sábado, 16 de dezembro de 2023

Leitura Ecumênica... da "genealogia" de Jesus

 Aqui trato dos textos que citam uma linhagem para Jesus de Nazaré. 

Diferentemente da Bíblia que separa os evangelhos por autores, nestas leituras ecumênicas tentarei juntá-los em uma suposta ordem cronológica, para depois comentar sob o olhar de diferentes pontos de vista: 

Prólogo/ Genealogia (Mateus 1: 1-18, Lucas 3: 23-38) 

Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou a Isaque; e Isaque gerou a Jacó; e Jacó gerou a Judá e a seus irmãos; Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão; Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom; e Naassom gerou a Salmom; Salmom gerou, de Raabe, a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé; Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão da que foi mulher de Urias. Salomão gerou a Roboão; e Roboão gerou a Abias; e Abias gerou a Asa; Asa gerou a Josafá; e Josafá gerou a Jorão; e Jorão gerou a Uzias; Uzias gerou a Jotão; e Jotão gerou a Acaz; e Acaz gerou a Ezequias; Ezequias gerou a Manassés; e Manassés gerou a Amom; e Amom gerou a Josias; Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos na deportação para babilônia. E, depois da deportação para a babilônia, Jeconias gerou a Salatiel; e Salatiel gerou a Zorobabel; Zorobabel gerou a Abiúde; e Abiúde gerou a Eliaquim; e Eliaquim gerou a Azor; Azor gerou a Sadoque; e Sadoque gerou a Aquim; e Aquim gerou a Eliúde; Eliúde gerou a Eleazar; e Eleazar gerou a Matã; e Matã gerou a Jacó; E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo. De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze gerações; e desde Davi até a deportação para a babilônia, catorze gerações; e desde a deportação para a babilônia até Cristo, catorze gerações. 

 Este é o texto de Mateus que tem algumas diferenças em relação ao de Lucas (não mencionado aqui por razões que explicarei adiante), mas ambos tentam traçar a linhagem de Jesus de Nazaré - talvez porque isto fosse uma preocupação da época. 

A relevância destas tentativas é mínima diante dos ensinamentos de Cristo que priorizam o amor: O amor se manifesta através de virtudes/ posturas como humildade, receptividade, zelo, paciência, devoção, força de vontade e piedade… Pouco tem a ver com buscar uma linhagem de sangue para Jesus Cristo. 

Buscar tal linhagem pode fomentar uma mentalidade nacionalista e/ ou materialista, que prioriza a matéria, a tradição de uma determinada cultura e os laços “sanguíneos” ao invés de priorizar os bons sentimentos, pensamentos e atitudes. Possivelmente o lado bom em se traçar a genealogia de Jesus de Nazaré, seja mostrar que Deus sempre deu preferência a um povo humilde ao longo da história da Terra, e não à classe dominante de gente gananciosa e belicosa de impérios, como o Egito, a Assíria, a Acádia, a Babilônia e a confederação Fenícia que existiam ao redor dos povos hebreus/ judaicos. 

Porém vale lembrar que Deus, como criador do universo, transcende o espaço e o tempo. É prepotente e contraditório (portanto ilógico) querer prender a natureza de Deus apenas à Terra. É absurdo afirmar que Deus depende de uma linhagem de uma espécie em um pequenino planeta na vastidão do infinito. Tal argumento pode dar margem para doutrinas eugenistas e racistas, pois incita religiosos a invocarem uma linhagem divina particular entre os seres humanos. Incita os religiosos a afirmarem que Deus é exclusivo de determinada religião e que o resto (outras religiões, espiritualidades etc) é profano, do demônio etc.

Deus é um, Uno, supremo, onipresente e ama toda a sua criação e portanto ama toda espécie humana, todas suas culturas e nações. Deus ama todo o planeta Terra e muito mais - seu amor perpassa o espaço e o tempo. 

O evangelho de Felipe aponta que Deus não dependeu de linhagem alguma para encarnar como Jesus de Nazaré na Terra e o espiritismo indica que existem espíritos próximos de Jesus fora da cultura judaico-cristã, sendo alguns deles Sócrates e Platão, por exemplo. 

Na Kriya Yoga entende-se a importância da união entre os povos, entre toda a humanidade e mostra-se os vínculos entre as religiões e espiritualidades orientais e ocidentais. Alguns gurus / swamis / yogis da Índia também fazem orações a Jesus Cristo, além de respeitar e admirar as pessoas devotas que vivem de acordo com os ensinamentos de Jesus. Muitos "hindus" até mesmo aceitam a “santificação” comum entre católicos (o termo sri é traduzido como santo). Assim como o espiritismo e a filosofia de Platão, os praticantes da Kriya afirmam que Deus é um só, e que originalmente todas religiões deveriam levar os seres humanos à Deus. Deus este que criou toda a vida, todos seres humanos, sejam umbandistas, hindus, taoístas, budistas, islâmicos, judeus, cristãos, celtas, gregos, romanos, tupis, guaranis, astecas, esquimós, japoneses, árabes, portugueses, finlandeses, quenianos etc. Deus não prefere uma ou outra cultura, nem uma ou outra religião. É quem segue a lei divina de amor que une-se com Deus, independentemente de onde nasceu.


sábado, 9 de dezembro de 2023

Leitura ecumênica de "O Verbo" (João)

Deste post em diante devo trazer visões ecumênicas (dentro dos limites das religiões e filosofias que conheço) sobre os evangelhos de João, Lucas, Marcos e Mateus. Talvez eu também traga um pouco dos textos atribuídos a Tomé e Felipe nos próximos meses.

O Verbo (João 1: 1-18) 

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. 

Ele estava no princípio com Deus. 

Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. 

Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. 

E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. 

Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João (o Batista). 

Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. 

Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. 

Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. 

Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. 

 Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. 

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; 

Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. 

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. 

João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. 

E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça. 

Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. 

Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou."

Certamente, desde o século 1 até este início de século 21, textos como este são considerados místicos, ou com forte teor místico. Isto porque falar sobre a criação do universo (a origem de tudo) ou sobre o Criador é falar do transcendente, ou seja, é falar do que vai além do que a maioria das pessoas neste início do século 21 ainda entendem por tempo e espaço. O tema toca a questão da Trindade e outros assuntos, todos misteriosos e difíceis de decifrar, justamente pelo fato de tratar do que está além da vida corpórea / sensorial, ou seja, o transcendente. 

A Kriya Yoga relaciona este trecho de João com Apocalipse 3:14: “Estas coisas diz o Amém, a testemunha verdadeira, o princípio da criação de Deus”. O “Om” dos Vedas veio a ser a palavra sagrada Hum dos tibetanos, Amin dos muçulmanos e Amém dos egípcios, gregos, romanos, judeus e cristãos. Em hebraico, seu significado é seguro, fiel. 

João trata da origem de Cristo como espírito, não apenas do Jesus encarnado em Nazaré. Assim, entende-se que Cristo é o espírito mais elevado e uno com Deus, pois estava (existe) desde o momento da criação do mundo (Terra) e possivelmente desde a criação do universo também. 

Existem diferentes visões sobre Jesus: desde as religiões tradicionais que explicam que ele é Deus até leituras meramente históricas que o tratam como um ser humano normal. Independentemente de propagar certezas, é bom evitar extremos, pois são visões mais reducionistas que tendem a dar abertura a conflitos e discórdia. Além disto, as diferentes religiões e espiritualidades podem conjecturar diferentes níveis de seres entre a Terra e Deus, sejam eles espíritos, anjos, devas ou daemons.

