segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Leitura Ecumência sobre o início da missão de Jesus

As passagens a seguir não estão rigorosamente na sequência apresentada na bíblia, mesmo porque não parece haver consenso sobre uma possível ordem cronológica de todos os fatos da história de Jesus. Esta é só uma vaga tentativa de reinterpretar uma ordem cronológica dos fatos, mas priorizando a espiritualidade, ou seja, os ensinamentos de Cristo. Aqui utilizo passagens dos evangelhos atribuídos a Filipe e a Tomé para complementar os textos de João Evangelista.

Legendas: João em Amarelo, Mateus em Azul, Lucas em vermelho, outros em preto;

Início da pregação/ Encontro com Os primeiros apóstolos (João 1: 35-39) 

No dia seguinte João (Batista) estava outra vez ali, e dois dos seus discípulos; 

E, vendo passar a Jesus, disse: Eis aqui o Cordeiro de Deus. 

E os dois discípulos ouviram-no dizer isto, e seguiram a Jesus. 

E Jesus, voltando-se e vendo que eles o seguiam, disse-lhes: Que buscais? E eles disseram: Rabi (que, traduzido, quer dizer Mestre), onde moras? 

Ele lhes disse: Vinde, e vede. Foram, e viram onde morava, e ficaram com ele aquele dia; e era já quase a hora décima."

Há algumas diferenças entre a versão de João e a dos demais apóstolos, no que se refere aos intervalos de tempo entre o encontro de Jesus com os apóstolos e a prisão de João Batista. 

Só é mencionado que André era um dos 2 apóstolos de João Batista que passou a seguir Jesus. Como Simão (Pedro) não estava junto de André neste primeiro momento, o outro apóstolo então poderia ser Tomé, Tiago, filho de Halfay (Alfeu), Simão, o zelote (cananita), Judas Tadeu ou Judas Iscariotes. Isto porque fica claro que Jesus encontraria João (Evangelista), Tiago (filhos de Zebedeu) e Mateus somente depois de André e Simão (Pedro) começarem a seguir Jesus. Mas estes detalhes pouco importam diante a mensagem de Jesus:

O valor da alma e do corpo (Tomé, Filipe) 

"Jesus disse: "Se a carne veio a existir por causa do espírito, é uma maravilha. Mas se o espírito veio a existir por causa do corpo, é uma maravilha das maravilhas. Na verdade, estou espantado com a forma como esta grande riqueza fez sua casa nesta pobreza." 

Ninguém vai esconder um grande objeto valioso em algo grande, mas muitas vezes alguém jogou incontáveis ​​milhares em algo que vale um centavo. Compare a alma. É uma coisa preciosa e veio a estar em um corpo desprezível."

Embora não sejam aceitos nas igrejas (católica, protestante...), os evangelhos de Tomé e Felipe podem trazer algo útil, colaborando com os ensinamentos de Cristo. O importante é não contradizer a lei (divina) de amor propagada por Jesus, pois a maioria dos dogmas das igrejas são interpretações posteriores aos evangelhos e as pessoas podem ou não seguí-los.

A palavra espírito no texto de Tomé aparece em letras minúsculas, indicando que ele deveria se referir à alma, pois se fosse precedido pelo pronome “o” e escrito com as iniciais maiúsculas deveria significar Espírito Santo. 

Assim, estas citações de Felipe e Tomé mostram como a alma é mais valiosa do que o corpo, também em acordo com Santa Tereza D’Ávila que afirma que a alma foi feita à semelhança de Deus. Platão, o espiritismo e o hinduísmo não diferem de Tomé, Felipe ou Tereza neste ponto: O corpo é importante, mas a alma é mais. Qualquer religião, fé ou espiritualidade deveria entender isto, sem temer parecer fantasiosa ou absurda, mesmo porque é impossível provar a inexistência da alma: Quem defende tal ideia, o faz por opinião, pois quem crê que só a matéria existe ou que nada existe após a morte se apoia em mera interpretação/ visão de mundo. Saber algum, seja científico ou filosófico tem como finalidade provar a inexistência de algo. Assim, analisemos brevemente a importância da alma e sua relação com o corpo:

O espiritismo, bem como a filosofia ocidental fundada por Platão, reforçam bastante este entendimento, pois de acordo com estas filosofias a alma é indivisível e imortal. Por esta razão podemos evoluir intelectualmente, sentimentalmente e moralmente (eticamente) através de um número qualquer de existências/ reencarnações. A carne, ou seja, o corpo material / terrestre morre dentro de um período de tempo, mas o espírito prossegue em sua jornada em busca do bem maior, do Todo, de Deus. 

Quando Filipe compara o corpo com algo que vale um centavo e o chama de desprezível, não se trata de desprezar a vida e sim, de não querer mais do que o necessário para si mesmo durante a vida corpórea em sua existência sensorial. O corpo é temporário e não levamos bem material algum com nossa alma que pode e deve transcender para além da vida terrestre. 

A mente do ser humano é alguma coisa, e embora não possa ser percebida por nossos 5 sentidos, é algo coeso: não se trata de meros pensamentos desconexos ou sentimentos aleatórios, pois tem uma consciência e uma identidade com valores individuais, opiniões, modos de expressar-se, memórias, intuições e capacidades. Tudo isto forma nossa essência, nossa psiquê (mente ou alma) que certamente é mais complexa do que as demais formas de vida da Terra. Esta complexidade deve fazer parte da riqueza cuja Tomé indica que Jesus mencionou. Embora a diferença entre mente e alma não seja clara no cristianismo e no platonismo, essa mente voltada a toda a diversidade na Terra possivelmente é uma parcela de nossa essência (a alma, que de acordo com o hinduísmo e suas variadas práticas, é mais completa, superior à mente). Nossa essência, ou alma, tem um potencial literalmente transcendente, tanto no sentido de se importar com outras pessoas/ almas, como no sentido de existir além da inatividade do corpo (sono, experiências de quase morte etc) e da morte deste. 

A Bodas de Caná (João 2: 1-11) 

"E, ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galiléia; e estava ali a mãe de Jesus. E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas. 

E, faltando vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não têm vinho. 

Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isto compete a nós? (ou: que tenho eu contigo?) Ainda não é chegada a minha hora. 

Então sua mãe disse aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser. 

E estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam dois ou três almudes (medida com cerca de 40 litros cada). 

Disse-lhes Jesus: Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até em cima. 

Então disse-lhes: Tirai agora, e levai ao mestre-sala. E levaram. 

Logo que o mestre-sala provou a água feita vinho (não sabendo de onde viera, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água), chamou o mestre-sala ao esposo, e disse-lhe: Todo o homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho. 

Jesus principiou assim os seus sinais em Caná da Galiléia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele. 

Depois disto desceu a Cafarnaum, ele, e sua mãe, e seus irmãos, e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias."

É possível levantar algumas questões sobre esta passagem, sendo a primeira delas, referente à cronologia: Se este foi o primeiro milagre feito por Jesus, então teria sido realizado antes do encontro com Pedro, quando é realizado o milagre da pesca. Descartando a interpretação feita por alguns religiosos de que os evangelhos de Lucas e de João foram escritos pela mesma pessoa, possivelmente o apóstolo João (Evangelista) teve maior preocupação em narrar os fatos em ordem cronológica se comparado a Lucas. O apóstolo Lucas certamente se empenhou mais em reunir os textos resgatando passagens perdidas ou omitidas anos depois dos primeiros apóstolos de Jesus. 

