quinta-feira, 26 de maio de 2022

Militarismo e Espiritualidade tem algum nexo entre si?

 

No meio do ano retrasado, escrevi um texto onde citei alguns perigos do sensacionalismo propagado pelas diversas mídias sociais e pelas mídias de massa, combinado com o punitivismo fomentado entre as classes militares do Brasil (seja polícia, exército ou qualquer outra): https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/07/o-sensacionalismo-da-punicao.html

 A verdade é que os comportamentos fomentados por estas ideologias há décadas está trazendo consequências desastrosas. São ações de violência e até de extermínio: Só neste mês de maio de 2022, tivemos aqui no Brasil, tais casos em São Paulo, Rio de Janeiro e Sergipe. Utiliza-se força letal de maneira tão descontrolada contra suspeitos e criminosos pé de chinelo (sim, indivíduos envolvidos em crimes de valor insignificantes, afinal ladrões multimilionários continuam livres), que às vezes sobra violência para qualquer um que esteja no caminho - seja moradores de favelas, ou até mesmo transitantes que estejam próximos às operações policiais. O curioso é que há uma vasta camada da sociedade que apoia tais atos de violência, sendo boa parte desta "camada" supostamente religiosa, mais precisamente, "cristã". Este "cristianismo" conivente com a violência vem se propagando há tantos anos, que é difícil estabelecer um período preciso de quando ele tenha começado. 

Os movimentos obscurantistas que geralmente apoiam ou ignoram a propagação da violência devem ter alternado de religião para religião, de tempos em tempos. Em geral esses movimentos são liderados por pastores, padres e dirigentes defensores da insensibilidade em relação à todos que não façam parte de seus seletos grupos, embora alguns destes líderes cheguem a defender abertamente o uso da violência para matar. Alguém poderia dizer, "ah, mas tá na bíblia que Deus permitia matar infiéis" (velho testamento)... É aí que eu reforço algumas das observações feitas pelo fundador do espiritismo (Kardec) e vou além: Kardec dizia que o antigo testamento era essencialmente voltado a um povo primitivo, rude e com tendências violentas. Eu digo que o velho testamento, salvo algumas partes que priorizam a solidariedade, poderia ser excluído das religiões verdadeiramente cristãs. Não porque é tudo imprestável ali, mas por dois motivos: Primeiro, realmente se tratava de ensinamentos voltados a povos imersos em guerras e que sequer cogitavam a idéia de progresso. É uma ignorância enorme fingir que os povos da idade do bronze e do ferro (desde aproximadamente 3500 anos antes de Cristo até 470 antes de Cristo) não guerreavam por motivos absolutamente indefensáveis. As guerras eram mais frequentes do que os tempos atuais desse início do século 21 e não havia busca significativa de progresso, seja social ou tecnológico. Além das guerras registradas nos grandes impérios que tinham uma história escrita, existiam inúmeras outras guerras não registradas em povos e civilizações que não tinham uma linguagem escrita até o século 1. Em segundo lugar, o velho testamento era voltado a um pequeno grupo social ou uma cultura específica do oriente médio (hebraica/ judaica). A religião judaica se misturava com noções de sociedade e nação, invocando certo patriotismo pertencente somente àquela época e local (mais ou menos onde situa-se Israel até este início de século 21). O que as sociedades de vários outros países com estudo débil e/ou defasado dos dias de hoje podem entender ou aprender com tais "textos religiosos"?? Oras, se pastores e padres corruptos conseguem distorcer o significado das parábolas de Jesus, o que não conseguiriam usar maliciosamente do velho testamento? É fácil tais líderes fomentarem rixas e defender violência distorcendo diversos trechos da bíblia, e certamente, mais fácil é usar trechos do velho testamento com esta finalidade. 

 Mas apesar de tudo isto, toda violência é contrária aos ensinamentos verdadeiramente espirituais dos textos religiosos. É possível encontrar ensinamentos sobre a importância do perdão, da solidariedade e da equidade em inúmeros textos: Desde Isaias e os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João sobre Jesus até textos sobre personagens de outras religiões, como Krishna no Bhagavad gita, Buda, Rumi no islamismo etc. A violência é fruto de uma sociedade que aceita a brutalidade e essa brutalidade é contra o perdão e contra qualquer forma de progresso e evolução. Mesmo porque se o perdão for extinto da humanidade, as pessoas se destruiriam de tal maneira que seria impossível qualquer forma de progresso. A brutalidade só conseguiu se manter por milênios na civilização humana por causa de movimentos contra o perdão, a tolerância e a solidariedade. Na idade média, as guerras aconteceram debaixo do nariz da igreja européia por causa que o alto clero corrupto manipulou significante parte da sociedade com conservadorimo e obscurantismo. Já na era moderna até os dias de hoje, a brutalidade no ocidente (América e Europa) se propagou principalmente através de ideologias que idolatravam um determinado grupo de pessoas, como o machismo e o militarismo. Duas das principais ideologias por trás da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, eram altamente militaristas: o nazismo e o fascismo. Se não houvesse o culto ao "machão", o militarismo nem conseguiria se sustentar, pois não existiria toda a classe de pessoas dessensibilizadas e obedientes (seja a um líder ou a uma ideologia que cria inimigos do nada) espalhada por diversos países e prontas para utilizar armas. 

As ações desta classe militar, sejam operações que nunca pegam os criminosos ricos ou seja em guerras, se apoiam em discursos mentirosos que defendem os lucros do comércio de armas e/ ou defendem a ideia que supostos inimigos perigosos estão tramando algo contra uma nação. Operações policiais e guerras não tem relação alguma com os ensinamentos de Jesus Cristo ou de Buda (nem com outros líderes verdadeiramente espiritualistas). Ações de violência ou de mera punição na Terra, nada têm de espiritualidade, nem da verdadeira fé. Este militarismo é fruto de paixões terrestres, ou seja, defende os que se entregam à ganância, à intolerância, à fúria, ao orgulho, à boataria e/ ou ao imediatismo. E nada disto é espiritual ou sequer contém alguma espiritualidade. Como poderia ser uma existência pós terrena daqueles que matam por uma destas causas? Como seria o "destino espiritual" de alguém que venera armas e punitivismo? Certamente não se trata de um destino pacífico...

quinta-feira, 21 de abril de 2022

O Inconsciente para o Espiritismo

 

Nos meus 3 últimos anos em que estive buscando desenvolver minha espiritualidade, não encontrei textos que relacionassem o inconsciente descrito pela frente psicológica de estudos com o espiritismo. Talvez eu não li o bastante ainda, mas como estou estudando psicologia e tive experiências mediúnicas, tomei a liberdade de escrever sobre. 

 Construção Psíquica 
 Todos nós seres humanos aprendemos coisas desde a tenra infância. Mas porque temos facilidade para guardar certas memórias e não outras? Porque gostamos mais de determinados assuntos? Porque uns sucumbem mais às pulsões de vida (instintos), gerando compulsão por alimento ou por sexo? Porque outros sucumbem mais às pulsões de morte tornando-se violentos ou fascinados por armas e conflitos como lutas ou guerras? Porque uns lembram de muitos sonhos enquanto outros não lembram, chegando a alegar que não sonham? 
 As explicações psicológicas são vastas e distintas entre si, pois são variadas frentes com bases diferentes, sendo que cada frente tem várias abordagens de autores diferentes. Sendo assim, farei observações influenciadas pelas frentes psicanalítica e fenomenológica sobre a psiquê (do grego psyché, ou seja, alma): Como prévia vale citar que se tratando de memórias, de sentimentos e de sonhos há de se entender que são processos "internos" do ser humano: A "mente" só expõe pensamentos e sentimentos através de palavras e de expressões, sejam vocais etc. Os sonhos não são expressos a não ser por descrições... 
 Nós, seres humanos, somos submetidos às experiências e sensações praticamente o tempo todo: com familiares, com colegas de estudo e de trabalho, com pessoas nas ruas etc. Além da interação direta com outros seres humanos, uns assistem televisão, outros vêem as redes sociais, outros interagem com jogos etc. Tudo isto é experienciado, podendo ser frequentemente lembrado ou predominantemente esquecido. Como as memórias não deixam de existir, a explicação da frente psicanalítica de estudos afirma que elas ficam no inconsciente do aparelho psíquico (mente). Embora alguns conteúdos jamais retornem a consciência por motivos de trauma, repulsa, irritabilidade, complexidade ou outra dificuldade em lidar com eles, existem conteúdos psíquicos que escolhemos trazer à tona ou não. Estes dependem mais do valor que atribuímos a eles: podem ser entendidos como mais significantes ou menos significantes. 
 Por mais que tais conteúdos (internos) tenham uma ligação com o cérebro humano e seus processos, como as sinapses, eles não são considerados materiais e nem são perceptíveis por pessoas que não sejam nós mesmos. Por esta razão, para traçar as relações do inconsciente da mente humana com o espiritismo, escolho utilizar as bases da frente psicanalítica de estudos. Porém não me limito a teoria de Freud que foca na libido e em questões oriundas das pulsões. Isto seria limitar-me ao "estado natural" das fases de desenvolvimento humano descritas por Pestalozzi, ou talvez, no máximo, ao "estágio estético" da filosofia de Kierkegaard. Para traçar as relações com uma teoria mais plural e filosófica como o espiritismo, é preciso considerar que o inconsciente humano é mais do que a fonte de instintos e o depósito de experiências psíquicas reprimidas. Daí então, Jung, com sua psicologia analítica, nos mostra uma boa base de estudos. Jung admite que o inconsciente pode ter elementos psíquicos que vão além de instintos, experiências traumáticas e memórias esquecidas: Nele existiriam também a intuição, criatividade (que seriam enquadradas na sublimação por Freud), tendências à estagnação e até mesmo uma profundidade maior chamada de inconsciente coletivo. Obviamente, esta teoria não comporta a concepção de espíritos que foi altamente rechaçada pela maioria materialista do meio científico (no mínimo, desde meados do século 19 até este início de século 21), mas como o inconsciente coletivo vai além de possíveis elementos psíquicos de origem genética, relacionando com o conceito de sincronicidade e elementos independentes do espaço-tempo, é possível entender que há uma “lacuna” aí, onde o espiritismo pode explicar alguns fenômenos. 