Porém teorizar uma hierarquia espiritual que o ser humano em sua vida corpórea dificilmente teria acesso, pode ser feito entre pessoas da mesma crença sem grandes problemas, mas, sendo um dos temas que não trata diretamente dos ensinamentos de Cristo, ele pode facilmente gerar discórdia entre pessoas de diferentes religiões e culturas. Buscando pontos convergentes, ou seja, em comum, com outras religiões, é interessante notar que o apóstolo João cita o termo o Verbo: Isto traz uma vaga semelhança aos textos da gênese da religião do profeta Mani (maniqueísmo), onde o chamado de Deus torna-se uma deidade. Mani propunha uma religião judaico-cristã e sincrética (com o zoroastrismo e o budismo) durante o conturbado ressurgimento do Império Persa (sob a dinastia Sassânida) na Ásia, aproximadamente onde hoje estão o Irã e o Iraque. Entre seus textos ficaram conhecidas as explicações sobre a gênese, anjos caídos e Adão. João também diz que a luz resplandeceu nas trevas, mas esta última não compreendeu e Mani diz que a luz de Deus foi recuperada das trevas que a engolia ou a cercava. Por fim, João admite a Trindade (Pai, filho e Espírito Santo) enquanto Mani cita o Deus Criador, a Mãe da Vida (Espírito Vivo) e o Homem Original. 

Apesar das vagas semelhanças entre diferentes espiritualidades e religiões, não é muito produtivo discutir mais detalhes sobre a trindade, origem e/ ou forma de Deus, de seus anjos e/ ou espíritos, uma vez que os seres humanos, ao invés de olharem para as semelhanças, tendem a olhar para as diferenças e defender suas próprias opiniões, deixando de lado a piedade e alegando inexistências, impondo restrições e atacando uns aos outros devido às interpretações divergentes etc.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Uma União... Seja Antiga ou Nova.

Um breve resumo da longa história do ecumenismo e do sincretismo religioso 

Quando estudei variadas mitologias entre os anos de 2015 e 2018, eu percebi vários elementos semelhantes entre algumas delas. Estas semelhanças variam entre quantidade e qualidade. Por exemplo, o mito grego do nascimento de Zeus e como seu pai, Cronos, tentou destruir ele e seus irmãos, é quase idêntico ao mito hitita/ hurrita (antigos reinos da Anatólia) de Tarhunt e seu pai Enlil. O mito de Enlil e seu pai Anu, deus dos céus, por sua vez, aparece nos antigos reinos da Mesopotâmia e é similar com o de Cronos e Urano, deus dos céus (Ouranos, o Caelus em Roma), contado pelos poetas gregos. Ao debruçar-me sobre as semelhanças inter religiosas do antigo politeísmo afro-eurasiático, fui descobrindo personagens e histórias semelhantes entre variadas culturas até que achei alguns vagos traços de semelhança entre judaísmo e antiga religião egípcia. 

Se ignorarmos a “visão” de Brahman como O Deus único e supremo no hinduísmo (há interpretações politeístas), o judaísmo possivelmente é a 1ª religião monoteísta da Terra, porém ao surgir entre pequenas tribos cercadas por impérios da antiguidade, a data de seu início é controversa. Numa visão religiosa hebraica/ judaica, ela certamente se inicia com Adão ou com seus filhos por volta dos anos 4000 aC ou 3900 aC. Porém numa visão mais cética baseada em evidências materiais é possível datá-la por volta de 1350 aC, aproximadamente durante o governo do faraó Akhenaton (reinado de 1353 aC a 1334 aC) no Egito. Interpretações mais reducionistas existem, mas não trato delas aqui. 

As curiosidades “inter religiosas” ou “sincréticas” me levaram a alguns caminhos: O caminho dos hermeneutas indicava que havia uma espiritualidade mediterrânea (egípcia, cananéia, judaica, mesopotâmica, hitita/ hurrita, greco-romana) que continha elementos em comum. Isto é abordado por Evêmero (~330 aC - 250 aC) e Eusébio de Cesaréia (265 - 339) - este último teria seguido a “linhagem” de estudos de Filo de Biblos e Sanconíaton. Porém estas linhas de estudo priorizam supostos rastros materiais possivelmente perdidos nos dias de hoje, e, ao traçar tal percurso, trata mais dos personagens como reis divinizados. O caminho do hermetismo (~100 - 300), ou do sincretismo religioso, vai indicar a mistura das práticas místicas e religiosas em si e mostra um elo entre judaísmo, helenismo (religiões gregas), zoroastrismo e politeísmo egípcio. Este último caminho possivelmente se ramifica através de trocas culturais e uma destas ramificações desemboca no pitagorismo. O pitagorismo em si parece ter sido centrado na misteriosa religião órfica da Grécia antiga, porém diferentemente da religião politeísta popular grega, este movimento filosófico religioso apresentava características de religiões de outras culturas (egípcia, mesopotâmica e talvez outras como a hindu, celta, iraniana etc) e aspectos mais racionais ao se aproximar da filosofia (precursora da ciência). Portanto, o pitagorismo se afastava da ritualística, dos frenesis e transes. É justamente por esta aproximação da racionalidade e do autocontrole/ consciência de si, que Platão aceita alguns elementos do pitagorismo. 

Com Platão e seu mestre, Sócrates, a questão ética, ou a questão do bem, finalmente é trazida para o centro da religiosidade e não só isso: para o centro da recém surgida filosofia ocidental. Obviamente divulgar a importância do bem, da razão, da justiça e do amor não é algo fácil: Mesmo com o espalhamento da cultura grega pelo mundo através do Império greco-macedônico de Alexandre, o Grande, as gerações de filósofos depois de Platão “fizeram reinterpretações, adaptações e ramificações” na filosofia. Apesar de revolucionar o modo ocidental de pensar, a Academia de Platão durou somente de 384 aC a 86 aC, pois foi destruída pelos exércitos romanos liderados por Susa. Este e outros fatos indicam que a filosofia fundada por Platão sofreu tentativas de silenciamento e perseguições. No século 1, durante o período “pacífico” do Império Romano (a Pax Romana) os acadêmicos (da academia de Platão) já não existiam mais e os filósofos céticos já haviam desvirtuado em algum nível a filosofia de Sócrates e Platão. Neste período surge o “médio platonismo” com filósofos tentando restaurar a originalidade da filosofia ocidental organizada por Platão, mas sem negar totalmente um sincretismo com outras filosofias. O termo platonismo me parece mais adequado para designar os “estudiosos” ou “seguidores” de Platão a partir deste momento da história. Neste período da história também aumentam a quantidade de sincretismos tanto filosóficos como religiosos e surge o cristianismo. 