Outra questão referente à história das Bodas de Caná é: Jesus inicialmente não tinha a intenção de transformar a água em vinho, mas mudou de ideia? De fato, a falta de vinho nesta história talvez não fosse relevante e por isto ele teria dito à sua mãe que "ainda não era sua hora". Porém, reconsiderando após Maria falar para os outros "fazerem tudo que ele disser", Jesus realizou o milagre para mostrar o poder da fé, iniciando sua missão. Talvez haja um significado místico neste texto do apóstolo João, mas não tratarei disto. 

Enfim, os milagres, são classificados como feitos da mediunidade pelo espiritismo: Todo ser humano é um médium em algum nível, mesmo que não saiba disto, pois ser médium nada mais é do que ser intermediário entre o universo sensorial (corpóreo ou tridimensional) e o "mundo" espiritual - a realidade dos espíritos em "erraticidade", "desencarnados" ou incorpóreos. De modo similar ao espiritismo, a Kriya Yoga, explica que todos os acontecimentos do universo ocorrem segundo leis e são explicáveis através de leis. Assim, nada realmente poderia ser chamado de milagre, a menos que tudo fosse considerado um milagre. Enfim, tentativas de detalhar ou de investigar mais racionalmente os "milagres", os poderes dos grandes mestres/ profetas, ou a mediunidade, são de menor importância se comparados com os objetivos dos textos dos apóstolos: Transmitir os ensinamentos de Jesus Cristo, que por sua vez mostram a importância do perdão, da humildade e da solidariedade, ou seja, a importância do bem. 

A cegueira do coração e o arrependimento (Mateus, Marcos, Lucas, Tomé) 

Jesus disse: "Tomei o meu lugar no meio do mundo, e Apareci para eles em carne e osso. Encontrei todos embriagados (intoxicados); Não encontrei nenhum deles com sede. E minha alma se afligiu pelos filhos dos homens, porque são cegos de coração e não tem visão; pois vazios eles vieram ao mundo, e vazios também eles procuram deixar o mundo. Mas por enquanto estão embriagados. Quando eles sacudirem o vinho, então eles arrependerão-se." 

"E, deixando Nazaré, Jesus, ouvindo que João (Batista) estava preso, foi habitar em Cafarnaum, cidade marítima, nos confins de Zebulom e Naftali; Para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías, que diz: A terra de Zebulom, e a terra de Naftali, Junto ao caminho do mar, além do Jordão, A Galiléia das nações; Na (região da) Galiléia cheio da força (virtude) do espírito, pregava o evangelho do reino de Deus dizendo: Arrependei-vos e crede no evangelho porque o tempo está cumprido, e o reino de Deus (dos céus) está próximo. O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou.

  Com os termos embriagados/ intoxicados, cegos de coração e vazios, Jesus certamente se refere à falta de amor no mundo em variados aspectos: Falta de humildade, falta de receptividade, falta de amizade, falta de devoção ao próximo e a Deus, falta de esperança etc. "Sacudir o vinho" possivelmente se refere a inquietar-se interiormente, na alma, abandonando o egoísmo para passar a buscar um sentido, uma espiritualidade, um amor, ou o divino. O vinho como uma bebida colocada dentro de um recipiente, seja um odre (um tipo de cantil) ou uma talha (um vaso ou "barril" de pedra), representaria o interior do ser humano, seus sentimentos, sua alma.

O trecho de Mateus, onde ele menciona que a luz raiou para aqueles sentados na escuridão, pode se referir aos pecadores arrependidos após ouvir os ensinamentos de Cristo, ou talvez se refira aos espíritos salvos por Jesus. Este arrependimento não é mera vergonha nem medo de uma força superior ou de Deus - trata-se de buscar sentir, ser sensível, pois todos temos a noção do bem e do mal, do que é certo e do que é errado. Quanto menos utilizamos esta noção, mais difícil colocá-la em prática, mas se refletirmos sobre nossos pensamentos, sentimentos e ações, esta noção pode ir se desenvolvendo ou ressurgindo. Assim podemos sentir o mal que fizemos às outras pessoas, colocando-nos no lugar delas e sentindo seus sofrimentos para desenvolver empatia e entendimento da importância da equidade. Isto é olhar os próprios defeitos e erros para corrigi-los abandonando vícios e atitudes nocivas às outras pessoas e a si mesmo. De todo modo, o arrependimento é um ato interior, ninguém precisa expressá-lo com palavras ou gestos - é um ato puramente mental, psíquico, subjetivo e não se trata de uma opinião superficial: O arrependimento é um “sentimento” que só a própria pessoa sabe se sentiu e ela não pode esconder isto de si mesma. Arrepender-se de maus atos, seja um vício, uma ação nociva à outrem ou pensamentos de desprezo ou ódio sobre outras pessoas, é a 1ª etapa para abandonar a postura de prejudicar a si mesmo ou aos demais indivíduos/ ou grupos de pessoas. Faz parte de buscar um novo sentido de vida e também é um passo para o progresso da própria alma.

 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Leitura Ecumênica da Tentação no Deserto

Os apóstolos Marcos, Mateus e Lucas mencionam que Jesus se retirou por dias no deserto e ali resistiu às tentações, como mostrado a seguir.

Tentação no Deserto (Mateus 4: 1-11, Marcos 1: 12-13, Lucas 4: 1-13) 

"Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. 

E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome; 

Chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães. 

Jesus, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. 

Então o diabo o transportou à cidade santa, e colocou-o sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, lança-te de aqui abaixo; porque está escrito: Que aos seus anjos dará ordens a teu respeito, E tomar-te-ão nas mãos, Para que nunca tropeces com o teu pé em alguma pedra. 

Disse-lhe Jesus: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus. 

Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. 

Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás. 

Então o diabo o deixou; e, eis que chegaram os anjos, e o serviam."

Esta é uma passagem notoriamente mística, ou em outra linguagem, é uma cena bastante espiritual. Santa Tereza d’Ávila, uma mística cristã que viveu na Espanha durante o século 16, afirmou que quanto mais pura, ou mais empenhada no bem / na lei divina de amor, a pessoa for, mais o(s) opositor(es) a cobiçarão. Trata-se do tema do bem e do mal além da vida terrestre - em uma dimensão espiritual. 

Kardec diz que os espíritos impuros desistem de tentar enganar ou seduzir uma alma muito boa, mas voltarão a espreitá-la na busca de uma oportunidade. Ele jamais confirmou a existência de um "opositor a Deus diametralmente poderoso", pois isso seria dualismo, não monoteísmo.

A passagem de Jesus no Deserto não difere muito destas explicações. Considerando a pureza e a missão de Jesus Cristo, entende-se tais cenas e tais explicações: A prática do bem sempre tem suas dificuldades e é muito importante ter comprometimento para não não ser seduzido. Abandonar o bem para dedicar-se à mesquinharia e ao egoísmo, obviamente é um erro, ou seja, um pecado. Na Terra mesmo é possível notar que os erros que mais causam estragos amplos e profundos nos seres humanos ou até mesmo nas demais formas de vida do planeta, surgem a partir de indivíduos em posição de poder: 

Um líder religioso corrompido pode afetar não só todos os fiéis de sua religião, mas também pode incitar intolerância e ódio que causam conflitos com outras religiões ou incitar ignorância negando conhecimentos e verdades que deveriam trazer avanços para o convívio social da humanidade; 

Um político corrompido pode afetar todo um estado ou nação retirando direitos do povo, indisponibilizando transportes que garantem locomoção digna e acessibilidade para as pessoas, desfazendo instituições essenciais como escolas, redes de hospitais, serviços de saneamento, segurança, energia etc. 