 O que “submerge e emerge” do Inconsciente 
 Para voltarmos a abordar o inconsciente do aparelho psíquico, é útil um resumo sobre o consciente: 
 Para as abordagens fenomenológicas da psicologia, a consciência é atividade direcionada. Não é um depósito nem passiva, pois ela é sempre consciência de algo. Mais do que o uso dos 5 sentidos, ela tem/ gera a intencionalidade (que é o modo como a consciência visa algo). Portanto a consciência não tem dureza nem substância e não existe sem uma relação (seja em relação às coisas percebidas pelos sentidos, ou ao próprio pensamento etc): ela se projeta em direção às coisas. O ato de conhecer é o Ego (Eu). O encontro da consciência com o objeto é a relação bipolar que constitui o conhecimento. 
 Para a psicanálise a consciência é a percepção da realidade externa e de estímulos internos, pensamento; É qualidade momentânea, que diz respeito àquilo do que estamos cientes no aqui e agora; Consciência não é o atributo principal da mente - é fugaz, ou encobridor, pois não armazena. Em uma topologia seria como uma membrana no aparelho psíquico - A lembrança no momento que chega; Atividade mental não ocorre ao acaso, pois há continuidade na atividade mental, cuja muitas vezes os motivos estão no Inconsciente; 
 A psicologia analítica pouco difere a consciência em relação à psicanálise: A consciência é a mente no presente, percebendo e interagindo com o entorno. Em geral é mais racional do que o inconsciente; 
 Agora analisemos: Quantas experiências da realidade externa e quantos estímulos internos tivemos em nossas vidas. O quanto conseguimos nos lembrar e quanto não conseguimos? Assim, entende-se que temos uma quantia gigantesca (incalculável para o ser humano) de informações que ficam latentes em nossa mente. São inúmeros detalhes (tamanhos, formas, cores, sons e seus ritmos, timbres, cheiros, sabores etc) de objetos, de forças da natureza, de seres vivos, de paisagens, de incontáveis movimentos e momentos, enfim, cada milésimo de segundo percebido pelos nossos sentidos. Isso sem contar nossos sentimentos e pensamentos ao longo de toda vida. Nenhum deles deixa de existir durante nossa vida - todas estas percepções e suas impressões, interpretadas por nós em inúmeros momentos, ocasionalmente ou regularmente relembradas, reprimidas ou representadas e expressas ficam no inconsciente, e portanto, para o espiritismo, “ficam” na alma. Como nada disto desaparece como um passe de mágica, entende-se que temos esta quantidade absurda de informações em nosso inconsciente, enquanto nosso consciente interage basicamente com o presente. Uma interação do consciente com o passado só pode ser feita parcialmente, resgatando porções da memória individual ou através de sensações de nostalgia e saudades, enquanto uma interação com o futuro seria feita apenas imaginado, ou mais raramente, vislumbrando algo (uma cena, um sentimento, impressão etc) através de algum tipo de intuição. 
 Então o que tiramos e colocamos no inconsciente? Obviamente isto varia muito de pessoa para pessoa, mas tentarei trazer alguns possíveis exemplos: 
 Se uma pessoa tem uma grande desilusão a respeito de outra pessoa ou sobre determinado assunto, obviamente esta decepção não desaparece da noite para o dia. Na verdade, se não houver uma busca para superar ou contornar uma dificuldade como a perda de esperança, certamente tal elemento ficará no inconsciente, servindo como parâmetro para futuras decisões (ou falta de decisões), comportamentos etc. 
 Outro exemplo é, se uma pessoa ouve a um discurso de grande apelo emocional, que coloca a culpa de seus problemas, ou a culpa dos problemas de todos seus entes queridos, em um indivíduo inocente, ou em uma pessoa que pouco tem a ver com tais problemas, esta crença na mentira ficará no inconsciente, pois no consciente apenas “transitam” as experiências essencialmente do presente. Após a recepção, ocorre a interpretação, aceitação ou recusa e o resultado disto fica no inconsciente. 
 A combinação de todas as experiências e interpretações poderia formar o que a psicologia analítica chama de complexo, apesar que seu autor, Jung, cogita que estes podem vir de origens e elementos mais “antigos”, seja de experiências da tenra infância, do inconsciente coletivo, de fatores genéticos ou de outro fator… 
 Enfim, é útil reforçar o que já mencionei antes: Uma quantidade gigantesca de informações “submergem” (são deixadas ou colocadas por nós como indivíduos) em nosso inconsciente, pois nada simplesmente some “para sempre” para depois “ressurgir do nada”: A consciência do ser humano pode ou não resgatar determinadas “informações” para o presente. 

 Inconsciente: "Alucinações", Sonhos e Espíritos 
 Poderia ser o inconsciente então algo como uma prisão ou masmorra sólida e segura para todo nosso colossal conteúdo “psíquico” esquecido, reprimido etc? Não. 
 Além de todo conteúdo / informação oriunda de nossas experiências em nossa vida, o inconsciente deve guardar nossos instintos de sobrevivência. São impulsos rudimentares, mas que servem para buscarmos coisas essenciais para se viver na Terra… Como os animais. Rudimentar neste caso é uma palavra bem precisa: Como podemos notar, o ser humano é uma forma de vida muito mais complexa do que os instintos, a partir do momento que interpreta todas experiências mencionadas anteriormente, transformando esses “dados” em informação mais ou menos coesa, e muitas vezes, subjetiva. 
 Agora que vimos que no inconsciente ficam estes elementos tão distintos entre si (os instintos, as interpretações das diversas experiências, as memórias, o aprendizado, as preferências etc) podemos imaginar que o inconsciente não seja algo exatamente quieto e inativo… Mas se somos essencialmente a consciência, o que seria essa atividade no inconsciente? Um “eu além”? Um “eu dormente”? Estas ideias e/ou dúvidas incomodam terrivelmente algumas pessoas, inclusive, alguns psicólogos materialistas que vi ao longo da minha vida. A verdade é que a psicologia tem muito de filosofia, pois o campo que estuda a “existência” e suas “variáveis” pertence à filosofia. É ilógico e estapafúrdio IGNORAR tudo o que mencionei anteriormente e querer se auto denominar “cientista do comportamento humano” ou psicólogo. Obviamente o psicólogo não deve ficar remoendo e cavucando insistentemente a vastidão de conteúdo inconsciente de seus pacientes/ clientes, mas desconsiderar todas estas informações é no mínimo muito estranho. Essa discussão é longa na psicologia, mas só se tornou longa só porque há uma repulsa generalizada pelo “imaterial” e pela filosofia como campo interseccionado com a psicologia. 
 Pois bem, aqui entram os temas “polêmicos” que não deveriam ser da alçada dos estudos objetivos, ou seja, não deveriam se limitar à ciência, que é um campo do saber essencialmente materialista: As alucinações. O que são alucinações, afinal? 
 É fútil se ater a uma explicação racional que busca uma neutralidade (falsa) e que se apoia em pressupostos materialistas. Eu poderia trazer uma explicação feita em alguma obra da frente psicanalítica de estudos, explicando que são percepções únicas de um indivíduo em estado psicopatológico (ou algo assim), mas mesmo esta explicação racionalista já foi sobreposta por outras mais reducionistas ao longo do século 20. 
 Então podemos concluir que a alucinação é o real para um indivíduo e não para outro. Não se trata da realidade compartilhada pela maioria das pessoas. É claro, que se este “real” está causando um grande mal ao indivíduo e/ou às pessoas à sua volta, é preciso encontrar uma solução que traga o bem a todos, ou, ao menos, à maioria das pessoas nesta relação. 
 E os sonhos? Os sonhos são a prova da atividade em nossa inconsciência. 
 Diferentes autores da psicologia propuseram diferentes motivos e causas para os sonhos. Se tratando da mente humana e todos seus elementos que não são materiais, portanto não podem ser cheirados, agarrados nem cortados (etc etc), é preciso admitir uma base de estudos mais aberta do que as materialistas (uma dessas bases é a fenomenologia), ou mais plural. Esta última eu indico a possibilidade de utilizar o espiritismo, como filosofia que admite uma existência plural (do “ser humano”, da vida). Assim como a psicanálise certamente deve ter conseguido explicar alguns sonhos e a psicologia analítica, outros, o espiritismo pode explicar alguns destes fenômenos. 
 O espiritismo obviamente não se baseia nos pressupostos materialistas e raramente utiliza o método empírico de investigação, afinal se há uma inteligência/ mente capaz de “sumir e aparecer” interagindo com objetos ou formas de vida, é claro que esta “mente” não precisa se dispor a reprodutibilidade das experiências. Apesar de tentar uma aproximação de temas espirituais (que eram religiosos até o século 19) com a ciência, o espiritismo está mais para uma filosofia, onde estuda-se fenômenos predominantemente psíquicos, através de percepções (muitas vezes internas e não dos 5 sentidos), interpretações, reflexões etc. 

 Espiritismo e o Inconsciente 
 É através do inconsciente que as mentes desencarnadas, ou espíritos, interagem com os vivos. Se é quando dormimos, que nos desprendemos do corpo e interagimos com outras almas (o que essencialmente não difere de mente ou espírito), é claro que o sonho servirá como uma releitura ou véu sobre o que se passa neste momento da existência. 
 O que a psicologia analítica chama de inconsciente coletivo pode ser, ao menos em parte, o que o espiritismo chama de mundo (“Invisível”) dos espíritos, ou o que a linguagem esotérica chama de plano astral. 
 Ora, o que fariam os espíritos neste estágio de existência (enquanto o corpo dorme)? Tomariam cerveja e comeriam churrasco? Certamente não, já que não são um estado de existência “material” - Ou ao menos, não são corpóreos/ não são sólidos, nem líquidos, nem gasosos etc… 
 Aí entra a religião, ou o que chamamos hoje de espiritualidade. A verdadeira espiritualidade não prioriza o material, muito menos os prazeres materiais e os excessos destes e seus vícios, que podem causar desde disputas desnecessárias, até violências etc. Nós, seres humanos, existimos para evoluir mentalmente, ou seja, racionalmente e sentimentalmente - não é difícil perceber isto, basta comparar o potencial do homo sapiens com as inúmeras outras espécies de vida da Terra. 
 Então se a mente inconsciente, ou o espírito durante o sono, realmente está priorizando simulações de prazeres materiais, há algo errado com esta “porção” incorpórea/ “imaterial” do ser em questão. Pois a priorização de prazeres materiais está intimamente ligada com comportamentos conscientes que alternam entre a superficialidade e a ganância. Nas sociedades esta priorização é fomentada pelos discursos de fins mercadológicos que obviamente relegam a um segundo plano o ser humano, suas inter relações e o meio ambiente: Consumismo, culto ao corpo, hiper sexualização, meritocracia na busca incessante por dinheiro, status etc. 
 Ora, a propagação das ideias consumistas e alienantes dos maiores beneficiários do capitalismo, convencendo inúmeras mentes humanas de que tais ignorâncias são o mais importante fator da existência, gera e alimenta todo um inconsciente coletivo, ou um mundo dos espíritos/ plano astral, severamente contaminado por mentiras que geram rivalidade e insensibilidade. 
 Para se fazer tal estrago nas mentes (ou almas) humanas, nem chega a ser necessário a propagação de discursos violentos como os de nazistas e de fascistas. Todas essas almas ou mentes levadas por discursos de fortes sentimentos negativos (como ódio e intolerância) ou levados à dessensibilização (desprezo ou supressão dos sentimentos) e ao materialismo escrachado não estão se desenvolvendo em seus potenciais. Na verdade elas estão prejudicando ou até mesmo danificando umas às outras. A diferença é que os discursos objetificadores, mercadológicos, enfim consumistas, parecem destruir de maneira mais lenta e menos “explosiva” a humanidade, se comparada com as ideologias violentas por trás da 2ª guerra mundial. 
 Na verdade, em muitos casos, não é necessário nem estudar porções inconscientes da mente/ alma para saber disto: Podemos ver em qualquer artigo, seja da sociologia, da psicologia ou do jornalismo, que aborde o adoecimento mental em massa da civilização humana. 
 Mas vale citar o espiritismo se tratando deste assunto da psicologia social. Todo ser humano tem alma e todos se relacionam uns com os outros. Todas experiências são levadas para além da vida consciente na Terra, ou seja, o espiritismo não deve se alienar nestas questões. O espírita verdadeiro sabe sim da importância do desenvolvimento individual, mas não pode ignorar estes fatores psicossociais e deve buscar o conhecimento e o bem de si mesmo e do próximo até mesmo em algumas questões sociais / econômicas. Não se trata meramente de escolher um lado na política ou um partido: é uma questão de se informar deixando de olhar só o próprio umbigo. Abandonando o egoísmo e o conservadorismo que nega a ciência e o bem estar do próximo. O fundador do espiritismo, Kardec, não deu o nome ao seu periódico de “Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos” à toa. Foi uma escolha, pois ele mesmo afirmou que a humanidade estava entrando na “era psicológica”. 
 Aqui a crítica não é só ao espiritismo: é a todo campo de estudo e a todo estudioso - todo aquele que tem um “curso superior”. Afinal, ter um ensino (verdadeiramente) “superior” implica em humildade para aprender sempre. Ser superior é servir o mais necessitado. Se por qualquer motivo não podes dedicar-se a auxiliar o próximo, ao menos lute para não levar conteúdos nocivos para tua alma (teu inconsciente) e se já levaste, é bom esforçar-se para reparar isto, porque uma alma infeliz é ruim para espiritualistas (pois lhe afetará no futuro) e até mesmo para os materialistas (porque afeta o presente).

quarta-feira, 13 de abril de 2022

A não-espiritualidade nos meios espirituais

 

Frequentando diferentes meios religiosos e espiritualistas, percebi uma coisa comum: A predominância de opiniões distintas, mas todas de fracos interesses no progresso mental, principalmente no que se diz respeito ao sentimental (afetivo e empático) e espiritual, da humanidade. Não me refiro aos conservadores radicais, pois estes não são novidade e já falei deles em outros textos.