O cristianismo é um conjunto de ensinamentos monoteísta, surgido no século 1, que mostra a importância verdadeira do amor. Não existiam igrejas cristãs quando Jesus de Nazaré, o Cristo, andou pela região do Levante propagando seus ensinamentos centrados no amor piedoso. Jesus não proibiu templos, mas nunca construiu um e nem ordenou a construção de templos, embora haja uma interpretação de que ele tenha dito algo deste tipo à Pedro. Jesus ensinou dentro de alguns templos judeus (sinagogas), mas não ensinou o judaísmo em si, pois ao trazer a ênfase no amor a tudo, não admitiu absurdos como a vingança aceita entre judeus. Além disso, Jesus passou a maior parte do tempo caminhando e auxiliando os mais necessitados e rejeitados. Não há algo errado especificamente em assistir cultos ou missas, mas a prática cristã vai muito além dos templos e igrejas: Ela é um modo de pensar, expressar e agir no mundo. Um modo centrado no amor piedoso, pois o monoteísmo ensinado por Jesus Cristo não é sinônimo de “povo escolhido”, muito menos sinônimo de separatividade. É união entre todos filhos de Deus, ou seja, entre toda a humanidade, entre toda a vida, por mais difícil que isso pareça. Isso por si só já deveria mostrar de maneira óbvia que os ensinamentos cristãos não foram difundidos para se formar grupos fechados: Os cristãos devem se pautar por semelhanças e por igualdade entre as religiões, as espiritualidades e as filosofias, pois as diferenças só deveriam ser causa de afastamento quando entrassem em contradição clara contra os ensinamentos de Jesus, ou seja, contra o amor, a piedade, a solidariedade e a humildade. Os ensinamentos de Cristo têm esse claro viés ecumênico: Jesus busca harmonia mesmo com aqueles que têm cultura e modos diferentes dos seus. O cristianismo e o ecumenismo exigem amor e equidade. 

Uma busca pela visão ecumênica do cristianismo

O amor então é o centro dos ensinamentos de Jesus Cristo, sendo a dádiva e a virtude mais preciosa que Deus deu aos seres humanos. 

Por volta dos séculos 1 e 2, após a morte de Jesus, são feitos os escritos essenciais do cristianismo e começam a surgir algumas divergências no que se refere a diversos detalhes da doutrina, assim começa a se formar o que entende-se por religiões (cristãs, neste caso). Estas divergências certamente ocorreram pela influência de outras doutrinas religiosas, outras filosofias e outras culturas espiritualistas, conforme pessoas de diferentes regiões se interessavam pelo cristianismo e entendiam verdades em seus ensinamentos. Porém neste período o cristianismo era pouco ou nada aceito entre pessoas em posição de poder social e/ ou econômico. 

O cristianismo só começou a ser institucionalizado na forma de igrejas de maneira significativa no século 4, ou seja, cerca de 3 séculos após a morte de Jesus, quando os imperadores romanos começaram a mostrar determinados interesses na doutrina, obscurecendo a importância do tema central cristão: O amor. 

 O evangelho contado pelos apóstolos Mateus, Marcos, Lucas e João é considerado o centro dos ensinamentos de Jesus Cristo, conforme as religiões cristãs, e diversas foram suas interpretações ao longo da história. 

Os evangelhos de Tomé e de Filipe têm alguns temas mais místicos, outros mais reveladores e alguns mais controversos, em relação ao evangelho aceito dos 4 apóstolos nas religiões. Embora o de Tomé tenha várias semelhanças com os evangelhos de Lucas, Marcos e Mateus, o texto atribuído a Filipe é notoriamente de uma época posterior aos apóstolos que viveram com Jesus. 

As explicações que darei nos próximos textos sobre o cristianismo e o ecumenismo levam em consideração a atenção especial que Jesus deu à vida na Terra. Esta atenção foi voltada principalmente aos mais necessitados, que mal tinham o básico para viver: cegos, surdos, leprosos, desabrigados, famintos, crianças, mulheres, prostitutas e outras pessoas vulneráveis. Estas pessoas eram muitas, pois o sistema social e econômico, não muito diferente dos dias atuais, era cheio de injustiças e iniquidade durante a época do Império Romano em que Jesus andou pela Terra. Este sistema injusto, inútil para a maioria das pessoas que eram pobres, está ligado às críticas que Jesus faz aos ricos, aos líderes religiosos e ao dinheiro. 

Além disto, um tema tão importante quanto este é a vida espiritual tratada por Jesus: Jesus menciona em diversas passagens a importância de se fazer o bem, não apenas para propagar o amor e a equidade na Terra, mas também para que as pessoas (suas almas, ou espíritos) pudessem alcançar o reino dos céus, ou, uma das moradas de Cristo. A prática e a teoria do cristianismo tem coerência entre si: Não faz sentido alegar ser cristão e não pôr em prática o amor piedoso. Este amor pede atitude solidária com as pessoas. Além disto, não adianta realizar ajuda material a alguns indivíduos ou grupos e pensar de modo egoísta ou planejar atos nocivos contra outros. 

Eu abordarei passagens da bíblia, particularmente os ensinamentos de Jesus Cristo, seguidos por observações que podem ter influência de diversas “espiritualidades”, sejam elas filosofias ou teologias. Alguns exemplos são: O platonismo, o espiritismo de Allan Kardec, a Kriya Yoga e a teologia da libertação. 

O “platonismo” é a raiz e o cerne da filosofia de todo ocidente (basicamente Europa e América após a colonização). Surgida na Grécia clássica (do século 4 antes de Cristo) a filosofia desenvolvida por Platão é baseada nos ensinamentos e diálogos de Sócrates, mas com influência de alguns filósofos anteriores, como Anaxágoras, Parmênides e Pitágoras. Como mencionei anteriormente, a filosofia platônica incita a busca pela sabedoria e pela verdade, que naturalmente deve levar ao que é bom, belo e justo. 

O espiritismo baseia-se nos textos do pedagogo e tradutor francês, Hippolyte Léon Denizard (Allan Kardec), que buscou aproximar o cristianismo à ciência, passando inevitavelmente por questões filosóficas. Ao trazer o tema da reencarnação, o espiritismo, surgido no século 19, explica muitos conceitos espirituais, também se aproximando de várias religiões, muitas delas já extintas: A religião órfica grega, o druidismo dos celtas, vertentes do hinduísmo etc. Apesar da centralidade no cristianismo, Kardec diz que o espiritismo aceita pessoas de todos os credos, ou seja, de todas as religiões, provando ser um movimento filosófico espiritualista ecumênico. 

É importante lembrar que na época em que o espiritismo foi fundado, os evangelhos de Tomé e de Filipe estavam ocultos (nas cavernas de Nag Hammadi - Egito) há séculos. Estes 2 evangelhos só vieram a público após o ano de 1945. 

A Kriya Yoga é um dos vários tipos de yoga do Sanatana Dharma (hinduísmo) que mantém o universalismo desta espiritualidade. Kri-ya significa ação divina, ou agir com Deus e Yoga é principalmente traduzido como união ou disciplina - assim, uma possível tradução é união com Deus pela ação. Esta ação se dá por técnicas psicofisiológicas, como o controle da respiração e a meditação (perceber as próprias atividades mentais e o aquietamento da mente). Tais técnicas geralmente levam-se anos para serem dominadas e são importantes para o “kriya yogi” adquirir controle de sua mente sensorial e seu intelecto, banindo o desejo, a ira e o medo, para então atingir a consciência de Deus. Ainda que possa parecer indiferente ao meio, o método da Kriya Yoga propõe libertar a alma da prisão do ego ao “respirar o ar profundo” da onipresença. 

