância, porém jamais pode ser o centro de uma espiritualidade - esta realidade é um meio, não um fim. Interesses materiais nem sempre estão conectados a um grande mal, porém sempre dão abertura à mesquinharia, portanto à malícia. 

Abertura ao erro: Desprezo pela inocência e aceitação da malícia 

O que é malícia exatamente? Há um antônimo desta palavra? 


 Resultado da busca por antônimos de malícia no Google...

Isto é peculiar: não existe a palavra "benícia" como um antônimo exato, porque a malícia é uma palavra utilizada para males (supostamente pequenos) que se misturam ou se transvestem de esperteza... Talvez mais curioso ainda é que este é um ponto claramente oposto ao desenvolvimento espiritual, seja do cristianismo, do budismo ou de qualquer espiritualidade real, que busque o (um) valor universal. A malícia de modo geral, "reduz" o outro, e isto pode ser feito de variadas maneiras. Seguem alguns exemplos: 

Desrespeitando o conhecimento ou "nível" intelectual da pessoa, tratando-a como estúpida; 

Pressupondo (de pré supor) inferioridade referente ao(s) outro(s), seja racial, espiritual, cultural ou qualquer outra; 

Priorizando uma utilidade fugaz (temporária, imediatista) no indivíduo, seja para aquisição de um bem, de um serviço (utilitarismo) ou de um prazer sexual (sexismo); 

Ignorando a lealdade e/ ou os sentimentos do próximo, enganando-o ou não cumprindo com um acordo... 

Dificilmente a malícia separa-se destes temas e mais dificilmente ainda, alguém que pratica qualquer destes atos, estará se dedicando à espiritualidade. A malícia então torna-se aceitável em determinados círculos sociais sob uma máscara de identidade de grupo, de intelectualidade ou mesmo de naturalidade. Tais ambientes são geralmente tomados por algum nível de hipocrisia, falácia ou de outras atitudes similares a estas. Isto é comum de acontecer não só em ambientes onde não se dedica à espiritualidade, é claro, pois os locais não garantem caráter nem atitudes virtuosas por parte de seus frequentadores. Mais ainda, é público e notório que existem templos e vertentes religiosas inteiras tomadas por discursos de ódio, de mentiras, de fomentação de cisões/ rivalidades e por outras atitudes distantes ou mesmo contrárias a valores universais. 

O fato é que a busca da assimilação de valores universais, seja filosófica ou espiritual, é um processo de purificação - purificação esta que nada tem de cerimonial ou ritualística: é um processo predominantemente mental, porém também de prática, ou seja, de atitudes e ações. Embora o termo purificação possa parecer utópico, ou mesmo polêmico por parecer algo elitista ou exclusivamente "sacro", a purificação é um termo válido quando feita algumas comparações e reflexões: Tal pureza não difere muito do conceito de pureza popularmente atribuído à criança, podendo ser em algum nível similar ou sinônimo de inocência; Certamente buscar/ desenvolver e alcançar uma pureza mental é algo difícil pois difere da criança que "nasce com tal característica". Além disto, infelizmente grande parte de nossas sociedade atual pode e parece tratar inocência como algo pejorativo (consideram tolice etc), mesmo sendo um dos princípios básicos do direito, por exemplo. 

Porém uma grande tolice é considerar a inocência ou a pureza mental como algo inútil/ pejorativo. Algumas pessoas poderiam argumentar que a pessoa com tal característica tem uma fraqueza mental, porém isto é uma grande falácia: é possível ser "puro" ou inocente e também ser inteligente, sábio e/ou ter grande força de vontade. É esta combinação que difere o adulto inocente da criança inocente - a criança ainda não tem conhecimento, sabedoria nem nada similar a isto, pois ela é altamente dependente de seus pais/ cuidadores. 

Purificar-se então não é buscar ser um santo, ou um indivíduo mentalmente isolado do resto da humanidade: é simplesmente eliminar da própria psique, tudo que faz mal a si mesmo e ao próximo - Substituir tais atitudes por algo que traz o bem às outras pessoas e buscar um progresso nesta jornada. É buscar viver e difundir valores universais, como justiça, equidade, empatia, solidariedade, esperança entre outros que citei neste e em outros textos. 

