sábado, 6 de janeiro de 2024

Leitura Ecumênica do Nascimento de João (O Batista)

Ao lado da passagem dos magos citada por Mateus, este texto de Lucas indica um possível e vago elo do judaísmo e do cristianismo com uma religião típica do oriente do Levante: O masdaísmo/ zoroastrismo. A profecia de Zacarias invoca mais uma vez a liberdade de se cultuar Deus (monoteísmo) ante opositores, além de citar uma "visita do oriente" possivelmente relacionada à passagem dos magos.

Nascimento de João Batista/ Cântico de Zacarias (Lucas 1: 57-80) 

"Completando-se para Isabel o tempo de dar à luz, teve um filho. 

Os seus vizinhos e parentes ouviram que tinha Deus usado para com ela de grande misericórdia, e alegraram-se com ela. 

Aconteceu que, ao oitavo dia, vieram circuncidar o menino, e lhe chamavam Zacarias, o nome de seu pai. E, respondendo sua mãe, disse: Não, ele será chamado João. 

E disseram-lhe: Ninguém há na tua parentela que se chame por este nome. Então perguntaram por acenos ao pai como queria que lhe chamassem. 

Pedindo ele uma tabuinha de escrever, escreveu: O seu nome é João, e todos se maravilharam. E logo a boca se lhe abriu, e a língua se lhe soltou; e falava, louvando a Deus. 

E veio o temor sobre todos os seus vizinhos, e em todas as montanhas da Judéia foram divulgadas todas estas coisas. 

Todos os que as ouviam as conservavam em seus corações, dizendo: Quem será, pois, este menino? E a mão do Senhor estava com ele. 

E Zacarias, seu pai, foi cheio do Espírito Santo, e profetizou, dizendo: 

Bendito o Senhor Deus de Israel, Porque visitou e resgatou o seu povo, e nos levantou uma salvação poderosa na casa de Davi, seu servo. 

Como falou pela boca dos seus santos profetas, desde o princípio do mundo; Para nos livrar dos nossos inimigos e da mão de todos os que nos odeiam; Para manifestar misericórdia a nossos pais, e lembrar-se da sua santa aliança, E do juramento que jurou a Abraão nosso pai, de conceder-nos que, libertados da mão de nossos inimigos, o serviríamos sem temor, em santidade e justiça perante ele, todos os dias da nossa vida. E tu, ó menino, serás chamado profeta do Altíssimo, Porque hás de ir ante a face do Senhor, a preparar os seus caminhos; Para dar ao seu povo conhecimento da salvação, Na remissão dos seus pecados; Pelas entranhas da misericórdia do nosso Deus, Com que o oriente do alto nos visitou; Para iluminar aos que estão assentados em trevas e na sombra da morte; A fim de dirigir os nossos pés pelo caminho da paz. 

E o menino crescia, e se robustecia em espírito. E esteve nos desertos até ao dia em que havia de mostrar-se a Israel."

"Nascimento de São João Batista" por Artemisia Gentileschi (1593-1656)

Na época do nascimento de Jesus, os judeus/ israelitas eram praticamente o último povo a praticar alguma forma de monoteísmo. Isto por que certamente até mesmo religião masdeísta ensinada por Zoroastro por volta do ano 1000 a.C., que não "possuindo vários deuses", podia ser considerada dualista ou monoteísta, estava em baixa (mas não totalmente desaparecida). Pois o império persa, seu principal propulsor, já havia ruído há cerca de 300 anos antes de Cristo, sendo substituído pelo Império Parta. 

Curiosamente a história do monoteísmo, apesar de centrada no judaísmo, não é exclusiva dos antigos povos hebraicos/ judeus. Por estar inserida no mundo, ela toca outras culturas, sendo afetada por estas. É aceito que várias vezes os descendentes dos povos libertos por Moisés, deixaram seu monoteísmo de lado e praticaram cultos politeístas típicos de seus vizinhos cananeus e mesopotâmicos. Este abandono do monoteísmo a favor do politeísmo pode ter acontecido com ou sem pressão exercida pelas nações vizinhas e na narrativa do Velho Testamento, tais posturas foram punidas por razões certamente relacionadas àquela época antiga (6 ou mais séculos antes do nascimento de Jesus Cristo). Frequentemente cercados por nações politeístas então, um dos poucos períodos em que os judeus tiveram a liberdade de cultuar seu monoteísmo (venerar O Deus e não "deuses" das religiões de nações  vizinhas) foi sob a expansão do Império Persa, este que tinha como principal religião o masdaísmo/ zoroastrismo. Isto deve ter acontecido não só nos conformes das explicações bíblicas, mas também pelo fato histórico do imperador persa permitir a liberdade de culto e pelo fato que o zoroastrismo pregava o culto ao deus bom, Aura Mazda e não ao "deus" mau, seu opositor. Sendo assim, os persas, quando expandiram seus territórios rumo ao ocidente encontraram a religião mais similar a de seu povo com os judeus: O masdaísmo/ zoroastrismo tinha mais pontos em comum com o judaísmo do que com as religiões politeístas de sua época.  

Além disto, Deus descrito por Zacarias, veio manifestar a misericórdia e tem o objetivo de guiar seus seguidores e seus fiéis, pela paz, sem temor. Deus não inspira temor, pois é misericordioso e pacífico - quem espalha pânico e quem faz guerra em nome de Deus, gera todo tipo de violência e temor, portanto é farsante.

Assim, faz sentido que o profeta (do cristianismo, a religião monoteísta que aperfeiçoa o judaísmo) João Batista nascesse na província da Judéia, ainda que dominada pelo Império Romano. Ele ficou incumbido de preparar o povo para receber as mensagens de Jesus, já que o judaísmo estava predominantemente tomado por seitas decadentes apegadas ao materialismo e ao formalismo. 