Entre protestantes (geralmente chamados de crentes), sejam pentecostais, presbiterianos ou outros, há um discurso dominante de superação de dificuldades e conquista na vida material. Mesmo entre os que parecem apreciar os ensinamentos de Jesus, há uma priorização da vida na Terra, em suas condições econômicas etc. 

Entre católicos, vi muitas pessoas interessadas em ajudar os mais necessitados, mas desses muitos, uma parcela significante faz a caridade esporadicamente, afinal estão ocupados em suas rotinas de trabalho, estudo etc.

Até aí "tudo bem", pois talvez não seja absurdo não haver esforços maiores para se aproximar progressivamente mais dos ensinamentos de Cristo. Nestes dois exemplos, considero que a religião cristã pode ter deixado uma abertura para os fiéis escolherem a vida de simples fiéis que continuam em suas rotinas aplicando ensinamentos de Jesus eventualmente. Porém há também uma escolha cuja a denominação APOSTÓLICA define bem: A vida de apóstolo, ou de discípulo de Jesus. Ao ler os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, é possível entender que esta vida é bastante severa para os padrões da atual sociedade capitalista (o que inclui todos sistemas dos séculos 18 ao 21, desde o liberalismo, passando pelo socialismo de Cuba e Coreia do Norte, pela social-democracia escandinava até o neo liberalismo tão propagado por países como os EUA). 

Os apóstolos, como pessoas mais próximas de Jesus, tinham compromissos mais urgentes que iam desde propagar os ensinamentos até operar o que se chamava de milagre (e muitos ainda chamam hoje no século 21, não há grandes problemas nisso). 

Neste ponto eu considero estranho como muitos indivíduos das religiões e filosofias que aceitam (e divulgam em certo ponto) o conceito de Médium, lidam com este. Embora a umbanda e o candomblé frequentemente lidem com médiuns, meus questionamentos estão mais voltados ao espiritismo. Se existem diversos tipos de espiritismo que priorizam um ou outro autor espírita, então me refiro principalmente aos kardecistas. 

Obviamente não fiz uma pesquisa onde entrevistei pessoas destas religiões - aqui falo apenas de meus 3 anos de vivência. O que percebi entre espíritas de visões e comportamentos bem distintos entre si foi o seguinte: Independentemente se estes espíritas que observei possuem uma opinião política mais de direita [neo(liberal)] ou de esquerda (socialista, anarquista etc), estes grupos parecem se afastar do cristianismo dos apóstolos. Na verdade se distanciam até mesmo de alguns ensinamentos de Sócrates/ Platão. 

Mediunidade - Os apóstolos de Cristo e Sócrates

Em Mateus 10 1: "E, chamando os seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem, e para curarem toda a enfermidade e todo o mal." 

Mateus 10 8-9 "Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai. 

Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos, Nem alforges para o caminho, nem duas túnicas, nem alparcas, nem bordões; porque digno é o operário do seu alimento." 

Mateus 10 22 e Marcos 13 13: "E odiados de todos sereis por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo." 

Estas e outras passagens da bíblia deixam claro que os apóstolos eram médiuns e tinham responsabilidades por isso. Além disto o termo médium significa, ao menos em partes, que ele é um intermediário entre as pessoas da Terra e os espíritos. Oras, se o espiritismo tem como uma de suas bases o cristianismo e os médiuns espíritas são intermediários entre os espíritos, o que aconteceu para não se aproximarem do estilo de vida e da missão dos apóstolos de Jesus? Podem existir inúmeros motivos, mas há de se analisar: Se o médium é independente de qualquer centro espírita, então os motivos que o levam a se aproximar de certos tipos de espíritos e não de outros, certamente é particular dele, de suas escolhas, pensamentos, sentimentos, ideologias etc. Mas se ele participa regularmente de atividades de um determinado centro espírita, então parte de suas motivações podem estar neste ambiente. 

Claro que nem todo médium conseguirá sair curando ou fazendo outras proezas incomuns, mas o que eu percebi em minhas companhias, mais ou menos duradouras, é que há uma propagação da ideia de que o médium pode e deve ter uma vida "normal", bem adaptada ao sistema (seja econômico, social ou ambos), relegando sua mediunidade e sua espiritualidade a um segundo plano, ou a algo complementar a sua rotina. Para completar, é bom lembrar que o espiritismo ensina que nenhum médium desenvolve suas capacidades ou habilidades completamente sozinho. Daí o termo médium - porque o desenvolvimento da mediunidade se dá numa relação com o "mundo espiritual" (na falta de um nome melhor, uso este por enquanto). Então, se um espírito bom concede a mediunidade ou ajuda a desenvolver esta capacidade, porque o médium deveria escolher uma vida espiritual insignificante? Porque dedicar maior parte de seu tempo ao trabalho, à busca por renda (dinheiro) ou até mesmo, em certos casos, às rotinas mais vãs/ fúteis? Por um acaso foi um espírito leviano que ajudou o médium a desenvolver suas capacidades? Ou talvez alguma(s) pessoa(s) significante(s) na vida do médium (do centro espírita, da família, do trabalho etc), tenha influenciado seu modo de pensar e de viver? Se o médium, frequenta um centro espírita, ou grupo religioso que lida com a mediunidade, certamente o problema deveria se resolver... A menos que o lugar que o médium frequente, estimule a insignificância espiritual. Isto não é impossível, tendo em vista que nossa sociedade competitiva e consumista (e portanto materialista), deve repudiar uma vida de humildade e solidariedade. Ao longo da história das religiões e da espiritualidade, existem diversos momentos de "adaptação" de igrejas, templos e certamente centros espíritas, ao sistema capitalista que tanto pressiona a sociedade para que esta seja produtiva e consumista. Claro, que esta adaptação está mais para decadência ou corrupção, já que desvaloriza o que deveria ser seu foco: a espiritualidade, no caso, cristã. Assim, os tais centros rebaixariam a importância da humildade e da verdadeira solidariedade. Solidariedade não é só algumas esmolas ou realizar eventuais arrecadações. Amar ao próximo, a si e a Deus, não é amar alguns da família, uns amigos e um ou dois grupos de pessoas vulneráveis, ignorando grandes problemas como o aumento de desemprego, de moradores de rua, da fome e da miséria. Certamente individualmente não podemos resolver todos os problemas do mundo, sequer de um país. Mas podemos sim buscar entender a sociedade em que vivemos e, nos organizando em grupos, tentar melhorar, auxiliando os mais necessitados e cobrando justiça e equidade dos mais poderosos e dos mais ricos com mas eficácia. O que podemos fazer individualmente é justamente tentar nos aproximar do estilo de vida dos apóstolos, ou seja, de um modo apostólico de viver. A espiritualidade cristã não é separável da solidariedade, da humildade e do bem. Não se trata de autoflagelação e sim ir buscando progredir espiritualmente. Este progresso, frequentemente chamado de moral por Kardec e alguns outros intelectuais de seu tempo, é o desenvolvimento da empatia, do sentir o próximo e se colocar no lugar do outro. É também o progresso intelectual, ou seja, não só de um "conhecimento"específico que utilizamos numa carreira profissional. O progresso intelectual também se dá estudando e adquirindo conhecimento sobre a sociedade, suas relações, sua história, tudo isto vinculado à empatia. É aí que os ensinamentos de Sócrates e Platão complementam os do cristianismo / espiritismo. Sócrates afirmava que o verdadeiro conhecimento não pode deixar o bem de lado. No livro "A República" de Platão, ele cita que o mais poderoso deve servir o menos poderoso e que as artes (profissões, ofícios, conhecimentos) devem servir seus usuários. Já no livro Gorgias, do mesmo autor, Sócrates fala da importância do bem: 

"Sócrates — Decerto, referes-te aos prazeres como os de que falamos há pouco com relação ao corpo, no ato de beber e de comer: bons são os que promovem a saúde do corpo, ou a robustez, ou qualquer outra qualidade física, e maus os que produzem o contrário disso? 

Cálicles — Perfeitamente. 

Sócrates — E com as dores não se dará a mesma coisa? Umas são benéficas e outras nocivas? 

Cálicles — Como não? 

Sócrates — Sendo assim, o que devemos escolher e fomentar são os prazeres e as dores úteis? 

Cálicles — Perfeitamente. 

Sócrates — Não os prejudiciais. 

Cálicles. — É claro. 

Sócrates — Pois todos os nossos atos devem ser pautados só em vista do bem, como eu e Polo reconhecemos, se é que ainda te recordas." 

Sócrates e Platão ainda recomendam bastante moderação nos prazeres materiais, explicando que os melhores são os mais leves e sutis, ou seja, os prazeres materiais menos intensos. Estas proposições incomodaram grande parte das elites gregas daquela época (século 4 a.C.) e provavelmente ainda incomodam muita gente, hoje, no século 21. Certamente seguir os ensinamentos de Sócrates à risca, implica em um estilo de vida asceta, o que não difere muito dos ensinamentos de Jesus Cristo para seus apóstolos. 

Esse ascetismo não é testar seus limites físicos, pois requer uma fé, ou, de acordo com a psicologia, um sentido de vida. Este sentido de vida é algo de importância central para a pessoa - algo em que ela realmente acredita e/ou se devota de maneira prioritária. 

Platão revela em O Banquete que Sócrates realmente era humilde, sempre carregando o mínimo de posses possível e chegando a realizar alguns feitos que podem ser comparados em algum nível aos milagres da bíblia. 

