Um breve resumo da longa história do ecumenismo e do sincretismo religioso
Quando
estudei variadas mitologias entre os anos de 2015 e 2018, eu percebi
vários elementos semelhantes entre algumas delas. Estas semelhanças
variam entre quantidade e qualidade. Por exemplo, o mito grego do
nascimento de Zeus e como seu pai, Cronos, tentou destruir ele e seus
irmãos, é quase idêntico ao mito hitita/ hurrita (antigos reinos da
Anatólia) de Tarhunt e seu pai Enlil. O mito de Enlil e seu pai Anu, deus dos céus, por
sua vez, aparece nos antigos reinos da Mesopotâmia e é similar com o de
Cronos e Urano, deus dos céus (Ouranos, o Caelus em Roma), contado pelos poetas gregos.
Ao debruçar-me sobre as semelhanças inter religiosas do antigo
politeísmo afro-eurasiático, fui descobrindo personagens e histórias
semelhantes entre variadas culturas até que achei alguns vagos traços de
semelhança entre judaísmo e antiga religião egípcia.
Se
ignorarmos a “visão” de Brahman como O Deus único e supremo no hinduísmo
(há interpretações politeístas), o judaísmo possivelmente é a 1ª
religião monoteísta da Terra, porém ao surgir entre pequenas tribos
cercadas por impérios da antiguidade, a data de seu início é
controversa. Numa visão religiosa hebraica/ judaica, ela certamente se
inicia com Adão ou com seus filhos por volta dos anos 4000 aC ou 3900
aC. Porém numa visão mais cética baseada em evidências materiais é
possível datá-la por volta de 1350 aC, aproximadamente durante o governo
do faraó Akhenaton (reinado de 1353 aC a 1334 aC) no Egito.
Interpretações mais reducionistas existem, mas não trato delas aqui.
As
curiosidades “inter religiosas” ou “sincréticas” me levaram a alguns
caminhos: O caminho dos hermeneutas indicava que havia uma
espiritualidade mediterrânea (egípcia, cananéia, judaica, mesopotâmica,
hitita/ hurrita, greco-romana) que continha elementos em comum. Isto é
abordado por Evêmero (~330 aC - 250 aC) e Eusébio de Cesaréia (265 -
339) - este último teria seguido a “linhagem” de estudos de Filo de
Biblos e Sanconíaton. Porém estas linhas de estudo priorizam supostos
rastros materiais possivelmente perdidos nos dias de hoje, e, ao traçar
tal percurso, trata mais dos personagens como reis divinizados. O
caminho do hermetismo (~100 - 300), ou do sincretismo religioso, vai
indicar a mistura das práticas místicas e religiosas em si e mostra um
elo entre judaísmo, helenismo (religiões gregas), zoroastrismo e
politeísmo egípcio. Este último caminho possivelmente se ramifica
através de trocas culturais e uma destas ramificações desemboca no
pitagorismo.
O pitagorismo em si parece ter sido centrado na misteriosa religião
órfica da Grécia antiga, porém diferentemente da religião politeísta
popular grega, este movimento filosófico religioso apresentava
características de religiões de outras culturas (egípcia, mesopotâmica e
talvez outras como a hindu, celta, iraniana etc) e aspectos mais
racionais ao se aproximar da filosofia (precursora da ciência).
Portanto, o pitagorismo se afastava da ritualística, dos frenesis e
transes. É justamente por esta aproximação da racionalidade e do
autocontrole/ consciência de si, que Platão aceita alguns elementos do
pitagorismo.
Com Platão e seu mestre, Sócrates, a questão ética,
ou a questão do bem, finalmente é trazida para o centro da religiosidade
e não só isso: para o centro da recém surgida filosofia ocidental.
Obviamente divulgar a importância do bem, da razão, da justiça e do amor
não é algo fácil: Mesmo com o espalhamento da cultura grega pelo mundo
através do Império greco-macedônico de Alexandre, o Grande, as gerações
de filósofos depois de Platão “fizeram reinterpretações, adaptações e
ramificações” na filosofia. Apesar de revolucionar o modo ocidental de
pensar, a Academia de Platão durou somente de 384 aC a 86 aC, pois foi
destruída pelos exércitos romanos liderados por Susa. Este e outros
fatos indicam que a filosofia fundada por Platão sofreu tentativas de
silenciamento e perseguições. No século 1, durante o período “pacífico”
do Império Romano (a Pax Romana) os acadêmicos (da academia de
Platão) já não existiam mais e os filósofos céticos já haviam
desvirtuado em algum nível a filosofia de Sócrates e Platão. Neste
período surge o “médio platonismo” com filósofos tentando restaurar a
originalidade da filosofia ocidental organizada por Platão, mas sem negar totalmente um sincretismo com outras filosofias. O termo
platonismo me parece mais adequado para designar os “estudiosos” ou
“seguidores” de Platão a partir deste momento da história. Neste período
da história também aumentam a quantidade de sincretismos tanto
filosóficos como religiosos e surge o cristianismo.
