domingo, 20 de fevereiro de 2022

Imortalidade - Uma pluralidade Existencial?


Finitude ou Continuidade? 

Quando um ser humano morre, tudo acaba? Ou existe "vida após a morte"?

Uma pergunta tão velha quanto andar para frente, mas que já se descobriu a resposta... Ou não: Apenas achamos que descobrimos. 

"Crer em vida após a morte" é um patrimônio da humanidade: Histórias sobre tal assunto existiram em inúmeras civilizações desde tempos imemoráveis - possivelmente desde muitos milênios antes da invenção da escrita nas civilizações mesopotâmicas. 

Os celtas, os antigos gregos, os persas, os mesopotâmicos, os japoneses, os egípcios, os mesoamericanos, os iorubá entre tantas outras culturas falavam de um mundo espiritual, de espíritos, ou de ambos. 

No ocidente, mesmo após a propagação das religiões cristãs, a idéia da imortalidade da alma continuou sendo aceita. Claro que esta aceitação aconteceu com algumas modificações no conceito de espírito e de vida após a morte, possivelmente devido ao uso da religião como ferramenta de poder a partir do último século de existência do Império Romano. 

Esta percepção ou entendimento da alma/ espírito como algo diferente do corpo (o que pode incluir o conceito de imortalidade), começou a ser rechaçada durante o período iluminista na Europa. Com as disputas filosóficas entre materialismo e idealismo numa busca para determinar as bases da ciência (ontológicas e epistemológicas), os estudos dualistas e pluralistas, que admitiam a possibilidade da alma incorpórea, foram perdendo espaço no ocidente. 

Como o idealismo foi encontrando cada vez mais dificuldade em estabelecer-se como uma base filosófica para as ciências, o materialismo foi "sendo entendido como a verdade" já no século 19. As classes intelectuais do ocidente (essencialmente Europa e EUA) então passaram a admitir como verdade apenas a matéria (perceptível pelos 5 sentidos humanos) e nem o espiritismo, também "nascido" na Europa, conseguiu questionar tal corrente de pensamento. 

A partir daí, com o domínio do pensamento racionalista e materialista nas "elites" das nações ocidentais, começou-se a propagar a ideia de que a noção de uma continuidade (da vida após a morte) é algo primitivo e/ou ingênuo com traços de infantilidade ou de mero argumento consolador. Uma generalização reducionista que ignora um enorme número de culturas, cada qual com diversos motivos, variados tipos de fé e diversas explicações sobre a vida espiritual, o pós morte e o além. 

O espiritismo que sobreviveu após o século 19, tornou-se predominantemente dogmático, conservador, mistificado e relegado a uma posição de seita religiosa ou de pseudociência. Embora as principais causas disto seja a recusa de cientistas e até mesmo de filósofos a cogitarem a possibilidade dos elementos psíquicos (alma) transcenderem o cérebro, parte dos próprios espíritas preferiram manter-se em agrupamentos um tanto alienados, desinteressados no progresso mental (intelectual, mas incluindo sentimentos, empatia etc) da humanidade. 

A classe intelectual então tornou-se majoritariamente crente na finitude, ou seja, passou a crer que na morte ocorre o desaparecimento total e repentino de todos elementos que constituem o aparelho psíquico (mente, alma, tanto faz o nome...). Toda a gama de experiências espirituais citadas por diversas culturas na história da humanidade, desde contatos com espíritos desencarnados, passando pelo êxtase espiritual até a vida após a morte, passou a ser considerada fantasia ou charlatanismo. De fato charlatões alegaram vivenciar tais experiências, mas mentirosos existem em todas as áreas do saber, pois também persistem na filosofia e na ciência. 

A percepção de tais fenômenos geralmente é interna, é da mente e não apenas dos 5 sentidos humanos. Talvez daí uma das dificuldades de aceitar a vida após a morte - não se pode percebê-la nem prevê-la. A percepção puramente da mente é tida como uma sensação ou ato de sentir, o que está mais para sentimento, pois não é externo ao ser humano. Isto cria uma interessante ligação do sentimento com a passagem para uma outra existência (a morte e a vida após ela), na verdade possivelmente vincula o sentimento à maioria ou às todas experiências tidas como sobrenaturais ou transcendentais. 

Como a possível existência após a morte não é percebida pelos 5 sentidos humanos, muitos escolhem acreditar que não existe coisa alguma após a morte. De fato, não há métodos investigativos considerados científicos que rastreiem e provam a existência de uma dimensão "espiritual" nem a de "espíritos desencarnados". Talvez tal estado de existência tenha relação com a teoria de múltiplas dimensões ou com a Interpretação dos Muitos Mundos, mas isto ainda é especulação. 

Enfim, fora as "experiências de quase morte" (EQM), a ciência pouco sabe sobre tais assuntos e talvez nem possa saber enquanto for dependente do método empírico para pesquisar. Por isso (ao menos por enquanto) só nos restam respostas filosóficas ou espirituais/ religiosas para estas questões. 

Sócrates sobre a morte e a imortalidade

As histórias sobre vida após a morte não eram novidade na época de Sócrates e de Platão (por volta do século 4 aC). Ela já existia no orfismo, que de certa forma era a religião mística e/ou da elite da Grécia Antiga. Orfeu não é um personagem historicamente comprovável, podendo ser parcialmente real, parcialmente inventado por poetas ou rapsodos, até mesmo mais antigos do que Homero e Hesíodo. 

No livro Fédon, de Platão, o filósofo Sócrates conversa com seus colegas sobre a morte: 

"O fato, Símias e Cebete, prosseguiu, é que se eu não acreditasse, primeiro, que vou para junto de outros deuses, sábios e bons, e, depois, para o lugar de homens falecidos muito melhores do que os daqui, cometeria uma grande erro por não me insurgir contra a morte. Porém podes fiar que espero juntar -me a homens de bem. Sobre esse ponto não me manifesto com muita segurança; mas no que entende com minha transferência para junto de deuses que são excelentes amos: se há o que eu defenda com convicção é precisamente isso. Esse motivo de não me revoltar a idéia da morte. Pelo contrário, tenho esperança de que alguma coisa há para os mortos, e, de acordo com antiga tradição, muito melhor para os bons do que para os maus." 

Neste ponto Sócrates explica que não teme a morte nem se revolta contra esta. Pois ele tem certeza e/ou crê que irá juntar-se aos bons deuses (bons espíritos de acordo com o espiritismo). Ele também fala que tem esperança (no bem e na justiça, além da vida terrena). 

"Que não será senão a separação entre a alma e o corpo? Morrer, então, consistirá em apartar-se da alma o corpo, ficando este reduzido a si mesmo e, por outro lado, em libertar - se do corpo a alma e isolar-se em si mesma? Ou será a morte outra coisa?" 

Sócrates então continua o diálogo com Símias, onde ambos concordam que o verdadeiro filósofo despreza os prazeres do comer, do beber, do amor (ato sexual) e da abundância e luxo das vestimentas. 

"Nisto, por conseguinte, antes de mais nada, é que o filósofo se diferencia dos demais homens: no empenho de retirar quanto possível a alma na companhia do corpo." 

"Essa é a razão, Símias, de, na opinião da maioria dos homens, não merecer viver o indivíduo a quem nada disso é agradável e que não se importa com tais práticas, por achar - se muito mais perto da condição de morto e por não dar a menor importância aos prazeres alcançados por intermédio do corpo"

"E como referência à aquisição do conhecimento? O corpo constitui ou não constitui obstáculo, quando chamado para participar da pesquisa? O que digo é o seguinte: a vista e o ouvido asseguram aos homens alguma verdade? Ou será certo o que os poetas não se cansam de afirmar, que nada vemos nem ouvimos com exatidão? Ora, se esses dois sentidos corpóreos não são nem exatos nem de confiança, que diremos dos demais, em tudo inferiores aos primeiros? 

Não pensas desse modo? 

Perfeitamente, respondeu. 

Então, perguntou, quando é que a alma atinge a verdade? É fora de dúvida que, desde o momento em que tenta investigar algo na companhia do corpo, vê se lograda por ele." 

Sócrates então continua explicando que a alma atinge a verdade com o pensamento. Em introspecção, ao afastar-se dos sentidos humanos, (visão, audição e os outros 3 inferiores) a alma dispensa a companhia do corpo, tornando-se capaz de alcançar a pureza. Assim, o amante da sabedoria e da verdade, ou seja, o verdadeiro filósofo, não teme a morte. 

Interessante notar que Sócrates priorizava as ações mentais: o pensamento para se alcançar a verdade, o acreditar no Bem e a esperança - todos elementos da alma/ mente. Isto completa seus ensinamentos que mostram a mente como algo superior ao corpo e que tudo o que é superior rege o que lhe é inferior, não para oprimir, mas para o bem. Afinal Sócrates não abominava o mundo material, tanto que sugere melhorias para a sociedade como citado em "A República".