 

terça-feira, 20 de junho de 2023

Psique, Infinito e Deus

 

A mente humana pode pensar sobre muito além da vida cotidiana na Terra: Questões do tipo "como tudo começou", "de onde viemos e para onde vamos", certamente são inimaginavelmente antigas na humanidade. Houve um início? (seja chamado de gênese divina, de expansão cósmica, de big bang ou de qualquer outro nome) São questões que não possuem uma resposta definitiva e podem manter muitas pessoas em dúvida, então apresentarei umas idéias que tive para um projeto de conto. Tais idéias foram inspiradas em diversas leituras que fiz desde 2015 ou 2016... Não me lembro precisamente das fontes, mas devem ser textos principalmente das filosofias da Grécia Antiga, um pouco do judaísmo místico e do espiritismo. 

A criação e a vida se tratam de um resgate, feito pela verdadeira eterna esperança. 

Não há simplesmente um ser e um não ser, existir ou inexistir... isto é uma crença simplória típica dos seres "materiais" do universo tridimensional. 

O que há de mais complexo no universo tridimensional? É a psique, seja considerada alma ou mente. No caso da Terra, é a mente do homo sapiens (humana) que contém uma quantidade gigantesca de informação referente a cada fração de tempo vivida e experimentada. Mas não se trata só da cognição (interpretação, racionalidade, memória etc): trata-se também dos vários sentimentos e das expressões, sejam elas expressões mais objetivas/ racionais ou subjetivas/ emocionais. 

Como o universo e as inúmeras formas de vida poderiam surgir do acaso? Acaso é não-causa, nada pode surgir de tal conceito. Os fenômenos tem causas e a causa não pode ser mais rudimentar nem mais imperfeita do que seus efeitos, do que suas produções. 

A vida e todo o universo não são coisas disformes nem sem nexo. Há alguma falta de harmonia eventual? Certamente, mas por isso mesmo existe harmonia e ordem... E se há inteligência em formas de vida minúsculas diante a (infinita) extensão do cosmo, há inteligência na causa de tudo. 

Com reflexões deste tipo, os filósofos naturalistas (pré-socráticos) da Grécia antiga como Anaxágoras, postularam o conceito de Nous, a mente cósmica, passando por um processo de crítica às religiões politeístas da época e sua respectiva "mitologia". 

Os primórdios misteriosos envolvem essa esperança sábia, revolucionária, entendida, responsável, piedosa, determinada e bela... Esta beleza não se refere meramente a aspectos estéticos, pois belo é o que faz bem não só fisicamente, mas principalmente psiquicamente (seja mentalmente ou espiritualmente, o termo psique serve para ambos). Sócrates, que teve Anaxágoras como um de seus mestres buscava tal beleza e assim ele e seu pupilo Platão, aprofundaram as reflexões sobre tais assuntos, trazendo a importância da sabedoria, da razão, do bem, da justiça etc. A partir dos diálogos de Sócrates/ dos textos de Platão, é possível entender que a mente criadora (Nous) postulada pelos filósofos "pré-socráticos" já não era só racional: era boa também, como Deus apresentado pelo cristianismo... 

Entre inimagináveis conceitos de ser e não ser, de existir e não existir, há nuances, graduações... 

Os aspectos mentais criadores "dos primórdios" são puros e em um processo de extensibilidade (de empatia/ ágape, mas que também pode ser um processo de expansão) derramaram suas "lágrimas" de esperança, amor e serenidade/ receptividade sobre o que "era menos, exista menos"... A eterna verdade é pura, criadora mas também é um ciclo, difícil para seres das dimensões mais simples ("inferiores") entenderem. 

Por mais paradoxal que pareça, o "início" foi um "momento" de "criação" (ou talvez de transformação) do eterno ciclo. 

Um resgate, uma esperança amorosa e serena - que vai muito além do espaço-tempo...

quarta-feira, 22 de março de 2023

Deixar Ir

 