O
cristianismo é um conjunto de ensinamentos monoteísta, surgido no século
1, que mostra a importância verdadeira do amor. Não existiam igrejas
cristãs quando Jesus de Nazaré, o Cristo, andou pela região do Levante
propagando seus ensinamentos centrados no amor piedoso. Jesus não
proibiu templos, mas nunca construiu um e nem ordenou a construção de
templos, embora haja uma interpretação de que ele tenha dito algo deste
tipo à Pedro. Jesus ensinou dentro de alguns templos judeus (sinagogas),
mas não ensinou o judaísmo em si, pois ao trazer a ênfase no amor a tudo, não admitiu absurdos como a vingança aceita entre judeus. Além disso, Jesus passou a maior parte do tempo
caminhando e auxiliando os mais necessitados e rejeitados. Não há algo
errado especificamente em assistir cultos ou missas, mas a prática
cristã vai muito além dos templos e igrejas: Ela é um modo de pensar,
expressar e agir no mundo. Um modo centrado no amor piedoso, pois o
monoteísmo ensinado por Jesus Cristo não é sinônimo de “povo escolhido”,
muito menos sinônimo de separatividade. É união entre todos filhos de
Deus, ou seja, entre toda a humanidade, entre toda a vida, por mais
difícil que isso pareça. Isso por si só já deveria mostrar de maneira
óbvia que os ensinamentos cristãos não foram difundidos para se formar
grupos fechados: Os cristãos devem se pautar por semelhanças e por
igualdade entre as religiões, as espiritualidades e as filosofias, pois
as diferenças só deveriam ser causa de afastamento quando entrassem em
contradição clara contra os ensinamentos de Jesus, ou seja, contra o
amor, a piedade, a solidariedade e a humildade. Os ensinamentos de
Cristo têm esse claro viés ecumênico: Jesus busca harmonia mesmo com
aqueles que têm cultura e modos diferentes dos seus.
O cristianismo e o ecumenismo exigem amor e equidade.
Uma busca pela visão ecumênica do cristianismo
O
amor então é o centro dos ensinamentos de Jesus Cristo, sendo a dádiva e
a virtude mais preciosa que Deus deu aos seres humanos.
Por
volta dos séculos 1 e 2, após a morte de Jesus, são feitos os escritos
essenciais do cristianismo e começam a surgir algumas divergências no
que se refere a diversos detalhes da doutrina, assim começa a se formar o
que entende-se por religiões (cristãs, neste caso). Estas divergências
certamente ocorreram pela influência de outras doutrinas religiosas,
outras filosofias e outras culturas espiritualistas, conforme pessoas de
diferentes regiões se interessavam pelo cristianismo e entendiam
verdades em seus ensinamentos. Porém neste período o cristianismo era
pouco ou nada aceito entre pessoas em posição de poder social e/ ou
econômico.
O cristianismo só começou a ser institucionalizado na
forma de igrejas de maneira significativa no século 4, ou seja, cerca de
3 séculos após a morte de Jesus, quando os imperadores romanos
começaram a mostrar determinados interesses na doutrina, obscurecendo a
importância do tema central cristão: O amor.
O evangelho contado
pelos apóstolos Mateus, Marcos, Lucas e João é considerado o centro dos
ensinamentos de Jesus Cristo, conforme as religiões cristãs, e diversas
foram suas interpretações ao longo da história.
Os evangelhos de
Tomé e de Filipe têm alguns temas mais místicos, outros mais
reveladores e alguns mais controversos, em relação ao evangelho aceito
dos 4 apóstolos nas religiões. Embora o de Tomé tenha várias semelhanças
com os evangelhos de Lucas, Marcos e Mateus, o texto atribuído a Filipe
é notoriamente de uma época posterior aos apóstolos que viveram com
Jesus.
As explicações que darei nos próximos textos sobre o cristianismo e o
ecumenismo levam em consideração a atenção especial que Jesus deu à vida
na Terra. Esta atenção foi voltada principalmente aos mais
necessitados, que mal tinham o básico para viver: cegos, surdos,
leprosos, desabrigados, famintos, crianças, mulheres, prostitutas e
outras pessoas vulneráveis. Estas pessoas eram muitas, pois o sistema
social e econômico, não muito diferente dos dias atuais, era cheio de
injustiças e iniquidade durante a época do Império Romano em que Jesus
andou pela Terra. Este sistema injusto, inútil para a maioria das
pessoas que eram pobres, está ligado às críticas que Jesus faz aos
ricos, aos líderes religiosos e ao dinheiro.