Um “grande” (multimilionário) empresário que é corrompido, afetará não só todos seus funcionários com reduções de salários, demissões e aumento da jornada de trabalho como também pode aumentar preços de seus produtos ou serviços afetando os consumidores e variados setores do mercado. Além de também poder causar impactos nocivos no meio ambiente causando poluição de biomas inteiros, desmatamento, mudanças climáticas, desmoronamentos de barragens, bairros etc...

E o poder nem sempre se refere a afetar um grande coletivo de seres, pois pode exercer em uma nível mais particular, por exemplo: Um médico que é corrompido (nega seu dever), prejudicará todos seus pacientes, assim como um arquiteto prejudicará a todos que frequentarem sua obra e um(a) pai ou mãe de família prejudicará todos seus filhos e parceira(o); isto é assim porque o objetivo original do poder é um dos mais sublimes: Servir a todos que estão subordinados a ele e servir também é ter responsabilidade. Deturpar este objetivo é um erro grave, como pode-se notar. 

Jesus vence as "3 tentações": a primeira tentação é uma "oferta de pães"/ uma infinitude de alimentos: Jesus supera a fome, ao afirmar que nem só do alimento "material" vive o ser humano, dando a entender que cuidar da alma é tão ou mais importante que o cuidado do que é perceptível pelos sentidos; De um ponto de vista mais místico ou asceta, também é possível entender que Jesus mostrava a possibilidade de alcançar um estado da consciência tão elevado que possibilitava que o corpo suportasse longos períodos sem alimento. Este estado está ligado ao compromisso de Jesus de propagar o amor solidário e corajoso demonstrando sua importância, este é o sentido existencial de Jesus, ou seja, cristão.

A segunda tentação "transporta Jesus para cima do pináculo do templo" e possivelmente se refere ao poder religioso, de manipular as massas. Jesus supera isto alegando que não se tenta (provoca) Deus - isto é impossível; 

A terceira tentação oferece poder sobre todas as nações na Terra, ou seja, provoca a Jesus a ter todo poder no "mundo material", ao que Jesus responde que só se serve a Deus. Isto porque Deus, o criador do universo, é bom e seguir seu exemplo é servir. 

Um Deus maligno não tem sentido algum, portanto é uma mentira. Sócrates e Platão, por exemplo, concordaram com a descrição feita pelo filósofo Anaxágoras, de que Nous, a mente cósmica, gerou e organizou todo o universo. Porém eles achavam insuficiente a ideia de um criador distante e indiferente - Nous então, teria criado tudo, com um objetivo de melhora, daí o conceito da idéia/ forma ("eidos") do bem/ belo ("kalos") de Platão. A ideia mais perfeita que deveria reger todas as coisas é o Bem.

De uma forma ou de outra, as tentações de modo geral ofereciam a Jesus, "benefícios" no mundo sensorial/ material/ terrestre, o que o hinduísmo de certo modo classifica como Maya, a ilusão. Sem contrariar o cristianismo e convergindo com o platonismo (a filosofia fundada/ registrada por Platão), o hinduísmo indica que a realidade sensorial, ou seja, que é percebida com nossos sentidos, é mais falsa, ou inferior à realidade de nossa psique/ alma/ à realidade espiritual. Certamente porque a ideia do Bem é oriunda desta realidade psíquica/ espiritual, afinal seres totalmente imersos na realidade material/ sensorial como plantas, fungos, animais (etc) são psiquicamente (mentalmente/ espiritualmente) menos complexos do que seres humanos, cumprindo basicamente funções de sobrevivência (alimentação, reprodução etc) na Terra. Tais formas de vida não têm a noção do Bem. Neste ponto poderia-se perguntar: mas e a noção do mal? O mal não faz sentido no monoteísmo e pode ser entendido como uma forma de negação do Bem como indicado a seguir:

Esta passagem pode parecer falar de um opositor direto de Jesus, como um vilão em posição oposta à Deus, ou quase isto. Porém vale lembrar que os nomes do “inimigo” de Jesus e/ ou de Deus, são praticamente adjetivos que nesta passagem significa o adversário ou o opositor. O termo "diabo", por exemplo, vem do grego "diabolos" que significa recusar ("bolos") através de ("dia"). Este prefixo "dia" deve ser o mesmo empregado na palavra "diálogo" que significa conhecimento/ palavra ("logos") através de ("dia"). Nota-se então que o prefixo "dia" se refere à interação com alguém, e o sufixo "bolos" determina que tipo de interação é esta - seu conteúdo ou finalidade é negar, recusar. A negação ou recusa que interagem com alguém ou impacta sobre alguém certamente tem o objetivo de dividir, enfraquecer, destruir (negar). 

Além disto, um vilão nesta posição não é mencionado em diversas espiritualidades (por exemplo, no hinduísmo, no platonismo, no espiritismo e na teologia da libertação). Isto porque tal tipo de personagem é característico de religiões dualistas, ou talvez, politeístas, não fazendo sentido no monoteísmo, que é o caso das religiões judaico/ cristãs! De qualquer forma alguns grupos cristãos interpretam esta e algumas outras passagens com uma visão dualista que contradiz o monoteísmo. Se tais grupos preferem falar do perigo de tal opositor agir na vida humana, ao invés de priorizar a propagação e a prática dos ensinamentos de Cristo, eles estão propagando mais medo do que bondade e já não estão agindo como verdadeiros cristãos. No cristianismo ou em qualquer outra religião monoteísta, Deus, sendo onipotente e onipresente, não deve ter um opositor a sua altura - tanto que Jesus diz "Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás". Deus é uno, não um mero personagem corpóreo, como por exemplo, um homem barbado escondido nas nuvens ou no espaço. Ele é o criador de todas as almas, de todo espírito, por isso nada vale encher-se de poder sobre o mundo sensorial, pois estamos nesta realidade para amar, para fazer o Bem. De modo resumido isto é fato e se delongar nesta explicação não deveria ser necessário, por mais que os defensores do “anti Deus” lancem supostos argumentos. Velhas questões do tipo “como é que Deus permite o mal na Terra” (etc) é prolongar ou até mesmo distorcer o assunto, pois é conjecturar perguntas e respostas sobre o além. Certamente ninguém tem a resposta sobre o além e mais vale dedicar-se ao bem através de pensamentos e de ações.

domingo, 11 de fevereiro de 2024

Leitura Ecumênica do Batismo de Jesus

 

Batismo de Jesus (Mateus, Marcos, Lucas, João) 

"Então (no dia seguinte) veio Jesus da Galiléia ter com João Batista, junto do Jordão, para ser batizado por ele. E João disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. 

Este é aquele do qual eu disse: Após mim vem um homem que é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. E eu não o conhecia; mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim eu, por isso, batizando com água. 

Mas (apesar de Jesus esperar receber seu batismo), João opunha-se-lhe, dizendo: Eu careço de ser batizado por ti, e vens tu a mim? 

Jesus, porém, respondendo, disse-lhe: Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele (João, o batista) o permitiu. 

Sendo Jesus batizado, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus em forma de pomba descendo e vindo sobre ele. 

Eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo (ponho minha afeição). 

E João testificou, dizendo: Eu vi o Espírito descer do céu como (na forma de) pomba, e repousar sobre ele. Eu não o conhecia, mas o que me mandou a batizar com água, esse me disse: Sobre aquele que vires descer o Espírito, e sobre ele repousar, esse é o que batiza com o Espírito Santo. E eu vi, e tenho testificado que este é o Filho de Deus."

A aparência do Espírito de Deus é de menor importância nesta passagem do batismo de Jesus. Embora descrito como semelhante a uma pomba, a visão do Espírito, de acordo com as religiões hindus, pode estar relacionada a um chakra, ou qualquer elemento intermediário entre o mundo corpóreo e o espiritual - um assunto ainda pouquíssimo conhecido até este início de século 21. 

A ação realizada por João Batista é um mistério que deve indicar que Jesus, sendo o Messias de Deus, para propagar a lei divina de amor, precisou receber o batismo de outra pessoa fiel a Deus. Isto deve ser uma amostra da humildade de Jesus e da necessidade das relações na lei divina, que engloba as leis naturais, portanto as leis universais também. Afinal, quem ama de verdade, ama alguma coisa, pois o amor trata-se de um sentimento profundo, portanto interno do ser, mas transcendental, pois direciona-se para além de si mesmo. 

Em diferentes práticas da religião hindu, há uma ênfase no relacionamento guru (mestre ou professor) e discípulo. Embora seja comum que o discípulo hindu seja um aprendiz com longo caminho pela frente, há casos em que este alcança um nível equivalente ao do guru rapidamente. Isto ocorre porque os espíritos (encarnados ou desencarnados) têm “incontáveis existências” e um discípulo pode ser um espírito muitíssimo elevado que só precisa de “um despertar” com a ajuda de seu guru. 

Numa simples tentativa de manter o diálogo ecumênico, é possível que este último caso seja similar ao de Jesus de Nazaré: Apesar de sua tremenda sabedoria se manifestar desde muito cedo, ele “despertou” para sua missão após receber o batismo de João que fôra enviado por Deus para “abrir o caminho de Cristo”. Neste caso o “discípulo” Jesus não deve ter meramente se igualado ao mestre: ao receber o batismo, deve ter superado João Batista. 

Talvez a história de que Sócrates teve um sonho ou visão de que um cisne pousava aos seus pés pouco antes de conhecer Platão, tenha um elo com o relacionamento mestre/ discípulo ou  com o relacionamento anunciador e trabalhador/ guia da humanidade. Afinal Sócrates ficou conhecido por seus diálogos, mas quem registrou todo seu conhecimento foi seu pupilo Platão.

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Leitura Ecumênica da Pregação/ Testemunho de João Batista

A seguir estão reunidos os textos dos 4 apóstolos sobre as ações de João Batista antes de encontrar Jesus.

Legendas: Marcos = verde, Mateus = azul, Lucas = vermelho, João = amarelo. 

Pregação / Testemunho de João Batista (Mateus, Marcos, Lucas, João) 

"Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus; 

Como está escrito nos profetas: Eis que eu envio o meu anjo ante a tua face, o qual preparará o teu caminho diante de ti

Voz do que clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas. (Malaquias 3, 1; Isaías 40, 3) Todo o vale se encherá, E se abaixará todo o monte e outeiro; E o que é tortuoso se endireitará, E os caminhos escabrosos se aplanarão; E toda a carne verá a salvação de Deus.” 

E no ano quinze do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos presidente (praefectus) da Judéia, e Herodes tetrarca da Galiléia, e seu irmão Filipe tetrarca da Ituréia e da província de Traconites, e Lisânias tetrarca de Abilene, Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias. Apareceu João batizando no deserto, e pregando o batismo de arrependimento, para remissão dos pecados. 

Eis que toda a província da Judéia e os de Jerusalém iam ter com ele; e todos eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. 

João, o Batista, andava vestido de pêlos de camelo, e com um cinto de couro em redor de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre. E pregava no deserto da Judéia, dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus. 

Vendo a multidão (de fariseus e saduceus) que saía para ser batizada por ele, dizia, pois, João: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento, e não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai; porque eu vos digo que até das pedras pode Deus suscitar filhos a Abraão. E também já está posto o machado à raiz das árvores; pois toda a árvore que não dá bom fruto, corta-se e lança-se no fogo. 

E a multidão o interrogava, dizendo: Que faremos, pois? 

Respondendo ele, disse-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira. 

E chegaram também uns publicanos, para serem batizados, e disseram-lhe: Mestre, que devemos fazer? E ele lhes disse: Não peçais mais do que o que vos está ordenado. 

Também uns soldados o interrogaram, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo. 

E, estando o povo em expectativa, e pensando todos de João, em seus corações, se porventura seria o Cristo, E este é o testemunho de João, quando os judeus mandaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu? 

E confessou, e não negou; confessou: Eu não sou o Cristo. 

E perguntaram-lhe: Então quê? És tu Elias? E disse: Não sou. És tu profeta? E respondeu: Não. Disseram-lhe pois: Quem és? para que demos resposta àqueles que nos enviaram; que dizes de ti mesmo? 

João Batista respondeu: Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías. 

E os que tinham sido enviados eram dos fariseus perguntaram-lhe: Por que batizas, pois, se tu não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? 

João respondeu-lhes, dizendo: Eu batizo com água; mas no meio de vós está um a quem vós não conheceis. Ele, porém, vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele tem a pá na sua mão e limpará a sua eira, e ajuntará o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha com fogo inextinguível

Este é aquele que vem após mim, que é antes de mim, que é mais forte do que eu, do qual eu não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das suas sandálias (ou calçados). 

Estas coisas aconteceram em Betabara, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando. E assim, admoestando-os, muitas outras coisas também anunciava ao povo."

 Marcos é o apóstolo com o evangelho mais sucinto, mas que ressalta as emoções e o lado humano de Jesus. Neste seu primeiro texto, ele afirma que João Batista é o anjo enviado por Deus, antes de Jesus Cristo. O espiritismo, seguindo um argumento não muito diferente, entende João Batista como uma reencarnação do profeta Elias - Ou seja, um espírito muito bom e próximo de Jesus. 

Independente de qualquer explicação religiosa ou filosófica, João Batista vivia humildemente no deserto, pregando o arrependimento dos pecadores. Nitidamente, estes pecadores, em sua maioria, eram pessoas que não estavam nas piores posições da sociedade, pois como Lucas mostrou em seu texto, eles eram líderes religiosos, soldados, centuriões e cobradores de impostos. 

João cita o exemplo de pecados de cada uma destas classes e recomenda que eles se arrependam e passem a praticar a caridade - que parem de pensar em benefícios próprios e comecem a olhar para os mais necessitados, ajudando-os. 

Com a frase "não comeceis a dizer em vós mesmos: Temos Abraão por pai" também é mostrado que esconder-se atrás de desculpas de ser de determinada linhagem sanguínea/ família, de determinada nação ou de determinada religião não faz pessoa alguma cristã nem faz uma pessoa verdadeiramente religiosa. É preciso viver os ensinamentos de Cristo, pois a lei de Deus é de amor na mente e nas ações.