Se quisermos lançar um olhar mais cético e/ou mais científico, o mais correto a se fazer é ver mediuns como os apóstolos de Jesus, ou até mesmo, Jesus e Sócrates, como indivíduos com um sentido de vida claro e bem definido. Este sentido de vida, de certo modo, explica o funcionamento da fé e é abordado na psicologia fenomenológica, particularmente na logoterapia como mencionei em outro(s) texto(s) meu(s). https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/11/os-estudos-e-as-abordagens-da-mente.html 

 Independente se a fé age "sozinha" no indivíduo (como parece ser o caso do sentido de vida descrito na logoterapia) ou por meio de seres incorpóreos ou em uma "dimensão espiritual" (como descrito pelo espiritismo), ela só traz resultados significantes se a pessoa prioriza o "objeto" de sua fé. E ela só traz bons resultados se há um grande amor (ou afeto positivo) investido nesse "objeto" da fé. A única diferença do sentido de vida da logoterapia e da fé cristã, é que esta última é especificamente voltada para algo maior: Amar a Deus é automaticamente amar a si mesmo e ao próximo. Amar o próximo é um esforço contínuo em perdoar cada vez mais, até que se ame a todos, afinal Deus é onipresente e todos são parte de sua criação. É difícil? Certamente sim, mas isso não é motivo para centros espíritas, igrejas e templos cristãos priorizarem qualquer tipo de materialismo ao invés de divulgarem ensinamentos espirituais. Não é motivo para minimizar o estilo de vida e a devoção dos apóstolos. Não é motivo para afastar espíritas, evangélicos nem católicos desta busca por uma aproximação dos apóstolos e de Jesus. E no caso dos espíritas, esta dificuldade em buscar uma vida mais mental (tanto intelectual como sentimental), não deveria jamais ignorar ou recusar os ensinamentos de Sócrates e Platão, pois ambos filósofos priorizaram tanto o conhecimento e as atividades mais racionais, como o bem, a alma e a espiritualidade. 

 Para encerrar trago um comentário de uma das obras de Kardec:

"Os grandes Espíritos encarnados são, sem contradita, individualidades poderosas, mas de ação restrita e de lenta propagação. Viesse um só dentre eles, embora fosse Elias ou Moisés, Sócrates ou Platão, revelar, nos tempos modernos, aos homens, as condições do mundo espiritual, quem provaria a veracidade das suas asserções, nesta época de ceticismo? Não o tomariam por sonhador ou utopista?" 

 Fontes:

Frankl, V. (tradução em português) Em Busca de Sentido, 1945 

Kardec A. O que é espiritismo?

Platão A República

Platão Górgias

Platão O Banquete

Bíblia Sagrada, em www.bibliaonline.com.br - Almeida Corrigida Fiel, acessada em 13/04/2022

 

quinta-feira, 31 de março de 2022

Reflexões sobre Rotina, Expressões e Ritmo

 

A rotina pode ser um itinerário habitual ou o hábito de fazer uma atividade sempre da mesma maneira, mecanicamente. Em suma, a rotina não tem novidades. 

O ritmo se refere a um movimento regular e periódico, a um fluxo, de qualquer processo. É uma sucessão de "tempos" (ou de fenômenos/ manifestações como sons) que alternam em intensidades (fortes, fracos etc) e em intervalos regulares. 

Imagine o nada da maneira mais tosca ou simplória possível: Tudo escuro, silencioso, nada a se perceber. Daí imagine - como surgiu tudo? Como surgiu o universo? Podemos começar pelo nosso lugar (também simplório) de ser humano mesmo: 

A Terra, todo o céu, a superfície com seus morros, vales, praias e o mar. Toda a vida, desde a vegetação passando pelos inúmeros animais até a nossa espécie humana. Então imaginemos as estrelas, a Lua e o Sol - o dia e a noite. Isso era tudo que o humano podia admirar a partir da Terra, por muitas eras - desde a idade da pedra até a revolução científica iniciada em meados do século 17. A partir daí foi possível descobrir mais coisas sobre o universo - Com a curiosidade (e humildade em admitir que não se conhece ainda) e com o estudo, vieram mais novidades; O Sol é apenas uma das estrelas da vastidão do espaço, onde cada estrela tem seu sistema com órbitas, variados planetas, satélites, asteroides, cometas etc. Os seres vivos, assim como toda matéria, é formada por partículas minúsculas que se relacionam entre si.

Muitas perguntas surgiram e ressurgiram: O ser humano começou a traçar hipóteses sobre a origem do universo, da vida, da inteligência etc. 

Talvez uma das coisas mais interessantes desta história é que o ritmo sempre esteve em tudo. 

E a rotina? Bom, a rotina esteve presente também, mas certamente se houvesse apenas ela, não haveria descobertas, sequer haveria o surgimento de coisas em qualquer processo da gênese cósmica. A rotina talvez faça parte de algo, mas jamais se refere ao amplo, às novidades ou à vastidão. 

O ritmo está nos movimentos estelares e nas órbitas planetárias. Está nos ventos da Terra, nas ondas do mar e na evolução das espécies. Nas sociedades humanas ele aparece na música, na dança e no progresso da civilização. Já a rotina aparece após a busca pela sobrevivência, ao se conquistar métodos e ferramentas em um ambiente e posteriormente aparece no trabalho, após a propagação da agricultura e da pecuária. A rotina pode aparecer em diversas atividades complementares ou supérfluas também, nas maneiras de se fazer as atividades: Qual caminho percorrer entre o trabalho e o lar, como arar a terra, como guardar, carregar e preparar alimentos, como fazer, limpar e guardar vestimentas etc. A rotina é isso - é algo inferior ao ritmo, pois serve somente às determinadas atividades e momentos. O ritmo é literalmente mais abrangente do que uma rotina. 

As descobertas sejam racionais ou emocionais, fazem parte do ritmo - Do que conduz a vida de grupos de pessoas que se relacionam, sejam eles pequenos ou grandes. O ritmo não é mecânico, não é composto por meros atos físicos como maneiras de fazer, gestos ou movimentos repetidos. Estes últimos estão mais para a rotina. 

Certamente a rotina teve sua importância e sua inocuidade ao longo da história da humanidade, porém nas primeiras décadas do século 20, isto foi mudando. A rotina deixou de ser algo inofensivo e foi sendo transformada em algo nocivo para a maioria das pessoas. Mas se a rotina é um hábito ou ação habitual, como isso aconteceu? Repentinamente a maioria dos seres humanos foi se tornando autodestrutiva? Uma pandemia de masoquismo ou de ódio a si mesmo? Nada disso: é óbvio que isto foi um imposição. Mas uma imposição de quem? Não é difícil descobrir. 

Isto ocorreu logo após a economia liberal, ou o sistema (de regras e normas) capitalista, se tornar industrial. Para entender isso, devemos recorrer a história: 

Na economia liberal, assim como no mercantilismo (e não muito diferente do escambo) determinados indivíduos trabalhavam para outros, numa busca de meios para sobreviver. Até aí, há uma troca aparentemente simples, mas o liberalismo tão defendido no século 18, na verdade defendia o direito de indivíduos enriquecidos manterem suas fortunas e adquirirem mais, sem pagar taxas ou pagando o mínimo de taxas para qualquer tipo de instituto de regulação ou governo. Além disto, apesar de existir a cruel e opressora escravidão tão difundida pelos europeus durante os séculos 15, 16, 17, 18 e 19, este período anterior às descobertas do uso da eletricidade e dos combustíveis fósseis/ vegetais, ainda não permitia tamanha exploração do ser humana que viria a ser colocada em prática no século 20 (e início do séc. 21). A industrialização após a invenção de máquinas movidas a eletricidade, a diesel etc, permitiu o aumento da produtividade, mas não só isso: Permitiu os "novos" enriquecidos a juntar mais dinheiro e comprar não só mais bens, mas comprar novos direitos também: O direito de fazer propagandas enganosas, de fazer lobby e de interferir nas leis, modificando-as em benefício de si próprios. Mas isto é um resumo, mesmo porque a existência humana não se limita a estas questões econômicas e políticas: Só contei esta história para mostrar que tais relações têm seu impacto, ao determinar rotinas aos seres humanos. 

Os períodos anteriores aos séculos mencionados aqui (do século 15 ao 20) também tiveram suas opressões e criações de rotinas: A era medieval na Europa, por exemplo, foi um período onde a espiritualidade foi institucionalizada e transformada em ferramenta de opressão. Afinal o que uma instituição que guardava fortunas, construia templos monumentais e mantinha exércitos tem em comum com os ensinamentos de seu profeta, Jesus Cristo? Nada. Assim, a espiritualidade certamente tornou-se mecânica (mera rotina) para a maioria das pessoas a partir da era medieval, quando o alto clero da igreja católica concluiu seu processo de se consolidar no poder da Europa (processo que durou aproximadamente entre os anos 330 d.C a 1000 d.C) 

Enfim, a rotina pode ser saudável quando respeita o ciclo de liberdade-responsabilidade de cada ser humano. Mas impor rotinas à maioria das pessoas, quebrando este ciclo equilibrado, é esmagar uns sobre a responsabilidade querendo dar liberdade somente a uma minoria que determina as regras da sociedade, as regras de convivência. É fomentar desilusão e cansaço em massa, ameaçando a humanidade com epidemias de transtornos psíquicos, como ansiedade e depressão. 

Se olharmos na natureza, assim como em meios místicos e religiosos (não como instituições de poder), encontramos o símbolo do desabrochar: Tais tipos de símbolos geralmente são representados na forma de estrelas, flores e árvores, como os que estão na ordem Rosacruz, no hinduísmo e nas "árvores da vida" do tengrismo, do judaísmo místico, da antiga religião viking etc. Este desabrochar significa a liberdade da vida encontrada em todo lugar - na natureza. É um movimento presente desde a expansão cósmica (Big Bang) até os dias de hoje. Desde estrelas até plantas nascem com tal movimento expansivo. A espiritualidade, o amor e as artes são expressões do ser humano representadas por este desabrochar. Obstruir tal movimento, impondo rotinas de trabalho absurdas à maioria das pessoas para favorecer uma liberdade disforme e escarnecedora de uma minoria, é uma abominação - uma afronta à natureza e ao divino. 

Liberdade e responsabilidade caminham naturalmente interconectadas, como em um ciclo mencionado anteriormente, e não segregadas: Isto pode ser entendido como ritmo e faz parte da lei de ação e reação nos processos da natureza. 

Onde eu quis chegar com essa "viagem"? Foi só uma crítica (social) às rotinas? 

Não somente isso - Ao falar de ritmo, falo de expressão também, então vale tentar dizer mais:

Não existe palavra capaz de designar o que existe além de 3 dimensões. Boa parte da simbologia do florescer na espiritualidade mencionada há pouco, se refere a isto.

Em minhas experiências espirituais boas eu me lembro da humildade em mim. Mas manter-me humilde como no momento de meus poucos êxtases é algo que me parece muito difícil enquanto estou vivendo a rotina na Terra, talvez porque as coisas boas tenham ritmo, como a música e a dança, não sendo meras rotinas. Quando falhei em transmitir a grandiosidade de Deus e de sua obra por exemplo, me cansei e neste cansaço perdi minha humildade. No êxtase fui elevado por Deus a uma experiência além da vivenciada em minha rotina típica na Terra. No cansaço após tentar expressar a importância do bem (humildade, amor, esperança...), decaí na rotina de comportamentos típicos do ser humano e estes comportamentos típicos do ser humano são frequentemente afrontosos à Deus, pois priorizam as rotinas na Terra, deixando o bem e a verdade em segundo plano. Não culpo os outros porque tenho o livre arbítrio, dado por Deus a todos nós. Mas o êxtase a que me refiro é uma experiência sublime, certamente individual e nada material como nós em nossa existência humana entendemos. Requer esquecermos todas nossas desculpas esfarrapadas de nos defendermos com argumentos humanos para nos mantermos em rotinas que deixam o bem em segundo plano. O bem que é o que se deve amar verdadeiramente. O bem expresso pela mãe que é um ser e um espaço/ lugar ao mesmo tempo, pois carrega o bebê por meses em seu ventre. O bem expresso pelos pais que enfrentam todas as dificuldades da rotina na Terra, priorizando puramente os filhos, por amor.