O guru Babaji, no século 19, restaurou e propagou esta yoga que une as práticas de outros 4 tipos de yoga. Seu discípulo Lahiri Mahasaya difunde a Kriya na Índia estimulando o viver com simplicidade, o pensar com elevação e a fraternidade universal, enquanto os seus sucessores Yukteswar, Yogananda e Hariharananda, revelam a unidade básica entre os ensinamentos de Jesus Cristo e os de Bhagavan Krishna, preconizando a compreensão cultural e espiritual entre ocidente e oriente. 

Por fim, a teologia da libertação, é um movimento cristão surgido por volta de 1970 na América Latina e faz um resgate da importância da prática dos ensinamentos de Jesus: A solidariedade para com os mais vulneráveis e para com os necessitados e uma busca por equidade entre os seres humanos. 

Há diferenças entre todos esses caminhos? Sim, mas ao invés de priorizar diferenças, o mais importante é buscar as semelhanças que indicam coerência entre as religiões e espiritualidades. Tais semelhanças evitam conflitos e permitem uma união, ainda que naturalmente essa união ocorra de maneira gradual ou lenta.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Sobre a Institucionalização do Cristianismo

 Breve reflexão sobre instituição e institucionalização 

A palavra instituto vem do latim "Institutius" que significa definir, estabelecer, de In + statuere (em + fazer ficar em pé). Adquiriu sentido geral de fundar, introduzir a partir do século 15. O significado de organização, social, surgiu no século 19. 

O termo institucionalização também passou a ser empregado com significado negativo, de sistemas criados com fins e razões benéficas, que por qualquer motivo (por interesses particulares, ou tentativa de controle social) tornaram-se inflexíveis, causando prejuízos aos seres humanos. 

Nota-se que em seu significado original, esta palavra se assemelha à palavra estrutura, com a diferença que esta última se refere a juntar ou combinar as partes para construir algo. Estrutura então exprime arranjo, junção e disposição - modo de edificar, enquanto instituição é uma edificação estabelecida de um estado ou de uma comunidade. 

Edificar, vem da palavra edifício (do latim, aedes), que designava uma mansão do Império Romano. Estas mansões não eram como conhecemos hoje: Elas tinham até 5 andares e abrigavam várias pessoas das baixas classes sociais, servindo de moradias e também de espaço para atividades.

A diferença entre instituição e constituição então é expressa pelo prefixo: In significa "em" e con significa "juntos, em simultâneo, companhia". 

Toda esta explicação deveria nos orientar. Embora as palavras tenham seus significados mais ou menos alterados com o passar do tempo, as suas origens deveriam ser regularmente verificadas para trazer entendimento de suas utilizações. 

No caso das religiões eu vi mais um emprego negativo da palavra institucionalização: Geralmente se refere como as igrejas (cristãs, por exemplo), ao admitirem hierarquias e priorizarem dogmas, deixaram de lado os ensinamentos de Jesus Cristo, transformando-se em ferramentas de poder ao longo da história. Trago um possível exemplo deste processo à seguir.

Como alguns dogmas invadiram o cristianismo e se mantiveram nas igrejas 

No ano 553, foi reunido o 2º Concílio de Constantinopla pelo imperador romano (bizantino) Justiniano I, que se interessava em acabar com as dissensões na igreja cristã (já chamada de católica na época). Neste concílio foram proibidas e consideradas hereges as seguintes doutrinas: 

Do nestorianismo, marcada pela afirmação de que Maria é mãe de Jesus e não de Deus, pois a natureza divina de Jesus é separada da natureza humana; 

A doutrina de Orígenes que aceitava a transmigração das almas (a reencarnação das almas, possivelmente baseada em Platão) e a possibilidade da Apocatástase onde todas as almas seriam salvas e unidas a Deus; 

E a doutrina monofisista que afirmava que Jesus tinha só uma natureza divina mesmo encarnado. 

Como resultado do concílio afirmava-se que Jesus era simultaneamente humano e Deus, filho de Maria e que as almas de pecadores seriam condenadas eternamente, jamais encontrando Deus. 

Com um breve estudo sobre tal evento não é difícil entender as intenções e resultados de tal concílio. Note que os assuntos todos têm como tema central a espiritualidade: De onde vem e para onde vão as almas, natureza divina de cristo etc. São temas impossíveis de se tornarem dogmas sem desprezar o ensinamento central de Jesus Cristo: O amor (ao próximo, a si e a Deus). Um amor obviamente piedoso acima de tudo, do qual não vou detalhar aqui - basta ler as passagens de Jesus na bíblia. 

Voltemos a resolução do concílio "ecumênico" (!?): Proibições e queimas de escritos/ livros de teorias sobre a alma e a divindade. O que há de ecumênico nisto? 

Nada. 

O que há de cristão no resultado desse concílio? 

Nada. 

Nada disto está nos ensinamentos de Jesus Cristo: Para Jesus, o que importa é viver a lei divina, que é de amor - Amor este sereno e que dá esperança para a humanidade! 

O resultado deste (e de tantos outros concílios da igreja) é meramente um passo para deformar os ensinamentos de Cristo, impondo regras proibitivas, que tentam formar a imagem de um Cristo autoridade, pois o concílio praticamente diz: Jesus nasceu humano mas era Deus e filho de Maria ao mesmo tempo. Para que isto? Jesus mandou seus apóstolos chamarem Maria de mãe de Deus? Certamente não. Jesus fez pregações alegando que almas não reencarnam? Certamente não. Na verdade ele insinua sutilmente o contrário ao falar que João é o Elias que muitos aguardavam, e, ao falar à Nicodemos que é preciso nascer de novo. 

Enfim, este é um tema simples: A religião não existe sem uma história, então os cristãos que frequentam uma igreja (seja católica, evangélica etc) tem basicamente duas opções para não serem enganados: 

A 1ª opção é simples: Colocar os ensinamentos de Jesus Cristo (os evangelhos dos 4 apóstolos: João, Marcos, Mateus e Lucas) acima de todas os argumentos não mencionados por Cristo evitando aqueles que contrariem seu amor piedoso, e assim, também acima das outras passagens da bíblia, pois nenhum outro profeta da bíblia tem ensinamentos mais importante do que os de Cristo - Todos eles são menos importantes e devem ser somente complementares ou até mesmo desconsiderados caso contradigam qualquer um dos ensinamentos de Cristo. Isto é óbvio: o que vale mais? Os vários personagens da bíblia que cometeram erros (matar religiosos divergentes, acumular riquezas, participar de guerras) ou Jesus Cristo que ajudou os necessitados durante toda a sua passagem na Terra e ainda morreu torturado e crucificado? 

A 2ª opção vai exigir que o cristão dedique um tempo para estudar a história do cristianismo, mas não só uma época ou um evento: De preferência o máximo possível, desde as pregações de Jesus (da bíblia mesmo, é claro), passando pelo cristianismo primitivo dos séculos 1 ao 4, pelos concílios dos séculos 5 ao 10, pelo cisma da igreja/ a divisão em igreja apostólica romana e ortodoxa, a fundação das universidades católicas e o surgimento de ordens dissidentes até a renascença! É muita coisa? Sim, mas é uma tentativa de entender os interesses por trás da religião e estes interesses não foram só dos católicos. Por exemplo, o concílio que eu trouxe neste texto é aceito não só pelos católicos, mas também pelo luteranismo e algumas outras igrejas protestantes!