Conforme foi crescendo, João se afastou da sociedade judaica que estava liderada por corruptos e falsos profetas, preferindo viver no deserto. Isto pode ter sido uma forma de protesto numa visão típica da teologia da libertação ou uma forma de manter-se em isolamento, buscando viver em humildade e pureza nos conformes de uma interpretação hinduísta. De ambas as maneiras, João se afastaria das áreas urbanas dominadas pelos grupos interesseiros de sua região e época.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Leitura Ecumênica de "Maria visita Isabel"

Neste texto, Lucas trata das mulheres da história do cristianismo mais uma vez.

Maria visita Isabel / Cântico de Maria (Lucas 1: 39-56) 

"Naqueles dias, Maria se levantou, foi apressada às montanhas, a uma cidade de Judá, E entrou em casa de Zacarias, saudando a Isabel. 

Aconteceu que, ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criancinha saltou no seu ventre; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou com grande voz, e disse: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre. 

E de onde me provém isto a mim, que venha visitar-me a mãe do meu Senhor? 

Pois eis que, ao chegar aos meus ouvidos a voz da tua saudação, a criancinha saltou de alegria no meu ventre.Bem-aventurada a que creu, pois hão de cumprir-se as coisas que da parte do Senhor lhe foram ditas. 

Disse então Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador; Porque atentou na sua pobre serva (ou “pequenez de sua serva”); Pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque me fez grandes coisas o Poderoso e santo é seu nome. 

E a sua misericórdia é de geração em geração sobre os que o temem. Com o seu braço agiu valorosamente; Dissipou os soberbos em seus corações. Depôs dos tronos os poderosos e elevou os humildes. Encheu (ou saciou) de bens os famintos, E despediu de mãos vazias os ricos. Auxiliou a Israel seu servo, recordando-se da sua misericórdia; Como falou a nossos pais, Para com Abraão e a sua posteridade, para sempre. 

E Maria ficou com ela quase três meses, e depois voltou para sua casa."

 Visitazione - Pintura pré renascentista de Giotto e bottega

Ao entrar na casa de Zacarias, Maria saudou sua esposa, Isabel, e não o homem. Interessante notar que, entre os cristãos, entende-se que Maria fez isto porque Zacarias não acreditou em Deus, mas na verdade, também é possível notar que para Deus, não há diferença entre homens e mulheres, como se pensava na antiga sociedade machista da época de Maria. Esta equidade entre os sexos ("gêneros") também aparece na obra de Platão. Em sua obra "Politeia" (conhecida como A República), o filósofo defende que a mulher tem tantas capacidades quanto o homem para realizar qualquer tarefa, e que não era certo escolher apenas homens para determinadas (várias) funções na sociedade. No diálogo "O Banquete", o autor mostra que Sócrates recebeu seus ensinamentos sobre o amor de uma mestra (apresentada com o nome de Diótima na obra).

Maria que carregava Jesus ainda em seu ventre, causa reações espantosas no bebê de Isabel. Esta cena milagrosa da tradição cristã parece mostrar o poder e a relação do espírito de Cristo com aqueles à sua volta. Certamente a oração Ave Maria deve ter uma origem ou relação com a exaltação feita por Isabel ao perceber que seu bêbe estava feliz com a aproximação de Maria e Jesus. Aqui, discutir a veracidade ou falsidade de cenas "milagrosas" seria mais uma futilidade, pois trata-se de um texto religioso e é mais producente debater a finalidade e serventia da passagem escrita por Lucas. 

Em sua oração, Maria cita como Deus é justo e misericordioso, pois justiça não é meramente punir: é trazer equidade, retirando os ambiciosos de suas posições e situações de vício (por poder econômico, político, militar etc), é dar oportunidade aos humildes e condições dignas aos necessitados.

Por fim, a oração de Maria ressalta a importância da humildade, não só em sua postura, mas também ao mostrar para que Deus se manifesta na Terra: Deus, em sua humilde bondade infinita, ama a todos e sua lei beneficia os mais humildes, pois naturalmente (e espiritualmente) este é o estado mais puro da existência. A humildade não se trata de perfeição, mas de uma postura para iniciar o bem (e as respectivas manifestações do bem, como paciência, perdão etc).

sábado, 23 de dezembro de 2023

Leitura Ecumênica de "Anunciações"

 Este é um dos poucos textos dos 4 evangelhos que traz Maria, mãe de Jesus, como tema central.

Anunciações (Lucas 1: 1-38) 

"Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, Segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, Pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio; Para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado.

Existiu, no tempo de Herodes, rei da Judéia, um sacerdote chamado Zacarias, da ordem de Abias, e cuja mulher era das filhas de Arão; e o seu nome era Isabel.

Eram ambos justos perante Deus, andando sem repreensão em todos os mandamentos e preceitos do Senhor. E não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e ambos eram avançados em idade.

Aconteceu que, exercendo ele o sacerdócio diante de Deus, na ordem da sua turma, Segundo o costume sacerdotal, coube-lhe em sorte entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso. Toda a multidão do povo estava fora, orando, à hora do incenso e um anjo do Senhor lhe apareceu, posto em pé, à direita do altar do incenso.

Zacarias, vendo-o, turbou-se, e caiu temor sobre ele. Mas o anjo lhe disse: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida e Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, ao qual lhe porás o nome de João. Terás prazer e alegria e muitos se alegrarão no seu nascimento, porque será grande diante do Senhor, e não beberá vinho, nem bebida forte, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre de sua mãe.

Converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus, e irá adiante dele no espírito e virtude de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos, com o fim de preparar ao Senhor um povo bem disposto.

Disse então Zacarias ao anjo: Como saberei isto? pois eu já sou velho, e minha mulher avançada em idade. 

Respondendo o anjo, disse-lhe: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado a falar-te e dar-te estas alegres novas. E eis que ficarás mudo, e não poderás falar até ao dia em que estas coisas aconteçam; porquanto não creste nas minhas palavras, que a seu tempo se hão de cumprir.

O povo estava esperando a Zacarias, e maravilhava-se de que tanto se demorasse no templo.