Não se trata de ter alguém para amar ou de ter uma companhia. Ter é possessão, é contenção. Se trata de se entregar ao bem, sem desejar recompensa alguma para si mesmo. Enfim, talvez eu tenha fracassado por tentar expressar com palavras o que se expressa com lágrimas, mas de qualquer modo eu espero que o ser humano sempre possa sorrir e chorar por alguém além de si mesmo. E que as rotinas jamais sufoquem tais coisas.

terça-feira, 1 de março de 2022

Sonhos: Da Psicologia ao Espiritismo

 

Lembranças e Instintos 

Todos temos lembranças de outras pessoas, baseadas em nossa interações, sejam elas superficiais ou profundas. Junto das lembranças existem sentimentos e pensamentos, baseados em interpretações, sensações, imaginações etc. 

Atualmente, neste início de século 21, podemos entender que o ser humano não é meramente dominado por seus instintos. Os instintos existem, é claro, afinal somos formas de vida da Terra também, seria ilógico não ter um instinto de sobrevivência. Porém uma das provas mais óbvias de que o ser humano não é dominado por tais instintos é o desenvolvimento da arte ao longo da história da humanidade. A arte é mais antiga do que a escrita, sendo desenvolvida no mínimo 4000 anos antes da escrita suméria e dos hieróglifos egípcios. Esculturas de formas animais e humanas existem ao menos desde 7000 anos aC. Pinturas rupestres, sejam de animais, cenas de caça ou de padrões geométricos e textura foram feitas milênios antes de tais esculturas. Fora a arte, temos a espiritualidade certamente iniciada por xamãs na idade da pedra e continuada por líderes religiosos na era do bronze. Estes são apenas alguns dos indícios óbvios de que o ser humano não é predominantemente dominado pelos instintos de sobrevivência: Ele se ocupa de outras atividades que muitas vezes são o centro de sua vida. 

Relações Humanas no Início da Vida 

Então temos um grande potencial de uma vida afetiva vasta e plena. No período da infância, a criança pode aprender a se relacionar com os pais, com irmãos e com possíveis colegas. A criança aprende a se expressar com seu círculo mais íntimo (essencialmente familiar), depois aprende a brincar de variadas formas, seja com outras crianças, com brinquedos etc. Estas experiências ficam registradas de modo mais ou menos preciso na mente da criança, daí formam-se as "primeiras lembranças". Suas relações, sejam com pais de criação, ou com outras crianças, formam (ou moldam, tanto faz, o fato é que influenciam de maneira determinante) sua maneira de se expressar, seja racionalmente ou emocionalmente, conforme o afeto recebido (posteriormente devolvido, formando um ambiente de troca de afetos). Sendo assim, nota-se que a necessidade de relação é proeminente na vida humana, tanto que o afeto recebido pela criança é um dos elementos mais impactantes em sua construção como ser, ou seja, em sua vida: Uma criança que recebe pouco afeto, crescerá com mais dificuldades em entender os sentimentos e suas respectivas expressões (as emoções) de outras pessoas , do que uma criança que recebeu mais afeto. Lembrando que afeto é popularmente considerado carinho e interações similares ao carinho, mas na psicanálise, o afeto é um elemento psíquico quantitativo, ou seja que pode ter intensidades, como os sentimentos. 

Falar de sentimentos na infância é um tema importante, mas é um tema complexo que deverá ser abordado em outro texto. Inclusive, eu já falei um pouco sobre eles nestes textos: 

https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/06/o-que-preenche-o-vazio.html 

https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/08/reflexoes-sobre-importancia-da-inocencia.html 

Inconsciente e Sonhos 

O sonho é um tema estudado de maneira bastante esparsa há mais de 100 anos . Tal cisão nesta área da psicologia se dá por desentendimentos sobre qual base teórica/ filosófica e qual método deve-se utilizar para estudar o comportamento, o pensamento e os sentimentos humanos. Neste texto focarei nas abordagens psicológicas que consideram a existência do inconsciente do aparelho psíquico (como as teorias de Freud e de Jung), mas também trarei reflexões de outros estudiosos, de áreas menos psicológicas como neurologia, filosofia e até de teologia/ espiritualidade. 

Importante notar que o modelo de mente (aparelho psíquico) proposto pelas abordagens da frente psicanalítica de estudos (Freud e Jung) tem um ponto chave em comum: O aparelho psíquico é dividido em "dois níveis" denominados inconsciente e consciente. Estes 2 elementos da mente serão explicados mais adiante. 

Freud faz vastas análises sobre sonhos em suas obras, porém ele utiliza como centro de sua base teórica as questões e funções mais biológicas: o Id, as pulsões de vida e morte, a libido. Para o fundador da psicanálise, praticamente todo comportamento humano tem uma função relacionada a sobrevivência, daí ele desenvolveu os conceitos das fases da sexualidade, os desvios das funções biológicas etc. Embora ele tenha feito grandes esforços, escolho não me aprofundar mais nas obras de Freud, por que entendo que Jung ampliou estas bases teóricas, ao "fundar" a Psicologia Analítica. 

Jung percebeu que o inconsciente era mais do que um depósito de conteúdos indesejados/ "vergonhosos'(interpretações, memórias), instintos de sobrevivência e desejos reprimidos. Aqui segue um resumo sobre o inconsciente e outros elementos da mente que considero descrever neste texto: 

Inconsciente (pessoal): Este aspecto ou porção do aparelho psíquico contém instintos variados como impulsos de vida e de morte, memórias reprimidas, tendências à estagnação ou ao conservadorismo e o elo com informações além da vida intra-uterina. As informações de além da vida intra-uterina podem ser desde heranças genéticas ou até elementos psíquicos que independem do espaço-tempo. Memórias e sentimentos reprimidos ou esquecidos no inconsciente não deixam de existir, eles apenas permanecem inacessíveis por variados períodos;

Maior do que o inconsciente da psicanálise, Jung classificou o inconsciente como uma matriz que serve também de base da consciência de natureza criativa. 

A intuição age por uma cadeia de elos, dos quais só percebemos seu resultado; Jung conclui que acontece pelo inconsciente; 

Consciência: A mente no presente. Percebendo, interagindo com o entorno, em geral é mais racional do que o inconsciente; 

Sonhos: Os de natureza pessoal são manifestações do inconsciente (pessoal), Já os sonhos de natureza coletiva, ou seja, aqueles que apresentam sincronidade ou padrões similares / idênticos ao de pessoas distantes ou de outras épocas, devem ser manifestações do inconsciente coletivo; 

Freud supôs que existiria uma função especial da psique, a que ele chamou "censura", a qual Jung duvidou. A censura, segundo Freud, é que deformava as imagens do sonho tornando-as irreconhecíveis a fim de enganar a consciência que está sonhando sobre o objetivo real do sonho. Ocultando do sonhador o pensamento crítico, a "censura" protegeria o seu sonho do choque provocado por reminiscências desagradáveis. Jung diz que o conteúdo onírico tende a ser apagado quando a pessoa passa do sono à consciência. 

Por experiência própria, classifico ambos autores corretos em algum nível: Como Freud disse, as imagens, personagens e cenários se mostraram fachadas em diversos sonhos meus: Personagens com a aparência de uma determinada pessoa, na verdade eram nitidamente outros - Isto foi notório pelas maneiras, conteúdo da fala, opiniões que pertenciam a outra pessoa conhecida, isso sem contar os casos de um sentido de certeza único, similar a uma intuição, porém ainda mais evidente. Por outro lado, como Jung afirmou, alguns de meus sonhos foram censurados por um intenso e pulsante sentimento (como medo ou nojo) no momento do despertar e por segundos seguintes, até que fossem escondidos (imersos) no inconsciente novamente. 

Valor Psíquico: É uma medida de quantidade de energia consagrada a um elemento psíquico, portanto relaciona-se ao que a psique de um indivíduo valoriza. Este valor da energia psíquica não pode ser medido de maneira absoluta nem individual, mas pode ser comparado com outros valores, pois geralmente há uma hierarquia de valores e alterações de valores conforme a psique passa por experiências ao decorrer do tempo. Por exemplo, uma pessoa pode preferir a beleza em relação à verdade ou as amizades em relação à fortuna. Também é possível observar o quanto tempo uma pessoa dedica a variadas atividades e metas. Obviamente pode haver (e geralmente há) interferências sociais que funcionam como obstáculos para as metas das pessoas, sejam cobranças de familiares, ou pressões socioeconômicas. Estes exemplos de valores são os que aparecem no consciente da pessoas, pois podem ser observados, porém existem valores que ficam no inconsciente. A psique humana está constantemente avaliando situações e assim, atribui variadas quantias de energia psíquica a diversas atividades, mas a consciência pode desviar-se de alguns valores. Estes valores inconscientes relacionam-se com os complexos da pessoa. Quanto mais associações um complexo tiver, maior seu poder e consequentemente, maior seu valor. 

Complexo: Os complexos são uma reunião de conteúdos que formam aglomerados no inconsciente. Eles frequentemente determinam pensamentos e comportamentos, pois são interpretações e preferências, que às vezes podem estar relacionados às neuroses e às vezes podem ser trabalhados para servirem de inspiração. Os complexos geralmente têm origem mais profunda do que a infância, podendo estar relacionados à vida intra-uterina, a fatores genéticos ou ao inconsciente coletivo etc; 

Inconsciente coletivo: Conexão entre os inconscientes pessoais das mentes humanas, como por exemplo, através de herança genética. Além de fazer a ligação da mente humana com o processo de evolução orgânica, entende-se que o inconsciente neste nível, pode se relacionar com forças além do espaço-tempo; Os conteúdos do inconsciente coletivo jamais foram do período de vida do indivíduo. Assim, o ser humano herda elementos (como predisposições ou potencialidades) de um passado que inclui todos antepassados humanos e até mesmo antecessores pré-humanos e animais. Não é fácil explicar tal conceito na ciência dominada quase que unicamente pelo método empírico, mas os elementos do inconsciente coletivo podem estar relacionados a vários temas e teorias que já foram conjecturadas nas ciências, mas que são pouco aceitas. Exemplos são algumas teorias de "dimensões" além do espaço-tempo conhecido, diferentes caminhos genéticos que deixam a teoria da evolução das espécies mais complexa do que a proposta feita no século 19 por Darwin etc... 

Minhas Experiências com Sonhos 

Desde meados de 2019, entendi que meus sonhos têm mais relação com alguma descrição espírita, mesmo após iniciar os estudos em psicologia: Vários dos meus sonhos mostraram nítidas evidências (dentro da possibilidade do que se pode chamar de evidência em "processos internos" da mente) de interações com outros indivíduos e até mesmo com a percepção de outras presenças, que se mostram como sentimentos alheios aos meus, frequentemente sem forma compreensível pelos 5 sentidos humanos. 