O último texto que escrevi sobre espiritualidade me pareceu um pouco severo, ou ao menos deve ter sido um tanto careta para outras pessoas. 
Então tentarei fazer uma ligeira correção e seguir em um assunto correlacionado: O problema da sexualidade na espiritualidade e na religião não se trata de certo e errado a grosso modo. Se trata de deixar ir. Parece que não, mas o tema está cercado de gostos, preferências etc. 
Tudo o que preferimos ou gostamos pode nos fazer querer ter, manter ou querer mais. Obviamente isto difere de "gosto para gosto", mas independentemente de variações, o limite que estabelecemos para nossos desejos e gostos é uma questão de desapegar, ou seja, de deixar ir. 
No texto anterior um dos temas centrais é (ou deveria ser) o prazer, por motivos óbvios, pois o ato sexual geralmente envolve prazer sensorial. Mas os seres humanos podem se apegar a muitas coisas, e algumas delas não lhes geram prazer sensorial. Entre elas estão o apego por um lugar, um objeto, uma pessoa etc. Estes apegos podem estar carregados de simbologia, ou mais precisamente, de opiniões pessoais compostas por um histórico de vida, experiências marcantes, interpretações sobre assuntos etc. 
O que líderes espirituais como Jesus de Nazaré ou pensadores como Sócrates propõem na verdade, não se trata de uma criação de normas severas - Se trata em parte, do desapego - Este desapego não é desleixo nem insensibilidade, pois tais pessoas espiritualizadas precisam se desapegar de bens materiais e de muitas experiências diretamente relacionadas a este conceito de bem-material (para maiores detalhes veja o final de minha postagem anterior: https://novotemplodauniao.blogspot.com/2023/01/a-sensualidade-e-materialista-demais.html). 
Este desapego das coisas materiais faz parte do processo de valorizar bons sentimentos (amor, esperança...) e conceitos de justiça e verdade - e isto difere muito de bens materiais, afinal ninguém come um sentimento nem toca ou cheira a justiça ou a verdade por exemplo. 
A virtude buscada e ensinada por Sócrates e a lei de amor ensinada por Jesus possuem o objetivo de propagar o bem entre o maior número de pessoas possível. Este bem não é nada difícil de entender: trata-se de piedade, equidade, solidariedade, auto controle, amizade, serenidade, humildade e busca pela verdade. Mas onde entra o desapego? Bem, o desapego está ali próximo à humildade e à serenidade, talvez vinculado ao auto controle. É saber a hora de deixar de querer e/ou ter mais prazeres, de deixar de manter privilégios, de abandonar a comodidade e assim... também trata-se de olhar para o próximo buscando compreendê-lo, de oferecer ajuda ao necessitado, de acolher, mas também de respeitar "o tempo e o espaço" do outro e de deixar as coisas ou pessoas irem quando for a hora. 
Como é um assunto que envolve sentimento, acho difícil continuar em uma explicação com pretensão técnica ou racionalista, então tentarei ilustrar com casos práticos (e emocionais): 
Quando terminei um namoro em 2017, ou mais precisamente, quando uma ex-parceira terminou comigo neste ano, eu fiquei "arrasado". Não demonstrava muito - na verdade escondia bastante crendo que ninguém poderia me ajudar, mas também mantendo sub-conscientemente uma atitude machista (aprendida no meio social) de "homem não chora". Por 3 meses fiquei em profundo sofrimento mesmo desabafando umas poucas vezes com amigos neste intervalo. Só notei uma melhora após algumas sessões de psicoterapia, onde finalmente realizei meu desabafo expressando meus sentimentos daquele namoro e de meu período de sofrimento pós término: Chorando muito na sessão de terapia. Após esta expressão de meus sentimentos eu finalmente comecei a "deixar ir". 
O 2º caso foi o da morte de minha mãe: Poucos dias após mamãe partir, meu irmão ocupou por 6 meses o quarto que pertencia a ela. Isto suprimiu (no mínimo parcialmente, mas talvez quase que totalmente) a representação da perda de minha mãe. Durante este período eu senti falta de mamãe, mas a imagem dela no quarto não sumiu do modo mais natural: Foi substituída pela presença do meu irmão naquele espaço. 
Porém quando meu irmão se mudou deixando o quarto vazio, veio o baque: Como uma perda tardia (ainda que parcial) quase resgatando (ou talvez estendendo) meu luto por mais algumas semanas. Passado este período de tristeza (aqui não importa o tempo externo que é contado com precisão em dias ou horas, mas sim o interno de minha mente - tempo este constituído de minhas memórias e meus sentimentos), eu finalmente "fui deixando ir"... mais uma vez. 
E tive que deixar ir tantas outras coisas em minha vida (pessoas, atividades, serviços, locais/ objetos etc)... Deixar ir faz parte de ser nós mesmos - indivíduos. Indivíduos que, ao buscarem o amor ou a verdade (ou ambos*), não podem impor seus desejos e preferências sobre assuntos, sobre pessoas, sobre lugares etc. Isto é viver os momentos e respeitar os momentos.... Momentos que constituem nossa psique (seja alma ou mente) - não podemos parar nossa existência em um momento nem parar outras pessoas ou objetos em nossa mente. Podemos sim nos lembrar dos bons momentos e de quem nos fez bem, respeitando-os, e isto não é de pouca importância - é o que nos dá força e esperança para seguirmos em frente. 