Saindo ele, não lhes podia falar e entenderam que tinha tido uma visão no templo. Ficou mudo e falava por acenos. E sucedeu que, terminados os dias de seu ministério, voltou para sua casa.

E, depois daqueles dias, Isabel, sua mulher, concebeu, e por cinco meses se ocultou, dizendo: Assim me fez o Senhor, nos dias em que atentou em mim, para destruir o meu opróbrio (desonra, afronta) entre os homens.

E, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, A uma virgem desposada com um homem, cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria.

Entrando o anjo aonde ela estava, disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres. E, vendo-o, Maria turbou-se muito com aquelas palavras, e considerava que saudação seria esta. 

Disse-lhe, então, o anjo: Maria, não temas, porque achaste graça diante de Deus. E eis que em teu ventre conceberás e darás à luz um filho, e pôr-lhe-ás o nome de Jesus. Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; E reinará eternamente na casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.

Então disse Maria ao anjo: Como se fará isto, visto que não conheço homem algum? Respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus. E eis que também Isabel, tua prima, concebeu um filho em sua velhice; e é este o sexto mês para aquela que era chamada estéril; Porque para Deus nada é impossível.

Disse então Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela."

L' Annonciation de Philippe de Champaigne (1602-1674)

São notáveis nos textos de Lucas, as citações envolvendo as mulheres na época de Cristo - assunto que era tabu até então, pois tanto a cultura judaica como a romana eram patriarcais e, portanto, machistas. Considerando os costumes da época, certamente alguns cristãos temiam sofrer represálias caso citassem as proezas de mulheres como Maria e Madalena, enquanto outros possivelmente diminuíam as histórias das mulheres cristãs, classificando-as como inferiores aos homens.

Nesta passagem citada por Lucas, nota-se como Deus ama a humanidade e como os humildes aceitam seus desígnios, pois enquanto Zacarias questionou ceticamente a incomum mensagem do anjo, Maria estranhou mas aceitou. Esta humildade de Maria certamente está interligada à receptividade e/ ou à serenidade, uma disposição interior necessária para se acolher. Também está vinculada à pureza, no sentido de não sentir desejos particulares, aceitando o novo e respeitando o divino, O Criador. Quando se é humilde é mais natural apreciar o que é mais sutil e sublime, portanto o que é mais puro e belo. Nota-se a beleza da criação e sua grandiosidade, assim busca-se a conexão com o todo, mantendo-se humilde, ou, como Jesus diz: pequenino.

Não é mera coincidência que o filósofo grego, Sócrates, em sua busca pelo que é belo e verdadeiro, O Bem (“kalos”), manteve sua presunção da ignorância, ressaltada pela sua famosa fala “Só sei que nada sei”. Humildade e receptividade são o que nos aproxima da pureza e são pré-requisitos para aquisição de todos saberes - religioso, filosófico ou científico. 

No livro "Fédon'', Sócrates conta como se interessou sobre Nous, a mente cósmica que, de acordo com Anaxágoras e outros filósofos naturalistas, gerou/ organizou todos elementos (astros etc) no cosmo/ na natureza. Porém Sócrates considerou insuficiente a visão de Anaxágoras, pois os naturalistas não buscavam se aproximar deste Criador e organizador do universo. Certamente Sócrates percebeu que existe algo a mais do que inteligência e organização por trás da criação: Há beleza e portanto sentimentos bons, como o amor. 

Na história da Kriya Yoga, fica nítida a importância e o valor da humildade, por exemplo, quando Paramahansa Yogananda, em sua autobiografia, cita passagens da relação com seu mestre Sri Yukteswar Giri. Yukteswar que começou a divulgar o ecumenismo entre "hinduísmo" e cristianismo era conhecido por sua severidade como mestre espiritual. Apesar disto sua relação afetiva com seus alunos era nítida e suas falas muitas vezes apresentava características de humildade e pureza que soam até mesmo estranhas para a cultura ocidental. Mesmo severo, ele se portava exatamente como os ensinamentos de Cristo nos orientam: valorizava e demonstrava piedade e amor incondicional.

sábado, 16 de dezembro de 2023

Leitura Ecumênica... da "genealogia" de Jesus

 Aqui trato dos textos que citam uma linhagem para Jesus de Nazaré. 

Diferentemente da Bíblia que separa os evangelhos por autores, nestas leituras ecumênicas tentarei juntá-los em uma suposta ordem cronológica, para depois comentar sob o olhar de diferentes pontos de vista: 

Prólogo/ Genealogia (Mateus 1: 1-18, Lucas 3: 23-38) 

Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão gerou a Isaque; e Isaque gerou a Jacó; e Jacó gerou a Judá e a seus irmãos; Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão; Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom; e Naassom gerou a Salmom; Salmom gerou, de Raabe, a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé; Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão da que foi mulher de Urias. Salomão gerou a Roboão; e Roboão gerou a Abias; e Abias gerou a Asa; Asa gerou a Josafá; e Josafá gerou a Jorão; e Jorão gerou a Uzias; Uzias gerou a Jotão; e Jotão gerou a Acaz; e Acaz gerou a Ezequias; Ezequias gerou a Manassés; e Manassés gerou a Amom; e Amom gerou a Josias; Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos na deportação para babilônia. E, depois da deportação para a babilônia, Jeconias gerou a Salatiel; e Salatiel gerou a Zorobabel; Zorobabel gerou a Abiúde; e Abiúde gerou a Eliaquim; e Eliaquim gerou a Azor; Azor gerou a Sadoque; e Sadoque gerou a Aquim; e Aquim gerou a Eliúde; Eliúde gerou a Eleazar; e Eleazar gerou a Matã; e Matã gerou a Jacó; E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo. De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze gerações; e desde Davi até a deportação para a babilônia, catorze gerações; e desde a deportação para a babilônia até Cristo, catorze gerações. 

 Este é o texto de Mateus que tem algumas diferenças em relação ao de Lucas (não mencionado aqui por razões que explicarei adiante), mas ambos tentam traçar a linhagem de Jesus de Nazaré - talvez porque isto fosse uma preocupação da época. 