Assim, os ensinamentos de João Batista se baseavam nas lições sobre justiça e solidariedade de profetas anteriores como Isaías. Justiça que não se trata de punitivismo e sim de equidade: João Batista, bem como Isaías, e talvez de maneira mais pacífica e mais pura do que este profeta, falava de ter piedade dos pobres e miseráveis, de se arrepender das atitudes egoístas e de libertar os escravizados pelos poderosos. Todos estes ensinamentos fazem parte da lei divina, a qual Jesus em seguida vem desenvolver, ressaltando a importância do amor. Amor não é tipo algum de desejo, pois nunca é mesquinho nem interesseiro. Amor é ser receptivo, portanto também é ser humilde. Amor é ser sereno e conviver para gostar e tratar de acordo com isto: É criar amizade sem interesses particulares e sem sucumbir aos desejos materiais que menosprezam as relações amigáveis. A partir daí, o amor é buscar conhecer e honrar o próximo, devotando-se ao bem: É ser solidário com as pessoas, principalmente com os mais necessitados, mantendo a esperança para si e para os outros.

Sobre o Machado à raiz da árvore (Filipe): "A maioria das coisas no mundo, enquanto suas partes internas estão escondidas, permanecem de pé e vivem. Se forem reveladas, elas morrem, como é ilustrado pelo homem visível: enquanto os intestinos do homem estiverem ocultos, o homem está vivo; quando seus intestinos forem expostos e saírem dele, o homem morrerá. Assim também com a árvore: enquanto sua raiz está escondida, ela brota e cresce. Se sua raiz for exposta, a árvore seca. Assim é com cada nascimento que há no mundo, não apenas com o revelado, mas com o oculto. Enquanto a raiz da maldade estiver escondida, ela será forte. Mas quando é reconhecida, é dissolvida. Quando é revelada, perece. É por isso que a Palavra diz: "O machado já está posto à raiz das árvores" (Mateus 3,10). Não apenas cortará - o que é cortado brota novamente - mas o machado penetra profundamente, até trazer a raiz. Jesus arrancou a raiz de todo o lugar, enquanto outros o fizeram apenas parcialmente. Quanto a nós mesmos, que cada um de nós cave a raiz do mal que está dentro de si, e que cada um a arranque do coração pela raiz. Será arrancado se o reconhecermos. Mas se a ignoramos, ela se enraíza em nós e produz seu fruto em nosso coração. Ela nos domina. Nós somos seus escravos. Leva-nos cativos, para nos obrigar a fazer o que não queremos; e o que queremos, não fazemos. É poderosa porque não o reconhecemos. Enquanto existe, está ativa."

Quantos preconceitos e desejos egoístas nós escondemos dos outros e de nós mesmos? Progredir abandonando tais mentalidades é um processo que exige atenção, esforço, vontade e prática. Assim como deve-se combater os próprios pensamentos maliciosos e sentimentos destrutivos, é possível combater o mal externo, expondo-o, ao invés de tentar atacá-lo com ações violentas: Na obra de Platão Eutidemo (sobre a Disputa), Sócrates usa a figura da besta lendária, a hidra de Lerna, comparando-a com a de seus adversários sofistas, que quando tinha uma cabeça derrotada, duas novas nasciam no lugar, com novos “argumentos” falaciosos/ mentirosos. Metaforicamente a hidra pode representar o mal que ataca de várias formas diferentes e que deve ser exposto ou extinto pela sua raiz (no caso da hidra, derrotada pelo seu corpo). O que Sócrates muitas vezes fazia em seus diálogos era expor as mentiras de cidadãos das altas classes sociais gregas que buscavam tirar proveito dos mais pobres, dos menos instruídos etc.

 

sábado, 27 de janeiro de 2024

Leitura Ecumênica da Infância e Adolescência de Jesus

 A seguir estão 3 passagens sobre a infância e adolescência de Jesus, seguidas de breves comentários, uma vez que do ponto de vista ecumênico há pouco o que se ressaltar sobre tais textos.

Apresentação de Jesus no Templo (Lucas 2: 22-39) 

"Cumprindo-se os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor (Segundo o que está escrito na lei do Senhor: Todo o macho primogênito será consagrado ao Senhor); 

E para darem a oferta segundo o disposto na lei do Senhor: Um par de rolas ou dois pombinhos. Havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; Este homem era justo e temente a Deus, esperando a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. 

E fora-lhe revelado, pelo Espírito Santo, que ele não morreria antes de ter visto o Cristo do Senhor. Pelo Espírito foi ao templo e, quando os pais trouxeram o menino Jesus, para com ele procederem segundo o uso da lei, 

Ele, então, o tomou em seus braços, e louvou a Deus, e disse: 

Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, Segundo a tua palavra; Pois já os meus olhos viram a tua salvação, A qual tu preparaste perante a face de todos os povos; Luz para iluminar as nações, E para glória de teu povo Israel. 

José, e sua mãe, se maravilharam das coisas que dele se diziam. E Simeão os abençoou, e disse a Maria, sua mãe: Eis que este é posto para queda e elevação de muitos em Israel, e para sinal que é contraditado (E uma espada transpassará também a tua própria alma); para que se manifestem os pensamentos de muitos corações. 

E estava ali a profetisa Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Esta era já avançada em idade, e tinha vivido com o marido sete anos, desde a sua virgindade; 

Era viúva, de quase oitenta e quatro anos, e não se afastava do templo, servindo a Deus em jejuns e orações, de noite e de dia. E sobrevindo na mesma hora, ela dava graças a Deus, e falava dele a todos os que esperavam a redenção em Jerusalém. 

Quando acabaram de cumprir tudo segundo a lei do Senhor, voltaram à Galiléia, para a sua cidade de Nazaré."

Aqui consideremos este texto como uma tentativa séria de descrever a infância de Jesus, embora exista a discussão se esta passagem contém alguma verdade ou e é um mito criado após o período dos primeiros apóstolos, entre os séculos 1 e 3. Neste caso as passagens do nascimento de Jesus até os seus doze anos de idade, devem ter sido passadas adiante por José e/ ou Maria (por via oral, afinal era uma época onde poucos sabiam escrever), até que fossem registradas pelos apóstolos. O mais importante é buscar seu significado ou mensagem, que esteja de acordo com a lei divina, que é a lei de amor ensinada por Jesus:

De modo similar a profecia de Isaías (49, 6) “... Não basta que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os fugitivos de Israel, vou fazer de ti a luz das nações para propagar minha salvação até os confins do mundo”, Simeão diz que os ensinamentos de Jesus são luz para todas as sociedades da Terra. Isto significa amar a todos e ao Criador. Vários são os passos a seguir para se viver esta verdade que Jesus ensina em suas pregações e parábolas. Se todos seguissem tais passos, os problemas da humanidade cessariam.

Fuga ao Egito/ Massacre dos inocentes (Mateus 2: 13-23) 

"E, tendo eles (os magos) se retirado, eis que o anjo do Senhor apareceu a José num sonho, dizendo: Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito, e demora-te lá até que eu te diga; porque Herodes há de procurar o menino para o matar. 

E, levantando-se ele, tomou o menino e sua mãe, de noite, e foi para o Egito. 

E esteve lá, até à morte de Herodes (existiram mais governantes com nome de Herodes), para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta, que diz: Do Egito chamei o meu Filho. 

Herodes, vendo que tinha sido iludido pelos magos, irritou-se muito, e mandou matar todos os meninos que havia em Belém, e em todos os seus contornos, de dois anos para baixo, segundo o tempo que diligentemente inquirira dos magos. Então se cumpriu o que foi dito pelo profeta Jeremias, que diz: 

Em Ramá se ouviu uma voz, Lamentação, choro e grande pranto: Raquel chorando os seus filhos, E não quer ser consolada, porque já não existem. 