(*Conforme os ensinamentos de Jesus Cristo e de Platão, entendo que amor e verdade estão vinculados... Este parece um tema interessante para um outro texto.)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

A sensualidade é materialista demais para o cristianismo?

 

Quando o espiritismo surgiu, no séc 19, a mídia mais inovadora era o telégrafo - não era muito progresso desde da imprensa de Gutenberg do séc 15. O transporte terrestre mais veloz eram locomotivas. Em suma, a velocidade de informação era lenta, assim como as relações interpessoais. As opiniões eram bem mais irrelevantes e menos propagadas se comparada com os séculos 20 e 21. Relatos de fantasmas, eventos sobrenaturais e afins certamente pululavam muito mais que hoje. O materialismo estava espalhado mais entre as elites, sejam econômicas ou "intelectuais" de cientistas e filósofos (brancos ocidentais). A própria palavra cientista era novidade daquele século. A África estava prestes a sofrer a pior exploração de toda sua história e a cultura oriental chegava lentamente como algo exótico ou místico no ocidente dividido entre o cristianismo institucionalizado pelas igrejas e os intelectuais influenciados pelo racionalismo antropocêntrico. Esse era o contexto onde foram feitos os estudos espíritas liderado por um linguista pertencente a um grupo de pedagogos revolucionários da Europa (em prática, o professor de Kardec, Pestalozzi, causou uma revolução no ensino). 
 Hoje uma pessoa que relata os fenômenos descritos como "mediúnicos" pelos fundadores do espiritismo, certamente será taxado de louco, pois o materialismo tomou quase que completamente as classes "intelectuais" e ameaça engolir a vasta classe de pessoas com pouco estudo: Consumismo, imediatismo, meritocracia, culto ao corpo, exposição em mídia social, empreendedorismo forçado, são algumas das ideologias materialistas enfiadas goela abaixo do povo. Até mesmo igrejas cristãs vendem a meritocracia e o culto às riquezas materiais, afinal o que é mais fácil: Explicar as parábolas de Jesus e falar da importância do bem e do espiritual, ou prometer recompensas na Terra à uma maioria de pessoas empobrecidas? A ignorância das massas serve para manter os poderosos que parasitam a civilização humana através da desigualdade e da exploração descontrolada de recursos humanos / naturais. Kardec alertava sobre isso: se o discurso que só a matéria existe se espalhar, ninguém vai se importar com a mente, muito menos com temas sobre o espírito, a desencarnação/ morte/ pós vida. Nada vai impedir que todos entrem numa louca busca egoísta por riquezas materiais e prazeres na Terra... (já indiquei a relação do materialismo filosófico com a ideologia/ estilo de vida materialista em alguns textos como neste aqui: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/06/os-perigos-dos-materialismos.html)
 E falando em busca por prazeres na Terra, entremos em um tema polêmico: 

O ato sexual é pecado na espiritualidades cristã? 
Há algumas poucas passagens no novo testamento sobre isto (não citarei o velho testamento, pois além de adequado a um povo mais rude e com menos progresso mental, tornaria o tema muito longo) - Mateus é um dos mais críticos aos atos sexuais, chegando a mencionar que Jesus falou da possibilidade de algumas pessoas se tornarem eunucas para seguí-lo, enquanto Paulo tenta delinear vagas regras sobre o assunto. Lucas critica mais o acúmulo de bens materiais, incluindo o dinheiro, deixando questões sexuais de lado. Pode-se entender os escritos de Mateus e Lucas, como duas alternativas diferentes entre si de resistir tentações da vida terrestre. Porém, focando na relação entre sexo e erro (pecado), é útil buscarmos outros evangelhos e aqui citarei 2 dos apócrifos: Tomé e Felipe. 
Em nenhum momento eles liberam a prática sexual para aqueles que querem seguir os ensinamentos de Cristo, mas porquê? Porque ambos focam na pureza de Cristo e esta pureza mental é a humildade e a esperança contínua de que todos seres humanos amem uns aos outros na ágape de Cristo - o amor incondicional, sem segundas intenções e sem busca por prazeres físicos ou materiais. 
Oras, então eles proíbem toda e qualquer atividade sexual? É claro que não, pois se fosse assim proibiriam a vida na Terra. Porém é bom lembrar que a humildade de Cristo e seu Pai, é amor e esperança do Criador. É como o amor de mãe para com toda sua criação e além, algo difícil de imaginar mesmo. 
Por um outro lado, Tomé torna este eixo de humildade/ amor/ esperança mais claro ao reforçar a importância de nos tornar como crianças: 