Para explicar se há um estado (da alma, espiritual) após a morte, Sócrates segue: 

"Estudemo-lo, pois, sob o seguinte aspecto: se as almas dos mortos se encontram ou não se encontram no Hades? Conforme antiga tradição, que ora me ocorre, as almas lá existentes foram daqui mesmo e para cá deverão voltar, renascendo os mortos." 

"Para deixar a questão mais fácil de entender, observou, não te limites a considerá -la com relação aos homens, porém estende-a ao conjunto dos animais e das plantas, numa palavra, a tudo o que nasce, a fim de vermos se cada coisa não se origina exclusivamente do seu contrário, onde quer que se verifique essa relação, tal como no caso do belo, que tem como contrário o feio, no do justo e do injusto e em mil outro exemplos que se poderiam enumerar." 

"E então? Se alguma coisa piora, é porque antes era melhor, como terá sido antes injusta para poder tornar-se justa? 

Como não? 

E agora? Não é próprio dessa oposição uni versal haver dois processos de nascimento: o que vai de um contrário para o outro, e o de sentido inverso: deste último para aquele?" 

"E então? Prosseguiu: viver não comporta um contrário, tal como se dá com a vigília e o sono? Perfeitamente, respondeu. Qual é? 

Estar morto. Sendo assim, cada um desses estados provém do outro, visto serem contrários, havendo entre ambos um processo recíproco de geração." 

"Que faremos, então? Continuou; não atribuiremos a esse processo de geração o seu contrário, ou admitiremos que nesse ponto a natureza é manca? Não será preciso aceitarmos um processo gerador oposto ao de morrer? 

Sem dúvida nenhuma, respondeu. 

Qual? 

Reviver." (renascer, ou seja, reencarnar) 

Sócrates conclui sobre o processo recíproco de geração dizendo que o viver e morrer é um ciclo e não algo linear. Ele dá os exemplos do processo do sono e do mito de Endimion, onde o protagonista é colocado em um estado de sono eterno. Se o processo de vigília e sono fosse linear, todas pessoas não acordariam mais ao cair no sono, e não haveria necessidade do mito. Outro exemplo é a história contada por Anaxágoras, onde antes da formação do universo havia o estado de confusão total (similar à Khaos, a divindade ancestral de mitos gregos) que acabou dividindo-se e dando origem às estrelas e planetas com seus respectivos movimentos orbitais, ao ser organizada por Nous, a mente cósmica. Se o tempo e o fluxo de espíritos fosse linear, talvez nunca tivéssemos saído do Caos Primordial, ou entraríamos permanentemente nele em certo ponto da história. 

Depois disto Sócrates explica as reminiscências para falar da existência da alma antes do corpo: Se refere a capacidade do ser humano lembrar-se de coisas que ele achava que tinha esquecido definitivamente (similar ao inconsciente da frente psicanalítica de psicologia) e de lembrar-se de coisas anteriores ao seu nascimento (memórias de outra existência anterior). 

Sócrates ainda diz que o vício é o que mais faz mal à alma, mas nem mesmo ele pode destruí-la. 

Por fim, no livro a República, Platão registra o mito de Er contado por Sócrates. Por mais que alguns mitos tentem ensinar lições às pessoas da antiguidade, este em particular, descreve detalhadamente uma passagem da vida espiritual, ou seja, desencarnada, do personagem Er. 

Jesus Cristo sobre a Imortalidade da Alma 

Em variados trechos dos evangelhos, Jesus menciona a importância de priorizar a vida espiritual ao invés da vida material, indicando que há continuidade da existência após a morte. A valorização da vida espiritual não significa que deva-se abandonar a vida terrena, e sim que esta existe para se aprender a fazer o bem, para amar à Deus, e portanto, amar à todos. Seguem os trechos onde Jesus indica a existência da imortalidade da alma: 

"Não ajunteis para vós tesouros na terra... Ajuntai para vós tesouros no céu... Porque, onde está teu tesouro, lá está também seu coração." 

 "Ninguém pode servir a dois senhores, porque, ou odiará a um e amará a outro, ou dedicar-se á um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza. Portanto, eis que vos digo: Não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, como vos vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? 

...Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isto. Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça e todas essas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá suas próprias preocupações. A cada dia basta o seu cuidado." 

 "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; Temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na gehena." 

"Quando o espírito impuro sai de um homem, ei-lo errante por lugares áridos à procura de um repouso e não acha." 

"Em verdades vos digo, se não transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrarei no reino dos céus. Aquele que se fizer humilde como esta criança será maior nos reinos dos céus." 

"Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o Sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com ele..." 

..."Em seguida, os discípulos o interrogaram; Porque dizem os escribas que Elias deve voltar primeiro? Jesus respondeu-lhes: Elias de fato, deve voltar e restabelecer todas as coisas. Mas eu vos digo que Elias já veio, mas não o conheceram;" Este trecho parece falar da reencarnação. 

"O reino dos céus é semelhante ainda a uma rede que é jogada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. Quando está repleta, os pescadores puxam-na para a praia, sentam-se e separam nos cestos o que é bom e jogam fora o que não presta." 

"E todo aquele que deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa, receberá o cêntuplo e possuíra a vida eterna." 

A Convergência dos Ensinamentos da Espiritualidade Ocidental

No século 19, o linguista e professor francês, Hippolyte Leon D Rivail, se interessa sobre o assunto dos fenômenos tidos como "sobrenaturais". Após algumas experiências, ele assumiu o nome de Allan Kardec, alegadamente de um druida da antiga cultura celta. 

Suas obras reúnem diversas doutrinas que levam em consideração a existência espiritual, ou seja, da vida após a morte. Apesar dos antigos (druidas) celtas considerarem a existência espiritual, as obras de Kardec se baseiam em Sócrates, Platão e principalmente, Jesus Cristo. Isto possivelmente ocorre pelo tema central destes ensinamentos: o Bem, a verdade e o amor. 

Estudos sobre a Alma e a Espiritualidade - Ontologia e Epistemologia

Kardec admite que sua obra é uma filosofia, mas também um conjunto de estudos e uma doutrina (baseada em Cristo e em Sócrates - A busca pelo bem é o que há em comum entre estes autores). Seus estudos admitiam uma base existencial aparentemente dualista de corpo e espírito (apesar da existência do períspirito como um campo intermediário entre corpo e espírito). Esta estrutura ou "campo" quase imperceptível aparece em filosofias e religiões orientais com diversos outros nomes e "formas". Mas se levarmos em conta, além do perispírito, a possibilidade de depuração do espírito, que em seu progresso durante sua existência imortal, vai se tornando mais "etéreo" ou mais sutil, possivelmente o espiritismo teria uma ontologia pluralista. 

Em relação ao método de investigação, claramente o espiritismo não pode nem deve se apoiar no empirismo, que se trata de um método muito mais apropriado para estudos materialistas, ou seja, que lidam apenas com a matéria perceptível pelos 5 sentidos humanos e que podem ser reproduzidos (repetidos) à vontade. Como os estudos espíritas muitas vezes lidam com inteligências (ou mentes) que aparentemente "surgem e desaparecem", é ilógico utilizar o método empírico para tentar provar ou negar a maioria dos fenômenos espirituais. 

Kardec ressalta a importância da ausência de pressupostos (ideias, julgamentos, escolhas) para se estudar fenômenos espirituais (tal ausência seria a base da fenomenologia poucas décadas mais tarde). 

A mente não é algo que se reduz a estudos naturalistas ou materialistas: Ela é subjetiva e formada por processos internos não observáveis a partir do exterior, ou seja, por terceiros. 

A partir destas bases, Kardec e seus colaboradores, confiam principalmente na sua percepção mental (talvez levando em conta interpretação, intuição etc) dos fenômenos e desenvolvem teorias e métodos que obviamente levam em consideração a transcendência da alma, seja a imortalidade, o contato com o "além", como o êxtase espiritual, o desdobramento etc. 

Por fim, a imortalidade da alma no espiritismo é o que explica algumas aparentes injustiças na Terra, as lembranças "misteriosas" que não pertencem à vida atual do ser, as recompensas e punições mencionadas por Sócrates e Jesus Cristo etc. Nenhum destes fenômenos tira a importância central de se amar à todos (à Deus, a si e ao próximo) nem da busca pela sabedoria: Pelo contrário, tudo gradativamente indica que este é o caminho do verdadeiro progresso de toda a existência.  

 Fontes:

Platão. Versão eletrônica do diálogo platônico “Fédon”, Tradução: Carlos Alberto Nunes Créditos da digitalização: Membros do grupo de discussão Acrópolis (Filosofia)

Tradução dos Originais mediante a versão dos Monges de Maredsous (Bélgica). Bíblia Sagrada 83 edição, Editora Ave Maria. 

Kardec, Allan.; O Que É o Espiritismo? https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/885/o-que-e-o-espiritismo; acesso em 02/02/2022.

 

 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Espiritualidade e as possíveis Dimensões

 

Muitas religiões nos contam que Deus criou tudo. Com diferentes nomes e/ou formas, esta explicação é comum. Obviamente isto não é bem aceito na ciência objetiva. Céticos perguntariam, como Deus fez tudo? Como era esse ser? Como ele pensava? 