Morto, porém, Herodes, eis que o anjo do Senhor apareceu num sonho a José no Egito, Dizendo: Levanta-te, e toma o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel; porque já estão mortos os que procuravam a morte do menino. 

Então ele se levantou, e tomou o menino e sua mãe, e foi para a terra de Israel. 

E, ouvindo que Arquelau reinava na Judéia em lugar de Herodes, seu pai, receou ir para lá; mas avisado num sonho, por divina revelação, foi para as partes da Galiléia.

E chegou, e habitou numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno."

Esta passagem é exclusivamente narrada por Mateus e, independentemente de sua verificabilidade, conta sobre a crueldade de Herodes. Pois este texto de Mateus mostra sobre a mentalidade dos poderosos como o rei cliente Herodes: Sua sede e fascinação por poder e status na Terra certamente poderia despertar uma desconfiança que desencadeasse em crises de paranoia e surtos de violência. Mateus, sendo o apóstolo mais empenhado em mostrar a ligação da vida de Jesus com as previsões feitas pelos profetas, também cita como estes eventos foram profetizados por Jeremias séculos antes de Cristo. 

Jesus aos doze anos (Lucas 2: 41-52) 


Arte do século 19

“E o menino crescia, e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele. Ora, todos os anos iam seus pais a Jerusalém à festa da páscoa; 

Tendo Jesus já doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume do dia da festa. E, regressando eles, terminados aqueles dias, ficou o menino Jesus em Jerusalém, e não o soube José, nem sua mãe. Pensando, porém, eles que viria de companhia pelo caminho, andaram caminho de um dia, e procuravam-no entre os parentes e conhecidos; Como não o encontraram, voltaram a Jerusalém em busca dele. E aconteceu que, passados três dias, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os, e interrogando-os. Todos os que o ouviam admiravam a sua inteligência e respostas. 

Quando o viram, maravilharam-se, e disse-lhe sua mãe: Filho, por que fizeste assim para conosco? Eis que teu pai e eu ansiosos te procurávamos. 

E ele lhes disse: Por que é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai? 

E eles não compreenderam as palavras que lhes dizia. 

Então Jesus desceu com eles, e foi para Nazaré, e era-lhes sujeito. E sua mãe guardava no seu coração todas estas coisas. E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens.” 

Se existem crianças e adolescentes classificados como superdotados intelectualmente na civilização humana, não deveria ser surpresa alguma que Jesus ainda adolescente pudesse ensinar os adultos em um templo. Mesmo porque Jesus também era superior aos demais seres humanos em relação aos sentimentos e emoções boas, como receptividade, amor, esperança etc. Isto não faz dele necessariamente um ser completamente separado da raça humana - e sim mostra o potencial humano de desenvolver bons sentimentos e emoções para conviver uns com os outros em sociedade. 

O espiritismo e a Kriya Yoga aceitam que as crianças humanas podem ter e mostrar uma grande variância de desenvolvimento mental, seja no âmbito intelectual/ cognitivo, ou no sentimental, moral e ético. Isto se deve pelo fato das almas reencarnarem há tempos imemoráveis.

O platonismo não difere muito do espiritismo e do hinduísmo neste ponto: Na obra Menon, Platão indica que existem reminiscências na psiquê que permitem que algumas pessoas "aprendam" certos "conhecimentos" mais rapidamente do que outras - O conhecimento estaria somente adormecido na psiquê, "pronto" para ser desperto. Isto seria uma consequência da imortalidade (e transmigração) das almas.

sábado, 20 de janeiro de 2024

Leitura Ecumênica da "Adoração dos Magos"

 A passagem seguinte trata da visita dos magos ao menino Jesus... Embora conhecidos como "reis magos", o texto original não menciona tal título aristocrático.

Adoração dos “magos” (Mateus 2: 1-13) 

"E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo. 

E o rei Herodes, ouvindo isto, perturbou-se, e toda Jerusalém com ele. Congregados todos os príncipes dos sacerdotes, e os escribas do povo, perguntou-lhes onde havia de nascer o Cristo. E eles lhe disseram: Em Belém de Judéia; porque assim está escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, De modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo Israel. 

Então Herodes, chamando secretamente os magos, inquiriu exatamente deles acerca do tempo em que a estrela lhes aparecera. E, enviando-os a Belém, disse: Ide, e perguntai diligentemente pelo menino e, quando o achardes, participai-mo, para que também eu vá e o adore. 

Tendo eles ouvido o rei, partiram; e eis que a estrela, que tinham visto no oriente, ia adiante deles, até que, chegando, se deteve sobre o lugar onde estava o menino. E, vendo eles a estrela, contentaram-se muito com grande alegria. 

Entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra. E, sendo por divina revelação avisados num sonho para que não voltassem para junto de Herodes, partiram para a sua terra por outro caminho." 

Os magos: Arte (romana) bizantina do século 6

 Embora os textos do apóstolo Mateus geralmente fazem uma ligação com as profecias realizadas por patriarcas do judaísmo, nesta passagem dos “três”* magos, ele também indica um elo do nascimento de Jesus com uma religião/ cultura estrangeira. 

(*estipula-se que sejam em três por causa que são ofertados 3 presentes.) 

Os magos citados pelo apóstolo Mateus não são feiticeiros de contos de fantasia típicos da Europa Medieval. O termo mago deve se referir à magi - Um sacerdote comum na cultura das civilizações medas (madai) e persas. Esta classe sacerdotal seguia a religião masdeísta de Zoroastro e comumente serviam como conselheiros dos reis persas. Portanto quando os persas governaram séculos antes do nascimento de Jesus de Nazaré, certamente existiram magis em posição social elevada. Possivelmente por causa desta proximidade histórica com os antigos governos da confederação meda e do Império Persa Aquemênida, eles passaram a ser chamados de “reis” magos por autores posteriores à Mateus.

As civilizações (medas e persas) onde o masdeísmo/ zoroastrismo propagou-se, tiveram seu apogeu entre os anos 678 a.C. e 331 a.C., ou seja, na época de Jesus, elas já tinham sido dominadas por outros povos. Porém a cultura persa e sua religião não desapareceu por completo, tanto que foi aceita durante o domínio Parta (247 a.C. - 224 d.C.) e durante o Império Persa posterior, restaurado no ano de 221 depois de Cristo até o ano de 651 d.C. Portanto, o zoroastrismo ainda sobreviveria por mais de 6 séculos depois de Cristo. 

Sendo assim os magis certamente podem ter vindo de uma variada gama de regiões as quais já tinham sofrido influência anterior da cultura persa e de sua religião masdeísta: Egito, Babilônia (Iraque), Ásia Menor (Turquia), Pérsia (Irã), Partia entre outras. 

Estes magis, sendo sacerdotes honestos e verdadeiros, podem ter entendido o sinal de Aura Mazda, o Deus superior e bom do zoroastrismo, para encontrar Jesus Cristo. Isto por que é possível entender Aura Mazda como um sinônimo de Deus, mesmo tendo um tipo de rival maligno chamado Angra Manyu. Afinal Deus não rejeita culturas diferentes daquelas onde Jesus nasceu: A sua palavra (sua lei de amor) é para as pessoas de todas as nações - de todo o mundo. 

