sábado, 16 de novembro de 2024

Leitura ecumênica do "Milagre do surdo-mudo" e "Festa dos Tabernáculos"

Milagre do surdo-mudo (Mateus, Marcos) 

Jesus deixou de novo as fronteiras de Tiro e foi pela Sidônia ao mar da Galiléia, no meio do território da Decápole. Ora, apresentaram-lhe um surdo-mudo possuído do demônio, rogando-lhe que lhe impusesse a mão. 

Jesus tomou-o à parte dentre o povo, pôs-lhe os dedos nos ouvidos e tocou-lhe a língua com saliva. E levantou os olhos ao céu, deu um suspiro e disse-lhe: Éfeta (que quer dizer: abra-te). No mesmo instante o demônio foi expulso os ouvidos lhe abriram, a prisão da língua se lhe desfez e ele falava perfeitamente. 

Proibiu-lhes que o dissessem a alguém. Mas quanto mais proibia, tanto mais o publicavam. 

E tanto mais se admiravam, dizendo: E fez bem todas as coisas. Fez ouvir os surdos e falar os mudos! Jamais se viu algo semelhante em Israel! Os fariseus porém falavam: É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa demônios

Como dito anteriormente os fariseus afirmavam que os doentes em geral, se encontravam em tais condições porque mereciam, pois "tinham algum pecado". Isto certamente poderia ser usado como uma forma de poder político e/ou social, determinando que as pessoas não ajudassem os indivíduos com qualquer tipo de doença, dificuldade ou limitação. Jesus não só ajudou as vítimas oprimidas por tal situação, como contrariou as classes dominantes que espalhavam tais ideias mentirosas. 

Este tipo de mentira persiste até mesmo nos dias de hoje. Entre evangélicos existem pastores enriquecidos que chamam pessoas com transtornos mentais de endemoniados e classificam socialistas e sociais-democratas como anti-cristo. No 1º caso fazem isso para vender curas falsas ou internar tais pessoas em "comunidades terapêuticas" exigindo pagamento dos parentes do interno. No 2º caso fazem tal acusação por interesses políticos e econômicos: Envolvidos em negócios, estes pastores defendem seus interesses particulares preferindo candidatos neoliberais que negam obras sociais para favorecer os lobistas. 

Entre espíritas (e em outras religiões reencarnacionistas), por exemplo, alguns alegam que as pessoas que nasceram pobres ou com problemas de saúde, estão assim por causa de pecados de vidas anteriores e assim têm que pagar pelos seus pecados, porém no Livro dos Espíritos está claro, que mesmo os que estão pagando por pecados devem receber ajuda, principalmente daqueles que se dizem cristãos e/ou espíritas. Mesmo nas doutrinas reencarnacionistas, vivemos uma vida de cada vez, não lembrando de erros de vidas passadas, por isso todos são dignos de ajuda e todos devem ajudar - o perdão e a solidariedade mútuos são manifestações da lei divina de amor!

Festa dos Tabernáculos (João) 

Depois disto Jesus andava pela Galiléia, e já não queria andar pela Judéia, pois os judeus procuravam matá-lo. E estava próxima a festa dos judeus, a dos tabernáculos. Disseram-lhe, pois, seus irmãos: Sai daqui, e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque não há ninguém que procure ser conhecido que faça coisa alguma em oculto. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. 

Pois nem mesmo seus irmãos criam nele. 

Disse-lhes, pois, Jesus: Ainda não é chegado o meu tempo, mas o vosso tempo sempre está pronto. O mundo não vos pode odiar, mas ele me odeia a mim, porquanto dele testifico que as suas obras são más. Subi vós a esta festa; eu não subo ainda a esta festa, porque ainda o meu tempo não está cumprido. E, havendo-lhes dito isto, ficou na Galiléia. Mas, quando seus irmãos já tinham subido à festa, então subiu ele também, não manifestamente, mas como em oculto. 

Ora, os judeus procuravam-no na festa, e diziam: Onde está ele? 

E havia grande murmuração entre a multidão a respeito dele. Diziam alguns: Ele é bom. E outros diziam: Não, antes engana o povo. Todavia ninguém falava dele abertamente, por medo dos judeus. 

Mas, no meio da festa subiu Jesus ao templo, e ensinava. E os judeus maravilhavam-se, dizendo: Como este sabe letras, não as tendo aprendido? 

Jesus lhes respondeu, e disse: A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo. Quem fala de si mesmo busca a sua própria glória; mas o que busca a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro, e não há nele injustiça. 

Não vos deu Moisés a lei? e nenhum de vós observa a lei. Por que procurais matar-me? 

A multidão respondeu, e disse: Tens demônio; quem procura matar-te? 

Respondeu Jesus, e disse-lhes: Fiz uma só obra, e todos vos maravilhais. Pelo motivo de que Moisés vos deu a circuncisão (não que fosse de Moisés, mas dos pais), no sábado circuncidais um homem. Se o homem recebe a circuncisão no sábado, para que a lei de Moisés não seja quebrantada, indignais-vos contra mim, porque no sábado curei de todo um homem? 

Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça

Jesus mostra que não se ensina verdadeiramente falando de si, pois a verdade vem só daqueles que buscam a glória do Criador. Isto indica que admitir Deus é também uma forma de ser humilde, ou seja, de assumir a própria ignorância para buscar a verdade. 

De acordo com Platão e Sócrates, esta presunção da ignorância é um requisito básico para iniciar qualquer investigação, buscando o conhecimento / a verdade. 

Esta postura de Jesus também está em acordo com o Bhakti Yoga, um caminho de devoção e adoração de Deus (no caso, Brahman, a realidade última que se alcança com o amor intenso) no hinduísmo. 

Quando diz "testifico que as suas obras são más", Jesus também mostra como os religiosos e os aristocratas manipuladores e desejosos por luxo e por poder estavam errados e realizavam maldades; Além disto, ele mostra como os judeus que se opunham a ele eram contraditórios: Realizavam o rito da circuncisão mesmo aos sábados (o suposto dia reservado ao descanso e oração total dos judeus) e criticavam Jesus quando ele curava alguém neste mesmo dia da semana. 

Por fim, Jesus orienta para que não julguem pela aparência e sim pela justiça. Não há justiça sem o bem e sem equidade, moderação, coragem e bondade universais. Isto está na filosofia ocidental desde 4 séculos antes de Cristo e adentrou grande parte das leis das nações na era moderna. Mesmo assim, ainda hoje infelizmente há pessoas que julgam os outros pelas aparências: seja por ser de pele negra, por ser mulher, por ser indígena, por estar em situação de rua, por ser de uma sexualidade diferente de homem e mulher ou por ter transtornos mentais perceptíveis no comportamento.

 

sábado, 9 de novembro de 2024

Leitura filosófica sobre "A cananéia" e "Maria e Marta"

A mulher pagã / a cananéia (Marcos, Mateus) 

"Partindo Jesus dali, foi para as partes de Tiro e de Sidom. 