Porque? Certamente não foi por bondade dos fundadores do protestantismo durante o início do século 16. Como alguém manteria tais resoluções claramente centralizadoras de poder como parte dos ensinamentos de Cristo? Como alguém propõe renovar a igreja aceitando resoluções de quase 1000 anos atrás?! Tais questões deveriam ser abertas novamente, como eram antes do concílio da igreja do ano 553, pois são meras conjecturas elevadas ao status de dogmas.

Enfim, talvez eu exija demais dos cristãos... Entendo que nós ocidentais (ainda hoje, neste início de século 21) raramente recebemos um ensino crítico sobre a utilização da religião, da política e da economia como ferramentas de poder. Particularmente tive a sorte de aprender no ensino médio sobre as revoluções cristãs de Jan Hus e de Savonarola, mas hoje com a internet basta digitar esses nomes num "Google" para achar vários sites que contam a história. Para os interessados recomendo fortemente ler sobre Jan Hus e as guerras hussitas, tema importante da história do cristianismo e da Europa. Se sobrar um tempo leia sobre as rebeliões cristãs florentinas nas quais Savonarola foi um dos personagens principais. Só que se tratando de Florença, o assunto é mais complexo e também é bom fazer (ao menos breves) leituras sobre como o platonismo ganhou força ali fomentando a renascença, com Marcílio Ficino entre outros filósofos que atuaram na península italiana naquela época. 

Nem tudo foi conflito, violência e guerra - A renascença, diferente da época do 2º Concílio de Constantinopla (Idade das Trevas), foi importante por causa de seus bons frutos como a propagação da filosofia e das artes e não por causa de disputas por poder religioso ou poder econômico. 

Fontes:

See, e.g. Lutheran–Orthodox Joint Commission, Seventh Meeting, The Ecumenical Councils, Common Statement, 1993, available at Lutheran–Orthodox Joint Commission (B. I. 5a. "We agree on the doctrine of God, the Holy Trinity, as formulated by the Ecumenical Councils of Nicaea and Constantinople and on the doctrine of the person of Christ as formulated by the first four Ecumenical Councils.").
 

Leo Donald Davis (1983), "Chapter 6 Council of Constantinople II, 553", The First Seven Ecumenical Councils (325–787): Their History and Theology, Collegeville, Minnesota: The Liturgical Press, pp. 242–248, ISBN 978-0814656167, retrieved 2014-08-23
 

 

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Para uma Necessidade Social da Doutrina Espírita

 

 O que é espiritismo? Uma religião? Uma filosofia? Tais questões eu abordei neste texto: https://novotemplodauniao.blogspot.com/2022/08/estive-lendo-alguns-textos-espiritas-da.html então trago outra questão tão ou mais importante do que estas: Os centros espíritas representam bem o espiritismo proposto por Allan Kardec?

Não exatamente... Primariamente, os centros espíritas no Brasil desde meados do século 20 desempenham um papel principal de assistência pontual, seja com atendimento "espiritualizado" ou seja com doações para "ONGs" e / ou para determinados grupos de pessoas necessitadas. 

A filosofia espírita escrita (ou decodificada, que seja...) por Kardec mostra preocupação com o desenvolvimento moral e intelectual da humanidade e com isso, mostra também uma busca pelo progresso ao nível coletivo, ou seja, social.

Assim é possível notar que falta a continuidade ideológica social no meio espírita; As explicações espíritas com sua visão espiritual do ser humano e da história requerem uma atuação social também! Fazer do espiritismo algo exclusivamente contemplativo por causa da importância da evolução moral, é contraditório e alienado, pois a proposta filosófica espírita também deve intervir nas lutas sociais conforme a ação criadora dos espíritos que visam o progresso da humanidade... Em outras palavras, espíritos progressistas. 

A proposta de Kardec não é de um espiritismo determinista nem exclusivamente mediúnico! Ela se liga ao humano físico e moral, buscando o progresso coletivo da humanidade como já mencionado. Assim o espiritismo deve se preocupar também com a justiça à nível social, com a democracia e com o bem estar físico e principalmente psíquico do povo, pois estes temas estão vinculados à luta da sociedade e aos resultados do progresso. 

A desigualdade de nossas sociedades não é só sócio econômica, também engloba preconceitos de origem psíquica (raciais, sexuais, culturais etc); Infelizmente há desvalorização de pensamentos sociológicos nos meios espíritas... As pessoas que não lêem as obras de Kardec (incluindo as Revistas Espíritas/ Jornal de Estudos Psicológicos) enxergam o espiritismo como mais uma mera religião de classe média e/ou alta. 

Kardec não era partidário nem fã de político algum, mesmo porque viveu sob uma monarquia (de Napoleão III), mas nunca proibiu assuntos abordados pela política dentro do espiritismo, pelo contrário: mostrou também uma preocupação com o progresso da humanidade e com fatores sociais. Alguns dos espíritos consultados em suas sessões mediúnicas eram socialistas, embora fosse o movimento chamado pejorativamente de utópico após a ascensão do socialismo "científico", este mais novo que era materialista. O socialismo por sua vez deveria também buscar resolver questões éticas e psicológicas; O materialismo manifestado como verdade absoluta (que acaba desencadeando a busca por riquezas materiais ou um estilo de vida hedonista de prazeres materiais como exemplifico neste texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/06/os-perigos-dos-materialismos.html) contradiz a busca por justiça, por equidade e por progresso social, moral e ético. A objetividade é importante para vermos as imperfeições cotidianas sociais e econômicas e então, buscarmos soluções. O destino social da humanidade está ligado ao processo evolutivo do mundo, que o espiritismo também busca ... 

O capitalismo / neoliberalismo não é só um sistema econômico; ele é ideológico, pois dita comportamentos e procurar distrair a humanidade deixando-a acomodada ou submissa. Não bastam só gestos de boa vontade para combater um sistema materialista de vida que retarda a marcha natural da evolução, através da defesa o enriquecimento de poucos que já têm muito, da opressão dos mais pobres e necessitados e da alienação da humanidade. Para se combater todo esse sistema de injustiça é preciso o progresso moral, intelectual e social, com participação através do ativismo, da política, da educação não só técnico-profissional, mas também psicológica, social, histórica etc. Isto explica o porquê alguns estudiosos espíritas ativistas atuaram em áreas como pedagogia e filosofia: Eurípedes Barsanulfo, Anália Franco, Herculano Pires, Humberto Mariotti entre outros foram exemplos de pessoas que puseram em prática a filosofia espírita. 

Os centros espíritas parecem predominantemente tomados por um modelo religioso fechado em si, o que deixa o aspecto filosófico em segundo plano, e permite que o estilo de vida materialista propagado pelo neo liberalismo / capitalismo se propague e influencie até mesmo os frequentadores de tais centros.

Ignorar a realidade social, o progresso da humanidade e a desigualdade no mundo em que vivemos contradiz o espiritismo, pois também contradiz o cristianismo. Seja a partir de uma postura racional de progresso ou uma postura emocional de amor, os espíritas (bem como pessoas humanistas, progressistas ou pessoas de qualquer fé/ espiritualidade verdadeira) devem atuar na sociedade levando em consideração estas questões e buscando progresso, justiça, equidade. Isto faz parte da lei de amar o próximo como a si mesmo, como pode ser visto na seguinte passagem do evangelho:

Mensagem de João Batista a Jesus (Tomé, Mateus, Lucas

E João, ouvindo no cárcere falar dos feitos de Cristo, chamou 2 dos seus discípulos e enviou-os a Jesus, dizendo: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?