Como são os discípulos de Cristo (Tomé) 
Maria disse a Jesus: "Como são os teus discípulos?" 
 Jesus respondeu: "Eles são como crianças que se estabeleceram em um campo que não é deles. Quando os donos do campo vierem, eles dirão: 'Vamos recuperar nosso campo'. Então os meus discípulos (vão) se despir em suas presenças para que eles recuperem seu campo e lhe dêem de volta para eles. Por isso vos digo que, se o dono de uma casa sabe que o ladrão está chegando, ele começará sua vigília antes que ele chegue e não o deixará entrar na casa do seu domínio para levar para longe de seus bens. Você, então, esteja em guarda contra o mundo. 
Armem-se com grande força para que os ladrões não encontrem uma maneira de vir até vocês, caso a dificuldade que você espera (certamente) irá se materializar. Haja entre vós um homem de entendimento. Quando o grão amadureceu, ele veio rapidamente com sua foice na mão e colheu. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça". 
 Esta é uma passagem que mostra a importância da humildade e do desapego em relação às coisas materiais. A humildade também constitui a força de quem segue a lei divina de amor. 

 Desapego à matéria não é amor nem ódio (Filipe) 
Aquele que sai do mundo, e assim não pode mais ser detido pelo fato de estar no mundo, evidentemente está acima do desejo do [...] e do medo. 
Ele é mestre sobre [...]. 
Ele é superior à inveja. Se vier, eles o agarram e o estrangulam. E como este conseguirá escapar das grandes [...] potências? Como ele vai conseguir [...]? Há quem diga: "Somos fiéis" para que [...] os espíritos imundos e os demônios. Pois se eles tivessem o Espírito Santo, nenhum espírito imundo se apegaria a eles. Não tema a carne nem a ame. Se você a temer, ela ganhará domínio sobre você. Se você a ama, ela vai engolir e paralisar você. 
E assim ela habita neste mundo ou na ressurreição ou no lugar do meio. Deus me livre que eu seja encontrado lá! Neste mundo, existe o bem e o mal. Suas coisas boas não são boas, e suas coisas más não são más. Mas há mal depois deste mundo que é verdadeiramente mal - o que é chamado de "o meio". É a morte. Enquanto estamos neste mundo, convém que adquiramos a ressurreição, para que, quando nos despomos da carne, sejamos achados em repouso e não andemos no meio. Pois muitos se desviam no caminho. Pois é bom sair do mundo antes que se peque. 
 Neste texto de Filipe, “a morte”, aparece como um lugar onde as almas apegadas à carne e aos bens materiais ficam vagando. Já a ressurreição neste texto parece se referir à reencarnação em uma das moradas de Cristo, enfim, no Reino dos Céus. 
Desapegar-se do corpo é uma maneira de libertar a alma de seu domínio: Assim a pessoa evita o vício e se mantém fora de disputas mesquinhas/ materialistas. 

 O que entregar aos anjos e profetas (Tomé) 
Jesus disse: "Os anjos e os profetas virão a vocês e lhes darão o que vocês (já) têm. E vocês também, dêem-lhes o que vocês têm e digam a si mesmos: 'Quando eles virão e tomarão o que é deles?'" 
 Jesus diz que os anjos e profetas trazem algo para seus interlocutores. Certamente eles trazem o bem, os bons ensinamentos e os ouvintes de Jesus devem ser seus seguidores, os apóstolos, discípulos, enfim, os cristãos. Então é importante todos os cristãos perguntarem-se: Eu fiz o bem? Fiz tudo o que eu pude crendo na lei divina, que é de amor? 