As presenças (a maioria manifesta só como sentimentos alheios) se mostraram totalmente diferentes das alucinações como eu as experimentei. Alucinação é um tema controverso que sempre toca a ontologia (estudo do ser, do existir, ou seja: assunto da filosofia) e defini-la apenas cientificamente é um reducionismo. Eu não trouxe fontes de autores que se proclamam cientistas com autoridade sobre o assunto, mas talvez concordando com uma visão psicanalítica e/ou psiquiátrica  em classificar alucinações como percepções que ocorrem durante uma condição patológica (pode ser desde uma febre até uma disfunção neurológica), eu entendo estes sentimentos e pensamentos percebidos por mim a partir do ano de 2019, como elementos externos em relação ao meu aparelho psíquico, devido aos seguintes fatores: 

Eles diferiam dos meus pensamentos e sentimentos do presente. Eram outros pensamentos e/ou sentimentos percebidos mentalmente por mim. Raras vezes eles pareceram invadir minha mente de modo brusco/ violento. Nestes casos sem efeitos físicos adicionais, algo que acompanhava minha percepção nítida e visceral, era uma certeza. Um entendimento - que não podia ser confundido com outro fenômeno. Sobre algo (sentimento, pensamento...) que não podia ser velado nem dissimulado. 

Às vezes eu os percebi se aproximando de mim, nestes casos geralmente surgiam acompanhados de algo físico que me afetava: Leves choques, solavancos, empurrões, estocadas com choques, ondas de choque que surgiam externamente, passando pela minha pele e atravessando meu corpo, formigamentos em partes existentes e inexistentes do meu corpo (estes últimos foram: sentir formigamento em um tipo de cordão atrás da nuca, formigamento em uma bíblia a uma distância aproximada de 150 cm, formigamento numa região esférica acima do topo da minha cabeça) 

Estes primeiros fenômenos mostram que havia uma inteligência por trás deles. E buscavam uma relação (hostil na maioria das vezes) comigo. Eles são semelhantes a alguns outros fenômenos muito melhores (e nada hostis) que aconteceram comigo, dos quais já dei uma prévia neste texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/08/amor-nao-e-alucinacao.html 

Os segundos fenômenos são os mais interessantes para o estudo dos sonhos: Eles nunca ocorreram antes de 2019, foram mais sutis do que os fenômenos citados anteriormente e quase se passaram por sonhos "comuns", se não fosse por alguns detalhes nítidos: 

Sintonia psíquica com o local - Cada lugar que eu visitava enquanto desperto, mudava o padrão de sonho (e de experiências mediúnicas) que eu tinha a noite: 

Os poucos motéis que visitei após 2019, causavam-me uma intrusão em minha mente, de imagens pré sono de mulheres e homens claramente excitados sexualmente, além de eventualmente me causarem choques em determinadas do meu corpo; Eu jamais passei por experiência igual ou similar a esta antes;

Um apartamento gerou um monte de imagens de história em quadrinhos e desenhos irrompendo e suprimindo (ou sobrepondo) meus pensamentos. Ocorreu em 2021 e eu já não lia HQ há uns 10 anos;

Passar noites numa pousada de praia causou-me uma invasão de imagens de foliões, zombeteiros e fanfarrões que sobrepunham violentamente meus pensamentos; 

Discussões oníricas - visualmente e sonoramente parecem um sonho "normal", onde discuto com pessoas. O problema é que o conteúdo às vezes é daquele nível de tolice que parece sem sentido, e às vezes parece com ideias expressas em diálogos e narrativas feitas por pessoas com quem eu realmente interagi durante a vigília. Além disto, as discussões são muito realísticas porque me causam um aborrecimento e/ou cansaço mental como se eu realmente passasse algumas horas da noite discutindo, frequentemente em desacordo com alguém. Para completar, estas discussões não ocorreram realmente durante o dia (na minha vigília/ "consciência") então é difícil ser um mero reflexo do cotidiano. Mesmo que eu considere que não exista um teor espiritual nestes "sonhos" de discussão, haveria no mínimo um fator inconsciente (de certo modo, coletivo): Onde eu e as pessoas com quem eu converso durante o dia, levassem as interpretações dos sentimentos e opiniões alheias para os sonhos. 

Produtos e Impactos das Relações Humanas 

Possivelmente as pessoas se relacionam quase o tempo todo desde que a humanidade surgiu na Terra. Porém este relacionamento passou por diversas mudanças. Isto podemos ver em qualquer texto de história: especula-se comportamentos humanos da idade da pedra, depois da era do bronze, da antiguidade, da era medieval, da renascença, da modernidade e por fim, da pós modernidade. A "pós modernidade" é mais conhecida em nossa história por ser um dos períodos mais recentes e foi marcada pela pós verdade - a valorização das narrativas ante os fatos. Eu abordei este assunto neste texto: https://nea-ekklesia.blogspot.com/2020/04/a-corrosao-social-persiste-atraves-das.html 

Acontece que todo ser humano tem sua capacidade de aprendizado e suas manifestações de afeto/ necessidades afetivas. Todos estes elementos não deixam de existir em momento algum. Eles só deixam de ser o alvo de nossa consciência por períodos mais ou menos longos. Como já mencionei em algum texto, deixar de existir não é científico, nem filosófico, nem religioso. Não é explicável, ainda mais quando falamos de coisas que saem de nossa atenção, mas podem voltar em algum tempo. Então todos estes elementos (memórias, pensamentos, sentimentos, interpretações etc) existem, independentemente do que a psiquiatria ou determinadas abordagens psicológicas afirmem sobre esta questão. A psicologia não é uma ciência única e coesa - como eu já mencionei, ela é fragmentada devido a velhas divergências de base teórica/ filosófica e de métodos investigativos. Mas isto não é a questão do momento. Neste texto eu trago a importância das relações e seu impacto na vida de cada pessoa. Eu trago a questão de como os elementos psíquicos moldados por estas relações não deixam de existir - pelo contrário eles contribuem com a construção de crenças e de personalidade das pessoas, sejam estas condizentes com a realidade externa ou não. Sejam elas nocivas ou saudáveis. Eu trago a questão que a mente é algo e que NÃO é simplesmente material. A mente não pode ser tocada, cheirada, muito menos extraída como um pedacinho de cérebro. Ela pode ter sim, uma relação com sinapses e potenciais elétricos, mas não se resume a isto, afinal sinapses estão mais para consequências de decisões psíquicas. A mente, ou aparelho psíquico, não é um Frankstein formado por pedacinhos, embora determinadas abordagens psicológicas possam classificá-las assim para terem parâmetros de estudo. A mente é algo mais ou menos coeso, mas nunca é algo totalmente aleatório, sem nexo algum, ou totalmente divisível em partes diferentes entre si. A mente e alguns de seus "elementos" afetam diversas partes do corpo, como podemos perceber nos efeitos psicossomáticos. A mente e seus sentimentos têm um forte elo com nosso coração, como indicam alguns estudos da psicologia cardíaca. Sendo algo consideravelmente coeso e que se comunica com praticamente o corpo todo, a mente é mais do que uma mera relação química do sistema nervoso com o ambiente externo. Ela é mais do que um aparelho psíquico se considerarmos que psíquico refere-se apenas elementos vinculados ao cérebro/ sistema nervoso. A mente é algo "imaterial" e/ou algo que conecta-se com uma dimensão "além". Classificar as experiências que mencionei como alucinações ou esquizofrenia é algo reducionista e/ ou preconceituoso. Com que propósito aceitaríamos tal classificação se esta não esclarece o assunto, não oferece soluções dentro de seu método materialista de investigação e nem permite deixar em aberto questões como a possibilidade da mente ter relação com dimensões além do espaço-tempo? 

Por fim, estas experiências em meus sonhos são difíceis e muitas delas surgem acompanhadas de nítidas sensações magnéticas e/ ou elétricas. Golpes sutis adentrando minha cabeça ou outras partes do meu corpo, choques, percepção de um campo sutil em meu entorno, percepção de algo movendo este campo talvez eletromagnético. Seria muita criatividade de meu cérebro produzir alucinações tão inovadoras, sendo algumas de partes do corpo que sequer existem. Seria um esforço suicida e/ ou masoquista extraordinário, a minha mente produzir sentimentos alheios e/ ou externos que me atacam. É um esforço (ou má vontade) surreal algum suposto cientista, seja da psicologia, da medicina ou de qualquer outra área, alegar que eu imagino todas estas coisas. 

Com estas minhas experiências nada planejadas, o que eu suspeito é que o inconsciente como descrito na frente psicanalítica esconde questões trazidas pelo espiritismo no século 19. O "inconsciente" é em algum nível, ao menos durante o sono, a nossa consciência além. Além de nossa vida terrestre, mas carregada com interpretações, aprendizados ou equívocos experimentados enquanto despertos na terra. 

As sensações de choque e de um campo em meu entorno deve ser o que o espiritismo chama de períspirito. Este por sua vez é um tipo de campo eletromagnético (ou fluídico conforme terminologia do século 19) muito sutil que possivelmente transcende o espaço-tempo, pois existe da relação da mente (a alma, o espírito abstrato) com o meio em que se encontra. Para mim, a seguinte explicação do espiritismo, se adequa bem às minhas experiências: 

"Como vimos, o perispírito representa importante papel em todos os fenômenos da vida. Ele é a fonte de múltiplas afecções, cuja causa é em vão buscada pelo escalpelo na alteração dos órgãos, e contra as quais é impotente a terapêutica. Por sua expansão explicam-se, ainda, as reações de indivíduo a indivíduo, as atrações e repulsões instintivas, a ação magnética, etc. No Espírito livre, isto é, desencarnado, o perispírito substitui o corpo material. Ele é o agente sensitivo, o órgão através do qual o Espírito age. Pela natureza fluídica e expansiva do perispírito, o Espírito atinge o indivíduo sobre o qual quer agir, rodeia-o, envolve-o, penetra-o e o magnetiza."

A consciência de si mesmo e de seu arredor é de fundamental importância para todas as extensões da mente. Nestas discussões oníricas que descrevi, senti a falta de empatia, a falta de comprometimento, a falta da busca por aprendizado e a falta da priorização da solidariedade e da humildade (às vezes de minha parte, às vezes do outro com quem eu interagi). Enfim, se tudo o que experimento em vida é levado para interações que ocorrem mesmo quando estou dormindo, o sentido de vida, as relações e os sentimentos também têm grande relevância para nossa vida mental... Se eu fosse adaptar minhas experiências a uma narrativa junguiana, eu diria que as experiências de nossas relações são levadas ao inconsciente coletivo, podendo formar complexos e seus respectivos valores individuais (talvez, em outras linhas de pensamento, isto seja chamado de interpretações, sistema de crenças, sentido de vida etc). Particularmente, entendo que além de serem levadas para o"(s) inconsciente(s)", nossas experiências e relações certamente são levadas para uma vida além da que percebemos com nossos cinco sentidos aqui na Terra. 

Obviamente não tenho "provas científicas" de minhas experiências, mas, considerando que estou mais ou menos certo, o que seria importante levar para uma existência onde a matéria não existe nos estados sólidos, líquido nem gasoso? Certamente não é dinheiro nem status: Eu deduzo que seja melhor levar aspectos do bem: Humildade, receptividade, responsabilidade, paciência, amizade, determinação, solidariedade, entendimento e sabedoria. 

 

Apesar de consideradas "pouco científicas" pelos cientistas de base filosófica monista materialista, seguem as Fontes: 

C. S. Hall & V. J. Nordby - Introdução Psicologia Junguiana; 

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1862 Dezembro; 

Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1863 Janeiro

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Imortalidade - Uma pluralidade Existencial?


Finitude ou Continuidade? 

Quando um ser humano morre, tudo acaba? Ou existe "vida após a morte"?

Uma pergunta tão velha quanto andar para frente, mas que já se descobriu a resposta... Ou não: Apenas achamos que descobrimos. 