Quando aqueles homens chegaram junto a Jesus, disseram: João o Batista enviou-nos a perguntar-te: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?

E, na mesma hora, curou muitos de enfermidades, e males, e espíritos maus, e deu vista a muitos cegos.

Então, Jesus disse-lhes: Ide, e anunciai a João o que tendes visto e ouvido: que os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres anuncia-se o evangelho. E bem-aventurado é aquele que em mim se não escandalizar.

E, tendo-se retirado os mensageiros de João, Jesus começou a dizer à multidão acerca de João: Que saístes a ver no deserto? uma cana abalada pelo vento?

Mas que saístes a ver? um homem trajado de vestes delicadas? Eis que os que andam com preciosas vestes, e em delícias, estão nos paços reais (palácios).

Mas que saístes a ver? um profeta? Sim, vos digo, e muito mais do que profeta.

Este é aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu anjo diante da tua face, O qual preparará diante de ti o teu caminho.

E eu vos digo que, entre os nascidos de mulheres, desde Adão até João o Batista, não há ninguém tão superior a João Batista que seus olhos não devem ser abaixados (diante dele); mas o menor no reino de Deus é maior do que ele. Ainda assim eu digo que qualquer um de vocês que venha a ser uma criança conhecerá o Reino e se tornará superior a João. E, desde os dias de João o Batista até agora, se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

E todo o povo que o ouviu e os publicanos, tendo sido batizados com o batismo de João, justificaram a Deus. Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido batizados por ele.

E disse o Senhor: A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes?

São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes.

Porque veio João o Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio;

Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores.

Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos


Esta passagem, de acordo com a filosofia espírita, Jesus não só explica o percurso da existência do profeta João, mostrando seu valor e importância, como também anuncia a imortalidade da alma, indicando que este é a reencarnação de Elias. 

De tempos em tempos Deus enviou escolhidos, sejam profetas ou indivíduos inspirados, para propagar seus ensinamentos. Porém, muitas vezes, estes escolhidos de Deus para propagar a bondade e a equidade, foram atacados, rechaçados, feridos e até mesmo mortos.

Jesus também afirma que fazem violência contra o Reino dos Céus. Isto pode se referir aos variados movimentos contrários ao bem e à verdadeira espiritualidade. O judaísmo do século 1, além de estar dividido em variadas seitas, estava em sua maioria tomado por sacerdotes corruptos, ou seja, que manipulavam o povo para se manter em posição social e econômica superior e negavam a vida eterna às pessoas. Estes interesses egoístas e tentativas de manipulação certamente se espalhavam por diversas outras religiões dentro e fora do Império Romano e ainda existem hoje no início do século 21.

Por fim, Jesus utiliza a parábola dos meninos que tocaram flauta e cantaram lamentações: Os meninos, assim como as crianças em outras passagens, invocam a importância da humildade. A partir da atitude humilde, Deus ofereceu 2 caminhos: uma para “dançar ao som das flautas” e outro para “se juntar aos cantos de lamentação”. O 1º é o mesmo da parábola da festa (bodas) de casamento - O caminho de Jesus, xingado de comilão, beberrão e amigo dos pecadores, trata-se de viver com alegria, socorrendo os mais necessitados e compartilhando o que se tem em vida e o 2º é o caminho da vigilância, onde tira-se “a trave do próprio olho” para viver em humildade instruindo os demais a abandonarem a ganância e a luxúria, enfim mostrar que deve-se abandonar o egoísmo e praticar a solidariedade, como João Batista fazia e foi acusado de “endemoniado”. Isto mostra como os sacerdotes corruptos só estavam interessados em manter o poder e o prestígio em suas seitas: Recusavam a Deus e sua lei de amor, difamando e atacando Jesus de Nazaré, o Cristo, e os profetas como João Batista. 

O espiritismo como filosofia cristã não só deve estar em acordo com tais ensinamentos, como também estão de acordo com os ensinamentos de Sócrates e Platão... Que aliás, tinham suas semelhanças, respectivamente com Jesus e João Batista, mas não trarei tais detalhes aqui - A intenção deste texto é só evidenciar a necessidade de reaproximar o espiritismo da prática cristã (solidariedade, piedade, equidade, verdade etc), que está de acordo com valores da filosofia socrática/ platônica (o bem/ kalos*, crítica aos discursos falaciosos** e ao hedonismo) e também com muitas das medidas práticas do socialismo (combate à pobreza, à desigualdade e às injustiças geradas pela ganância, crítica à alienação etc), desde antes das publicações de um contemporâneo de Kardec, chamado Karl Marx.

 

*kalos é a palavra grega similar à fine (em inglês) que inclui o bem e a beleza; 

**a retórica: método de exposição usado pelos sofistas, onde ignorava-se a verdade buscando persuadir os ouvintes. 

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

A Relação entre Religião, Espiritualidade e Filosofia: Quais são as finalidades em Comum?

 

Espiritualidade e fé não são Religião 

Há quem diga que existem inúmeras espiritualidades e há quem diga que existem diferentes caminhos para se desenvolver a espiritualidade. Entendo que a segunda expressão faça mais sentido do que a primeira e farei uma breve explicação sobre isso: A espiritualidade é um termo que só passou a ser difundido a partir do século 20, pois antes disso só se utilizavam as palavras religião e religiosidade, ao menos na cultura ocidental (na Europa e nos países colonizados pelos europeus). Certamente isto se deve ao fato da dominância das religiões judaico-cristãs um tanto institucionalizadas sobre a cultura ocidental (destaque para as igrejas católicas e protestantes), que dificultavam o desenvolvimento de uma espiritualidade independente de igrejas e de rótulos. 

A espiritualidade é um termo abrangente que serve para indicar não só a religiosidade, mas também fé e a dedicação espiritual independente das religiões tão dominadas por hierarquias e cheias de dogmas. A espiritualidade então é o que há em comum entre as religiões fora de seus espaços institucionalizados, ou seja, fora das igrejas, dos templos e de grupos com líderes influentes - Ela faz a clara distinção entre fé / devoção espiritual e a utilização de argumentos religiosos como ferramenta de poder. Desta forma entende-se que a espiritualidade e sua abrangência é o que há em comum entre as religiões, não o que separa - A espiritualidade não discute visões particulares de mundo, não impõe regras sobre a fé alheia ou sobre as pessoas que não tem uma fé ou uma espiritualidade. Estando ligado ao que há de comum entre os ensinamentos espirituais, a espiritualidade certamente busca uma (re) ligação com o todo, assim não é preciso dizer que existem várias espiritualidades - É mais correto afirmar que existem diversos caminhos de desenvolvimento espiritual, mas a espiritualidade é uma só, independente de quantos recortes certas pessoas façam sobre o assunto. 