 Jesus abençoa as crianças (Mateus, Marcos, Lucas) 
Apresentaram-lhe crianças para que lhes tocasse, mas os discípulos repreendiam os que as traziam.
 Jesus, porém, vendo isto, indignou-se, e disse-lhes: Deixai vir pequeninos a mim, e não os impeçais; porque deles é o reino de Deus. 
Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como criança, de maneira nenhuma entrará nele. 
E, tomando-as nos seus braços, e impondo-lhes as mãos, os abençoou. 
 Certamente a maior parte da sociedade da época de Jesus tratava as crianças sem carinho e sem entender que elas são muito dependentes dos pais (de quem as criam). Pois a preocupação com a criança indefesa só começou a se propagar no início do século 18, e o entendimento da necessidade infantil por afeto só se propagou com estudiosos como Pestalozzi durante o século 19 na Europa. Jesus já sabia da importância de tratar as crianças com expressões de bons sentimentos, como o carinho, e também sabia como elas estão abertas a aprender não só racionalmente/ cognitivamente, como também são abertas às emoções que os adultos transmitem a elas. Esta receptividade da criança pode ser comparada com uma humildade interior, ou seja, um dos requisitos básicos para seguir a Cristo e a lei divina de amor ao próximo e a Deus. Sem receptividade e sem humildade não se entra no reino dos céus, na verdade, nem se vive em paz na Terra. Ser receptivo não é ser frágil, nem aceitar qualquer ideia apresentada, afinal Jesus também exige de seus discípulos, vigilância e devoção à solidariedade. Ele diz “sejam pacíficos (inofensivos, simples) como a pomba e espertos (prudentes) como a serpente”. 

 Como se tornar crianças do Reino dos Céus (Tomé, Filipe) 
Jesus viu crianças sendo amamentadas e disse aos seus discípulos: 
Estas crianças que estão sendo amamentadas são como aquelas que entram no Reino. Eles lhe disseram: Devemos nós, então, como crianças, entrar no Reino? 
Jesus lhes respondeu: Quando vocês fizerem o(s) dois um, e quando vocês fizerem o interior como o exterior e o exterior como o interior, e o acima como o abaixo, e quando você fizer o macho e a fêmea uma e a mesma, para que o macho não seja macho nem o feminino feminino; e quando você faz olhos no lugar de um olho, e uma mão no lugar de uma mão, e um pé no lugar de um pé, e uma semelhança no lugar de uma semelhança; então você vai adentrar [o Reino]. 
O Senhor fez tudo em um mistério, um batismo e uma crisma e uma eucaristia e uma redenção e uma câmara nupcial. [...] 
ele disse: "Eu vim para fazer as coisas de baixo como as de cima, e as de fora como as de dentro. Eu vim para uni-las no lugar." 
[...] aqui através de tipos [...] e imagens. 
 Tomé mostra que Jesus ensinava sobre a importância de abandonar o conceito de sexualidade: O homem não é melhor do que a mulher, nem vice-versa - pois ambos devem buscar características dos “dois lados” neutralizando a convenção social do que é um homem e do que é uma mulher. O verdadeiro amor, ou seja, o amor de Deus, pouco se importa com convenções terrestres de sexualidade/ “gênero”: Os sentimentos bons e puros estão muito acima de tabus, de interesses em prazeres sensoriais e de vantagens materiais. 
Interessante como isto também está de acordo com Sócrates e Platão: A busca pelo bem e pela verdade é essencialmente mental (de “psiquê”, ou seja, da alma), assim ela é muito mais sublime e mais importante do que os prazeres sensoriais intensos como os que envolvem a sensualidade e suas disputas, impulsos e vícios. 
Reforçando a importância do mental, ou seja, da alma, Jesus disse para seus discípulos tornarem seu exterior como o interior - Isto é ser verdadeiro (de certo modo, como a criança, que é espontânea, sem a mesquinharia, o preconceito e a malícia típicos de adultos), não esconder nada, tornar sua aparência externa harmoniosa com sua alma. Assim, o corpo puro, se torna como a alma, que em sua origem como criação de Deus, é luz pura: A luz no sentido espiritual, além do universo material. Isto é unir o corpo com o espírito, o gnóstico com o ortodoxo, o que pensa no bem da alma e do mundo espiritual e o que pensa no bem do corpo e no bem do mundo material. 