"Crer em vida após a morte" é um patrimônio da humanidade: Histórias sobre tal assunto existiram em inúmeras civilizações desde tempos imemoráveis - possivelmente desde muitos milênios antes da invenção da escrita nas civilizações mesopotâmicas. 

Os celtas, os antigos gregos, os persas, os mesopotâmicos, os japoneses, os egípcios, os mesoamericanos, os iorubá entre tantas outras culturas falavam de um mundo espiritual, de espíritos, ou de ambos. 

No ocidente, mesmo após a propagação das religiões cristãs, a idéia da imortalidade da alma continuou sendo aceita. Claro que esta aceitação aconteceu com algumas modificações no conceito de espírito e de vida após a morte, possivelmente devido ao uso da religião como ferramenta de poder a partir do último século de existência do Império Romano. 

Esta percepção ou entendimento da alma/ espírito como algo diferente do corpo (o que pode incluir o conceito de imortalidade), começou a ser rechaçada durante o período iluminista na Europa. Com as disputas filosóficas entre materialismo e idealismo numa busca para determinar as bases da ciência (ontológicas e epistemológicas), os estudos dualistas e pluralistas, que admitiam a possibilidade da alma incorpórea, foram perdendo espaço no ocidente. 

Como o idealismo foi encontrando cada vez mais dificuldade em estabelecer-se como uma base filosófica para as ciências, o materialismo foi "sendo entendido como a verdade" já no século 19. As classes intelectuais do ocidente (essencialmente Europa e EUA) então passaram a admitir como verdade apenas a matéria (perceptível pelos 5 sentidos humanos) e nem o espiritismo, também "nascido" na Europa, conseguiu questionar tal corrente de pensamento. 

A partir daí, com o domínio do pensamento racionalista e materialista nas "elites" das nações ocidentais, começou-se a propagar a ideia de que a noção de uma continuidade (da vida após a morte) é algo primitivo e/ou ingênuo com traços de infantilidade ou de mero argumento consolador. Uma generalização reducionista que ignora um enorme número de culturas, cada qual com diversos motivos, variados tipos de fé e diversas explicações sobre a vida espiritual, o pós morte e o além. 

O espiritismo que sobreviveu após o século 19, tornou-se predominantemente dogmático, conservador, mistificado e relegado a uma posição de seita religiosa ou de pseudociência. Embora as principais causas disto seja a recusa de cientistas e até mesmo de filósofos a cogitarem a possibilidade dos elementos psíquicos (alma) transcenderem o cérebro, parte dos próprios espíritas preferiram manter-se em agrupamentos um tanto alienados, desinteressados no progresso mental (intelectual, mas incluindo sentimentos, empatia etc) da humanidade. 

A classe intelectual então tornou-se majoritariamente crente na finitude, ou seja, passou a crer que na morte ocorre o desaparecimento total e repentino de todos elementos que constituem o aparelho psíquico (mente, alma, tanto faz o nome...). Toda a gama de experiências espirituais citadas por diversas culturas na história da humanidade, desde contatos com espíritos desencarnados, passando pelo êxtase espiritual até a vida após a morte, passou a ser considerada fantasia ou charlatanismo. De fato charlatões alegaram vivenciar tais experiências, mas mentirosos existem em todas as áreas do saber, pois também persistem na filosofia e na ciência. 

A percepção de tais fenômenos geralmente é interna, é da mente e não apenas dos 5 sentidos humanos. Talvez daí uma das dificuldades de aceitar a vida após a morte - não se pode percebê-la nem prevê-la. A percepção puramente da mente é tida como uma sensação ou ato de sentir, o que está mais para sentimento, pois não é externo ao ser humano. Isto cria uma interessante ligação do sentimento com a passagem para uma outra existência (a morte e a vida após ela), na verdade possivelmente vincula o sentimento à maioria ou às todas experiências tidas como sobrenaturais ou transcendentais. 

Como a possível existência após a morte não é percebida pelos 5 sentidos humanos, muitos escolhem acreditar que não existe coisa alguma após a morte. De fato, não há métodos investigativos considerados científicos que rastreiem e provam a existência de uma dimensão "espiritual" nem a de "espíritos desencarnados". Talvez tal estado de existência tenha relação com a teoria de múltiplas dimensões ou com a Interpretação dos Muitos Mundos, mas isto ainda é especulação. 

Enfim, fora as "experiências de quase morte" (EQM), a ciência pouco sabe sobre tais assuntos e talvez nem possa saber enquanto for dependente do método empírico para pesquisar. Por isso (ao menos por enquanto) só nos restam respostas filosóficas ou espirituais/ religiosas para estas questões. 

Sócrates sobre a morte e a imortalidade

As histórias sobre vida após a morte não eram novidade na época de Sócrates e de Platão (por volta do século 4 aC). Ela já existia no orfismo, que de certa forma era a religião mística e/ou da elite da Grécia Antiga. Orfeu não é um personagem historicamente comprovável, podendo ser parcialmente real, parcialmente inventado por poetas ou rapsodos, até mesmo mais antigos do que Homero e Hesíodo. 

No livro Fédon, de Platão, o filósofo Sócrates conversa com seus colegas sobre a morte: 

"O fato, Símias e Cebete, prosseguiu, é que se eu não acreditasse, primeiro, que vou para junto de outros deuses, sábios e bons, e, depois, para o lugar de homens falecidos muito melhores do que os daqui, cometeria uma grande erro por não me insurgir contra a morte. Porém podes fiar que espero juntar -me a homens de bem. Sobre esse ponto não me manifesto com muita segurança; mas no que entende com minha transferência para junto de deuses que são excelentes amos: se há o que eu defenda com convicção é precisamente isso. Esse motivo de não me revoltar a idéia da morte. Pelo contrário, tenho esperança de que alguma coisa há para os mortos, e, de acordo com antiga tradição, muito melhor para os bons do que para os maus." 

Neste ponto Sócrates explica que não teme a morte nem se revolta contra esta. Pois ele tem certeza e/ou crê que irá juntar-se aos bons deuses (bons espíritos de acordo com o espiritismo). Ele também fala que tem esperança (no bem e na justiça, além da vida terrena). 

"Que não será senão a separação entre a alma e o corpo? Morrer, então, consistirá em apartar-se da alma o corpo, ficando este reduzido a si mesmo e, por outro lado, em libertar - se do corpo a alma e isolar-se em si mesma? Ou será a morte outra coisa?" 

Sócrates então continua o diálogo com Símias, onde ambos concordam que o verdadeiro filósofo despreza os prazeres do comer, do beber, do amor (ato sexual) e da abundância e luxo das vestimentas. 

"Nisto, por conseguinte, antes de mais nada, é que o filósofo se diferencia dos demais homens: no empenho de retirar quanto possível a alma na companhia do corpo." 

"Essa é a razão, Símias, de, na opinião da maioria dos homens, não merecer viver o indivíduo a quem nada disso é agradável e que não se importa com tais práticas, por achar - se muito mais perto da condição de morto e por não dar a menor importância aos prazeres alcançados por intermédio do corpo"

"E como referência à aquisição do conhecimento? O corpo constitui ou não constitui obstáculo, quando chamado para participar da pesquisa? O que digo é o seguinte: a vista e o ouvido asseguram aos homens alguma verdade? Ou será certo o que os poetas não se cansam de afirmar, que nada vemos nem ouvimos com exatidão? Ora, se esses dois sentidos corpóreos não são nem exatos nem de confiança, que diremos dos demais, em tudo inferiores aos primeiros? 

Não pensas desse modo? 

Perfeitamente, respondeu. 

Então, perguntou, quando é que a alma atinge a verdade? É fora de dúvida que, desde o momento em que tenta investigar algo na companhia do corpo, vê se lograda por ele." 

Sócrates então continua explicando que a alma atinge a verdade com o pensamento. Em introspecção, ao afastar-se dos sentidos humanos, (visão, audição e os outros 3 inferiores) a alma dispensa a companhia do corpo, tornando-se capaz de alcançar a pureza. Assim, o amante da sabedoria e da verdade, ou seja, o verdadeiro filósofo, não teme a morte. 

Interessante notar que Sócrates priorizava as ações mentais: o pensamento para se alcançar a verdade, o acreditar no Bem e a esperança - todos elementos da alma/ mente. Isto completa seus ensinamentos que mostram a mente como algo superior ao corpo e que tudo o que é superior rege o que lhe é inferior, não para oprimir, mas para o bem. Afinal Sócrates não abominava o mundo material, tanto que sugere melhorias para a sociedade como citado em "A República".

Para explicar se há um estado (da alma, espiritual) após a morte, Sócrates segue: 

"Estudemo-lo, pois, sob o seguinte aspecto: se as almas dos mortos se encontram ou não se encontram no Hades? Conforme antiga tradição, que ora me ocorre, as almas lá existentes foram daqui mesmo e para cá deverão voltar, renascendo os mortos." 

"Para deixar a questão mais fácil de entender, observou, não te limites a considerá -la com relação aos homens, porém estende-a ao conjunto dos animais e das plantas, numa palavra, a tudo o que nasce, a fim de vermos se cada coisa não se origina exclusivamente do seu contrário, onde quer que se verifique essa relação, tal como no caso do belo, que tem como contrário o feio, no do justo e do injusto e em mil outro exemplos que se poderiam enumerar." 

"E então? Se alguma coisa piora, é porque antes era melhor, como terá sido antes injusta para poder tornar-se justa? 

Como não? 

E agora? Não é próprio dessa oposição uni versal haver dois processos de nascimento: o que vai de um contrário para o outro, e o de sentido inverso: deste último para aquele?" 

"E então? Prosseguiu: viver não comporta um contrário, tal como se dá com a vigília e o sono? Perfeitamente, respondeu. Qual é? 

Estar morto. Sendo assim, cada um desses estados provém do outro, visto serem contrários, havendo entre ambos um processo recíproco de geração." 

"Que faremos, então? Continuou; não atribuiremos a esse processo de geração o seu contrário, ou admitiremos que nesse ponto a natureza é manca? Não será preciso aceitarmos um processo gerador oposto ao de morrer? 

Sem dúvida nenhuma, respondeu. 

Qual? 

Reviver." (renascer, ou seja, reencarnar) 

Sócrates conclui sobre o processo recíproco de geração dizendo que o viver e morrer é um ciclo e não algo linear. Ele dá os exemplos do processo do sono e do mito de Endimion, onde o protagonista é colocado em um estado de sono eterno. Se o processo de vigília e sono fosse linear, todas pessoas não acordariam mais ao cair no sono, e não haveria necessidade do mito. Outro exemplo é a história contada por Anaxágoras, onde antes da formação do universo havia o estado de confusão total (similar à Khaos, a divindade ancestral de mitos gregos) que acabou dividindo-se e dando origem às estrelas e planetas com seus respectivos movimentos orbitais, ao ser organizada por Nous, a mente cósmica. Se o tempo e o fluxo de espíritos fosse linear, talvez nunca tivéssemos saído do Caos Primordial, ou entraríamos permanentemente nele em certo ponto da história. 

Depois disto Sócrates explica as reminiscências para falar da existência da alma antes do corpo: Se refere a capacidade do ser humano lembrar-se de coisas que ele achava que tinha esquecido definitivamente (similar ao inconsciente da frente psicanalítica de psicologia) e de lembrar-se de coisas anteriores ao seu nascimento (memórias de outra existência anterior). 

Sócrates ainda diz que o vício é o que mais faz mal à alma, mas nem mesmo ele pode destruí-la. 