Um olhar da frente psicanalítica sobre a espiritualidade 

A frente psicanalítica de psicologia é constituída pela obra de diversos autores, sendo alguns dos mais famosos Sigmund Freud e Carl Gustav Jung. Os 2 autores que desenvolveram abordagens diferentes entre si, utilizam uma mesma base, o que permite-nos entender que ambos compartilham de uma visão da existência similar entre si - A teoria da mente e/ ou a ontologia das duas abordagens psicológicas (a psicanálise de Freud e a psicologia analítica de Jung) são essencialmente a mesma apesar de algumas diferenças nas terminologias. Ambas consideram que a psique, ou, o aparelho psíquico, é essencialmente constituído pelo consciente e pelo inconsciente. 

Freud particularmente tinha uma visão que ficava entre negativa e reducionista não só da religião, mas também da religiosidade e de sentimentos relacionados a esta, seja a fé, a espiritualidade etc. Jung de modo bem diferente era mais aberto à religiosidade e até estudou alguns de seus aspectos, não a considerando como um mero fator patológico. 

A época em que os 2 autores viveram (as 3 últimas décadas do séc 19 e as 3 primeiras do século 20) foi um período de grande crítica à tudo relativo a religião e à religiosidade dentro da academia e dos meios científicos - até as descobertas de Einstein e de Heisenberg e a difusão de suas teorias, o materialismo era praticamente a única base das ciências, ou seja o pressuposto filosófico/ "ontologia" dominante nas ciências - o que também mantinha o empirismo como único método válido de se construir conhecimento (praticamente reduzia a epistemologia ao saber científico, relegando a filosofia a um segundo plano, seja subordinada à ciência, ou excluída sem ser um saber válido). O "pai do positivismo", Auguste Comte, durante o século 19 tinha elevado a física como uma das ciências superiores (devido seu enfoque na objetividade), o que consequentemente deixava qualquer ciência humana como inferior - Resumidamente, neste processo que se deu no meio científico, muitos sociólogos e psicólogos buscaram argumentos materialistas para defender suas "visões científicas". Este possivelmente é um dos motivos pelo qual a obra de Wundt passou a ser gradativamente menosprezada, mesmo este sendo considerado o fundador da psicologia. 

 A aproximação que Freud faz do materialismo pode ser notada na centralidade das questões sexuais/ biológicas em sua teoria (libido, id, pulsão de vida...), porém sua teoria da mente, assim como a de Jung, ainda é aparentemente dualista - Em momento algum Freud identifica a mente como meramente neurológica, nem a localiza no sistema nervoso. Estas tentativas talvez tenham sido feitas por estudiosos de outras áreas das quais não me aprofundarei aqui. 

Neste quesito então, considero a teoria de Jung não totalmente condizente com o saber espiritual e/ou religioso, porém mais interdisciplinar ou menos reducionista, ao lidar com esta questão. Não utilizarei conceitos específicos de sua teoria como o inconsciente coletivo: Se necessário mencionarei somente sua base (a teoria da mente, os pressupostos filosóficos ou a ontologia) para entendermos a relação da psiquê com a espiritualidade. 

A Espiritualidade vai além de Palavras 

Este é um fato que dificulta qualquer estudo sobre a espiritualidade: Espiritualidade envolve elementos internos do ser humano, de sua psiquê e não envolve diretamente os aspectos mais racionais e sim o sentir e os sentimentos. Os sentimentos por sua vez são expressos por emoções (riso, choro, entonações vocais, gestos faciais, corporais etc). 

Ainda assim a psicologia pode investigar alguma porção da mente e como esta lida com a espiritualidade. Pois uma vez que todo ser humano existe na realidade material e interage com seu meio (social etc), a espiritualidade inevitavelmente envolve questões filosóficas como ética, ontologia (visão do ser e do existir) etc. A psicologia nasceu da filosofia e diversos autores desde Wundt até os fenomenólogos devem ter reconhecido isto. Jung, por sua vez, estuda os valores, embora mais os individuais do que os universais. 

Vamos nos ater então a questão ética da espiritualidade: A espiritualidade pode existir separadamente do(s) valor(es) universais? Certamente não. Ao menos não se levarmos em conta o que há em comum entre os ensinamentos espirituais de cada "religião": Todos eles levam em conta, para não dizer, centralizam seus objetivos, em valores universais, tais como humildade, solidariedade, paciência, auto conhecimento (talvez o zelo, no ocidente), a devoção, a serenidade, o amor, a esperança etc. Nem todos esses nomes individualmente irão aparecer nas diferentes religiosidades ou caminhos espirituais, mas muitos deles surgem indicando no mínimo uma intersecção entre tais caminhos, crenças e/ ou práticas espirituais. 

Estes pontos de intersecção não aparecem somente e isoladamente no início de cada percurso / prática espiritual - Eles surgem desde o início até os fins, ou "objetivos" de cada religiosidade - por isto reafirmo que a espiritualidade é algo universal, pois todos caminhos espirituais nascem com determinadas semelhanças e convergem em um valor universal. É por este mesmo motivo que surgiram movimentos ecumênicos ao longo da história da humanidade - muitas pessoas viram essas intersecções, semelhanças e convergências entre diferentes religiões e caminhos espirituais! 

O que o ser humano adquire ao se dedicar à espiritualidade? 

Dedicar-se à espiritualidade é devotar-se, percorrer um caminho sem se contradizer, em sintonia e/ou busca com valores universais sem voltar atrás - valores estes, que estão além dos individuais. Embora cada indivíduo possa valorizar tal e tal coisa (objeto, ser vivo, grupo, sentimento, estudo etc), os valores universais, como mencionei em outro texto (https://nea-ekklesia.blogspot.com/2023/08/psique-e-importancia-dos-valores.html), são aqueles que não só são bem absorvidos pelo indivíduo, como também têm utilidade geral para toda a humanidade e sua coexistência harmoniosa e diversa. 

A dedicação ou devoção é necessária porque tais valores não surgirão repentinamente nem são absorvidos instantaneamente pelas pessoas. O processo é mental (de sentir, refletir, meditar etc) e também prático, ou seja, de vivenciar e realizar tais ensinamentos em relação ao meio e "ao próximo", ou seja, às demais pessoas. Neste percurso o praticante da espiritualidade, seja ela qual for, vai deixando de lado os interesses mesquinhos, em sua maioria (obviamente) materiais. Isto mostra o quão a "religiosidade" materialista é uma farsa: A realidade interna de cada ser, de cada psiquê, mente ou alma, não é material: É sentimento, pensamento (etc...) como mencionei em diversos textos meus. Expressões da religiosidade materialista, ou seja, que mostram-se centralizadas na matéria perceptível, são essencialmente teologias da prosperidade, como por exemplo, as pregadas por coachs quânticos que idolatram a meritocracia e por pastores que prometem recompensas materiais e enriquecimento de seus fiéis. A realidade material/ perceptível tem sua importância, porém jamais pode ser o centro de uma espiritualidade - esta realidade é um meio, não um fim. Interesses materiais nem sempre estão conectados a um grande mal, porém sempre dão abertura à mesquinharia, portanto à malícia. 

Abertura ao erro: Desprezo pela inocência e aceitação da malícia 

O que é malícia exatamente? Há um antônimo desta palavra? 


 Resultado da busca por antônimos de malícia no Google...