A relevância destas tentativas é mínima diante dos ensinamentos de Cristo que priorizam o amor: O amor se manifesta através de virtudes/ posturas como humildade, receptividade, zelo, paciência, devoção, força de vontade e piedade… Pouco tem a ver com buscar uma linhagem de sangue para Jesus Cristo. 

Buscar tal linhagem pode fomentar uma mentalidade nacionalista e/ ou materialista, que prioriza a matéria, a tradição de uma determinada cultura e os laços “sanguíneos” ao invés de priorizar os bons sentimentos, pensamentos e atitudes. Possivelmente o lado bom em se traçar a genealogia de Jesus de Nazaré, seja mostrar que Deus sempre deu preferência a um povo humilde ao longo da história da Terra, e não à classe dominante de gente gananciosa e belicosa de impérios, como o Egito, a Assíria, a Acádia, a Babilônia e a confederação Fenícia que existiam ao redor dos povos hebreus/ judaicos. 

Porém vale lembrar que Deus, como criador do universo, transcende o espaço e o tempo. É prepotente e contraditório (portanto ilógico) querer prender a natureza de Deus apenas à Terra. É absurdo afirmar que Deus depende de uma linhagem de uma espécie em um pequenino planeta na vastidão do infinito. Tal argumento pode dar margem para doutrinas eugenistas e racistas, pois incita religiosos a invocarem uma linhagem divina particular entre os seres humanos. Incita os religiosos a afirmarem que Deus é exclusivo de determinada religião e que o resto (outras religiões, espiritualidades etc) é profano, do demônio etc.

Deus é um, Uno, supremo, onipresente e ama toda a sua criação e portanto ama toda espécie humana, todas suas culturas e nações. Deus ama todo o planeta Terra e muito mais - seu amor perpassa o espaço e o tempo. 

O evangelho de Felipe aponta que Deus não dependeu de linhagem alguma para encarnar como Jesus de Nazaré na Terra e o espiritismo indica que existem espíritos próximos de Jesus fora da cultura judaico-cristã, sendo alguns deles Sócrates e Platão, por exemplo. 

Na Kriya Yoga entende-se a importância da união entre os povos, entre toda a humanidade e mostra-se os vínculos entre as religiões e espiritualidades orientais e ocidentais. Alguns gurus / swamis / yogis da Índia também fazem orações a Jesus Cristo, além de respeitar e admirar as pessoas devotas que vivem de acordo com os ensinamentos de Jesus. Muitos "hindus" até mesmo aceitam a “santificação” comum entre católicos (o termo sri é traduzido como santo). Assim como o espiritismo e a filosofia de Platão, os praticantes da Kriya afirmam que Deus é um só, e que originalmente todas religiões deveriam levar os seres humanos à Deus. Deus este que criou toda a vida, todos seres humanos, sejam umbandistas, hindus, taoístas, budistas, islâmicos, judeus, cristãos, celtas, gregos, romanos, tupis, guaranis, astecas, esquimós, japoneses, árabes, portugueses, finlandeses, quenianos etc. Deus não prefere uma ou outra cultura, nem uma ou outra religião. É quem segue a lei divina de amor que une-se com Deus, independentemente de onde nasceu.


sábado, 9 de dezembro de 2023

Leitura ecumênica de "O Verbo" (João)

Deste post em diante devo trazer visões ecumênicas (dentro dos limites das religiões e filosofias que conheço) sobre os evangelhos de João, Lucas, Marcos e Mateus. Talvez eu também traga um pouco dos textos atribuídos a Tomé e Felipe nos próximos meses.

O Verbo (João 1: 1-18) 

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. 

Ele estava no princípio com Deus. 

Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. 

Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. 

E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. 

Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João (o Batista). 

Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. 

Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. 

Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. 

Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. 

 Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. 

Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; 

Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. 

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. 

João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. 

E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça. 

Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. 

Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou."

Certamente, desde o século 1 até este início de século 21, textos como este são considerados místicos, ou com forte teor místico. Isto porque falar sobre a criação do universo (a origem de tudo) ou sobre o Criador é falar do transcendente, ou seja, é falar do que vai além do que a maioria das pessoas neste início do século 21 ainda entendem por tempo e espaço. O tema toca a questão da Trindade e outros assuntos, todos misteriosos e difíceis de decifrar, justamente pelo fato de tratar do que está além da vida corpórea / sensorial, ou seja, o transcendente. 

A Kriya Yoga relaciona este trecho de João com Apocalipse 3:14: “Estas coisas diz o Amém, a testemunha verdadeira, o princípio da criação de Deus”. O “Om” dos Vedas veio a ser a palavra sagrada Hum dos tibetanos, Amin dos muçulmanos e Amém dos egípcios, gregos, romanos, judeus e cristãos. Em hebraico, seu significado é seguro, fiel. 

João trata da origem de Cristo como espírito, não apenas do Jesus encarnado em Nazaré. Assim, entende-se que Cristo é o espírito mais elevado e uno com Deus, pois estava (existe) desde o momento da criação do mundo (Terra) e possivelmente desde a criação do universo também. 

Existem diferentes visões sobre Jesus: desde as religiões tradicionais que explicam que ele é Deus até leituras meramente históricas que o tratam como um ser humano normal. Independentemente de propagar certezas, é bom evitar extremos, pois são visões mais reducionistas que tendem a dar abertura a conflitos e discórdia. Além disto, as diferentes religiões e espiritualidades podem conjecturar diferentes níveis de seres entre a Terra e Deus, sejam eles espíritos, anjos, devas ou daemons.