Comecemos imaginar vagamente dentro de nossas limitadas condições o seguinte: A questão da criação do universo sempre remete a dúvida se havia um começo ou se o tempo infinito é de alguma forma cíclico não havendo de fato começo-meio-e-fim, ou seja, não havendo uma linearidade. A verdade é que o processo de "surgimento" do universo não foi aleatório, pois se fosse assim, não haveria harmonia, nem movimentos organizados entre os corpos celestes etc. Não houve uma explosão como entendemos hoje, tanto que existe o termo expansão cósmica para diferenciar esse processo. O "surgimento" do universo também não foi obra do acaso, pois acaso significa que não houve causa, portanto o acaso não produz coisa alguma. 

Mas para imaginar uma inteligência (ou de modo mais preciso: uma mente), capaz de desafiar o conceito de tempo que o ser humano conhece ou consegue entender, seria preciso deixar de lado a simplória discussão se houve começo ou não: Hoje, no século 21 sabemos que certos fenômenos causam distorção no espaço-tempo. Oras, se existe tal distorção, esta distorção ocorre em sentido a uma direção ou em relação a um momento ou conjunto destes elementos. Se tal fenômeno existe, então há algo além do que entendemos como o tempo (e, de certa forma, toda sua eternidade) e o espaço (e, de certa forma, toda sua infinitude). Sim, parece muita coisa, de dar um nó na cabeça, mas é assim mesmo. Daí o termo "além" ou "do além". 

Se há uma "direção" além da tridimensionalidade da nossa "realidade" ou além do espaço-tempo continuum, ela deve ter relação com o conceito da quarta dimensão abordado num vídeo do famoso divulgador científico Carl Sagan. 

Daí é possível ter uma impressão (ainda que vaga) de quão grandioso pode ser o universo, ou o conjunto das possíveis dimensões. Se há uma quarta dimensão pode haver outras. A existência de vida, ou de mentes nestas dimensões "além" desta nossa realidade em 3 dimensões, ainda que quase inimaginável, marcaria uma transitoriedade entre Deus e toda sua criação, incluindo o processo chamado de Big Bang ou Expansão Cósmica. 

Um ser da quarta dimensão poderia existir em um estado muito mais sutil e puro do que a típica vida conhecida na Terra. Daí podemos ver alguma conexão destes seres com as experiências espirituais/ religiosas, de êxtase e afins. 

Além do quarto estado da matéria, a "energia" é naturalmente luminosa e/ou brilhante, sendo mais pura, mais expansiva, mostrando uma relação com uma "direção" só compreensível e existente na quarta dimensão. Nesta dimensão, os seres (chame de mentes, espíritos ou anjos) podem perceber e interagir além da porção do espaço-tempo que percebemos e interagimos aqui na Terra. Daí porque podem ouvir pensamentos, perceber sentimentos, intenções, orações e "sumir e aparecer". Este estado de existência seria literalmente mais extensivo e talvez expansivo. Estaria mais conectado a mais coisas do que podemos perceber aqui na Terra. A terra e "seu espaço 3D" estaria muito distante das dimensões mais elevadas, mais próximas de Deus, do Criador. É uma realidade literalmente muito mais pesada, pois é muito mais densa. A matéria aqui existem em estados que não são típicos das dimensões mais elevadas. Forças como contração e cisão/ divisão são mais comuns nas dimensões menos elevadas e assim, são comuns aqui na Galáxia onde o Sistema Solar e a Terra se encontram. 

Utilizando-se da teoria das 7 dimensões possivelmente oriunda de religiões e/ou filosofias orientais, imaginemos que o "reino" de Deus seja a sétima dimensão. Certamente isto pode parecer inimaginável, mas seria uma dimensão onde conecta-se todas as coisas. Tempo aqui é uma fração da realidade, talvez um sétimo ou menos. Algo que se pode atravessar ou por onde seja possível espalhar-se. Apego aos bens materiais da terceira dimensão aqui é impossível, pois é algo muito ínfimo, minúsculo como se fosse microscópico. Então teríamos mais 3 dimensões entre Deus e a Terra. Cada uma delas no mínimo tão grande (ou infinita) como o espaço onde se encontra a Via-Láctea e seus pequeninos e vários sistemas estelares da "nossa realidade tridimensional". A partir deste resumo podemos tentar entender melhor o que obras religiosas, filosóficas e mitológicas tentavam explicar em algumas de suas passagens. Platão afirma que os deuses sentiram o peso da matéria ao reinarem na Atlântida por um período prolongado e acabaram se corrompendo. Os gregos utilizavam o nome Aether para se referir a uma divindade que representava o céu além do céu de Urano, pai dos titãs e avô de Zeus. O aether às vezes era descrito como um céu luminoso e/ou uma luminosidade que não aquecia ou não queimava como o fogo. Possivelmente Aristóteles tirou o conceito de Éter daí (Ether). Forças muito sutis, também chamadas de muito puras ou muito eterizadas, poderiam ser oriundas da dimensão diretamente superior a que vivemos (a quarta) por exemplo. Nesta escala, estaríamos à 4 dimensões de distância do "mais elevado céu" (Claro, poderíamos utilizar outra escala, mas não vou entrar na possibilidade de estarmos na dimensão, ou na dimensão "zero", que deve estar mais próxima do conceito de 7 céus de algumas religiões). 

Enfim, nada disso deve nos desanimar. Sermos pequeninos, ou estarmos distantes da pureza maior/ mais verdadeira não nos impede de fazer coisas boas. Pelo contrário humildade é um bom começo.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

As Margens entre Ciências Humanas/Biológicas e Misticismo

 

Falar de crenças ainda é um tabu no meio acadêmico/ científico. A psicologia que, em partes, deveria estudar seus efeitos e causas, está dividida. Tal divisão é profunda e é similar à que ocorre com alguns outros campos da ciência também. 

Em outro texto ( https://nea-ekklesia.blogspot.com/2021/07/a-alma-um-tema-talvez-inconclusivo-mas.html ) mencionei um médico, que ao observar pacientes que passaram por EQM, teorizou que a “consciência” existe além do cérebro. Uma "afronta" aos materialistas/ empiristas, feita por alguém que basicamente estudou uma ciência alicerçada sobre o método empírico: A medicina. Por um outro lado, a Organização Mundial da Saúde já admite que a espiritualidade tem sua importância na saúde mental de muitas pessoas. O Consciente/ a Consciência e as Crenças As crenças, se levadas a sério, têm sua influência não necessariamente na consciência - muitas vezes elas ficam no subconsciente (ou inconsciente) até serem resgatadas pela consciência. Obviamente toda informação em nossa mente/ aparelho psíquico, seja uma memória, um sentimento ou mesmo uma interpretação, não deixam de existir em momento algum: Elas apenas ficam inativas ou fora da percepção da consciência por determinados períodos (afinal, deixar de existir para voltar a existir depois de algum tempo, não é muito científico). Isto é claro nos estudos psicológicos da frente psicanalítica, sejam estudos de Freud, de Jung ou de outro estudioso desta área. Uma crença levada a sério é “um acreditar”, podendo ser considerada uma “certeza” da pessoa que acredita. 

Na frente fenomenológica da psicologia, esta crença faz parte da realidade do indivíduo. Afinal, para se estudar uma pessoa em particular (paciente, cliente etc), deve-se não só evitar preconceitos, como também suspender bases teóricas generalistas, que às vezes, por não levar em consideração os fatos particulares de cada pessoa, acabam colaborando para diagnósticos errados. Nestas abordagens fenomenológicas a consciência é uma atividade direcionada, sempre sendo uma consciência de algo, o que as aproximam da teoria geral dos sistemas. Sendo assim, a consciência do psicoterapeuta trabalha desvelando os “acidentes” (de certo modo, os fatos históricos constituintes do objeto/ ser) para chegar à essência do "objeto" (paciente etc). Então, mesmo com as diferenças entre psicanálise e fenomenologia, pode-se notar que a consciência (o consciente) é um elemento ativo do aparelho psíquico. Em ambas bases de estudo (quer você considere científicas ou não) a consciência não tem substância perceptível pelos 5 sentidos humanos, mas lida com informações captadas pelos sentidos e com intenções e elementos mais “profundos” de nossas mentes, sendo que estes últimos a frente psicanalítica posiciona no inconsciente. 

Voltando à pessoa que crê em algo, o seu interesse e/ou a sua fascinação são “aberturas” na mente que podem ser consideradas vulnerabilidades. Isto ocorre porque, em um relacionamento com outro indivíduo por exemplo, o interesse e a fascinação permitem a criação de um elo ou empatia com uma “pessoa”. Se esta pessoa for mal intencionada ela pode usar desta abertura psíquica para “atacar” o indivíduo fascinado ou vulnerável. Este ataque não é necessariamente algo destrutivo, podendo ser uma influência que se transmite pelo inconsciente. Uma manipulação emocional já pode ser considerada como uma influência mais naturalmente perceptível. 