 Mistério da união profana e da união sagrada (Tomé, Filipe) 
Jesus disse: “Miserável é o corpo que depende de um corpo, e miserável é a alma que depende desses dois”. 
As formas de espírito maligno incluem as masculinas e as femininas. Os machos são aqueles que se unem com as almas que habitam uma forma feminina, mas as fêmeas são aqueles que se misturam com aqueles em forma masculina, embora alguém que foi desobediente. E ninguém poderá escapar deles, pois eles o detêm se ele não receber um poder masculino ou um poder feminino, o noivo e a noiva. Um os recebe da câmara nupcial espelhada. Quando as mulheres devassas vêem um homem sentado sozinho, elas saltam sobre ele e brincam com ele e o contaminam. Assim também os homens lascivos, quando vêem uma bela mulher sentada sozinha, a persuadem e a constrangem, querendo contaminá-la. Mas se virem o homem e sua mulher sentados um ao lado do outro, a mulher não pode entrar no homem, nem o homem entrar na mulher. Assim, se a imagem e o anjo estão unidos um ao outro, ninguém pode se aventurar a entrar no homem ou na mulher. 
 Muitos dos textos de Filipe e de Tomé foram feitos em linguagem não clara, parecendo abordar temas místicos e espirituais. 
Aqui Tomé diz que um corpo que depende de outro é miserável e qualquer alma que dependa desses dois corpos também é miserável. 
Filipe diz que espíritos malignos tem gênero, ou seja, um sexo. O espírito é alma, que em prática é mente, portanto, originalmente não possui um corpo físico dotado de órgão genital. Então ele deve indicar que estes são espíritos dependentes dos corpos/ apegados à carne, que buscam seres encarnados com alguma disposição a infidelidade ou ao sexismo. Encontrando tais seres, os espíritos agem sobre eles, pois estão apegados/ viciados às relações sexuais, ou seja aos dois corpos nestas condições. Mas os casais verdadeiramente unidos, ou seja, que se uniram sem interesses materialistas (sejam interesses financeiros, de bens ou interesses sexuais) e que honram um ao outro em amizade, buscando conhecer um ao outro, são invulneráveis a tais espíritos malignos. Estes casais verdadeiros estão mais “próximos ou unidos ao anjo”. 
Enfim, somente no final do texto, Filipe menciona o bem. A partir daí é importante lembrar que textos com tais argumentos só são relevantes se o bem for considerado como prioridade: É muito mais importante estudar o bem e praticá-lo do que teorizar sobre o mal. 

 O valor da alma e do corpo (Tomé, Filipe) 
Jesus disse: "Se a carne veio a existir por causa do espírito, é uma maravilha. Mas se o espírito veio a existir por causa do corpo, é uma maravilha das maravilhas. Na verdade, estou espantado com a forma como esta grande riqueza fez sua casa nesta pobreza." Ninguém vai esconder um grande objeto valioso em algo grande, mas muitas vezes alguém jogou incontáveis milhares em algo que vale um centavo. Compare a alma. É uma coisa preciosa e veio a estar em um corpo desprezível. 
 Estas citações (mais mentalistas/ espiritualistas) de Felipe e Tomé mostram como a alma em sua imortalidade é mais valiosa que o corpo, também colaborando para explicar o porquê da origem humilde de Jesus de Nazaré. O espiritismo reforça bastante este entendimento, pois de acordo com esta filosofia podemos evoluir de maneira praticamente infinita intelectualmente e sentimentalmente através de um número qualquer de encarnações/ reencarnações. A carne, ou seja, o corpo material / terrestre morre dentro de um período de tempo, mas o espírito prossegue em sua jornada em busca do bem maior, do Todo, de Deus. Quando Filipe compara o corpo com algo que vale um centavo e o chama de desprezível, não se trata de desprezar a vida alheia e sim, de não querer mais do que o necessário para si mesmo em vida. O corpo é temporário e não levamos bem material algum com nossa alma que pode e deve transcender para além da vida terrestre. Nós seres humanos, em prática somos essencialmente sentimento e pensamento, ou seja, alma. Temos instintos de sobrevivência e muito mais que isso: Temos capacidade de aprender, de expressarmos com artes, de inventarmos desde ferramentas até histórias, temos pequenos desejos e grandes sonhos ou objetivos, enfim possuímos complexidade em todo nosso âmbito mental (esta complexidade deve fazer parte da riqueza cuja Tomé indica que Jesus mencionou) e essa mente voltada a toda a diversidade na Terra possivelmente é uma parcela de nossa essência (alma), que tem um potencial literalmente transcendente. 