Porém teorizar uma hierarquia espiritual que o ser humano em sua vida corpórea dificilmente teria acesso, pode ser feito entre pessoas da mesma crença sem grandes problemas, mas, sendo um dos temas que não trata diretamente dos ensinamentos de Cristo, ele pode facilmente gerar discórdia entre pessoas de diferentes religiões e culturas. Buscando pontos convergentes, ou seja, em comum, com outras religiões, é interessante notar que o apóstolo João cita o termo o Verbo: Isto traz uma vaga semelhança aos textos da gênese da religião do profeta Mani (maniqueísmo), onde o chamado de Deus torna-se uma deidade. Mani propunha uma religião judaico-cristã e sincrética (com o zoroastrismo e o budismo) durante o conturbado ressurgimento do Império Persa (sob a dinastia Sassânida) na Ásia, aproximadamente onde hoje estão o Irã e o Iraque. Entre seus textos ficaram conhecidas as explicações sobre a gênese, anjos caídos e Adão. João também diz que a luz resplandeceu nas trevas, mas esta última não compreendeu e Mani diz que a luz de Deus foi recuperada das trevas que a engolia ou a cercava. Por fim, João admite a Trindade (Pai, filho e Espírito Santo) enquanto Mani cita o Deus Criador, a Mãe da Vida (Espírito Vivo) e o Homem Original. 

Apesar das vagas semelhanças entre diferentes espiritualidades e religiões, não é muito produtivo discutir mais detalhes sobre a trindade, origem e/ ou forma de Deus, de seus anjos e/ ou espíritos, uma vez que os seres humanos, ao invés de olharem para as semelhanças, tendem a olhar para as diferenças e defender suas próprias opiniões, deixando de lado a piedade e alegando inexistências, impondo restrições e atacando uns aos outros devido às interpretações divergentes etc.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Uma União... Seja Antiga ou Nova.

Um breve resumo da longa história do ecumenismo e do sincretismo religioso 

Quando estudei variadas mitologias entre os anos de 2015 e 2018, eu percebi vários elementos semelhantes entre algumas delas. Estas semelhanças variam entre quantidade e qualidade. Por exemplo, o mito grego do nascimento de Zeus e como seu pai, Cronos, tentou destruir ele e seus irmãos, é quase idêntico ao mito hitita/ hurrita (antigos reinos da Anatólia) de Tarhunt e seu pai Enlil. O mito de Enlil e seu pai Anu, deus dos céus, por sua vez, aparece nos antigos reinos da Mesopotâmia e é similar com o de Cronos e Urano, deus dos céus (Ouranos, o Caelus em Roma), contado pelos poetas gregos. Ao debruçar-me sobre as semelhanças inter religiosas do antigo politeísmo afro-eurasiático, fui descobrindo personagens e histórias semelhantes entre variadas culturas até que achei alguns vagos traços de semelhança entre judaísmo e antiga religião egípcia. 

Se ignorarmos a “visão” de Brahman como O Deus único e supremo no hinduísmo (há interpretações politeístas), o judaísmo possivelmente é a 1ª religião monoteísta da Terra, porém ao surgir entre pequenas tribos cercadas por impérios da antiguidade, a data de seu início é controversa. Numa visão religiosa hebraica/ judaica, ela certamente se inicia com Adão ou com seus filhos por volta dos anos 4000 aC ou 3900 aC. Porém numa visão mais cética baseada em evidências materiais é possível datá-la por volta de 1350 aC, aproximadamente durante o governo do faraó Akhenaton (reinado de 1353 aC a 1334 aC) no Egito. Interpretações mais reducionistas existem, mas não trato delas aqui. 

As curiosidades “inter religiosas” ou “sincréticas” me levaram a alguns caminhos: O caminho dos hermeneutas indicava que havia uma espiritualidade mediterrânea (egípcia, cananéia, judaica, mesopotâmica, hitita/ hurrita, greco-romana) que continha elementos em comum. Isto é abordado por Evêmero (~330 aC - 250 aC) e Eusébio de Cesaréia (265 - 339) - este último teria seguido a “linhagem” de estudos de Filo de Biblos e Sanconíaton. Porém estas linhas de estudo priorizam supostos rastros materiais possivelmente perdidos nos dias de hoje, e, ao traçar tal percurso, trata mais dos personagens como reis divinizados. O caminho do hermetismo (~100 - 300), ou do sincretismo religioso, vai indicar a mistura das práticas místicas e religiosas em si e mostra um elo entre judaísmo, helenismo (religiões gregas), zoroastrismo e politeísmo egípcio. Este último caminho possivelmente se ramifica através de trocas culturais e uma destas ramificações desemboca no pitagorismo. O pitagorismo em si parece ter sido centrado na misteriosa religião órfica da Grécia antiga, porém diferentemente da religião politeísta popular grega, este movimento filosófico religioso apresentava características de religiões de outras culturas (egípcia, mesopotâmica e talvez outras como a hindu, celta, iraniana etc) e aspectos mais racionais ao se aproximar da filosofia (precursora da ciência). Portanto, o pitagorismo se afastava da ritualística, dos frenesis e transes. É justamente por esta aproximação da racionalidade e do autocontrole/ consciência de si, que Platão aceita alguns elementos do pitagorismo. 

Com Platão e seu mestre, Sócrates, a questão ética, ou a questão do bem, finalmente é trazida para o centro da religiosidade e não só isso: para o centro da recém surgida filosofia ocidental. Obviamente divulgar a importância do bem, da razão, da justiça e do amor não é algo fácil: Mesmo com o espalhamento da cultura grega pelo mundo através do Império greco-macedônico de Alexandre, o Grande, as gerações de filósofos depois de Platão “fizeram reinterpretações, adaptações e ramificações” na filosofia. Apesar de revolucionar o modo ocidental de pensar, a Academia de Platão durou somente de 384 aC a 86 aC, pois foi destruída pelos exércitos romanos liderados por Susa. Este e outros fatos indicam que a filosofia fundada por Platão sofreu tentativas de silenciamento e perseguições. No século 1, durante o período “pacífico” do Império Romano (a Pax Romana) os acadêmicos (da academia de Platão) já não existiam mais e os filósofos céticos já haviam desvirtuado em algum nível a filosofia de Sócrates e Platão. Neste período surge o “médio platonismo” com filósofos tentando restaurar a originalidade da filosofia ocidental organizada por Platão, mas sem negar totalmente um sincretismo com outras filosofias. O termo platonismo me parece mais adequado para designar os “estudiosos” ou “seguidores” de Platão a partir deste momento da história. Neste período da história também aumentam a quantidade de sincretismos tanto filosóficos como religiosos e surge o cristianismo. 