Esta influência é “tratada” pela hipnose e por diversos meios chamados de mágicos, místicos e afins. Nestes últimos meios ela é frequentemente considerada um ataque astral. 

 

Das Teorias Místicas até as Científicas 

Ataques astrais podem ser feitos à distância quando o atacante tem um objeto do alvo em posse. Este tipo de ataque é mais difícil de ser realizado e recebe vários outros nomes genéricos pouco precisos, desde magia negra até vudu… 

Não estar com a mente, ou talvez mais precisamente, o inconsciente, aberto, é uma maneira efetiva de defesa contra influências nocivas (ou ataques astrais). Tranquilidade, estabilidade e fé são meios de defesa contra ataques astrais. Certamente estados de depressão e ansiedade são estados de vulnerabilidade, pois estão relacionados a vazios (literais) afetivos/ existenciais. 

É óbvio que céticos materialistas abominam estes fatos, geralmente negando-os pelo fato de praticamente não poderem ser detectados no espaço-tempo conhecido, como por exemplo, na atmosfera ou nos corpos humanos. 

Há teorias que afirmam que sentimentos e interações como essas afetam muito sutilmente os campos eletromagnéticos (não estou falando necessariamente de Kardec aqui, temos estudos muito mais recentes feitos pelo Heartmath Institute Research Center e por outros cientistas)… Isto deve explicar porque é mais fácil realizar ataques próximos, pois nestes casos os corpos ou cérebros devem manifestar algum tipo de campo sutil, ainda pouco conhecido na atualidade. 

Note que sofrimentos psíquicos, dos quais os leigos chamam de momento difícil, podem gerar vulnerabilidades. Todo sentimento negativo acaba se relacionando com algum tipo de sofrimento e pode eventualmente constituir psicopatologias ou comportamentos doentios. O termo doentio é usado aqui para definir nocivo - algo que propaga sofrimento, dificuldades e, em alguns casos mais extremos, doença e morte. 

 De acordo com teorias místicas, cascas astrais são formas residuais relacionadas aos corpos astrais (talvez às almas desencarnadas também). Ao atingir outros níveis de consciência (ou acessar planos superiores também?), a casca astral pode se dissolver ou permanecer algum “tempo” no plano astral, servindo para mentes (inconscientes ou espíritos) encarnadas ou desencarnadas. Esta casca pode ser habitada por elementais ou por vontades e desejos naquele nível de “consciência” (que a casca ficou). Sejam mentes ou espíritos, eles são apegados à vida terrestre e tendem a buscar “energias” como parasitas. 

Praticamente todos esses elementos são discutidos apenas entre místicos porque lidam com o “imaterial” ou incorpóreo. Porém eles também trabalham os sentimentos e o inconsciente, ocasionalmente chamado de subconsciente. Como mencionado anteriormente, de acordo com alguns métodos utilizados na psicologia, a consciência funciona como uma projeção de luz, ou talvez como um olhar. Ela é constituída de elementos como o direcionamento da atenção, da intencionalidade. Tais elementos interagem de maneira cíclica com o meio ambiente e com a própria mente: às vezes por ação, às vezes por reação. 

Este ciclo se estende até variadas "profundidades" do aparelho psíquico, atingindo o que as abordagens psicanalíticas chamam de inconsciente. Portanto afetam o sentimento também. Por fim, estas relações dos elementos do aparelho psíquico também interagem com o respectivo corpo. Assim, podemos considerar relações: 

Psíquica-psíquica: Da mente consigo mesma (ao pensar, lembrar) ou com outra mente (ao influenciar uma ou mais pessoas); 

Psíquica-corporal: Da mente com o próprio corpo (fatores psicossomáticos); 

Psíquica-social: Da mente com ambiente externo (interpretações de diversos elementos do ambiente etc); 

Psíquica-espiritual: Da mente com elementos pouco estudados e compreendidos, que geralmente passam pelo inconsciente (experiências transcendentais, visões e afins). Este último ainda é pouco aceito nas ciências do século XXI, mas alguns órgãos como a OMS (já mencionada anteriormente) já admite a importância da espiritualidade/ religiosidade na saúde de algumas pessoas. 

Nas teorias místicas, chakras e sefirots estão muito ligados aos sentimentos (emoções não necessariamente manifestadas no mundo físico). Eles relacionam-se com o aparelho psíquico e com o corpo físico, sendo que o aparelho psíquico existe no corpo astral, ou é sinônimo deste. Obviamente estas teorias não têm embasamento científico, mesmo porque são mais antigas do que o iluminismo europeu, e portanto, mais antigas do que chamamos de ciência. Mas mesmo nas ciências atuais, temos alguns estudos tímidos (por falta de transdisciplinaridade) sobre as relações do cérebro com outros pontos do corpo, seja com o sistema cardiovascular ou com o endócrino. (vide os estudos do Instituto Heartmath e de Srini Pillay, professor de psiquiatria da escola médica de Harvard) 

Nas teorias mais espiritualistas/ místicas, os sofrimentos podem atrair espíritos que buscam energias. Sofrimentos superficiais mas persistentes ou ampliados por desejos individualistas, egoístas, inveja e sentimentos similares podem ser destrutivos também “nestas teorias” e não apenas na psicologia cardíaca. 

Pensamentos e sentimentos, como praticamente tudo, depende de algum nível de relação. Sendo assim, podemos considerar uma pessoa demonstrando raiva, geralmente não atrai uma pessoa alegre. Atraímos o que pensamos, mas imaginar que só somos felizes com algumas determinadas coisas não atrai tal coisa. Isto ocorre porque há uma "infelicidade'' no caminho, por exemplo: “Só serei feliz quando tiver uma determinada casa”. Esta afirmação não só impõe uma condição, ela está centrada nesta condição que não é uma realidade naquele momento e que está obstruindo a felicidade. Ela também não afirma que a pessoa terá a casa, ela afirma que a felicidade só será alcançada SE aquela condição for satisfeita. A afirmação atira para o futuro, e por si só, jamais traz para o presente a “tão desejada condição”. Nas abordagens fenomenológicas da psicologia, esta condição certamente é nociva ao paciente/ cliente: É o que ele escolhe fazer com seu respectivo desejo ou dificuldade. 

*texto originalmente publicado em agosto de 2021, no blog Nea Ekklesia

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Conservadorismo: A Farsa na Espiritualidade

 

O Cristianismo é Conservador em seus Fundamentos? 

Como mencionei em meu texto onde abordo o fundamentalismo (https://nea-ekklesia.blogspot.com/2022/01/os-fundamentos-do-saber.html), o cristianismo não se trata de ensinamentos conservadores nem de uma religião conservadora. Desde seu surgimento no século 1, até meados do século 4, o cristianismo vinha trazendo novos modos de pensar, de agir e de se expressar e o que traz novidades não pode ser conservador. Afinal o cristianismo ensina a importância do amor que rege a lei divina e portanto a verdadeira lei de todas as coisas. Este amor que Jesus mostrou durante sua vida no século 1, tão raro na sociedade tomada pela cultura bélica de Roma e tão esquecido entre as seitas corrompidas do judaísmo, é humilde e piedoso; não é controlador nem ciumento. 

Talvez o único ensinamento do cristianismo que se aproxime polemicamente de um suposto elemento do conservadorismo, seja o de não olhar para (o corpo de) uma pessoa desejando-(o)a. Esta passagem bíblica trata de uma crítica ao sexismo, mas que para pessoas que valorizam demais o sexo casual (sem relacionamento ou sem sentimentos envolvidos) pode ser algo proibitivo ou incômodo. 

Ponto em comum entre Cristianismo e Platonismo 

O argumento desta passagem se assemelha com os ensinamentos de Platão (e de Sócrates), onde o filósofo identifica a priorização dos prazeres, como um ato de desprezar a mente e seu respectivo potencial de busca pelo conhecimento e pelo bem. Em suas obras, Platão indica que os prazeres materiais mais intensos e os mais exagerados são os piores para a alma (mente), típicos de quem se encontra no estado da mente inferior, enquanto os prazeres mais sutis e voltados ao bem (kalos) são típicos de quem se encontra no estado da mente superior. Tanto a filosofia socrática/platônica, como o cristianismo, acabam apontando as inconsistências de se querer cada vez mais bens materiais. Platão estende a critica à busca incessante por prazeres materiais e ainda aponta os males do vício, que pode ser facilmente relacionado a este tema do materialismo demasiado, chegando a organizar rudimentarmente quais prazeres são mais sublimes e quais são menos. Segue uma tentativa de listar os prazeres do mais prejudicial à mente ao mais benéfico: 

O prazer individual misturado com a dor física ou psíquica (um dos piores); 

A intensidade do prazer do ato sexual (chamado de amor sensual nos escritos de Platão); 

O prazer do paladar relacionado à comida saborosa, mas pouco nutritiva, ou ao consumo em demasia; 

Os prazeres do olfato, como os causados por perfumes e aromas; 

Os prazeres da audição, do som, como escutar música; 

Os prazeres da visão, como apreciar imagens agradáveis e paisagens belas; 

Os prazeres de ajudar o próximo, principalmente os mais necessitados (um dos melhores); 

Embora esteja listada ordenando os 5 sentidos humanos (tato/ paladar/ olfato/ audição/ visão), o fator intensidade é decisivo para determinar se o prazer desvia a atenção da alma tornando-a apegada ao mundo material; Ou seja, esta é um lista rudimentar podendo ter algumas variáveis. O estado mais desenvolvido da mente é quando esta se entrega pela busca ao Bem maior, pelo conhecimento, pela verdade (o Bem deve gerar o prazer mais real, mais sublime do que os prazeres da visão). 