E eis que uma mulher cananéia, que saíra daquelas cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoniada. 

Mas ele não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, chegando ao pé dele, rogaram-lhe, dizendo: Despede-a, que vem gritando atrás de nós. 

E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel. 

Então chegou ela, e adorou-o, dizendo: Senhor, socorre-me! 

Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar o pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. 

E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores. 

Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã."

Talvez esta passagem seja considerada estranha para os tempos atuais: Primeiramente por cananéia deve se entender uma pessoa descendente deste povo (da antiga Canaã); Na época de Jesus, o Império Romano já tinha tomado os territórios dos descendentes desses cananeus (Fenícia/ K'nan e Cartago). 

A partir daí entende-se que Jesus questionou a mulher para prová-la, como em uma linguagem popular de sua época, onde os povos judeus chamavam os pagãos de cachorros. Talvez porque os judeus em algum momento da história antiga entenderam que os pagãos, politeístas em sua maioria, estavam tomados pela ganância e pela rivalidade bélica sendo fascinados pelas coisas da Terra (fortunas, prazeres sensoriais etc). Por causa disto as civilizações dos impérios mesopotâmicos, fenícios, egípcios e hititas que cercaram os povos hebreus e judeus ao longo da antiguidade jamais se interessariam por Deus, afinal os hebreus da época de Abrãao e de Moisés, eram tribos humildes, que não construíam monumentos e mal formavam exércitos. 

Jesus certamente não tinha preconceito, mas quis saber como a mulher, de uma cultura politeísta que predominantemente ignorava Deus e a religião abraâmica, reagiria quando ele se mostrasse de um fé monoteísta, diferente dos descendentes dos cananeus. Assim, quando a mulher disse que os cachorrinhos também se alimentavam do resto dos outros, ela mostrou-se humildemente digna e acabou recebendo a ajuda de Jesus. 

Isto também mostra a importância das decisões que não devem ficar só no discurso/ nas aparências, mas também devem ser vividas internamente pelas pessoas, de coração: A cananéia apesar de pertencer a uma crença diferente de Jesus, não se ofendeu em momento algum e ainda alegou humildemente que ela, como qualquer outra pessoa de sua cultura ("os cachorrinhos") precisavam de ajuda - seja esta ajuda um auxílio vindo de Jesus, de sua fé, de seus discípulos ou de Deus.

Maria e Marta (Lucas) 

"Aconteceu que, indo eles de caminho, entrou Jesus numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa; E tinha esta uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. 

Marta, porém, andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe que me ajude. 

 Respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e fadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada."

É possível entender que Marta, enquanto trabalhava, não deveria perder tempo criticando Maria que ouvia os ensinamentos de Jesus, pois a passagem parece mostrar que ambas já haviam escolhido o que fazer naquele dia. Marta recebeu Jesus, mas escolheu continuar seus serviços permanecendo ansiosa, enquanto Maria juntou-se a Jesus para ouvir seus ensinamentos sobre o amor a Deus e ao próximo como a si mesmo - O amor verdadeiro, o amor a todas as coisas.

Jesus diz para Marta, que mais importante do que os afazeres domésticos e possíveis preparativos, é ouvir os ensinamentos da lei de amor e estar junto com quem vive estas palavras. Isto porque o ser humano pode e deve dedicar algum tempo aos serviços de seu sustento, mas ele não foi feito para ser escravo nem para ser uma máquina. Tal fato está de acordo com vários outros ensinamentos de Jesus para que vivamos um dia de cada vez, sem acumularmos bens para o futuro e sem "vãs preocupações". Não se trata de irresponsabilidade nem de negligência e sim de evitarmos a avareza, a ansiedade e a ganância. Certamente isto se tornou mais difícil na era moderna após a propagação do mercantilismo desde o final do século 15. Pois deste período até os dias de hoje, com o advento dos sistemas sócio econômicos liberais e neoliberais que têm a dominância de uma ideologia de acumular bens, sem se importar com o próximo, espalha-se o discurso falacioso de que é natural que pessoas empobrecidas morram de fome ou de doenças, enquanto uma minoria acumula grandes fortunas desnecessariamente; Esta ideologia por trás destas regras sociais e econômicas é o capitalismo, que objetifica e precifica a vida, contrariando os ensinamentos de Jesus de se viver um dia de cada vez, com amor ao próximo.

Praticar as palavras de Cristo então é ser misericordioso, não só ajudando os necessitados, mas também criticando e denunciando os que acumulam muito poder na Terra prejudicando os demais. Assim Jesus mostrou o amor de Deus a todos: apontou os erros e maldades dos líderes sacerdotes e dos enriquecidos que priorizaram seus bens materiais e suas posições de poder, como um pai que tenta corrigir seus filhos. Acolheu os miseráveis como uma mãe que tem esperança e sempre ama e recebe as suas crianças. Isto porque o amor é um sentimento bom, que deve ser expresso como as emoções - necessidades humanas. Para estar junto daqueles que se ama, Jesus viveu desta maneira, pois mostrou amor por toda a humanidade, buscando corrigir os egoístas que causavam grandes males às outras pessoas e acolhendo os humildes, os sofredores e os que se dispõem a viver a lei de amor.


 

sábado, 2 de novembro de 2024

Leitura ecumênica sobre Os "milagres dos pães e das águas"

Multiplicação dos Pães (Mateus, Marcos, Lucas, João

"Depois disto partiu Jesus para o outro lado do mar da Galiléia, para um lugar deserto, que é o de Tiberíades. 

Uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que operava sobre os enfermos e ele (Jesus) os recebeu possuído de íntima compaixão, e falava-lhes do reino de Deus, e sarava os que necessitavam de cura. 

E Jesus subiu ao monte, e assentou-se ali com os seus discípulos. 

A páscoa, a festa dos judeus, estava próxima. E já o dia começava a declinar; então, chegando-se a ele os doze, disseram-lhe: Despede a multidão, para que, indo aos lugares e aldeias em redor, se agasalhem, e achem o que comer; porque aqui estamos em lugar deserto. 

Então Jesus, levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão vinha ter com ele, disse a Filipe: Onde compraremos pão, para estes comerem? Mas dizia isto para o experimentar; porque ele bem sabia o que havia de fazer. 

Filipe respondeu-lhe: Duzentos denários (dinheiros) de pão não lhes bastarão, para que cada um deles tome um pouco. 

E um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse-lhe: 

Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isto para tantos? E disse Jesus: Mandai assentar os homens. E havia muita relva naquele lugar. Assentaram-se, pois, os homens em número de quase cinco mil, além das mulheres e crianças. 

Jesus tomou os pães e, havendo dado graças, repartiu-os pelos discípulos, e os discípulos pelos que estavam assentados; e igualmente também dos peixes, quanto eles queriam. 

E, quando estavam saciados, disse aos seus discípulos: Recolhei os pedaços que sobejaram, para que nada se perca. 