O cristianismo é um conjunto de ensinamentos monoteísta, surgido no século 1, que mostra a importância verdadeira do amor. Não existiam igrejas cristãs quando Jesus de Nazaré, o Cristo, andou pela região do Levante propagando seus ensinamentos centrados no amor piedoso. Jesus não proibiu templos, mas nunca construiu um e nem ordenou a construção de templos, embora haja uma interpretação de que ele tenha dito algo deste tipo à Pedro. Jesus ensinou dentro de alguns templos judeus (sinagogas), mas não ensinou o judaísmo em si, pois ao trazer a ênfase no amor a tudo, não admitiu absurdos como a vingança aceita entre judeus. Além disso, Jesus passou a maior parte do tempo caminhando e auxiliando os mais necessitados e rejeitados. Não há algo errado especificamente em assistir cultos ou missas, mas a prática cristã vai muito além dos templos e igrejas: Ela é um modo de pensar, expressar e agir no mundo. Um modo centrado no amor piedoso, pois o monoteísmo ensinado por Jesus Cristo não é sinônimo de “povo escolhido”, muito menos sinônimo de separatividade. É união entre todos filhos de Deus, ou seja, entre toda a humanidade, entre toda a vida, por mais difícil que isso pareça. Isso por si só já deveria mostrar de maneira óbvia que os ensinamentos cristãos não foram difundidos para se formar grupos fechados: Os cristãos devem se pautar por semelhanças e por igualdade entre as religiões, as espiritualidades e as filosofias, pois as diferenças só deveriam ser causa de afastamento quando entrassem em contradição clara contra os ensinamentos de Jesus, ou seja, contra o amor, a piedade, a solidariedade e a humildade. Os ensinamentos de Cristo têm esse claro viés ecumênico: Jesus busca harmonia mesmo com aqueles que têm cultura e modos diferentes dos seus. O cristianismo e o ecumenismo exigem amor e equidade. 

Uma busca pela visão ecumênica do cristianismo

O amor então é o centro dos ensinamentos de Jesus Cristo, sendo a dádiva e a virtude mais preciosa que Deus deu aos seres humanos. 

Por volta dos séculos 1 e 2, após a morte de Jesus, são feitos os escritos essenciais do cristianismo e começam a surgir algumas divergências no que se refere a diversos detalhes da doutrina, assim começa a se formar o que entende-se por religiões (cristãs, neste caso). Estas divergências certamente ocorreram pela influência de outras doutrinas religiosas, outras filosofias e outras culturas espiritualistas, conforme pessoas de diferentes regiões se interessavam pelo cristianismo e entendiam verdades em seus ensinamentos. Porém neste período o cristianismo era pouco ou nada aceito entre pessoas em posição de poder social e/ ou econômico. 

O cristianismo só começou a ser institucionalizado na forma de igrejas de maneira significativa no século 4, ou seja, cerca de 3 séculos após a morte de Jesus, quando os imperadores romanos começaram a mostrar determinados interesses na doutrina, obscurecendo a importância do tema central cristão: O amor. 

 O evangelho contado pelos apóstolos Mateus, Marcos, Lucas e João é considerado o centro dos ensinamentos de Jesus Cristo, conforme as religiões cristãs, e diversas foram suas interpretações ao longo da história. 

Os evangelhos de Tomé e de Filipe têm alguns temas mais místicos, outros mais reveladores e alguns mais controversos, em relação ao evangelho aceito dos 4 apóstolos nas religiões. Embora o de Tomé tenha várias semelhanças com os evangelhos de Lucas, Marcos e Mateus, o texto atribuído a Filipe é notoriamente de uma época posterior aos apóstolos que viveram com Jesus. 

As explicações que darei nos próximos textos sobre o cristianismo e o ecumenismo levam em consideração a atenção especial que Jesus deu à vida na Terra. Esta atenção foi voltada principalmente aos mais necessitados, que mal tinham o básico para viver: cegos, surdos, leprosos, desabrigados, famintos, crianças, mulheres, prostitutas e outras pessoas vulneráveis. Estas pessoas eram muitas, pois o sistema social e econômico, não muito diferente dos dias atuais, era cheio de injustiças e iniquidade durante a época do Império Romano em que Jesus andou pela Terra. Este sistema injusto, inútil para a maioria das pessoas que eram pobres, está ligado às críticas que Jesus faz aos ricos, aos líderes religiosos e ao dinheiro. 

Além disto, um tema tão importante quanto este é a vida espiritual tratada por Jesus: Jesus menciona em diversas passagens a importância de se fazer o bem, não apenas para propagar o amor e a equidade na Terra, mas também para que as pessoas (suas almas, ou espíritos) pudessem alcançar o reino dos céus, ou, uma das moradas de Cristo. A prática e a teoria do cristianismo tem coerência entre si: Não faz sentido alegar ser cristão e não pôr em prática o amor piedoso. Este amor pede atitude solidária com as pessoas. Além disto, não adianta realizar ajuda material a alguns indivíduos ou grupos e pensar de modo egoísta ou planejar atos nocivos contra outros. 

Eu abordarei passagens da bíblia, particularmente os ensinamentos de Jesus Cristo, seguidos por observações que podem ter influência de diversas “espiritualidades”, sejam elas filosofias ou teologias. Alguns exemplos são: O platonismo, o espiritismo de Allan Kardec, a Kriya Yoga e a teologia da libertação. 