 Verdadeira causa das dissensões (1ª Epístola aos Coríntios) 
A vós, irmãos, não pude falar como homens espirituais, mas como a (homens) carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu vos dei leite a beber e não alimento sólido que ainda não podieis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto houver contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um modo totalmente humano? 
 Importante notar como as epístolas do apóstolo Paulo, escritas alguns anos após a morte de Jesus de Nazaré, trata os cristãos como seres humanos em seu contexto cotidiano de sua época (século 1) e local (Império Romano). 
 Paulo começa este texto explicando que não pode se comunicar aos cristãos como indivíduos espirituais, ou seja, os receptores de sua mensagem ainda não estavam desenvolvidos espiritualmente para receber as mensagens cristãs do apóstolo. Ele continua dizendo que passará seus ensinamentos como se estivesse dando leite às crianças, o que certamente explica porque Jesus deixou tantas mensagens na forma de parábolas. Por variados motivos, o povo chamado de carnal por Paulo, é o povo apegado à vida material: seja apegado às rotinas de trabalho, aos prazeres materiais, a determinadas pessoas e líderes, ao acúmulo de bens e riquezas como dinheiro etc. O mundo material é muito diverso e se apegar a ele, de acordo com Paulo, é a principal causa das contendas, ou seja, das disputas, rivalidades que acabam deixando Deus e sua lei de amor em segundo plano. Estes costumes rudimentares perduraram entre cristãos e pessoas de diversas outras religiões durante séculos depois da morte de Jesus, mais precisamente, ainda perduram até os dias de hoje, neste início de século 21, mas houve um lento e vago progresso: Com a divulgação da filosofia durante o período colonial, com a propagação das ciências e a revolução industrial na era moderna e com a difusão de sociedades mais democratizadas na pós-modernidade, a linguagem das parábolas vai se tornando obsoleta. Tanto que em meados do século 19, o movimento espírita tenta esclarecer várias das passagens de Cristo deixadas na forma de parábolas. 
 A soma (e / ou a intersecção) de todas estas passagens de textos cristãos arcaicos (do século 1 ao século 3) dão uma boa ideía da importância da humildade e da alma em detrimento à sexualidade e à priorização do corpo, dos prazeres do corpo e do acúmulo de bens materiais. Para finalizar, é interessante notar que a filosofia cristã do espiritismo reforça estas noções de maneira breve, se não for estudado os ensinamentos de Sócrates e Platão, pois uma das poucas menções espíritas sobre o assunto se dá no seguinte trecho do livro dos espíritos: 
 693. São contrários à lei da natureza as leis e os costumes humanos que têm por fim ou por efeito criar obstáculos à reprodução? 
 “Tudo o que embaraça a natureza em sua marcha é contrário à lei geral.” 
 a) — Entretanto, há espécies de seres vivos, animais e plantas, cuja reprodução indefinida seria nociva a outras espécies, e da qual o próprio homem acabaria por ser vítima. Pratica ele ato repreensível, impedindo essa reprodução? 
 “Deus concedeu ao homem, sobre todos os seres vivos, um poder de que ele deve usar, sem abusar. Pode, pois, regular a reprodução, de acordo com as necessidades; não deve, porém, opor-lhe obstáculos desnecessariamente. A ação inteligente do homem é um contrapeso que Deus dispôs para restabelecer o equilíbrio entre as forças da natureza, e é ainda isso o que o distingue dos animais, porque ele obra com conhecimento de causa. Mas os próprios animais também concorrem para a existência desse equilíbrio, porquanto o instinto de destruição que lhes foi dado faz com que, provendo à própria conservação, obstem ao desenvolvimento excessivo, quiçá perigoso, das espécies animais e vegetais de que se alimentam.” 
 694. Que se deve pensar dos usos cujo efeito consiste em obstar à reprodução, para satisfação da sensualidade? 
 “Isso mostra uma predominância do corpo sobre a alma e quanto o homem está apegado à matéria.” 
 Por fim, os ensinamentos de Sócrates distribuídos em algumas obras de Platão (como Filebos, Fedro, entre outros registros), ocasionalmente relacionam os prazeres sensoriais com o bem e com o mal, sendo possível chegar a uma classificação aproximada da seguinte maneira: Os prazeres mais suaves (da visão e da audição) são os mais próximos do bem, enquanto os mais ardentes (os sabores mais intensos ou deliciosos para o paladar e os prazeres sexuais para o tato, que são os que podem causar vícios) estão em uma posição oposta aos primeiros. Aqui segue um diagrama com um resumo sobre uma possível interpretação platônica sobre o assunto:

 


A conclusão pode parecer utópica nos dias de hoje: Tanto o cristianismo anterior ao século 19 (período que surge o espiritismo) como o posterior, indica que a sensualidade e a busca por prazer sexual estão mais para o erro (pecado) do que para uma atitude correta. Porém esta conclusão não contradiz a função básica do ato sexual que é a reprodução da espécie... Ela só bate de frente com a atual sociedade materialista que foi normalizando o sexismo, a vaidade e a objetificação do ser humano, principalmente da segunda metade do século 20 até este início de século 21.

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...