Completando este ensinamento sobre o que há de menos e mais elevado na mente humana, Sócrates (e Platão) indica(m) que o maior sempre serve o que lhe é submisso, o que lhe é inferior. Se a mente mais desenvolvida ou elevada busca o bem maior, ela naturalmente acaba buscando servir os mais humildes, os menos desenvolvidos etc. 

Em última instância priorizar o Bem e o desenvolvimento da mente (ou da alma, como preferir), não pode ser chamado de conservadorismo. Fazer o bem, não só ajuda o mais necessitado a superar uma dificuldade, como pode o inspirar a também ajudar o próximo.

Há quem diga que os elementos filosóficos socráticos e platônicos sejam mentalistas/ idealistas/ espiritualistas. Eles até parecem priorizar apenas a vida mental/ espiritual, mas na verdade eles são pluralistas. Platão nunca desprezou questões da vida, do mundo material. Para isto basta ler "A República" onde ele traça diversos argumentos para melhorar a civilização humana na Terra. 

O mesmo vale para os ensinamentos de Jesus Cristo: Apesar de mencionar que seu reino não é deste mundo, ele nunca abandonou os pobres na Terra, sempre demonstrando a importância de ajudar a todos. Por fim, o golpe final no conservadorismo por parte do cristianismo está na seguinte passagem: "Não penseis que eu tenha vindo trazer paz à Terra; não vim trazer a paz, mas a espada; — porquanto vim separar de seu pai o filho, de sua mãe a filha, de sua sogra a nora; — e o homem terá por inimigos os de sua própria casa." Afinal de contas, como poderia Jesus Cristo pregar a lei de amor, obedecendo classes religiosas corruptas, como os fariseus e os escribas, que queriam conservar a miséria e a ignorância do próprio povo?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

A Necessária União entre a Espiritualidade Progressista

Ao longo dos anos estudando sobre religiões e "mitologias" notei que várias religiões falavam das mesmas coisas: da importância do bem, de um criador, de um todo divino... Mas também vi  religiosos evitarem ler coisas de autores que não professam suas crenças escolhidas: Há crentes que não lêem nada religioso fora a Bíblia, espíritas que lêem apenas Kardec etc. Isto é compreensível e até aceitável contanto que não gere mais divisões e insensibilidade em nossa sociedade.

Recentemente assisti uma missa onde o padre fez uma leitura bastante "pés no chão" sobre uma passagem bíblica. Em até certo ponto foi possível entender que Jesus curou enfermos não para provar que era Deus ou filho de Deus. Isto é válido, para não dizer, óbvio: Jesus o fez para propagar o bem. Todos os ensinamentos de Jesus giram em torno do bem: Amar o próximo como a si próprio.

Porém a leitura pareceu mostrar uma abertura para indicar que Jesus não fez milagres e que não tinha poderes sobrenaturais. Talvez seja uma explicação da teologia da libertação a qual ainda não estudei a fundo. Este é um ponto bem polêmico, mas há mais teorias que lidam com a religião e com a espiritualidade que convergem para este caminho: O espiritismo por exemplo alega que tudo (ou muito mais coisas do que conhecemos até o século 21) virá às claras, ou seja, tudo será compreendido. Os milagres vão gradualmente sendo explicados como manifestações da "mediunidade". Mediunidade esta que depende principalmente da interação de seres "incorpóreos", chamados de espíritos. Outro fator que o espiritismo indica ser necessário para as realizações mediúnicas é o fluído universal que está por trás da criação de todo universo. Este fluído parte de uma pureza máxima (Deus) e passa por diversas transformações constituindo desde forças praticamente indetectáveis para os seres humanos (como o perispírito) até energias e elementos normalmente perceptíveis pela vida terrestre.

Ninguém pode ser forçado a acreditar em uma coisa nem em outra: O católico certamente escolherá crer que Jesus fez milagres porque era filho de Deus ou o próprio Deus. O espírita dirá que Jesus foi um dos mais elevados espíritos que passou pela Terra e por isso mostrou grande domínio mediúnico em sua vida na Terra. E quem diz que Jesus não fez milagre nem foi um medium? O materialista, que geralmente é ateu. Obviamente porque ateus não crêem em Deus, e muitos deles, também não crêem em uma dimensão espiritual. Para o materialista apenas o universo "3D" existe. A mente é mero produto do cérebro: Está em reações químicas do sistema nervoso, nas sinapses ou na relação destes efeitos com o ambiente onde o ser vivo está inserido. Geralmente, para os ateus, milagres são invencionices criadas pelas igrejas para manipular o povo. Por enquanto não me aprofundarei nesse frágil argumento, mas sei que a "igreja européia" após o ano de 380 dC, inventou muitas coisas para manipular as massas.

Em linhas gerais, a igreja católica, assim como as igrejas protestantes, durante todo período colonial/ neo-colonial (do final do século 15 até meados do século 20) continuaram sendo usadas como ferramenta de poder ignorando os ensinamentos de seu principal profeta: Jesus Cristo. Os cristãos que acreditavam e praticavam os ensinamentos de Jesus Cristo eram minoria dentro da religião e por causa disso muitos absurdos foram admitidos, desde genocídio dos povos indígenas até a escravização dos povos da África subsaariana.

Portanto existia a necessidade de acabar com o poderio dentro das igrejas (ou das religiões), colocando-as em seus devidos lugares - o lugar do amor e da espiritualidade.

O espiritismo surgiu no século 18 entre uma classe de pedagogos europeus. Nesta época as práticas "místicas" haviam ganhado prestígio entre classes médias e altas da sociedade, o que deu abertura para proliferação de charlatanismo baseado em superstições e fascinação. A parte menos mesquinha e mais séria destes movimentos místicos eram essencialmente religiosos (espiritualistas, mas este termo era pouco ou nada usado na época), porém com a propagação do charlatanismo todos eles passaram a ser mau vistos pelas pessoas mais sérias, havendo uma  necessidade de reação.

O espiritismo pode não ter surgido essencialmente como reação, mas surgiu nesta época. Este movimento predominantemente filosófico (cristão/platônico, e, de certa forma também ontológico e até epistemológico), buscou explicar diversos fenômenos tidos como sobrenaturais: Contato com espíritos, visões "do além", êxtases espirituais, incorporações etc. Em seus esforços este grupo liderado por Kardec, coletou informações durante o século 19 e tentou uma conciliação com as elites intelectuais (entre elas, os cientistas) e com alguns grupos religiosos. Mas o resultado não foi muito promissor e o espiritismo em sua forma pura foi majoritariamente rechaçado como se fosse parte do movimento de charlatanismo da época. Ele só ganhou força no Brasil, durante o século seguinte, mas a elite econômica insistiu em distorcer muito da teoria e da prática espírita, o que fomentou divisões no espiritismo: Daí surgiu a Umbanda e os movimentos espíritas progressistas, afinal Kardec fala muito no progresso moral como base para o progresso da humanidade.

Como é possível notar, foi praticamente impossível convencer indivíduos cheio de poder (seja econômico, político ou religioso) a abandonarem seus excessos e suas ganâncias. Assim, a teologia da libertação surgiu de necessidades reais durante a transição dos anos 60 aos 70 do século 20.  

Movimentos como a teologia da libertação trabalharam junto aos pobres, aos humildes e aos desfavorecidos nas sociedades. Esta foi uma verdadeira aproximação dos ensinamentos de Cristo. O autor da obra considerada como marco do movimento, menciona que a raiz da exploração humana é a ruptura da amizade com Deus e com os Homens. Afinal o amor ensinado por Jesus Cristo, é o amor ao Deus onipresente criador de tudo e o amor a toda sua criação - daí amar ao próximo como a si mesmo.

Porém um dos perigos da aproximação com o materialismo, é desconsiderar a dimensão espiritual e a pluralidade. Alegar que os "milagres" de Cristo são uma invenção é argumento de anti-religiosos e anti-espiritualistas. Mesmo dizer que foi uma invenção para o bem, é um reducionismo - reduz as capacidades de Jesus Cristo e pressupõe uma certeza que nada parecido com milagres ou com a mediunidade existe.