 Recolheram-nos, pois, e encheram doze alcofas (cestas) de pedaços dos cinco pães de cevada, que sobejaram aos que haviam comido. 

Vendo, pois, aqueles homens o milagre que Jesus tinha feito, diziam: Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo. 

Sabendo, pois, Jesus que haviam de vir arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele só, para o monte."

A partilha do pão é (mais) uma amostra de que é mais importante para os seres humanos, ajudar o próximo e conviver em paz, do que possuir qualquer tipo de propriedade. Jesus realizou o milagre da multiplicação tomado por compaixão diante a enorme multidão de famintos - nem o elevadíssimo número de pessoas necessitadas o desanimou de realizar tal feito justo e benigno. A compaixão de Cristo, que é uma forma de amor, se dá em seu presente: encarnado na Terra, Jesus cuidava dos vulneráveis, sem se importar com o passado das pessoas, nem com possíveis futuros problemas. Quem entendeu o amor de Jesus, solidariza-se com aqueles que têm necessidades ou que passam por dificuldades: não deixa populações carentes de necessidades básicas, não se conformando com pessoas passando fome.

Os momentos em que Jesus retira-se em solidão certamente foram para realizar orações a Deus e realizar alguma prática como a meditação/ o recolhimento para entrar em comunhão com Deus

Jesus anda sobre as Águas (Mateus, Marcos, João) 

"Logo (Jesus) obrigou os seus discípulos a subir para o barco, e passar adiante, para o outro lado, a Betsaida, enquanto ele despedia a multidão. E, tendo-os despedido, foi ao monte a orar na solidão. Sobrevindo a tarde, estava o barco no meio do mar e ele, sozinho, em terra. 

E vendo que se fatigavam a remar, porque o vento lhes era contrário, perto da quarta vigília da noite aproximou-se deles, andando sobre o mar, e queria passar-lhes adiante. 

Quando eles o viram andar sobre o mar, pensaram que era um fantasma, e gritaram Porque todos o viam, e assustaram-se; mas logo (Jesus) falou com eles, e disse-lhes: Tende bom ânimo; sou eu, não temais. 

Respondeu-lhe Pedro, e disse: Senhor, se és tu, manda-me ir ter contigo por cima das águas. E ele disse: Vem. Então Pedro, descendo do barco, andou sobre as águas para ir ter com Jesus. Mas, sentindo o vento forte, teve medo; e, começando a ir para o fundo, clamou, dizendo: Senhor, salva-me! 

E logo Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste? 

E subiu para o barco, para estar com eles, e o vento se aquietou; e entre si ficaram muito assombrados e maravilhados; Pois não tinham compreendido o milagre dos pães; antes o seu coração estava endurecido. 

E, quando já estavam no outro lado, dirigiram-se à terra de Genesaré, e ali atracaram. 

Saindo eles do barco, logo o conheceram; E, correndo toda a terra em redor, começaram a trazer em leitos, aonde quer que sabiam que ele estava, os que se achavam enfermos. 

Onde quer que entrava, ou em cidade, ou aldeias, ou no campo, apresentavam os enfermos nas praças, e rogavam-lhe que os deixasse tocar ao menos na orla da sua roupa; e todos os que lhe tocavam saravam."

Assim como a multiplicação dos pães, esta é uma passagem do evangelho que muitos indivíduos, principalmente ateus, devem duvidar que tenha acontecido: Não basta Jesus ter andado sobre as águas, como Mateus conta que Pedro conseguiu dar alguns passos andando sobre as águas. 

Para se realizar um feito destes com a graça, ou com a mediunidade, deve-se considerar várias coisas: O quão pura e intensa deve ser a fé do indivíduo para realizar tal feito? O quão útil seria realizar tal feito? Jesus, como sempre, realiza seus “milagres” em um estado mental de grande humildade e misericórdia: Sendo Jesus o filho de Deus (o próprio para os católicos e os evangélicos, ou um espírito muito próximo de Deus para espíritas e credos semelhantes), ele conseguiria realizar tais feitos que seriam dificílimos ou "impossíveis" para a maioria das pessoas. Talvez Pedro fosse o apóstolo que em momentos de grande fé e fervor, conseguisse realizar coisas vagamente parecidas. Mas o espiritismo explica que o médium é intermediário entre a Terra e o mundo dos espíritos. Que espírito de acordo com esta filosofia, acharia útil ou importante Pedro andar sobre as águas? Não importa. Porém quem concede a graça (ou a “mediunidade”) à Jesus é O próprio Deus. 

Independente se Jesus é Deus ou o mais elevado espírito e mais próximo de Deus, este fato não deve ser desculpa para cristãos se afastarem ou desistirem de seus ensinamentos: O próprio Jesus fala para as pessoas: vós sois deuses, indicando que todos podem e devem ser como ele. E também ocasionalmente avisa seus discípulos para que estes tenham mais fé! De acordo com suas palavras, se tivessem mais fé, realizariam os "milagres" ou "feitos mediúnicos" sem dificuldades!

Discurso de Jesus sobre o pão da vida (João) 

"No dia seguinte, a multidão que estava do outro lado do mar, vendo que não havia ali mais do que um barquinho, a não ser aquele no qual os discípulos haviam entrado, e que Jesus não entrara com os seus discípulos naquele barquinho, mas que os seus discípulos tinham ido sozinhos (Contudo, outros barquinhos tinham chegado de Tiberíades, perto do lugar onde comeram o pão, havendo o Senhor dado graças). 

Vendo, pois, a multidão que Jesus não estava ali nem os seus discípulos, entraram eles também nos barcos, e foram a Cafarnaum, em busca de Jesus. E, achando-o no outro lado do mar, disseram-lhe: Rabi, quando chegaste aqui? 

Jesus respondeu-lhes e disse: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes.  Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou. 

Disseram-lhe, pois: Que faremos para executarmos as obras de Deus? 

Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou. 

Disseram-lhe, pois: Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu? Nossos pais comeram o maná no deserto, como está escrito: Deu-lhes a comer o pão do céu. 

Disse-lhes, pois, Jesus: Na verdade, na verdade vos digo: Moisés não vos deu o pão do céu; mas meu Pai vos dá o verdadeiro pão do céu. Porque o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. 

Disseram-lhe, pois: Senhor, dá-nos sempre desse pão. 

E Jesus lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede. Mas já vos disse que também vós me vistes, e contudo não credes. Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. 

Murmuravam, pois, dele os judeus, porque dissera: Eu sou o pão que desceu do céu. E diziam: Não é este Jesus, o filho de José, cujo pai e mãe nós conhecemos? Como, pois, diz ele: Desci do céu? 

Respondeu, pois, Jesus, e disse-lhes: Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Está escrito nos profetas: E serão todos ensinados por Deus. Portanto, todo aquele que do Pai ouviu e aprendeu vem a mim. Não que alguém visse ao Pai, a não ser aquele que é de Deus; este tem visto ao Pai. 

Na verdade, na verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que o que dele comer não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. 