Isto é peculiar: não existe a palavra "benícia" como um antônimo exato, porque a malícia é uma palavra utilizada para males (supostamente pequenos) que se misturam ou se transvestem de esperteza... Talvez mais curioso ainda é que este é um ponto claramente oposto ao desenvolvimento espiritual, seja do cristianismo, do budismo ou de qualquer espiritualidade real, que busque o (um) valor universal. A malícia de modo geral, "reduz" o outro, e isto pode ser feito de variadas maneiras. Seguem alguns exemplos: 

Desrespeitando o conhecimento ou "nível" intelectual da pessoa, tratando-a como estúpida; 

Pressupondo (de pré supor) inferioridade referente ao(s) outro(s), seja racial, espiritual, cultural ou qualquer outra; 

Priorizando uma utilidade fugaz (temporária, imediatista) no indivíduo, seja para aquisição de um bem, de um serviço (utilitarismo) ou de um prazer sexual (sexismo); 

Ignorando a lealdade e/ ou os sentimentos do próximo, enganando-o ou não cumprindo com um acordo... 

Dificilmente a malícia separa-se destes temas e mais dificilmente ainda, alguém que pratica qualquer destes atos, estará se dedicando à espiritualidade. A malícia então torna-se aceitável em determinados círculos sociais sob uma máscara de identidade de grupo, de intelectualidade ou mesmo de naturalidade. Tais ambientes são geralmente tomados por algum nível de hipocrisia, falácia ou de outras atitudes similares a estas. Isto é comum de acontecer não só em ambientes onde não se dedica à espiritualidade, é claro, pois os locais não garantem caráter nem atitudes virtuosas por parte de seus frequentadores. Mais ainda, é público e notório que existem templos e vertentes religiosas inteiras tomadas por discursos de ódio, de mentiras, de fomentação de cisões/ rivalidades e por outras atitudes distantes ou mesmo contrárias a valores universais. 

O fato é que a busca da assimilação de valores universais, seja filosófica ou espiritual, é um processo de purificação - purificação esta que nada tem de cerimonial ou ritualística: é um processo predominantemente mental, porém também de prática, ou seja, de atitudes e ações. Embora o termo purificação possa parecer utópico, ou mesmo polêmico por parecer algo elitista ou exclusivamente "sacro", a purificação é um termo válido quando feita algumas comparações e reflexões: Tal pureza não difere muito do conceito de pureza popularmente atribuído à criança, podendo ser em algum nível similar ou sinônimo de inocência; Certamente buscar/ desenvolver e alcançar uma pureza mental é algo difícil pois difere da criança que "nasce com tal característica". Além disto, infelizmente grande parte de nossas sociedade atual pode e parece tratar inocência como algo pejorativo (consideram tolice etc), mesmo sendo um dos princípios básicos do direito, por exemplo. 

Porém uma grande tolice é considerar a inocência ou a pureza mental como algo inútil/ pejorativo. Algumas pessoas poderiam argumentar que a pessoa com tal característica tem uma fraqueza mental, porém isto é uma grande falácia: é possível ser "puro" ou inocente e também ser inteligente, sábio e/ou ter grande força de vontade. É esta combinação que difere o adulto inocente da criança inocente - a criança ainda não tem conhecimento, sabedoria nem nada similar a isto, pois ela é altamente dependente de seus pais/ cuidadores. 

Purificar-se então não é buscar ser um santo, ou um indivíduo mentalmente isolado do resto da humanidade: é simplesmente eliminar da própria psique, tudo que faz mal a si mesmo e ao próximo - Substituir tais atitudes por algo que traz o bem às outras pessoas e buscar um progresso nesta jornada. É buscar viver e difundir valores universais, como justiça, equidade, empatia, solidariedade, esperança entre outros que citei neste e em outros textos. 

 

terça-feira, 20 de junho de 2023

Psique, Infinito e Deus

 

A mente humana pode pensar sobre muito além da vida cotidiana na Terra: Questões do tipo "como tudo começou", "de onde viemos e para onde vamos", certamente são inimaginavelmente antigas na humanidade. Houve um início? (seja chamado de gênese divina, de expansão cósmica, de big bang ou de qualquer outro nome) São questões que não possuem uma resposta definitiva e podem manter muitas pessoas em dúvida, então apresentarei umas idéias que tive para um projeto de conto. Tais idéias foram inspiradas em diversas leituras que fiz desde 2015 ou 2016... Não me lembro precisamente das fontes, mas devem ser textos principalmente das filosofias da Grécia Antiga, um pouco do judaísmo místico e do espiritismo. 

A criação e a vida se tratam de um resgate, feito pela verdadeira eterna esperança. 

Não há simplesmente um ser e um não ser, existir ou inexistir... isto é uma crença simplória típica dos seres "materiais" do universo tridimensional. 

O que há de mais complexo no universo tridimensional? É a psique, seja considerada alma ou mente. No caso da Terra, é a mente do homo sapiens (humana) que contém uma quantidade gigantesca de informação referente a cada fração de tempo vivida e experimentada. Mas não se trata só da cognição (interpretação, racionalidade, memória etc): trata-se também dos vários sentimentos e das expressões, sejam elas expressões mais objetivas/ racionais ou subjetivas/ emocionais. 

Como o universo e as inúmeras formas de vida poderiam surgir do acaso? Acaso é não-causa, nada pode surgir de tal conceito. Os fenômenos tem causas e a causa não pode ser mais rudimentar nem mais imperfeita do que seus efeitos, do que suas produções. 

A vida e todo o universo não são coisas disformes nem sem nexo. Há alguma falta de harmonia eventual? Certamente, mas por isso mesmo existe harmonia e ordem... E se há inteligência em formas de vida minúsculas diante a (infinita) extensão do cosmo, há inteligência na causa de tudo. 

Com reflexões deste tipo, os filósofos naturalistas (pré-socráticos) da Grécia antiga como Anaxágoras, postularam o conceito de Nous, a mente cósmica, passando por um processo de crítica às religiões politeístas da época e sua respectiva "mitologia". 

Os primórdios misteriosos envolvem essa esperança sábia, revolucionária, entendida, responsável, piedosa, determinada e bela... Esta beleza não se refere meramente a aspectos estéticos, pois belo é o que faz bem não só fisicamente, mas principalmente psiquicamente (seja mentalmente ou espiritualmente, o termo psique serve para ambos). Sócrates, que teve Anaxágoras como um de seus mestres buscava tal beleza e assim ele e seu pupilo Platão, aprofundaram as reflexões sobre tais assuntos, trazendo a importância da sabedoria, da razão, do bem, da justiça etc. A partir dos diálogos de Sócrates/ dos textos de Platão, é possível entender que a mente criadora (Nous) postulada pelos filósofos "pré-socráticos" já não era só racional: era boa também, como Deus apresentado pelo cristianismo... 

Entre inimagináveis conceitos de ser e não ser, de existir e não existir, há nuances, graduações... 

Os aspectos mentais criadores "dos primórdios" são puros e em um processo de extensibilidade (de empatia/ ágape, mas que também pode ser um processo de expansão) derramaram suas "lágrimas" de esperança, amor e serenidade/ receptividade sobre o que "era menos, exista menos"... A eterna verdade é pura, criadora mas também é um ciclo, difícil para seres das dimensões mais simples ("inferiores") entenderem. 

Por mais paradoxal que pareça, o "início" foi um "momento" de "criação" (ou talvez de transformação) do eterno ciclo. 

Um resgate, uma esperança amorosa e serena - que vai muito além do espaço-tempo...

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...