Os milagres podem ser um tema polêmico, mas alegar que eles foram simplesmente inventados é sair do cerne dos ensinamentos da lei de amor. Se você não crê em milagres, pode buscar explicações filosóficas que indicam uma possibilidade como as do espiritismo ou as de filosofias e religiões orientais e africanas, ou pode deixar a questão em aberto.

Pregar verdades absolutas sobre o que ainda está a ser estudado ou sobre o desconhecido, é cair no erro. Nestes temas relacionados à espiritualidade e aos milagres, é útil e importante priorizar os ensinamentos de Cristo, que indicam que a lei divina, e portanto, universal, é a lei de amor. A lei é universal, regendo do maior (Deus) para os menores (toda sua criação e criaturas) e assim também é a lei da natureza (o Sol, a Terra e os seres vivos), como explicada por Sócrates (no livro A República, de Platão), tido como uma das bases do espiritismo. Os ensinamentos de Sócrates também indicam que o amor tem a capacidade de transcender além da vida material, como foi registrado por Platão no livro "O Banquete".

Alegar que todos os feitos de Cristo são invenções é "pregar verdades" sobre o que não se tem certeza ainda. É cair no mesmo erro das fúteis e nocivas discussões se Jesus era santo antes ou depois do batismo por João Batista. É cair no erro da discussão se a verdadeira espiritualidade deveria permitir ou não a reprodução de imagens de santos e profetas. É cair no erro de discutir se Maria, mãe de Jesus, era virgem ou não, se era santa ou não. É cair no erro das cisões, do clubismo, do separatismo, da opressão, das acusações mútuas e dos conflitos.

É querer propagar a opinião própria como verdade absoluta, como dogmas.

São como as perseguições religiosas do final do império romano, os conflitos entre budistas e taoistas, as cruzadas medievais, as guerras entre católicos e protestantes da era colonial, o darwinismo social, o fascismo, o nazismo, a guerra fria, o terrorismo no oriente médio etc.

O fanatismo não existe só nas religiões, muito menos só na espiritualidade. Ele existe em todo lugar onde se prega verdades absolutas ignorando minorias.

Os egoístas e os gananciosos negaram o espiritismo porque acharam absurdo ou terrificante a ideia de outras dimensões onde correriam o sério risco de pagar por seus erros (pecados). O espiritismo não prega a pobreza, mas diz que as grandes fortunas materiais só se justificam se aplicadas ao progresso da humanidade.

Este mesmo tipo de pessoa (egoísta e/ou gananciosa) renega a teologia da libertação não por sua aproximação do materialismo, mesmo porque o materialismo é sua defesa. Os multimilionários construíram seus argumentos falaciosos de que suas fortunas são frutos de um suposto trabalho árduo, sendo a matéria, tudo que eles têm. Esses gananciosos odeiam a teologia da libertação porque sentem nojo ou ódio de pessoas humildes e querem enganar e explorar os pobres. Renegam por causa de seu apego a quantidades gigantescas de riquezas materiais e por seus desejos de adquirirem cada vez mais.

O espiritismo e a teologia da libertação parecem movimentos bem diferentes entre si, mas ambas correntes de pensamento cristão fomentam um progresso que incomoda somente aqueles que querem perpetuar seu poder pelo maior período de tempo possível.

 

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Possíveis relações da Mente com o Universo - Parte 3

 Esta é a terceira parte de minhas reflexões sobre a mente para além do corpo, baseada em minhas experiências e em obras que dialogam com estas - Não me pautei por imposições de visões de mundo de outrem, portanto não é um trabalho científico, já que este texto partiu da busca pela minha saúde mental e espiritualidade. Ainda assim, como tentei entender uma série de fenômenos, acabei tentando construir um conhecimento através das reflexões e comparações de argumentos e por isso cito algumas fontes ao final do texto.

As raízes da Ciência - Filosofia, Ontologia e Epistemologia 

A ciência não existe nem poderia existir sem a filosofia. Na história da humanidade, toda a discussão sobre a existência e todo o desenvolvimento de métodos de estudo partiu da filosofia (ontologia e epistemologia). Resumidamente isto ocorreu porque o conhecimento sempre esteve em poder de uma classe mais introspectiva/ pensadora das sociedades humanas. Esta classe que muitas vezes era religiosa ou espiritualizada, com certa frequência assumia a liderança das sociedades, ou, mantinham elos com o governo (geralmente monárquico ou imperial) agindo como conselheiros por exemplo. Afinal, o conhecimento desta classe servia para organizar e orientar as sociedades de diversas maneiras. 

 Como frequentemente existiu esse elo com a religiosidade/ espiritualidade, os pensadores e filósofos surgiam da (ou se envolviam com a) religião de seu respectivo tempo e local. Isto tem uma ligação direta com o fato das reflexões sobre a existência e sobre a mente/ a alma, fato que deu origem a ontologia no decorrer da história. 

Na Europa do século 17, com a transição do período renascentista ao iluminista, emergem as primeiras questões sobre a interação da alma/ mente com o corpo. 

René Descartes - Meditações sobre a Primeira Filosofia (1641) 

A afirmação central do que é frequentemente chamado dualismo cartesiano, em homenagem a Descartes, é que a mente imaterial e o corpo material, embora sejam substâncias ontologicamente distintas, interagem causalmente. Essa é uma ideia que continua a aparecer com destaque em muitas filosofias não europeias. Eventos mentais causam eventos físicos e vice-versa. Mas isso leva a um (suposto) problema substancial do dualismo cartesiano: como uma mente imaterial pode causar algo em um corpo material e vice-versa? Isso costuma ser chamado de "problema do interacionismo". 

O próprio Descartes lutou para encontrar uma resposta viável para esse “problema”. Em sua carta a Isabel da Boêmia, Princesa do Palatinado, ele sugeriu que "espíritos" dos nervos interagiam com o corpo através da glândula pineal, uma pequena glândula no centro do cérebro, entre os dois hemisférios. 

Apesar desta dualidade ser considerada um problema pelos filósofos e demais estudiosos mais apegados ao materialismo, Kardec acreditou que muitos dos materialistas que criticavam o dualismo cartesiano, poderiam e deveriam andar em paz ao lado dos espíritas. 

Espiritismo - Uma Filosofia Dualista ou Pluralista 

Sobre a possível relação espírito-corpo, Kardec cogita algo relacionado com o eletromagnetismo e/ou com a eletricidade em mais de um de seus escritos: 

“Tomamos para termo de comparação o calor que se desenvolve pelo movimento de uma roda, por ser um efeito vulgar, que todo mundo conhece, e mais fácil de compreender­-se. Mais exato, no entanto, houvéramos sido, dizendo que, na combinação dos elementos para formarem os corpos orgânicos, desenvolve­-se eletricidade. Os corpos orgânicos seriam, então, verdadeiras pilhas elétricas, que funcionam enquanto os elementos dessas pilhas se acham em condições de produzir eletricidade: é a vida; que deixam de funcionar, quando tais condições desaparecem: é a morte. Segundo essa maneira de ver, o princípio vital não seria mais do que uma espécie particular de eletricidade, denominada eletricidade animal, que durante a vida se desprende pela ação dos órgãos e cuja produção cessa, quando da morte, por se extinguir tal ação.” 

Se aproximando mais de uma crítica ao materialismo, Kardec escreveu (seja anotando as falas das médiuns ou de próprio punho) que praticamente toda mudança na Terra ocorre de modo gradual, como pode ser notado na evolução das espécies. O ser humano (homo sapiens) possui uma enorme semelhança de funcionamento de seu corpo em relação aos demais mamíferos, principalmente aos demais primatas, como chimpanzés, orangotangos e gorilas. 

“Ainda que isso lhe fira o orgulho, tem o homem que se resignar a não ver no seu corpo material mais do que o último anel da animalidade na Terra. Aí está o inexorável argumento dos fatos, contra o qual seria inútil protestar. Todavia, quanto mais o corpo diminui de valor aos seus olhos, tanto mais cresce de importância o princípio espiritual. Se o primeiro o nivela ao bruto, o segundo o eleva a incomensurável altura. Vemos o limite extremo do animal: não vemos o limite a que chegará o espírito do homem. 

O materialismo pode por aí ver que o Espiritismo, longe de temer as descobertas da Ciência e o seu positivismo, lhe vai ao encontro e os provoca, por possuir a certeza de que o princípio espiritual, que tem existência própria, em nada pode com elas sofrer.” 

O Espiritismo marcha ao lado do materialismo, no campo da matéria; admite tudo o que o segundo admite; mas, avança para além do ponto onde este último para. O Espiritismo e o materialismo são como dois viajantes que caminham juntos, partindo de um mesmo ponto; chegados a certa distância, diz um: “Não posso ir mais longe.” O outro prossegue e descobre um novo mundo. Por que, então, há de o primeiro dizer que o segundo é louco, somente porque, entrevendo novos horizontes, se decide a transpor os limites onde ao outro convém deter-se? Também Cristóvão Colombo não foi tachado de louco, porque acreditava na existência de um mundo, para lá do oceano? Quantos a História não conta desses loucos sublimes, que hão feito que a Humanidade avançasse e aos quais se tecem coroas, depois de se lhes haver atirado lama? 