Disputavam, pois, os judeus entre si, dizendo: Como nos pode dar este a sua carne a comer? 

Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim. Este é o pão que desceu do céu; não é o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre. 

Ele disse estas coisas na sinagoga, ensinando em Cafarnaum. Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Sabendo, pois, Jesus em si mesmo que os seus discípulos murmuravam disto, disse-lhes: Isto escandaliza-vos? Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava? O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos digo são espírito e vida. Mas há alguns de vós que não crêem. 

Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam (acreditavam), e quem era o que o havia de entregar. E dizia: Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido. Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele. Então disse Jesus aos doze: Quereis vós também retirar-vos? 

Respondeu-lhe, pois, Simão Pedro: Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivente. 

Respondeu-lhe Jesus: Não vos escolhi a vós os doze? e um de vós é um diabo. E isto dizia ele de Judas Iscariotes, filho de Simão; porque este o havia de entregar, sendo um dos doze."

Quando Jesus diz “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou.” ele se quer dizer que trabalhar o bem (humildade, serenidade, sinceridade, paciência, força de vontade, misericórdia etc) de coração, para a alma/ o espírito e sua imortalidade é mais importante do que simplesmente trabalhar pela sobrevivência na Terra. Porém esse trabalho espiritual é feito valorizando o próximo na Terra e o próximo é todo e qualquer um que se encontre, seja conhecido ou desconhecido, por isso esse trabalho espiritual não deve deixar de valorizar a vida coletiva. Não se alcança o reino dos céus sem praticar os ensinamentos de Jesus: ser humilde como as crianças, vigiar a si mesmo para não cair no orgulho, na ganância e na ira e perdoar e ajudar os outros, principalmente os mais necessitados. Também é importante ressaltar que na frase “E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca”, fica claro que Deus é piedoso e esperançoso, pois quer salvar a todos. Isto é reforçado também quando ele diz nesta passagem: E serão todos ensinados por Deus.

Se alimentar da carne e do sangue de Jesus, significa se alimentar de seus ensinamentos / praticá-los: Os ensinamentos mais objetivos (externos, sociais) que é perdoar o próximo em seus atos, ser solidário etc; e os mais subjetivos (internos, individual) que trata-se de não desejar o mal de outrem, esforçar-se para perdoar, autocontrolar seus pensamentos e sentimentos. Estes dois ensinamentos são recíprocos e interligados: ninguém é verdadeiramente humilde se trata determinadas pessoas com respeito e trata outras pessoas com desprezo, violência ou qualquer outra atitude contrária ao respeito. Ninguém é verdadeiramente solidário se ajuda somente alguns indivíduos ou grupos, enquanto odeia ou despreza outras pessoas e povos...

Jesus transmite o bem e a verdade, pois sua palavra é espírito! A lei divina é de amar ao próximo como a si mesmo e amar a Deus. Amar o próximo é conviver em paz, partilhando tudo com humildade, amizade e esperança coletiva. 

Quando Jesus diz: “Que seria, pois, se vísseis subir o Filho do homem para onde primeiro estava? O espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos digo são espírito e vida.” ele explica que a vida espiritual vai além (antes e depois) da material/ "encarnada"; Pois esta vida (material/ encarnada) é passageira e existe para se propagar o amor de Deus. Por isso Jesus ensinou que praticar o bem e obedecer a lei divina de amor são coisas mais importantes do que se preocupar com a própria vida encarnada. Assim, ao questionar a reação de seus apóstolos, Jesus indica que "onde primeiro estava" é uma realidade diferente da vida corporal/ material, certamente espiritual.

Discussão com fariseus (Tomé, Marcos, Mateus) 

"Então chegaram ao pé de Jesus uns escribas e fariseus de Jerusalém, dizendo: 

Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? pois não lavam as mãos quando comem pão. 

Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Por que transgredis vós, também, o mandamento de Deus pela vossa tradição? 

Deus ordenou, dizendo: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser ao pai ou à mãe, certamente morrerá. Mas vós dizeis: Qualquer que disser ao pai ou à mãe: É oferta ao Senhor o que poderias aproveitar de mim; esse não precisa honrar nem a seu pai nem a sua mãe, E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus. 

Hipócritas, bem profetizou Isaías a vosso respeito, dizendo: Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. (Isaías 29 - 13) Mas, em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens. 

E, chamando a multidão para si, disse-lhes: Ouvi, e entendei: O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem. 

Então, acercando-se dele os seus discípulos, disseram-lhe: Sabes que os fariseus, ouvindo essas palavras, se escandalizaram? 

Ele, porém, respondendo, disse: Ai dos fariseus, porque eles são como um cão que dorme na manjedoura dos bois, pois ele não come nem deixa os bois comerem. Toda a planta, que meu Pai celestial não plantou, será arrancada. Deixai-os; são cegos condutores de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova. 

E Pedro, tomando a palavra, disse-lhe: Explica-nos essa parábola. 

Jesus, porém, disse: Até vós mesmos estais ainda sem entender? Ainda não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce para o ventre, e é lançado fora? Mas, o que sai da boca, procede do coração, e isso contamina o homem. 

Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem; mas comer sem lavar as mãos, isso não contamina o homem."

Esta é a passagem onde Jesus confirma que nenhum ritual ou rito, seja "liturgia" ou "magística", é mais importante do que praticar o bem nos atos, nas palavras, nos pensamentos e nos sentimentos. As maldades não entram pela boca da pessoa - elas surgem e/ ou permanecem no interior (alma, mente) da pessoa tomada por sentimentos e/ ou pensamentos maldosos, egoístas e similares. Portanto praticar uma purificação física, como lavar as mãos, as louças, jarros e talheres, é insignificante se a pessoa não pratica o bem. As palavras mostram o que a pessoa pensa e guarda de sentimento: Se uma pessoa espalha mentiras sobre outras, ou se faz falsas acusações por exemplo, ela está praticando o mal, portanto, está contrariando os ensinamentos de Jesus. Toda fala e argumento usado para beneficiar a si mesmo prejudicando outros, é contrário aos ensinamentos de Jesus.

Esta questão do coração e dos pensamentos trazida por Jesus, é o tema da interiorização do bem, bastante abordado por Sócrates e Platão: Os filósofos explicavam que era importante tornar o desejo correto (orthos eros), unindo o elemento sentimental/ emocional ("thymous") que é o intermediário da alma (da psiquê) ao elemento superior, à razão capaz de buscar o bem, a justiça, a moderação e a coragem. Assim se busca o que é uno, ou seja, universal, imutável, o que não pode ser relativizado nem iludido. O bem (kalos) é o valor universal, que deve ser inferido nos sentimentos/ emoções, na razão e enfim, na alma, para servir a todos, para o bem do coletivo.

sábado, 26 de outubro de 2024

Leitura sobre os 2 Grandes Mandamentos/ O bom samaritano

O(s) (2) grande(s) mandamento(s)/ O Bom Samaritano (Mateus, Marcos, Lucas) 

"Os fariseus, ouvindo que ele (Jesus) fizera emudecer os saduceus, reuniram-se no mesmo lugar. Aproximou-se dele um dos escribas que os tinha ouvido disputar, e sabendo que lhes tinha respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos? 