Além disto, um tema
tão importante quanto este é a vida espiritual tratada por Jesus: Jesus
menciona em diversas passagens a importância de se fazer o bem, não
apenas para propagar o amor e a equidade na Terra, mas também para que
as pessoas (suas almas, ou espíritos) pudessem alcançar o reino dos
céus, ou, uma das moradas de Cristo. A prática e a teoria do
cristianismo tem coerência entre si: Não faz sentido alegar ser cristão e
não pôr em prática o amor piedoso. Este amor pede atitude solidária com
as pessoas. Além disto, não adianta realizar ajuda material a alguns
indivíduos ou grupos e pensar de modo egoísta ou planejar atos nocivos
contra outros.
Eu abordarei passagens da bíblia, particularmente
os ensinamentos de Jesus Cristo, seguidos por observações que podem ter
influência de diversas “espiritualidades”, sejam elas filosofias ou
teologias. Alguns exemplos são: O platonismo, o espiritismo de Allan
Kardec, a Kriya Yoga e a teologia da libertação.
O “platonismo” é
a raiz e o cerne da filosofia de todo ocidente (basicamente Europa e
América após a colonização). Surgida na Grécia clássica (do século 4
antes de Cristo) a filosofia desenvolvida por Platão é baseada nos
ensinamentos e diálogos de Sócrates, mas com influência de alguns
filósofos anteriores, como Anaxágoras, Parmênides e Pitágoras. Como
mencionei anteriormente, a filosofia platônica incita a busca pela
sabedoria e pela verdade, que naturalmente deve levar ao que é bom, belo
e justo.
O espiritismo baseia-se nos textos do pedagogo e
tradutor francês, Hippolyte Léon Denizard (Allan Kardec), que buscou
aproximar o cristianismo à ciência, passando inevitavelmente por
questões filosóficas. Ao trazer o tema da reencarnação, o espiritismo,
surgido no século 19, explica muitos conceitos espirituais, também se
aproximando de várias religiões, muitas delas já extintas: A religião
órfica grega, o druidismo dos celtas, vertentes do hinduísmo etc. Apesar
da centralidade no cristianismo, Kardec diz que o espiritismo aceita
pessoas de todos os credos, ou seja, de todas as religiões, provando ser
um movimento filosófico espiritualista ecumênico.
É importante
lembrar que na época em que o espiritismo foi fundado, os evangelhos de
Tomé e de Filipe estavam ocultos (nas cavernas de Nag Hammadi - Egito)
há séculos. Estes 2 evangelhos só vieram a público após o ano de 1945.
A
Kriya Yoga é
um dos vários tipos de yoga do Sanatana Dharma (hinduísmo) que
mantém o universalismo desta espiritualidade. Kri-ya significa ação divina, ou agir com Deus e Yoga é principalmente traduzido como união ou disciplina - assim, uma possível tradução é união com Deus pela ação. Esta ação se dá por
técnicas psicofisiológicas, como o controle da respiração e a meditação
(perceber as próprias atividades mentais e o aquietamento da mente).
Tais técnicas geralmente levam-se anos para serem dominadas e são
importantes para o “kriya yogi” adquirir controle de sua mente sensorial
e seu intelecto, banindo o desejo, a ira e o medo, para então atingir a
consciência de Deus. Ainda que possa parecer indiferente ao meio, o
método da Kriya Yoga propõe libertar a alma da prisão do ego ao
“respirar o ar profundo” da onipresença.
O guru Babaji, no século
19, restaurou e propagou esta yoga que une as práticas de outros 4
tipos de yoga. Seu discípulo Lahiri Mahasaya difunde a Kriya na Índia
estimulando o viver com simplicidade, o pensar com elevação e a
fraternidade universal, enquanto os seus sucessores Yukteswar, Yogananda
e Hariharananda, revelam a unidade básica entre os ensinamentos de
Jesus Cristo e os de Bhagavan Krishna, preconizando a compreensão
cultural e espiritual entre ocidente e oriente.
Por fim, a
teologia da libertação, é um movimento cristão surgido por volta de 1970
na América Latina e faz um resgate da importância da prática dos
ensinamentos de Jesus: A solidariedade para com os mais vulneráveis e
para com os necessitados e uma busca por equidade entre os seres
humanos.
Há diferenças entre todos esses caminhos? Sim, mas ao invés de
priorizar diferenças, o mais importante é buscar as semelhanças que
indicam coerência entre as religiões e espiritualidades. Tais
semelhanças evitam conflitos e permitem uma união, ainda que
naturalmente essa união ocorra de maneira gradual ou lenta.