Mesmo com uma história de passado glorioso (afinal os antepassados dos magis serviram imperadores), os (três?) indivíduos desta classe que visitam Jesus, mantém uma postura humilde o tempo todo, comemorando o encontro do local de nascimento de Jesus e presentando uma família simples e pobre, sem status nem título algum! Isto mostra como deve ser a verdadeira espiritualidade e fé independente de qual seja a religião e a cultura. 

A Kriya Yoga entende que o sinal visto pelos magis, estava relacionado às suas desenvolvidas espiritualidades. Tal espiritualidade desenvolvida é explicada pelos conceitos hindus como um tipo de harmonia do elo entre alma e corpo. De alguma forma este elo seriam os chakras. Esta espiritualidade desenvolvida fez com que os magis recebessem sinais do nascimento de Jesus que estava para ocorrer, possivelmente através do Ajna, o chakra conhecido o "olho espiritual". Tal recepção, ou percepção, de sinais é parecido com o conceito de mediunidade apresentado pelo espiritismo.

Interessante notar que pessoas mais céticas podem acusar esta e outras passagens sobre a infância e juventude de Jesus, escritas por Mateus e por Lucas, de serem meros embelezamentos inventados pelos autores ou de serem fatos pouco embasados e muito distorcidos. É compreensível pensar que algum autor cristão após a morte de Jesus pudesse fazer isso para embelezar, engrandecer ou enfatizar a origem divina de Jesus, porém é preciso refletir bem antes de fazer tais acusações: Comparemos duas das histórias de Mateus: A fuga da família de Jesus devido a matança de crianças primogênitas por Herodes é acusada de fantasiosa porque é muito similar à história de Moisés. Os acusadores poderiam dizer que Mateus forçou um vínculo de Jesus com o judaísmo. Mas e a visita dos magos? Porque Mateus escolheria magos? Tais magos são sacerdotes de outra cultura com pouca influência significativa na Judéia: então para quê tal mentira seria inventada? Como tal história poderia ser um embelezamento, se a maioria dos cristãos sequer faz ideia que os magos eram magis masdeístas? Talvez esta cultura dos sacerdotes zoroastristas tenha uma leve influência no judaísmo místico (a cabala, que já devia existir em tradição oral, desde meados do século 3 a.C.) que, em prática, é uma vertente restrita da religião voltada a pequenos grupos de pessoas na sociedade. Portanto, mesmo que haja tal influência, os personagens não sendo populares, embelezariam a história da vida de Jesus só para uma minoria de místicos judeus. Ao observar tais fatos, parece no mínimo precipitado considerar esta passagem citada por Mateus, um conto embelezador ou uma mentira.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

Sobre duas obras de Chico Xavier

Chico Xavier é um médium bastante admirado no meio espírita brasileiro em geral. Porém eu concordo com uma interpretação comum entre os espíritas progressistas: Que ele fez boas obras e más obras - Chico Xavier foi humano, ora acertando e ora errando. Particularmente comecei a entender suas obras deste modo após duas experiências que eu tive por volta do ano de 2020. Estas experiências consideradas como mediúnicas devem ter algum valor para os meios que as aceitam, como o espiritismo, a umbanda (etc)... Porém, além da experiência mediúnica eu busquei analisar o conteúdo das obras também.

Venerar este médium (Chico) como se ele fosse um santo que só trouxe belas verdades indiscutíveis é uma ingenuidade. O próprio Kardec, ao fundar o espiritismo, afirmava que era preciso uma análise crítica das mensagens recebidas através dos espíritos. Esta crítica de Kardec não era simples negação das mensagens e sim uma verificação para entender se o conteúdo de tais mensagens estavam de acordo com os precursores do espiritismo, como Jesus Cristo, Platão e Sócrates (embora estes 2 últimos raramente sejam mencionados pela maioria espírita no Brasil). 

Particularmente lembro-me de 2 textos psicografados por Chico. O 1º que eu esqueci o título, trazia severas críticas e acusações ao fundador da ordem dos jesuítas (Iñigo López de Oñaz y Loyola 1491-1556, traduzido como Inácio de Loyola) e veneração pelo fundador do protestantismo (Martin Luther 1483-1546, traduzido como Martinho Lutero). Uma interpretação exagerada da história por si só, pois não acho que algum destes 2 personagens tenha sido um santo perfeito - apenas foram humanos no centro de um momento decisivo (e talvez cheios de polêmicas) da história do ocidente: A reforma, ou divisão, da igreja católica que era poderosíssima até então durante o século 15. 

Porém, além deste fato, durante a leitura, uma nítida presença horrível (sentimentos ruins diferentes dos meus naquele momento, como uma outra mente que entendo que seja [de] algum espírito) tentou a me induzir a continuar lendo. Diante o fato, interrompi a leitura e considerei uma obra ruim. Afirmo que esta presença foi nítida por se tratar de algo tão real ou mais real do que a realidade que me cerca. Sei que este tipo de relato, de descrever fenômenos "mais reais do que reais", existe em outras experiências pouco aceitas pela ciência tradicional, como por exemplo, em caso de uso de substâncias psicodélicas/ enteógenas. Não há outra forma de descrever o fenômeno que presenciei ao ler tal obra. 

Mesmo se eu ignorasse o fenômeno incomum, o próprio conteúdo do texto, indica que Chico Xavier cometeu um equívoco aqui: No histórico conflito entre protestantes e jesuítas não houve um lado angelical contra um lado demoníaco. Embora Lutero certamente teve mais relevância do que Loyola na história da alternância de poder no ocidente, ambos os lados deixaram entre seus seguidores, personagens bons e ruins. 

Martinho Lutero não foi o primeiro a enfrentar a igreja católica: Jan Hus (1375-1415) foi um personagem tão importante quanto Lutero em questionar os poderosos na Europa, enfrentando tanto a igreja católica como o imperador germânico. Além de Hus, alguns dos filósofos platônicos como Giovanni Pico (1463-1494), também questionaram o poder da Igreja e seu autoritarismo. Não estou afirmando que Lutero foi insignificante: longe disto, mas pretender colocá-lo como um oposto à Loyola, alegando que o segundo agiu de acordo com "forças do mal", é um exagero, pois o processo histórico é gradual e cheio de desdobramentos. Lutero e os protestantes definitivamente diminuíram o poder absurdo predominante entre o alto clero católico na Europa abrindo caminhos para a religiosidade ocidental e possivelmente a criação da ordem dos jesuítas teve intenções de manipular e reganhar poder para a igreja católica. Porém qualquer um que estude a história da colonização da América, perceberá que alguns jesuítas defenderam a vida de comunidades ameríndias inteiras diante escravagistas como os encomederos espanhóis e os bandeirantes portugueses. Além disto há quem diga que Lutero teve alguma responsabilidade sobre a guerra dos camponeses e seu trágico desfecho que seguiu após a propagação de suas obras. Há indivíduos bons e ruins em ambos os lados e idolatrar ou demonizar qualquer um destes personagens é fomentar divisão e prolongar rixas que já deveriam ter acabado há séculos. 