Impactos do Materialismo vs Dualismo/ Pluralismo 

Em seu livro “Gênese, Milagres e as Predições segundo o Espiritismo”, Kardec ainda explica a importância de entender a mente/ alma como algo que transcende a matéria em contínuo processo de evolução: 

“A pluralidade das existências, cujo princípio o Cristo estabeleceu no Evangelho, sem todavia defini-lo como a muitos outros, é uma das mais importantes leis reveladas pelo Espiritismo, pois que lhe demonstra a realidade e a necessidade para o progresso. Com esta lei, o homem explica todas as aparentes anomalias da vida humana; as diferenças de posição social; as mortes prematuras que, sem a reencarnação, tornariam inúteis à alma as existências breves; a desigualdade de aptidões intelectuais e morais, pela ancianidade do Espírito que mais ou menos aprendeu e progrediu, e traz, nascendo, o que adquiriu em suas existências anteriores. 

Com a doutrina da criação da alma no instante do nascimento, vem-se a cair no sistema das criações privilegiadas; os homens são estranhos uns aos outros, nada os liga, os laços de família são puramente carnais; não são de nenhum modo solidários com um passado em que não existiam; com a doutrina do nada após a morte, todas as relações cessam com a vida; os seres humanos não são solidários no futuro. Pela reencarnação, são solidários no passado e no futuro e, como as suas relações se perpetuam, tanto no mundo espiritual como no corporal, a fraternidade tem por base as próprias leis da natureza; o bem tem um objetivo e o mal consequências inevitáveis. 

Com a reencarnação, desaparecem os preconceitos de raças e de castas, pois o mesmo Espírito pode tornar a nascer rico ou pobre, capitalista ou proletário, chefe ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. 

Tirai ao homem o espírito livre e independente, sobrevivente à matéria, e fareis dele uma simples máquina organizada, sem finalidade, nem responsabilidade; sem outro freio além da lei civil e própria a ser explorada como um animal inteligente. Nada esperando depois da morte, nada obsta a que aumente os gozos do presente; se sofre, só tem a perspectiva do desespero e o nada como refúgio. Com a certeza do futuro, com a de encontrar de novo aqueles a quem amou e com o temor de tornar a ver aqueles a quem ofendeu, todas as suas ideias mudam.” 

Os Estados da Mente para além de Si Mesma 

Pode-se dizer resumidamente que todas as pessoas que passam pela nossa vida (participam de modo significativo), deixam marcas psíquicas: Sejam desejos, expectativas, sentimentos ou formas de pensamento… Isto marca a importância da relação e da fraternidade entre seres humanos. A fraternidade pode ser entendida como um estado mental/ estado de consciência - Semelhante do que se ouve dizer nesta 2ª década do século 21, a fraternidade deve ser praticada assim como empatia: Após desenvolver empatia, convivendo e/ou solidarizando com pessoas diferentes, é possível ver o próximo de maneira mais compreensível, respeitando-o, buscando o bem das comunidades, e certamente, da humanidade como um todo. 

Estados de consciência são altamente determinantes - podem ser jaulas (que aprisionam a mentalidade da pessoa e consequentemente, sua respectiva vida), mas também podem ser transcendentes, e de certa forma, libertadores, como mencionado pelo neuropsiquiatra e logoterapeuta Viktor Frankl: Sob condições de extrema dificuldade (miséria e tortura) nos campos de concentração da 2ª Guerra, os prisioneiros que acreditavam em algo bom ou se agarravam psicologicamente a uma esperança ou fé, tinham mais condições de sobreviver. Esta condição mental (ou estado de consciência) estava ligada a uma melhoria na capacidade de tolerância e de recuperação do corpo e tem relação com o que Viktor Frankl chama de transcendência. Em última instância, o sentido de vida da pessoa tem uma importância central em sua existência e está diretamente ligado a capacidade de direcionar bons sentimentos para além de si mesmo. 

Este estado mental parece típico de ascetas religiosos (ou espiritualizados) de diversas regiões diferentes do globo. Assim estes indivíduos suportam grandes dificuldades inspirando-se em suas fés/ crenças. 

Neurologia e Filosofia 

Os 3 tópicos (a seguir) são baseados no diálogo entre o neurocientista Miguel Nicoelis e a filósofa Lúcia Helena Galvão. 

A mente é análoga: Mídias com que interagimos alteram a morfologia do nosso sistema nervoso central, pois ele é plástico para sobreviver às mudanças do mundo externo; Quando as recompensas são dadas por comportamentos cada vez mais semelhantes às máquinas, o sistema nervoso apara (pruning) componentes analógicos que não se adequam ao mundo digital, comprimindo capacidade cognitiva, empática e emocional, atingindo a inteligência. 

A seleção natural é contínua e permanece ocorrendo até os dias de hoje. Portanto, muitas das pressões seletivas que ocorrem sobre nosso sistema nervoso central são de nossa própria criação (do ser humano como espécie). A redução do número de poetas, artistas e artesãos nas sociedades humanas indica esse movimento. A informação não aprofundada / não processada serve como bloqueio da criatividade e imaginação (independe de escolaridade). Esta informação não aprofundada pode ser considerada dados que não formam mensagens coerentes nem úteis. A vasta e rápida propagação destes dados em geral não tem a função de informar e sim de entreter, distrair e vender produtos aos usuários de diversas mídias. Esta propagação de informação incompleta/ não aprofundada, fomentou uma geração de meros usuários (de mídias digitais) e não de criadores. Tal bombardeio de propagandas e outras futilidades agem como ruído atrapalhando tanto a capacidade de pesquisa como a formação de conteúdo psíquico/ emocional, pois a originalidade e a captação das ideias serve à ciência também, não só à arte. 

A mente humana é maior do que o conjunto de neurônios, pois gerou experiências mentais há centenas de milhares de anos. A capacidade de preencher, complementar espaços e narrativas, tanto de captação de informações dos sentidos como de interpretação de mitos e histórias, indicam essa grandiosidade. 

Para a neurociência de Nicolelis, o senso e a imagem corporal do eu são criações fluidas e plásticas que podem mudar a cada instante. Ele estudou crianças vítimas de má-formação congênita, sem membros, e verificou que elas continuavam a sentir braços e pernas fantasmas desde a infância. Isso mostrou a ele que o cérebro (a mente) humano é capaz de gerar um modelo muito bem definido do corpo e do senso do “eu”, mesmo na ausência de sinais somáticos derivados de componentes corporais. Assimilamos até ferramentas artificiais como verdadeiras extensões contínuas de nossos corpos biológicos. Temos um cérebro capaz de simular, além de um mapa de nossos corpos, também uma representação do próprio mundo em nossas habilidades mais valiosas. Para um bom violinista, por exemplo, o cérebro precisa incorporar o violino como extensão dos seus braços. 

Para o famoso psiquiatra e psicólogo Carl Gustav Jung, do mesmo modo, o “eu” acumula imagens que se agrupam por significados oriundos tanto da percepção quanto da memória. É a formação de um complexo de ideias, sentimentos e imagens que não possuem realidade em si. O eu é, portanto, uma solução de compromissos entre imagens (sensoriais e mnemônicas) prevalentes num dado momento para tornar-se objeto do pensamento abstrato. Jung chamou a isso de“complexo do eu”. 

Pelo fato de o cérebro assimilar tudo que lhe é familiar, a dor do amor é mais do que real. Perder o objeto de nossa afeição é como amputar uma parte do senso do “eu”. 

 Nicoelis continua a nos explicar o “eu”, o amor e a paixão como cascatas de hormônios que se aliam aos sentidos e fazem o cérebro lutar para incorporar esse fluxo de informações como parte de realidade e do senso do “eu”, compondo sobre o produto de experiências prévias. Os hormônios mediadores dos contatos corporais como abraços, fazer amor, massagens, o encontro social com alguém desejado e etc., criam a sensação de prazer nutrida pela simulação da realidade criada pelo cérebro, até que essa realidade seja também integrada como parte do modelo neural que define o senso do “eu”. 

 Compartilhamos nossas vidas como um verdadeiro amálgama de corpo e seres que estão na ativa e dinamicamente mantidos no espaço neuronal do cérebro de cada um de nós. Por isso a fantasia do fim do mundo, como um desejo de morte solidária e democrática, é compensatória para esse medo da finitude que é lembrado quando um ano se finda. Pois, quando alguém morre e outros ficam, os que ficam sofrem as dores cruciantes da saudade. Essa fantasia faz essa dor não acontecer, já que todos partiriam juntos. 