E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes. 

E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele; 

Eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? 

E Jesus lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês? 

E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo (isto é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios). 

Jesus, vendo que havia respondido sabiamente, disse-lhe: Respondeste bem; faze isso, e viverás (não estás longe do reino de Deus). 

Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo? 

Respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. 

Ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. 

E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. 

Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; 

 Partindo no outro dia, tirou dois denários (dinheiros), e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar. 

Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? 

E ele (ou doutor da lei) disse: O que usou de misericórdia para com ele. 

Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira. E já ninguém ousava fazer-lhe perguntas."

Não basta dizer que ama Deus - para provar isto, é preciso mostrar amor a toda a criação de Deus praticando a solidariedade, por isso é correto amar o próximo como a si mesmo. O próximo não é apenas um familiar, nem um parente, nem alguém que pertence ao mesmo grupo religioso ou institucional. O próximo é praticamente todo indivíduo que encontramos pelo caminho, principalmente o mais necessitado. Jesus ainda ordena: “Vai e faça da mesma maneira", pois deve-se ter a atitude de ajudar o próximo sem querer obter vantagens ou compensações. Tal ato, além de fazer o bem à pessoa ajudada, serve para que não nos percamos na indiferença e/ ou no egoísmo. 

Esclarecido que o "próximo" não é referente à proximidade por mera afinidade nem por distância física; cabe lembrar que o ato de amar o próximo como a si mesmo não é passível de ser distorcido. Ninguém deixa de amar a si mesmo sem se destruir, nem passa a "amar menos" a si mesmo num dado momento para "amar mais" noutro: Isso seria uma falácia das mais patéticas. Quem acreditaria numa pessoa, que para fazer o mal a outra, diga que fez assim, porque estava amando menos a si mesmo naquele momento? Oras, se amasse menos a si mesmo, faria mal a si mesmo.

Este ensinamento de Jesus então é um dos centrais ao lado de amar a Deus. Mas o que é amar a Deus? É possível amá-lo e fazer mal a algumas pessoas? A resposta é não, porque Deus é espírito e é O criador onipresente de todas as coisas. Sendo espírito ele fez todos os seres humanos como espíritos à sua própria semelhança e ama todos, ama toda a sua criação. 

Vale lembrar que Deus sendo o espírito criador de tudo, não requer que cristão algum (nem outro religioso ou espiritualista) negue descobertas de estudos (científicos) como a evolução das espécies.

Aquele que crê em Deus não deixa de o fazer por entender que a vida terrestre evolui ao passar de longos períodos de tempo. Aquele que crê em Deus nem precisa negar a possibilidade da existência de eventos como o "Big Bang" ou a "Inflação Cósmica". Afinal Deus é espírito - sempre existiu e sempre existirá, então ciclos de criação e destruição do universo não refutam nem contrariam Deus. Discutir isso seria entrar em intrigas desnecessárias e tolas.

Se limitando aos ensinamentos de Jesus, que são muito mais importantes do que textos de linguagem do 1º milênio a.C. como os do velho testamento, é sempre importante lembrar que Deus perdoa todos os seus filhos, pois toda a vida é sua criação. Jesus disse: "nem meu Pai julga" - este fato é explicito em mais de um texto do evangelho de João, o evangelista, e também é reforçado em Mateus, quando este reforça a importância da misericórdia ao citar Oséias.

 

 

sábado, 19 de outubro de 2024

Leitura interreligiosa de Compaixão pelos sofredores/ Missão dos 72 discípulos/ Evangelho revelado aos pequeninos

Compaixão pelo povo que sofre/ Missão dos 72 discípulos (Mateus, Marcos, Lucas

E depois disto designou o Senhor ainda outros setenta (e dois), e mandou-os adiante da sua face, de dois em dois, a todas as cidades e lugares aonde ele havia de ir. 

Jesus percorria todas as cidades e aldeias. Ensinava nas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todo o mal e toda enfermidade. 

Vendo a multidão, ficou tomado de compaixão, porque estavam enfraquecidos e abatidos como ovelhas sem pastor. Disse então aos seus discípulos: A messe (seara) é grande, mas os operários (obreiros) são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da messe, que envie operários para a sua messe. 

E voltaram os setenta (e dois) com alegria, dizendo: Senhor, pelo teu nome, até os demônios se nos sujeitam. 

Jesus disse-lhes: Eu via Satanás, como raio, cair do céu. Eis que vos dou poder para pisar serpentes e escorpiões, e toda a força do inimigo, e nada vos fará dano algum. Mas, não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos; alegrai-vos antes por estarem os vossos nomes escritos nos céus. 

Esta passagem mostra a preocupação de Jesus com a grande quantidade de vítimas das injustiças propagadas pelas classes dominantes da sociedade. Jesus buscava ajudar a todos os desfavorecidos, injustiçados e oprimidos e orientou aos seus discípulos a orarem para que Deus enviasse (e, talvez, inspirasse) mais indivíduos solidários ao mundo. 

Nenhum tipo de orgulho é bom. Quando os discípulos dizem alegremente que os espíritos maus lhes obedecem, Jesus diz para eles não se alegrarem com isto, e sim, para se alegrarem por fazerem o bem, ou seja, por servirem a Deus e aos céus. Esta é uma lição de humildade e de gratidão. Tal lição é mais valiosa ainda para os grupos que lidam com espíritos, sejam espíritas, umbandistas, católicos, evangélicos ou qualquer outro, pois deve-se alegrar por ajudar o próximo, e não por meramente expulsar ou dar ordens a espíritos. 

A messe, seara, ou plantio, ou semeada, são as obras de Jesus: seus ensinamentos a todos e seu auxílio aos necessitados. O hinduísmo, com seus diversos tipos de yoga, está de acordo com a necessidade de se propagar o bem, como mostra o Bhagavad Gita (III: 4-8): “Nenhum homem pode escapar de agir, evitando a ação; não, e ninguém chegará à perfeição pela mera renúncia. Não, e nenhuma fração de tempo, em qualquer tempo, permanece inativa; a lei de sua natureza a compele, mesmo sem querer, a agir (pois pensamento é ato em imaginação). (...) Quem, de corpo vigoroso servindo à mente, aplica seus poderes mortais ao trabalho digno sem buscar o ganho, Ajruna, esse é honrado. Cumpre a tarefa a ti reservada!” 

O Evangelho revelado aos pequeninos (Mateus, Lucas) 

Naquela mesma hora se alegrou Jesus no Espírito Santo, e disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste às criancinhas (pequeninos); assim é, ó Pai, porque assim te aprouve. 

Tudo por meu Pai foi entregue; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. 