Por fim, no livro a República, Platão registra o mito de Er contado por Sócrates. Por mais que alguns mitos tentem ensinar lições às pessoas da antiguidade, este em particular, descreve detalhadamente uma passagem da vida espiritual, ou seja, desencarnada, do personagem Er. 

Jesus Cristo sobre a Imortalidade da Alma 

Em variados trechos dos evangelhos, Jesus menciona a importância de priorizar a vida espiritual ao invés da vida material, indicando que há continuidade da existência após a morte. A valorização da vida espiritual não significa que deva-se abandonar a vida terrena, e sim que esta existe para se aprender a fazer o bem, para amar à Deus, e portanto, amar à todos. Seguem os trechos onde Jesus indica a existência da imortalidade da alma: 

"Não ajunteis para vós tesouros na terra... Ajuntai para vós tesouros no céu... Porque, onde está teu tesouro, lá está também seu coração." 

 "Ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou odiará a um e amará a outro, ou dedicar-se á um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza. Portanto, eis que vos digo: Não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, como vos vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? 

...Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isto. Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça e todas essas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá suas próprias preocupações. A cada dia basta o seu cuidado." 

 "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; Temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na gehena." 

"Quando o espírito impuro sai de um homem, ei-lo errante por lugares áridos à procura de um repouso e não acha." 

"Em verdades vos digo, se não transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrarei no reino dos céus. Aquele que se fizer humilde como esta criança será maior nos reinos dos céus." 

"Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o Sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com ele..." 

..."Em seguida, os discípulos o interrogaram; Porque dizem os escribas que Elias deve voltar primeiro? Jesus respondeu-lhes: Elias de fato, deve voltar e restabelecer todas as coisas. Mas eu vos digo que Elias já veio, mas não o conheceram;" Este trecho parece falar da reencarnação. 

"O reino dos céus é semelhante ainda a uma rede que é jogada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. Quando está repleta, os pescadores puxam-na para a praia, sentam-se e separam nos cestos o que é bom e jogam fora o que não presta." 

"E todo aquele que deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa, receberá o cêntuplo e possuíra a vida eterna." 

A Convergência dos Ensinamentos da Espiritualidade Ocidental

No século 19, o linguista e professor francês, Hippolyte Leon D Rivail, se interessa sobre o assunto dos fenômenos tidos como "sobrenaturais". Após algumas experiências, ele assumiu o nome de Allan Kardec, alegadamente de um druida da antiga cultura celta. 

Suas obras reúnem diversas doutrinas que levam em consideração a existência espiritual, ou seja, da vida após a morte. Apesar dos antigos (druidas) celtas considerarem a existência espiritual, as obras de Kardec se baseiam em Sócrates, Platão e principalmente, Jesus Cristo. Isto possivelmente ocorre pelo tema central destes ensinamentos: o Bem, a verdade e o amor. 

Estudos sobre a Alma e a Espiritualidade - Ontologia e Epistemologia

Kardec admite que sua obra é uma filosofia, mas também um conjunto de estudos e uma doutrina (baseada em Cristo e em Sócrates - A busca pelo bem é o que há em comum entre estes autores). Seus estudos admitiam uma base existencial aparentemente dualista de corpo e espírito (apesar da existência do períspirito como um campo intermediário entre corpo e espírito). Esta estrutura ou "campo" quase imperceptível aparece em filosofias e religiões orientais com diversos outros nomes e "formas". Mas se levarmos em conta, além do perispírito, a possibilidade de depuração do espírito, que em seu progresso durante sua existência imortal, vai se tornando mais "etéreo" ou mais sutil, possivelmente o espiritismo teria uma ontologia pluralista. 

Em relação ao método de investigação, claramente o espiritismo não pode nem deve se apoiar no empirismo, que se trata de um método muito mais apropriado para estudos materialistas, ou seja, que lidam apenas com a matéria perceptível pelos 5 sentidos humanos e que podem ser reproduzidos (repetidos) à vontade. Como os estudos espíritas muitas vezes lidam com inteligências (ou mentes) que aparentemente "surgem e desaparecem", é ilógico utilizar o método empírico para tentar provar ou negar a maioria dos fenômenos espirituais. 

Kardec ressalta a importância da ausência de pressupostos (ideias, julgamentos, escolhas) para se estudar fenômenos espirituais (tal ausência seria a base da fenomenologia poucas décadas mais tarde). 

A mente não é algo que se reduz a estudos naturalistas ou materialistas: Ela é subjetiva e formada por processos internos não observáveis a partir do exterior, ou seja, por terceiros. 

A partir destas bases, Kardec e seus colaboradores, confiam principalmente na sua percepção mental (talvez levando em conta interpretação, intuição etc) dos fenômenos e desenvolvem teorias e métodos que obviamente levam em consideração a transcendência da alma, seja a imortalidade, o contato com o "além", como o êxtase espiritual, o desdobramento etc. 

Por fim, a imortalidade da alma no espiritismo é o que explica algumas aparentes injustiças na Terra, as lembranças "misteriosas" que não pertencem à vida atual do ser, as recompensas e punições mencionadas por Sócrates e Jesus Cristo etc. Nenhum destes fenômenos tira a importância central de se amar à todos (à Deus, a si e ao próximo) nem da busca pela sabedoria: Pelo contrário, tudo gradativamente indica que este é o caminho do verdadeiro progresso de toda a existência.  

 Fontes:

Platão. Versão eletrônica do diálogo platônico “Fédon”, Tradução: Carlos Alberto Nunes Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)

Tradução dos Originais mediante a versão dos Monges de Maredsous (Bélgica). Bíblia Sagrada 83 edição, Editora Ave Maria. 

Kardec, Allan.; O Que É o Espiritismo? https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/885/o-que-e-o-espiritismo; acesso em 02/02/2022.

 

 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Espiritualidade e as possíveis Dimensões

 

Muitas religiões nos contam que Deus criou tudo. Com diferentes nomes e/ou formas, esta explicação é comum. Obviamente isto não é bem aceito na ciência objetiva. Céticos perguntariam, como Deus fez tudo? Como era esse ser? Como ele pensava? 

Comecemos imaginar vagamente dentro de nossas limitadas condições o seguinte: A questão da criação do universo sempre remete a dúvida se havia um começo ou se o tempo infinito é de alguma forma cíclico não havendo de fato começo-meio-e-fim, ou seja, não havendo uma linearidade. A verdade é que o processo de "surgimento" do universo não foi aleatório, pois se fosse assim, não haveria harmonia, nem movimentos organizados entre os corpos celestes etc. Não houve uma explosão como entendemos hoje, tanto que existe o termo expansão cósmica para diferenciar esse processo. O "surgimento" do universo também não foi obra do acaso, pois acaso significa que não houve causa, portanto o acaso não produz coisa alguma. 

Mas para imaginar uma inteligência (ou de modo mais preciso: uma mente), capaz de desafiar o conceito de tempo que o ser humano conhece ou consegue entender, seria preciso deixar de lado a simplória discussão se houve começo ou não: Hoje, no século 21 sabemos que certos fenômenos causam distorção no espaço-tempo. Oras, se existe tal distorção, esta distorção ocorre em sentido a uma direção ou em relação a um momento ou conjunto destes elementos. Se tal fenômeno existe, então há algo além do que entendemos como o tempo (e, de certa forma, toda sua eternidade) e o espaço (e, de certa forma, toda sua infinitude). Sim, parece muita coisa, de dar um nó na cabeça, mas é assim mesmo. Daí o termo "além" ou "do além". 

Se há uma "direção" além da tridimensionalidade da nossa "realidade" ou além do espaço-tempo continuum, ela deve ter relação com o conceito da quarta dimensão abordado num vídeo do famoso divulgador científico Carl Sagan. 

Daí é possível ter uma impressão (ainda que vaga) de quão grandioso pode ser o universo, ou o conjunto das possíveis dimensões. Se há uma quarta dimensão pode haver outras. A existência de vida, ou de mentes nestas dimensões "além" desta nossa realidade em 3 dimensões, ainda que quase inimaginável, marcaria uma transitoriedade entre Deus e toda sua criação, incluindo o processo chamado de Big Bang ou Expansão Cósmica. 

Um ser da quarta dimensão poderia existir em um estado muito mais sutil e puro do que a típica vida conhecida na Terra. Daí podemos ver alguma conexão destes seres com as experiências espirituais/ religiosas, de êxtase e afins. 

Além do quarto estado da matéria, a "energia" é naturalmente luminosa e/ou brilhante, sendo mais pura, mais expansiva, mostrando uma relação com uma "direção" só compreensível e existente na quarta dimensão. Nesta dimensão, os seres (chame de mentes, espíritos ou anjos) podem perceber e interagir além da porção do espaço-tempo que percebemos e interagimos aqui na Terra. Daí porque podem ouvir pensamentos, perceber sentimentos, intenções, orações e "sumir e aparecer". Este estado de existência seria literalmente mais extensivo e talvez expansivo. Estaria mais conectado a mais coisas do que podemos perceber aqui na Terra. A terra e "seu espaço 3D" estaria muito distante das dimensões mais elevadas, mais próximas de Deus, do Criador. É uma realidade literalmente muito mais pesada, pois é muito mais densa. A matéria aqui existem em estados que não são típicos das dimensões mais elevadas. Forças como contração e cisão/ divisão são mais comuns nas dimensões menos elevadas e assim, são comuns aqui na Galáxia onde o Sistema Solar e a Terra se encontram. 

Utilizando-se da teoria das 7 dimensões possivelmente oriunda de religiões e/ou filosofias orientais, imaginemos que o "reino" de Deus seja a sétima dimensão. Certamente isto pode parecer inimaginável, mas seria uma dimensão onde conecta-se todas as coisas. Tempo aqui é uma fração da realidade, talvez um sétimo ou menos. Algo que se pode atravessar ou por onde seja possível espalhar-se. Apego aos bens materiais da terceira dimensão aqui é impossível, pois é algo muito ínfimo, minúsculo como se fosse microscópico. Então teríamos mais 3 dimensões entre Deus e a Terra. Cada uma delas no mínimo tão grande (ou infinita) como o espaço onde se encontra a Via-Láctea e seus pequeninos e vários sistemas estelares da "nossa realidade tridimensional". A partir deste resumo podemos tentar entender melhor o que obras religiosas, filosóficas e mitológicas tentavam explicar em algumas de suas passagens. Platão afirma que os deuses sentiram o peso da matéria ao reinarem na Atlântida por um período prolongado e acabaram se corrompendo. Os gregos utilizavam o nome Aether para se referir a uma divindade que representava o céu além do céu de Urano, pai dos titãs e avô de Zeus. O aether às vezes era descrito como um céu luminoso e/ou uma luminosidade que não aquecia ou não queimava como o fogo. Possivelmente Aristóteles tirou o conceito de Éter daí (Ether). Forças muito sutis, também chamadas de muito puras ou muito eterizadas, poderiam ser oriundas da dimensão diretamente superior a que vivemos (a quarta) por exemplo. Nesta escala, estaríamos à 4 dimensões de distância do "mais elevado céu" (Claro, poderíamos utilizar outra escala, mas não vou entrar na possibilidade de estarmos na dimensão, ou na dimensão "zero", que deve estar mais próxima do conceito de 7 céus de algumas religiões). 

Enfim, nada disso deve nos desanimar. Sermos pequeninos, ou estarmos distantes da pureza maior/ mais verdadeira não nos impede de fazer coisas boas. Pelo contrário humildade é um bom começo.

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...