As pesquisas de Nicolelis se orientam para criar uma interface entre o cérebro e as máquinas. Abreviou com as iniciais ICM. Nos mostra que máquinas podem “ler pensamentos” e traduzi-los em comandos computacionais, fazendo com que um primata em um laboratório controle um robô do outro lado do mundo. Fala de um futuro próximo em que o homem poderá conduzir seu veículo, comunicar-se com outras pessoas por meio dos seus pensamentos, numa “brainet”, uma verdadeira rede social de cérebros humanos. Pessoas portadoras de paraplegia teriam condições de se movimentar novamente, graças a um exoesqueleto, sob o comando do pensamento, ajustado ao corpo como se fosse um traje. 

A humanidade vai muito além de um controle da consciência em que a vontade atua modificando estruturas mecânicas. Somos cada um o todo onde o outro é um pedaço de si e, por isso, amar a si mesmo é também amar o outro. 

A Mente na Filosofia 

A filosofia trabalha ideias universais, mais amplas que formam, diferente do saber mais técnico que apenas informa. Por exemplo, o pedreiro joga argamassa numa parede com determinadas distância, quantidade e força. Este processo na filosofia desconsideraria a profissão e os materiais, fazendo as seguintes modificações (para um diálogo por exemplo): momento certo, quantidade certa e intensidade certa. 

Saber se comunicar, conhecer sua própria identidade, cuidar do bem-estar mental são fatores importantes que servem como uma defesa contra a opinião alheia e contra tentativas de manipulação feitas por outras pessoas. 

Além de trabalhar ideias universais, a filosofia traz o exercício da reflexão, ou seja, exercitar e dominar a própria mente. Tal domínio não é parar a mente, mas ter um momento sem interferência externa. 

Aplicar teoria é obrigatório; testar ideias é importante para inovação e adaptação; reflexão é o encontro com sua alma e o desenvolvimento da capacidade de avaliar; 

A filosofia assim como a ciência e a religião não deveria ser usada em benefício de poucos e sim em prol da maioria. Não deve ser usada para fins perigosos ou destrutivos e sim para o progresso, para o bem. 

A Consciência e o Progresso da Humanidade 

A consciência naturalmente rejeita aquilo que ela já aprendeu totalmente e/ou já superou. Deixar-se levar por qualquer razão, aos problemas já superados, leva a processos de sofrimento e/ou de vício. Desistir de ideais nobres que priorizam o bem do próximo e/ou da maioria, por exemplo, implica gradualmente em dar mais espaço às ideias contrárias, como as de segregação, de elitização, os discursos de ódio etc. Se um número grande de pessoas desiste dos ideais de justiça, equidade, fraternidade/ solidariedade, as pessoas com ideias contrárias prevalecem, causando na sociedade, o impacto destrutivo da segregação, indiferença, elitização etc. 

Entregar-se ao consumo abusivo de qualquer substância devido a dificuldade em lidar com uma questão/ problema, é uma situação similar à anterior mas em um nível individual. Danifica-se o corpo e a mente causando até um possível processo letal de adoecimento. 

O processo de evolução da espécie humana não pode ser desvinculado de sentimentos como a empatia, a amizade, a solidariedade, a curiosidade em aprender, a devoção etc. Estes “sentimentos” não são elementos separáveis que podem ser comparados lado a lado com impulsos mais rudimentares nem com sentimentos destrutivos ou nocivos. A diferença se dá por níveis, afinal se todo ser humano se entregasse frequentemente aos impulsos de perpetuação da espécie, estaríamos todos apenas buscando sexo e comida há mais de 220.000 anos. 

Com tais exemplos é possível ver que, ao menos de certo modo, a identidade de cada forma é como um nível de vibração (podendo variar do menos ao mais intenso e/ou do menos ao mais amplo, e vice-versa). Resumidamente tal movimento (ou "vibração") vale para toda "matéria e energia": sólido, líquido, gás, plasma, radiação e também para a mente humana. 

O que é Transcendência? 

As informações que compõem todos os dados mentais e suas respectivas relações que formam interpretações, jeitos, crenças e identidades, se manifestam através do sistema nervoso central (cérebro, neurônios etc). Ela depende do potencial elétrico e das sinapses para manifestar-se através do SN (sistema nervoso), mas nenhuma pesquisa empírica prova sua localização. Não há provas obtidas por tal método de estudo, de que a mente esteja precisamente no cérebro, nos neurônios ou em qualquer outra parte ou fluído do corpo. O que se detecta são pontos do SN onde surgem efeitos e consequências de intenções, escolhas etc. 

Tais informações (psíquicas) não desaparecem repentinamente nem mesmo na morte. Os casos chamados de “Experiência de Quase Morte” dão esse indício, ainda que haja muita resistência na comunidade científica. Pacientes que perderam a consciência nestas experiências, efetivamente morrem por alguns segundos, pois passam por um breve período de inatividade cerebral total, mas não tiveram suas memórias, visões ou sensações apagadas da existência, para depois simplesmente ressurgirem - eles se lembram e muitos até contam o que viram “enquanto seus corpos estavam mortos”.. 

O sentimento é uma peça chave nas questões de transcendência psíquica, mas são mal estudados. Alguns estudos de psicologia cardíaca indicam uma relação do coração, tanto com os sentimentos, como com o cérebro e com campos eletromagnéticos. Porém, a maior parte da aplicação dos estudos desta área são voltadas ao tratamento de pacientes com problemas cardíacos. 

Mas estas questões abordadas desta maneira beiram o materialismo, e isto é pouco relevante se comparado com a importância dos bons sentimentos e de suas expressões. Humildade, receptividade, comunicação clara, paciência, devoção, força de vontade, solidariedade/ piedade, entendimento/ responsabilidade e empatia/ difusão de ideias são essenciais para que a humanidade não se destrua. 

Além do Materialismo 

 Sendo o processo de expansão dos bons sentimentos parte de um processo de evolução do aparelho psíquico (e todos seus elementos constituintes como sensações, interpretações, informações, memórias etc), esta evolução ocorre essencialmente pela transcendência, através do ir além de si mesmo, e apreciando humildemente o máximo de coisas ao seu redor e se preocupando com o Bem além de percepções individuais e/ou imediatistas. É claro que tal processo não consiste em abandonar a si mesmo, mas também ver e respeitar a si mesmo como uma pequena parte de uma realidade enorme, em prática, como parte de uma realidade infinita. 

Tal progresso ou processo de evolução trabalha de alguma forma os elementos psíquicos que transcendem o espaço-tempo conhecido pela humanidade. Então esse aparelho psíquico (ou espírito) que transcendeu, já não está mais preso às leis naturais conhecidas pelos habitantes da Terra: Ele é capaz de viajar de maneira praticamente inimaginável pela humanidade, ainda que deva ter algum limite dentro de um conjunto de leis possivelmente “maiores” ou que abranjam esta hipotética quarta dimensão além do espaço-tempo. 

Tais seres possivelmente energéticos com uma imensa vastidão de sentimentos puros e conhecimentos verdadeiros só podem ser descritos pelos seres humanos (da antiguidade à modernidade) como seres gloriosos, divinos e angelicais. 

Estes seres indicam a existência de uma ou mais dimensões além do que nós seres humanos entendemos como realidade até este início do século 21 do calendário gregoriano. 

Tal dimensão jamais seria algo subordinado ao nosso “espaço-tempo” ou à nossa realidade, colocando a Terra e todos seus habitantes em uma posição de antecessor a se desenvolver ou a evoluir. Embora pareça uma situação de pequenez ou de impotência da vida terrestre ante tamanha vastidão (o infinito vai além das 3 dimensões), na verdade as dimensões além simplesmente mostram que a Terra e toda sua realidade onde está inserida tem a sua importância sob uma outra ótica. Esta ótica não é nada surpreendentemente nova: É a lógica, onde o bem, sendo o objetivo central nas civilizações, cessa todos os conflitos e os entraves do progresso. O progresso não se dá só pela racionalidade e pelo acúmulo de conhecimentos objetivos que gera tecnologia, o progresso também se dá pela valorização de tudo relacionado aos sentimentos: A expressão das artes, da espiritualidade, o desenvolvimento da empatia, da solidariedade etc. 

Obviamente estes sentimentos não são destrutivos nem mesquinhos, são sentimentos relacionados ao processo real de transcendência, de ir além. Não se trata de sentimentos de posse, nem de emoções que forçam outras pessoas a estarem subjugadas de alguma forma. 

O sentimento sendo algo mais interno e geralmente mais duradouro do que suas expressões/ emoções, é um estado mental. Muitas vezes, não é simples nem fácil entrar neste estado, mas é preciso buscar, se mover e sentir. 

Fontes (além de minhas experiências "subjetivas"): 

https://www.youtube.com/watch?v=ZZcXTJmdYHE acessado em 30/09/2021; 

https://www.youtube.com/watch?v=DRTQ-azfSac acessado em 10/11/2021; 

KARDEC Allan, RIBEIRO Guillon, A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo; 

Descartes, R. (1641) Meditations on First Philosophy, in The Philosophical Writings of René Descartes, trans. by J. Cottingham, R. Stoothoff and D. Murdoch, Cambridge: Cambridge University Press, 1984, vol. 2, pp. 1-62.

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