E, voltando-se para os discípulos, disse-lhes em particular: Bem-aventurados os olhos que vêem o que vós vedes. Pois vos digo que muitos profetas e reis desejaram ver o que vós vedes, e não o viram; e ouvir o que ouvis, e não o ouviram. 

Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. 

Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. 

Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. 

Os humildes são os indivíduos mais apropriados para crer na lei divina de amor e pregar os ensinamentos de Cristo. As pessoas com mais conhecimento tendem a achar que sabem de tudo ou considerar a si mesmas como superiores às outras, assim como os indivíduos com mais bens materiais tendem a julgar de modo arrogante e preconceituoso os mais pobres taxando-os como vagabundos e/ou repulsivos. 

Cerca de 4 séculos antes do nascimento de Jesus na Terra, Sócrates ouviu do oráculo de Delfos que era o mais sábio entre os homens e que por isso, achando que nada sabia, foi questionar outros supostos sábios sobre suas respectivas “sabedorias”. Assim Sócrates descobriu que vários homens tidos como sábios, apenas se achavam sábios, enquanto ele mesmo, ao menos, reconhecia que nada (ou pouco) sabia. Sócrates passou a questionar diversos sábios, políticos, poetas, artesãos, entre outros, e descobriu que os mais bem-vistos eram os mais carentes de uma conduta reflexiva, enquanto os mais banais, lhe pareceram os mais razoáveis. Por causa desta perambulação, Sócrates passou a ser odiado por muitos. Sócrates então, diz crer que O Deus é sábio, mas a sabedoria humana nada vale. Por isso, em conformidade com Ele, seguiu investigando e interrogando para identificar aqueles que pensam que sabem, e então refutá-los. 

Já 18 séculos depois da morte de Jesus de Nazaré, Alan Kardec obteve a seguinte resposta sobre os inteligentes que pensam que sabem demais: “É que o homem está longe de conhecer todas as leis da natureza. Se as conhecesse todas, seria Espírito superior. Cada dia que se passa desmente os que, supondo tudo saberem, pretendem impor limites à natureza, sem que por isso, entretanto, se tornem menos orgulhosos. Desvendando-lhe, incessantemente, novos mistérios, Deus adverte o homem de que deve desconfiar de suas próprias luzes”... 

Além disto, muitos dos estudiosos (sábios e inteligentes) se apegam às teorias e desprezam a prática, deixando de lado a ação do acolhimento, da devoção e da solidariedade esperançosa. Sem esta prática, ou seja, sem a vivência do bem, não há conhecimento verdadeiro, nem amor ao próximo, nem compaixão verdadeira. 

Uma das características das crianças, mais útil à humanidade e mais bela, é a humildade (ainda que tal característica possa estar relacionada com inocência). O que Jesus também chamava de “pequenino”, ou ser como a criancinha, não é o tolo, o medroso, o ignorante nem o irresponsável - é o indivíduo humilde, receptivo e sem grandes pretensões. 

Jesus diz ainda que sua lei é suave e seu dever leve. Quem faz a lei divina difícil de ser cumprida, são os seres humanos corrompidos por orgulho, ganância e outros pecados. Sua lei é de amor e Deus não a fez difícil, pois ele nos dá esperança.

 

sábado, 12 de outubro de 2024

Leitura ecumênica de "Diversos Conselhos / Sermão da Montanha"

Diversos Conselhos / Sermão da Montanha (Tomé, Mateus, Lucas

Descendo com eles, Jesus parou num lugar plano, e também um grande número de seus discípulos, e grande multidão de povo de toda a Judéia, e de Jerusalém, e da costa marítima de Tiro e de Sidom; os quais tinham vindo para o ouvir, e serem curados das suas enfermidades, Como também os atormentados dos espíritos imundos; e eram curados. 

E toda a multidão procurava tocar-lhe, porque saía dele virtude, e curava a todos. 

Levantando ele os olhos para os seus discípulos, dizia: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. 

Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia; Bem-aventurados os corações puros porque verão a Deus. 

Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir (serão consolados). 

Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem e quando vos separarem (perseguirem), e vos injuriarem (caluniarem), e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa de mim (do Filho do homem). Folgai (alegrai-vos) nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus pais aos profetas. 

Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa consolação. 

Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque vos lamentareis e chorareis. 

Ai de vós quando todos os homens de vós disserem bem, porque assim faziam seus pais aos falsos profetas. 

Mas a vós, que isto ouvis, digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam; Bendizei os que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam. 

Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses; 

E dá a qualquer que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir. 

Como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também. 

Se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam.  Se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto. 

Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus. Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso. 

Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; soltai, e soltar-vos-ão. Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando, vos deitarão no vosso regaço; porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo. 

E dizia-lhes uma parábola: Pode porventura o cego guiar o cego? Não cairão ambos na cova? 

O discípulo não é superior a seu mestre, mas todo o que for perfeito será como o seu mestre. 

E por que atentas tu no argueiro que está no olho de teu irmão, e não reparas na trave (palha, feixe) que está no teu próprio olho? Ou como podes dizer a teu irmão: Irmão, deixa-me tirar o argueiro que está no teu olho, não atentando tu mesmo na trave que está no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão. Quando você lança o feixe para fora do seu próprio olho, então você verá claramente para lançar o argueiro (cisco) no olho do seu irmão. 

O centro dos ensinamentos de Jesus possui a humildade como base, a devoção ao bem como prática e o não-julgamento / perdão como esperança de que todos um dia se reunirão no reino dos céus, com Deus. Crer no pós vida e no reino dos céus, não descarta a busca por equidade e justiça em vida: Na verdade, ao se propagar a humildade, o amor e a esperança, o progresso se desenvolve na Terra. 

Allan Kardec recebeu as seguintes instruções sobre este assunto: “A rigidez mata os bons sentimentos; o Cristo jamais se escusava; não repelia aquele que o buscava, fosse quem fosse: socorria assim a mulher adúltera, como o criminoso; Nunca temeu que a sua reputação sofresse por isso. Quando o tomareis por modelo de todas as vossas ações? Se na Terra a caridade reinasse, o mau não imperaria nela; fugiria envergonhado; ocultar-se-ia, visto que em toda parte se acharia deslocado. O mal então desapareceria…” 

Começai vós por dar o exemplo; sede caridosos para com todos indistintamente; esforçai-vos por não atentar nos que vos olham com desdém…” “O egoísmo é a negação da caridade. Ora, sem a caridade não haverá descanso para a sociedade humana. Digo mais: não haverá segurança. Com o egoísmo e o orgulho, que andam de mãos dadas, a vida será sempre uma carreira em que vencerá o mais esperto, uma luta de interesses, em que se calcarão aos pés as mais santas afeições, em que nem sequer os sagrados laços da família merecerão respeito”. Importante também lembrar que em outros textos da obra de Kardec, ele diz que a caridade não é meramente material: é também escutar para compreender, respeitar e auxiliar os mais necessitados, ou seja, é empatia e solidariedade; é o que Jesus praticava.

Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem. 

Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto. Cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto; pois não se colhem figos dos espinheiros, nem se apanham uvas dos abrolhos. O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca. 

Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas. 

Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem. 

Deus é bom e humilde, então sejamos bons e humildes. Não se julga o próximo, se não for para o bem dele e não antes de enxergar e corrigir os próprios defeitos e erros. Julgar as outras pessoas é algo muito perigoso: além da possibilidade de se equivocar classificando culpado um indivíduo inocente, o ato de julgar sem buscar entendimento ainda fomenta e reforça rixas e preconceitos altamente nocivos para o convívio em sociedade. 

A passagem dos cães e dos porcos é considerada pouco clara, mas é possível entender algumas mensagens a partir dela: Os animais são seres vivos presos às necessidades básicas como a alimentação e a reprodução. Então seria necessário aguardar pacientemente as pessoas que priorizam tais atos, a superarem tais imperfeições rústicas e/ou vícios, antes de ensiná-las sobre a lei divina de amor. Mas outro significado possível é o seguinte: Os cães e os porcos na época e lugar em que Jesus andava, eram animais predominantemente desprezados. Os judeus não deviam confiar em tais animais certamente considerados impuros, então Jesus diz que não é preciso forçar seus ensinamentos para pessoas interesseiras ou impuras, que não querem aprender sobre o bem e a lei divina do amor, pois estas pessoas poderiam atacar os cristãos, ou fingir-se de amigos, para depois traí-los. Isto também tem relação com o conselho que Jesus dá para que seus seguidores se acautelem dos falsos profetas. Muitos líderes se dizem benevolentes, sejam religiosos, sacerdotes, patrões ou políticos, mas na verdade só pensam em se beneficiar às custas dos outros. Daí é preciso ver o que as pessoas fazem: Se suas obras são benevolentes, então seu coração é bondoso, mas se as obras (atos etc) são egoístas ou cruéis, então seu coração é mau. 

Fazer o que cada pessoa faria por si mesmo, mas para o outro, é fazer o bem - o que eventualmente pode servir de exemplo para aqueles que querem o bem só para si mesmos. Este ato de fazer o bem, que consiste em ajudar os outros, principalmente os mais necessitados, é um caminho difícil (a porta estreita), pois pode ser cansativo e/ou perigoso e cheio de ameaças. A porta e o caminho largos são fáceis de serem atravessados, pois é a vida mesquinha, onde a pessoa pensa só em si mesma, geralmente prejudicando os outros sem se importar com vida alguma. 

E por que me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo? Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade. 

Aqueles que oram ou que fazem discursos persuasivos, alegando serem sacerdotes (pastor, padre, bispo etc) de Deus e nada fazem de solidário, não serão reconhecidos por Deus, nem entrarão no reino dos céus/ numa das moradas de Cristo. 

Aqueles que causam e perpetuam a iniquidade (desigualdade de oportunidades, de recursos), são responsáveis pela miséria das pessoas, pois querem tudo para si mesmos ou para um pequeno grupo de pessoas favoritas (seja por afinidade, interesse etc). Estes serão rejeitados por Cristo. 

Fazer a vontade de Deus é uma prática central do cristianismo, pois é ser solidário, justo, piedoso e humilde. Não é priorizar as próprias vontades e desejos deixando a lei de amor em segundo plano - isto é hipocrisia e falsidade. Obedecer a Deus obviamente não é ser egoísta, mas também não é ser meramente autodestrutivo. Trata-se de fazer o bem e se esforçar em priorizar isto. 

Conclusão do Discurso (Mateus, Lucas) 

Qualquer que vem a mim e ouve as minhas palavras, e as observa, eu vos mostrarei a quem é semelhante: 

É semelhante ao homem que edificou uma casa, e cavou, e abriu bem fundo, e pôs os alicerces sobre a rocha; e, vindo a enchente, bateu com ímpeto a corrente naquela casa, e não a pôde abalar, porque estava fundada sobre a rocha. 

Mas aquele que ouve minhas palavras e não pratica é semelhante ao homem que edificou uma casa sobre terra, sem alicerces, na qual bateu com ímpeto a corrente, e logo caiu; e foi grande a ruína daquela casa. 

Não adianta apenas ouvir, ou mesmo alegar que concorda com os ensinamentos de Cristo, e nada fazer. A palavra sem a paciência em lidar com os outros, sem caridade com os mais necessitados, sem a solidariedade entre as pessoas, se esvazia, ou seja, perde seu significado e seu sentido. Sendo assim, só há firmeza no bem, se o praticamos.

 

sábado, 5 de outubro de 2024

Leitura ecumênica de "O tesouro. A pérola. A rede"

O tesouro. A pérola. A rede 

Legendas: (Tomé: ciano, Mateus: azul, Filipe: magenta

"Jesus disse: Também o reino dos céus (do Pai) é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pela alegria dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo. 

Outrossim o reino dos céus é semelhante ao homem negociante (mercador) que tinha uma remessa de mercadorias e buscava boas pérolas

Aquele mercador era astuto; Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha (sua remessa de mercadoria) e comprou a pérola só para si. 

Vocês também, busquem seu infalível e duradouro tesouro onde nenhuma traça se aproxima para devorar e nenhum verme destrói. 

Quando a pérola é lançada no lodo, torna-se muito desprezada, nem se for ungida com óleo de bálsamo se tornará mais preciosa. Mas sempre tem valor aos olhos de seu dono. Compare os Filhos de Deus: onde quer que estejam, ainda têm valor aos olhos de seu Pai."

Jesus indica que Deus e o Reino dos Céus amam a pessoa que segue a lei divina de amor e espera que um dia todos seus filhos a sigam. Nesta esperança, Deus perdoa até mesmo aqueles que se distanciam de sua lei: basta estes que se distanciaram, voltarem a praticar a lei divina de amor com sinceridade/ de coração. 

Jesus também diz que o Reino é o que há de mais valioso para o ser humano. Porém este valor requer dedicação: ao descobrir tal tesouro, a pessoa que reconhece seu valor, passa a priorizá-lo acima de todos outros assuntos. Afinal de contas, trata-se do bem maior, ou, O Bem. Este bem é o que se deve amar verdadeiramente, ou seja, é o que há de mais amável, isto também está de acordo com o diálogo de Sócrates, na obra O Banquete, de Platão. 

Jesus que veio ensinar sobre a lei divina de amor, veio obviamente falar do reino dos céus também. É na dedicação aos ensinamentos de Jesus, que nos destinamos a encontrar o Reino dos Céus. É manter-se nos atos de amar o próximo, de perdoá-lo, de solidarizar-se, de ser humilde, enfim, tudo que Jesus ensinou. Este ensinamento é o que resolveria todos os problemas da humanidade se fosse colocado em prática por cada vez mais pessoas na Terra… Não se trata de imaginar um reino no além nem de realizar uma caridade fria ou a contragosto: É realizar a vontade de Deus, de Cristo, ou seja, do reino dos céus, amando ao Criador e a todas as pessoas na própria Terra. Embora pareça uma utopia, é uma atitude possível: basta colocá-la em prática encarando as dificuldades. 