O “platonismo” é a raiz e o cerne da filosofia de todo ocidente (basicamente Europa e América após a colonização). Surgida na Grécia clássica (do século 4 antes de Cristo) a filosofia desenvolvida por Platão é baseada nos ensinamentos e diálogos de Sócrates, mas com influência de alguns filósofos anteriores, como Anaxágoras, Parmênides e Pitágoras. Como mencionei anteriormente, a filosofia platônica incita a busca pela sabedoria e pela verdade, que naturalmente deve levar ao que é bom, belo e justo. 

O espiritismo baseia-se nos textos do pedagogo e tradutor francês, Hippolyte Léon Denizard (Allan Kardec), que buscou aproximar o cristianismo à ciência, passando inevitavelmente por questões filosóficas. Ao trazer o tema da reencarnação, o espiritismo, surgido no século 19, explica muitos conceitos espirituais, também se aproximando de várias religiões, muitas delas já extintas: A religião órfica grega, o druidismo dos celtas, vertentes do hinduísmo etc. Apesar da centralidade no cristianismo, Kardec diz que o espiritismo aceita pessoas de todos os credos, ou seja, de todas as religiões, provando ser um movimento filosófico espiritualista ecumênico. 

É importante lembrar que na época em que o espiritismo foi fundado, os evangelhos de Tomé e de Filipe estavam ocultos (nas cavernas de Nag Hammadi - Egito) há séculos. Estes 2 evangelhos só vieram a público após o ano de 1945. 

A Kriya Yoga é um dos vários tipos de yoga do Sanatana Dharma (hinduísmo) que mantém o universalismo desta espiritualidade. Kri-ya significa ação divina, ou agir com Deus e Yoga é principalmente traduzido como união ou disciplina - assim, uma possível tradução é união com Deus pela ação. Esta ação se dá por técnicas psicofisiológicas, como o controle da respiração e a meditação (perceber as próprias atividades mentais e o aquietamento da mente). Tais técnicas geralmente levam-se anos para serem dominadas e são importantes para o “kriya yogi” adquirir controle de sua mente sensorial e seu intelecto, banindo o desejo, a ira e o medo, para então atingir a consciência de Deus. Ainda que possa parecer indiferente ao meio, o método da Kriya Yoga propõe libertar a alma da prisão do ego ao “respirar o ar profundo” da onipresença. 

O guru Babaji, no século 19, restaurou e propagou esta yoga que une as práticas de outros 4 tipos de yoga. Seu discípulo Lahiri Mahasaya difunde a Kriya na Índia estimulando o viver com simplicidade, o pensar com elevação e a fraternidade universal, enquanto os seus sucessores Yukteswar, Yogananda e Hariharananda, revelam a unidade básica entre os ensinamentos de Jesus Cristo e os de Bhagavan Krishna, preconizando a compreensão cultural e espiritual entre ocidente e oriente. 

Por fim, a teologia da libertação, é um movimento cristão surgido por volta de 1970 na América Latina e faz um resgate da importância da prática dos ensinamentos de Jesus: A solidariedade para com os mais vulneráveis e para com os necessitados e uma busca por equidade entre os seres humanos. 

Há diferenças entre todos esses caminhos? Sim, mas ao invés de priorizar diferenças, o mais importante é buscar as semelhanças que indicam coerência entre as religiões e espiritualidades. Tais semelhanças evitam conflitos e permitem uma união, ainda que naturalmente essa união ocorra de maneira gradual ou lenta.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Sobre a Institucionalização do Cristianismo

 Breve reflexão sobre instituição e institucionalização 

A palavra instituto vem do latim "Institutius" que significa definir, estabelecer, de In + statuere (em + fazer ficar em pé). Adquiriu sentido geral de fundar, introduzir a partir do século 15. O significado de organização, social, surgiu no século 19. 

O termo institucionalização também passou a ser empregado com significado negativo, de sistemas criados com fins e razões benéficas, que por qualquer motivo (por interesses particulares, ou tentativa de controle social) tornaram-se inflexíveis, causando prejuízos aos seres humanos. 

Nota-se que em seu significado original, esta palavra se assemelha à palavra estrutura, com a diferença que esta última se refere a juntar ou combinar as partes para construir algo. Estrutura então exprime arranjo, junção e disposição - modo de edificar, enquanto instituição é uma edificação estabelecida de um estado ou de uma comunidade. 

Edificar, vem da palavra edifício (do latim, aedes), que designava uma mansão do Império Romano. Estas mansões não eram como conhecemos hoje: Elas tinham até 5 andares e abrigavam várias pessoas das baixas classes sociais, servindo de moradias e também de espaço para atividades.

A diferença entre instituição e constituição então é expressa pelo prefixo: In significa "em" e con significa "juntos, em simultâneo, companhia". 

Toda esta explicação deveria nos orientar. Embora as palavras tenham seus significados mais ou menos alterados com o passar do tempo, as suas origens deveriam ser regularmente verificadas para trazer entendimento de suas utilizações. 

No caso das religiões eu vi mais um emprego negativo da palavra institucionalização: Geralmente se refere como as igrejas (cristãs, por exemplo), ao admitirem hierarquias e priorizarem dogmas, deixaram de lado os ensinamentos de Jesus Cristo, transformando-se em ferramentas de poder ao longo da história. Trago um possível exemplo deste processo à seguir.

Como alguns dogmas invadiram o cristianismo e se mantiveram nas igrejas 

No ano 553, foi reunido o 2º Concílio de Constantinopla pelo imperador romano (bizantino) Justiniano I, que se interessava em acabar com as dissensões na igreja cristã (já chamada de católica na época). Neste concílio foram proibidas e consideradas hereges as seguintes doutrinas: 

Do nestorianismo, marcada pela afirmação de que Maria é mãe de Jesus e não de Deus, pois a natureza divina de Jesus é separada da natureza humana; 

A doutrina de Orígenes que aceitava a transmigração das almas (a reencarnação das almas, possivelmente baseada em Platão) e a possibilidade da Apocatástase onde todas as almas seriam salvas e unidas a Deus; 

E a doutrina monofisista que afirmava que Jesus tinha só uma natureza divina mesmo encarnado. 