O 2º texto do famoso autor espírita não me trouxe alegria e paz de espírito, mas me pareceu mais coerente e também me causou uma experiência mediúnica mais sutil: Uma sensibilidade seguida por uma emoção difícil de explicar - um tipo de tristeza, mas acompanhada de uma forte intuição de que há uma verdade na mensagem escrita pelo médium. Segue o texto: 

O enigma da obsessão 

"Comentávamos em círculo íntimo o inquietante enigma da obsessão na Terra, alinhando observações e apontamentos. Por que motivo se empenham criaturas encarnadas e desencarnadas em terríveis duelos no santuário mental? Que a vítima arrancada ao corpo, em delito recente, prossiga imantada ao criminoso, quando a treva da ignorância lhe situa o espírito a distância do perdão, é compreensível, mas como interpretar os processos de metodizada perseguição no tempo? Como entender o ódio de certas entidades, em torno de crianças e jovens, de enfermos e velhinhos? Por que a ofensiva persistente dos gênios perversos, através de reencarnações numerosas e incessantes? No mundo, os assalariados do mal comprometem-se ao redor de escuros objetivos... Há quem se renda às tentações do dinheiro, do poder político, das honras sociais e dos prazeres subalternos, mas em derredor de que razões lutam as almas desenfaixadas da carne se para elas semelhantes valores convencionais de posse não mais existem? 

Longa série de “porquês” empolgava-nos a imaginação, quando Menés, otimista ancião do nosso grupo, à maneira de carinhoso avô, falou bem humorado: – A propósito do assunto, contarei a vocês um apólogo que nos pode conferir alguma idéia acerca do nosso imenso atraso moral. E, tranqüila, narrou: – Em épocas recuadas, numa cidade que os séculos já consumiram, os bois sentiram que também eram criaturas feitas por nosso Pai Celestial, não obstante inferiores aos homens. Sentindo essa verdade, começaram a observar a crueldade com que eram tratados. O homem que, pela coroa de inteligência, devia protegê-los e educá-los, deles se valia para ingratos serviços de tração, sob golpes sucessivos de aguilhões e azorragues. Não se contentando com essa forma de exploração, escravizava-lhes as companheiras, furtando-lhes o leite dos próprios filhos, reservando-lhes à família e a eles próprios horrível destino no açougue, Se alguns deles hesitavam no trabalho comum, sofrendo com a tuberculose ou com a hepatite, eram, de pronto, encaminhados à morte e ninguém lhes respeitava o martírio final. Muitas pessoas compravam-lhes as vísceras cadavéricas ainda quentes, tostando-as ao fogo para churrascos alegres, enquanto outras lhes mergulhavam os pedaços sangrentos em panelas com água temperada, convertendo-os em saborosos quitutes para bocas famintas. Não conseguiam nem mesmo o direito à paz do túmulo, porque eram sepultados, aqui e ali, em estômagos malcheirosos e insaciáveis. Apesar de trabalharem exaustivamente para o homem, não conseguiam a mínima recompensa, de vez que, depois de abatidos, eram despojados dos próprios chifres e dos próprios ossos, para fortalecimento da indústria... Magoados e aflitos, começaram a reclamar; contudo, os homens, embora portadores de belas virtudes potenciais, receavam viver sem o cativeiro dos bois. Como enfrentarem, sozinhos, as duras tarefas do arado? Como sustentarem a casa sem o leite? Como garantirem a tranqüilidade do corpo sem a carne confortadora dos seres bovinos? O petitório era simpático, mas os bichos se mostravam tão nédios e tão tentadores que ninguém se arriscava à solução do problema. Depois de numerosas súplicas sem resposta, as vítimas da voracidade humana recorreram aos juízes; entretanto, os magistrados igualmente cultivavam a paixão do bife e do chouriço e não sabiam servir à Justiça, sem as utilidades do leite e do couro dos animais. Assim, o impasse permaneceu sem alteração e qualquer touro mais arrojado que se referisse ao assunto, a destacar-se da subserviência em que se mantinha o rebanho, era apedrejado, espancado e conduzido, irremediavelmente, ao matadouro... O venerável amigo fez longa pausa e acrescentou: – Essa é a luta multissecular entre encarnados e desencarnados que se devotam ao vampirismo. Sem qualquer habilitação para a vida normal, fora do vaso físico, temem a grandeza do Universo e recuam apavorados, ante a glória do Espaço Infinito, procurando a intimidade com os irmãos ainda envolvidos na carne, cujas energias lhes constituem precioso alimento à ilusão. E desse modo que as enfermidades do corpo e da alma se espalham nos mais diversos climas. Os homens, que se julgam distantes da harmonia orgânica sem o sacrifício dos animais, são defrontados por gênios invisíveis que se acreditam incapazes de viver sem o concurso deles. O enigma da obsessão, no fundo, é problema educativo. Quando o homem cumprir em si mesmo as leis superiores da bondade a que teoricamente se afeiçoa, deixará de ser um flagelo para a Natureza, convertendo-se num exemplo de sublimação para as entidades inferiores que o procuram... Então, a consciência particular inflamar-se-á na luz da consciência cósmica e os tristes espetáculos da obsessão recíproca desaparecerão da Terra... Até lá – concluiu, sorrindo –, reclamar contra a atuação dos Espíritos delinqüentes, conservando em si mesmo qualidades talvez piores que as deles, é arriscar-se, como os bois, à desilusão e ao espancamento. O ímã que atrai o ferro não atrai a luz. Quem devora os animais, incorporando-lhes as propriedades ao patrimônio orgânico, deve ser apetitosa presa dos seres que se animalizam. Os semelhantes procuram os semelhantes. Esta é a Lei. Afastou-se Menés, com a serenidade sorridente dos sábios, e a nossa assembléia, dantes excitada e falastrona, calou-se, de repente, a fim de pensar." 

O texto não afirma que a conversa tenha realmente ocorrido em nossa história no planeta Terra. Mas seu conteúdo praticamente converge um espiritual com um saber científico. Claro, tal convergência pode ser inaceitável tanto para cientistas que negam toda a realidade espiritual como para religiosos anti-científicos. Porém a indústria agropecuária é obviamente desalinhada com a natureza da Terra, pois ela é formada por pequenos grupos de seres humanos buscando acumular uma invenção humana chamada dinheiro, destruindo vários hectares de terra com seus respectivos biomas naturais para forçar a procriação de uma enorme quantidade de gado e poucas outras espécies de animais "domesticados". Estes animais forçados a procriar, são alimentados com produtos modificados geneticamente, com o objetivo exclusivo de se tornarem produtos para consumo humano. Tal consumo não é feito por causa da importância dos nutrientes da carne ou do leite de tais animais e sim porque os agropecuaristas querem enriquecer e os consumidores acham o produto saboroso, ambos ignorando o quanto isto devasta os biomas da Terra. Estes são os fatos científicos. 

 O saber religioso aqui escrito por Chico Xavier é o elemento espiritual do texto: Tudo é naturalmente gradual tanto nas leis espirituais como nas leis naturais, porque estas leis não estão totalmente separadas entre si; Na verdade elas se conectam pois são a mesma em níveis diferentes. Sócrates, Platão (no diálogo/ texto Górgias) e Kardec já afirmavam esta conexão entre lei natural e lei divina. Certamente os hindus têm algum entendimento disto também, já que consideram a "vaca como um animal sagrado". Sendo toda a lei gradual, a formação e a evolução dos espíritos também é. Forçar a reprodução de milhões de bovídeos tem seu impacto no fluxo espiritual: é uma consequência lógica. Os ateus e crentes de religiões que ignoram a vida animal podem viver sem entender isto, mas espíritas, umbandistas e hinduístas deveriam no ao menos considerar tal explicação espiritual.

 

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...