A passagem de Filipe, ao comparar os filhos de Deus (todos humanos etc) com pérolas enlameadas, é semelhante à parábola do filho pródigo contada por Jesus, de acordo com Lucas: Deus é como o pai que SEMPRE perdoa seus filhos. Mas se o pecador "queima no gehena/ inferno (etc)" pela eternidade, estariam corretos estes textos de Filipe e Lucas? Sim! O que está errado é propagar a ideia que Deus pune eternamente alguém! Jesus insinua a reencarnação no Diálogo com Nicodemos e ao dizer que João Batista é Elias, além de indicar que o espírito sai do corpo na passagem sobre o "milagre de Jonas". As igrejas negaram tal explicação reencarnacionista nos concílios da Idade das Trevas! Ali, entre os anos de 325 e 787, foram caladas várias vozes dissidentes ante os imperadores e sacerdotes sedentos por poder sob a velha e capenga acusação de "heresia". Orígenes, Arius, Nestório entre outros, são exemplos dos perseguidos pelos sacerdotes mais alinhados aos poderosos naquela época. Isso porque as igrejas estavam se tornando instituições interessadas em manter o poder, com uma narrativa que dá  centralidade à autoridade e obediência, ou seja, ignorando os ensinamentos de Jesus! Esta autoridade "religiosa" obviamente era nada espiritual: gananciosa, negociava com o poder mundano de imperadores bizantinos e reis europeus. Para manter a obediência dos "fiéis" então, autoridades religiosas utilizaram-se (e algumas ainda utilizam) a intimidação, mantendo-os na ignorância, ao invés de serem exemplos vivendo em humildade, solidariedade e verdade como Jesus viveu.

Se as igrejas estiverem interessadas em propagar esperança, nenhuma delas, seja católica ou evangélica, perderá fiéis ao assumir a reencarnação como uma possibilidade relacionada à piedade de Deus!! Porque insistir em negar isso? Orgulho de determinados sacerdotes/ pastores? Ou interesse em manter fiéis/ religiosos sob o controle baseado em medo?

"Igualmente o reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, e que apanha toda a qualidade de peixes. 

E, estando cheia, a puxam para a praia; e, assentando-se, apanham para os cestos os bons (o peixe maior); os ruins, porém, lançam fora. 

Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos, e separarão os maus de entre os justos, E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. 

E disse-lhes Jesus: Entendestes todas estas coisas? Disseram-lhe eles: Sim, Senhor. 

E ele disse-lhes: Por isso, todo o escriba instruído acerca do reino dos céus é semelhante a um pai de família, que tira do seu tesouro coisas novas e velhas."

Continuando a importância de se praticar os ensinamentos de Cristo, Jesus fala sobre o resultado de se viver a bondade e de se viver a indiferença ou a maldade. Os peixes bons são os que realizam e priorizaram os ensinamentos de Cristo, os demais peixes não realizaram nem priorizaram. Como consequência de sua mentalidade e atitudes em vida, cada um terá o destino que merece: o bondoso colherá a bondade, sendo acolhido pelos anjos/ pelo “reino dos céus” e o maldoso colherá a maldade que plantou. Ao falar de consumação dos séculos e de anjos, Jesus certamente se refere ao pós-vida, ou seja, uma existência após a morte. 

Aqueles que veem o assunto da vida após a morte como uma possível causa do charlatanismo nas igrejas, contradizem estes ensinamentos de Jesus. É óbvio que o charlatanismo pode ser praticado por qualquer um, seja por uma pessoa que se autodeclare ateia, materialista, religiosa, espiritualista ou teísta. Alguns teólogos da libertação parecem seguir essa ideologia materialista talvez por buscarem uma aproximação com alguma linha de pensamento “socialista”, o que também se mostra desnecessário, já que os primeiros socialistas (antes de Marx e Engels), eram espiritualistas (Fourier, Owen entre outros). O fato é que a aproximação das típicas pautas dos movimentos sociais é uma realidade do cristianismo, porém são desnecessários os argumentos materialistas: Jesus Cristo se importava com as massas (a coletividade/ a sociedade), com os mais vulneráveis, e portanto, com a equidade. Além disto, diversas outras passagens e temas da bíblia cristã que não abordam o “pós vida”, podem ser usados para manipular fiéis, o que torna esta negação da existência após a vida terrestre, mais uma futilidade como as discussões em torno da negação da virgindade de Maria (típica do protestantismo), como o questionamento se Jesus era santo antes de ser batizado (típica do arianismo), a negação da ressurreição (típica dos espíritas) e tantas outras banalidades que se afastam da prática da lei de amor. Se estas coisas foram reais ou não, pouco importa. A diversidade é natural da vida terrestre e das civilizações humanas, mas estas divergências de opinião, JAMAIS deveriam sobrepor a importância dos ensinamentos de Cristo. 

Afinal um “conhecimento” que tem como OBJETIVO a rixa, a intolerância, o desespero, a dor, o ódio, o medo e/ ou a miséria não é verdadeiro, pois é ignorância pelo simples fato de ignorar o sofrimento alheio. Este é o caso tanto das falsas revelações religiosas ou místicas que inventam um Deus exterior misterioso e punidor, como também é o caso do discurso materialista niilista que incentiva a vivermos buscando grandes montantes de fortunas materiais e/ ou de prazeres mesmo que isso envolva enganar e prejudicar os outros, Também é o caso do discurso de incentivo à de se “defender” do estranho/ do diferente, que manifesta-se pelo incentivo ao uso (e produção) das armas, por exemplo. Na verdade, este é o discurso do medo, da desconfiança paranoica, da violência e do armamentismo. Ao vermos o número de guerras e conflitos com fins mesquinhos na história da humanidade, pode-se entender que a criação (e a utilização) de armas é uma ignorância que se transveste de conhecimento/ desenvolvimento de novas tecnologias. O verdadeiro conhecimento é o que leva ao bem e existem inúmeros deles na história das civilizações, sejam aplicados às relações humanas ou até mesmo às grandes obras, como algumas da engenharia. Platão indica esta relação de conhecimento verdadeiro com o bem em suas obras e Jesus de modo muito semelhante, vincula a verdade à lei de amor, ou seja, ao ato de fazer o bem, vivendo isto. Portanto este bem é lógica e é compaixão e solidariedade. Resumidamente se todos os seres humanos abandonarem o egoísmo e se ajudarem, todos os problemas da humanidade irão cessar. 

O trecho em que Jesus diz que o escriba versado tira coisas velhas e novas de seu tesouro, se refere ao religioso do judaísmo que realmente entendeu o que os profetas vieram ensinar na Terra antes de Cristo. É a pessoa que encontra coisas boas (tesouros) tanto entre ensinamentos antigos como em ensinamentos novos.

 

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...