Como resultado do concílio afirmava-se que Jesus era simultaneamente humano e Deus, filho de Maria e que as almas de pecadores seriam condenadas eternamente, jamais encontrando Deus. 

Com um breve estudo sobre tal evento não é difícil entender as intenções e resultados de tal concílio. Note que os assuntos todos têm como tema central a espiritualidade: De onde vem e para onde vão as almas, natureza divina de cristo etc. São temas impossíveis de se tornarem dogmas sem desprezar o ensinamento central de Jesus Cristo: O amor (ao próximo, a si e a Deus). Um amor obviamente piedoso acima de tudo, do qual não vou detalhar aqui - basta ler as passagens de Jesus na bíblia. 

Voltemos a resolução do concílio "ecumênico" (!?): Proibições e queimas de escritos/ livros de teorias sobre a alma e a divindade. O que há de ecumênico nisto? 

Nada. 

O que há de cristão no resultado desse concílio? 

Nada. 

Nada disto está nos ensinamentos de Jesus Cristo: Para Jesus, o que importa é viver a lei divina, que é de amor - Amor este sereno e que dá esperança para a humanidade! 

O resultado deste (e de tantos outros concílios da igreja) é meramente um passo para deformar os ensinamentos de Cristo, impondo regras proibitivas, que tentam formar a imagem de um Cristo autoridade, pois o concílio praticamente diz: Jesus nasceu humano mas era Deus e filho de Maria ao mesmo tempo. Para que isto? Jesus mandou seus apóstolos chamarem Maria de mãe de Deus? Certamente não. Jesus fez pregações alegando que almas não reencarnam? Certamente não. Na verdade ele insinua sutilmente o contrário ao falar que João é o Elias que muitos aguardavam, e, ao falar à Nicodemos que é preciso nascer de novo. 

Enfim, este é um tema simples: A religião não existe sem uma história, então os cristãos que frequentam uma igreja (seja católica, evangélica etc) tem basicamente duas opções para não serem enganados: 

A 1ª opção é simples: Colocar os ensinamentos de Jesus Cristo (os evangelhos dos 4 apóstolos: João, Marcos, Mateus e Lucas) acima de todas os argumentos não mencionados por Cristo evitando aqueles que contrariem seu amor piedoso, e assim, também acima das outras passagens da bíblia, pois nenhum outro profeta da bíblia tem ensinamentos mais importante do que os de Cristo - Todos eles são menos importantes e devem ser somente complementares ou até mesmo desconsiderados caso contradigam qualquer um dos ensinamentos de Cristo. Isto é óbvio: o que vale mais? Os vários personagens da bíblia que cometeram erros (matar religiosos divergentes, acumular riquezas, participar de guerras) ou Jesus Cristo que ajudou os necessitados durante toda a sua passagem na Terra e ainda morreu torturado e crucificado? 

A 2ª opção vai exigir que o cristão dedique um tempo para estudar a história do cristianismo, mas não só uma época ou um evento: De preferência o máximo possível, desde as pregações de Jesus (da bíblia mesmo, é claro), passando pelo cristianismo primitivo dos séculos 1 ao 4, pelos concílios dos séculos 5 ao 10, pelo cisma da igreja/ a divisão em igreja apostólica romana e ortodoxa, a fundação das universidades católicas e o surgimento de ordens dissidentes até a renascença! É muita coisa? Sim, mas é uma tentativa de entender os interesses por trás da religião e estes interesses não foram só dos católicos. Por exemplo, o concílio que eu trouxe neste texto é aceito não só pelos católicos, mas também pelo luteranismo e algumas outras igrejas protestantes!

Porque? Certamente não foi por bondade dos fundadores do protestantismo durante o início do século 16. Como alguém manteria tais resoluções claramente centralizadoras de poder como parte dos ensinamentos de Cristo? Como alguém propõe renovar a igreja aceitando resoluções de quase 1000 anos atrás?! Tais questões deveriam ser abertas novamente, como eram antes do concílio da igreja do ano 553, pois são meras conjecturas elevadas ao status de dogmas.

Enfim, talvez eu exija demais dos cristãos... Entendo que nós ocidentais (ainda hoje, neste início de século 21) raramente recebemos um ensino crítico sobre a utilização da religião, da política e da economia como ferramentas de poder. Particularmente tive a sorte de aprender no ensino médio sobre as revoluções cristãs de Jan Hus e de Savonarola, mas hoje com a internet basta digitar esses nomes num "Google" para achar vários sites que contam a história. Para os interessados recomendo fortemente ler sobre Jan Hus e as guerras hussitas, tema importante da história do cristianismo e da Europa. Se sobrar um tempo leia sobre as rebeliões cristãs florentinas nas quais Savonarola foi um dos personagens principais. Só que se tratando de Florença, o assunto é mais complexo e também é bom fazer (ao menos breves) leituras sobre como o platonismo ganhou força ali fomentando a renascença, com Marcílio Ficino entre outros filósofos que atuaram na península italiana naquela época. 

Nem tudo foi conflito, violência e guerra - A renascença, diferente da época do 2º Concílio de Constantinopla (Idade das Trevas), foi importante por causa de seus bons frutos como a propagação da filosofia e das artes e não por causa de disputas por poder religioso ou poder econômico. 

Fontes:

See, e.g. Lutheran–Orthodox Joint Commission, Seventh Meeting, The Ecumenical Councils, Common Statement, 1993, available at Lutheran–Orthodox Joint Commission (B. I. 5a. "We agree on the doctrine of God, the Holy Trinity, as formulated by the Ecumenical Councils of Nicaea and Constantinople and on the doctrine of the person of Christ as formulated by the first four Ecumenical Councils.").
 

Leo Donald Davis (1983), "Chapter 6 Council of Constantinople II, 553", The First Seven Ecumenical Councils (325–787): Their History and Theology, Collegeville, Minnesota: The Liturgical Press, pp. 242–248, ISBN 978-0814656167, retrieved 2014-08-23
 

 

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...