segunda-feira, 17 de março de 2025

Diálogo sobre a fé, a ética e a espiritualidade de Jesus

A figueira amaldiçoada, fé em Deus e o poder da oração (Mateus, Marcos) 
 Voltando para a cidade, de manhã, Jesus teve fome; 
E, avistando uma figueira perto do caminho, dirigiu-se a ela, e não achou nela senão folhas. Então disse-lhe: Jamais alguém coma fruto de ti. Nunca mais nasça fruto de ti! E a figueira secou imediatamente (No dia seguinte, pela manhã). 
E os discípulos, vendo isto, maravilharam-se, dizendo: Como secou imediatamente a figueira? 
Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, não só fareis o que foi feito à figueira, mas até se a este monte disserdes: Ergue-te, e precipita-te no mar, assim será feito; 
E, tudo o que pedirdes em oração, crendo (com fé), o recebereis. Mas, quando vos puserdes a orar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que também vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe os vossos pecados. Pois se não perdoardes, vosso Pai não os perdoará. 

 Jesus ensina a importância de se crer em Deus e o poder desta fé. Porém também indica como isto está vinculado ao seguimento dos ensinamentos de seus ensinamentos: Não adianta crer e pedir se não se perdoa o próximo: É preciso superar todos os ressentimentos, pois o rancor é contrário à lei divina. 
É possível que tal passagem também tenha alguma relação com a parábola da figueira que Jesus conta em outro momento: A figueira também foi utilizada como símbolo da inação (no caso de não dar frutos) e da ação humana conforme a lei de amor universal (no caso de gerar frutos). 

 Zaqueu recebe Jesus (Lucas) 
 Tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando. Eis que havia ali um homem chamado Zaqueu, um chefe dos publicanos, e era rico. 
Ele procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. E, correndo adiante, subiu a uma figueira brava para o ver; porque havia de passar por ali. 
Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque hoje me convém pousar em tua casa. E, apressando-se, desceu, e recebeu-o alegremente. 
Vendo todos isto, murmuravam, dizendo que entrara para ser hóspede de um homem pecador. E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado. 
E disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão. Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido. 

 Após encontrar Jesus em meio a multidão, Zaqueu comprometeu-se a abandonar seus costumes, arrependendo-se de seus erros (ou possíveis crimes) para praticar os ensinamentos de Cristo. Jesus então diz que Zaqueu também é “filho de Abraão”, indicando que pouco importa a nacionalidade da pessoa que se dedica à lei divina de amor e também indicando que todo aquele que se arrepende de seus erros ou crimes, deve ser acolhido. Sendo Deus, o criador onipresente, sua esperança solidária vai muito além de qualquer país, cobrindo o planeta Terra todo e mais. A solidariedade, a esperança e enfim, o amor de Deus (que é o mesmo amor ensinado por Jesus), transcende ciclos de criação e destruição do universo, por isso Ele quer que todos abracem esta lei que é universalmente benéfica. 
 Muitos podem perguntar “porque Deus não fez o ser humano puro e bom”? Mas este mistério deve fazer parte do livre arbítrio que Ele deu aos seres humanos e a partir daí existem a diversidade e a individualidade não só na civilização como também entre todas formas de vida. 
 Ao caírem no egoísmo, no orgulho ou no vício, muitos se perdem no caminho, mas isto faz parte de um aprendizado que certamente vai além de uma mera existência na Terra, afinal nossa alma, ou espírito, é imortal. Esta imortalidade de nossa alma está explícita não só em toda religião cristã, como também em outras religiões e filosofias como no espiritismo, na umbanda, no candomblé, em algumas vertentes do hinduísmo, na religião órfica da Grécia antiga, na antiga religião celta etc. 
 Jesus ensina que construir uma convivência piedosa, solidária e equitativa na Terra é o caminho para se alcançar uma felicidade que vai além desta vida: vai até uma de suas moradas, ou até o que ele chama de Reino dos Céus. Assim o Reino dos Céus é uma finalidade espiritual e também um sentido de vida e uma prática (de amor, equidade etc) que deve-se propagar aqui na Terra.

 Parábola dos Lavradores Homicidas (Mateus/ Marcos/ Lucas) 
Então Jesus passou a contar ao povo esta parábola: "Certo homem plantou uma vinha, arrendou-a a alguns lavradores e ausentou-se por longo tempo. 
Na época da colheita, ele enviou um servo aos lavradores, para que lhe entregassem parte do fruto da vinha. Mas os lavradores o espancaram e o mandaram embora de mãos vazias. 
Ele mandou outro servo, mas a esse também espancaram e o trataram de maneira humilhante, mandando-o embora de mãos vazias. 
Enviou ainda um terceiro, e eles o feriram e o expulsaram da vinha. 
"Então o proprietário da vinha disse: 'Que farei? Mandarei meu filho amado; quem sabe o respeitarão'. 
"Mas quando os lavradores o viram, combinaram uns com os outros dizendo: 'Este é o herdeiro. Vamos matá-lo, e a herança será nossa'. 
Assim, lançaram-no fora da vinha e o mataram. 
"O que lhes fará então o dono da vinha? 
Virá, matará aqueles lavradores e dará a vinha a outros". (resposta dos fariseus em Mateus e Marcos) 
Quando o povo ouviu isso, disse: "Que isso nunca aconteça!" 
Jesus olhou fixamente para eles e perguntou: "Então, qual é o significado do que está escrito? (Nunca lestes as escrituras:) 
'A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular.' “Isto é obra do Senhor e é admirável aos nossos olhos”. 
Todo o que cair (tropeçar) sobre esta pedra será despedaçado, e aquele sobre quem ela cair será (esmagado) reduzido a pó". 
Os mestres da lei e os chefes dos sacerdotes (fariseus) procuravam uma forma de prendê-lo imediatamente, pois perceberam que era contra eles que ele havia contado essa parábola. Todavia tinham medo do povo. 

 Deus deu uma missão ao povo, seja aos hebreus/ judeus, ou a toda civilização humana: A missão de fazer o bem, ou plantar e cultivar o bem. O bem não é propriedade de uns poucos, não é para poucos - é para todos, pois é um valor universal - é ético. 
Os vinhateiros da parábola contada por Jesus diante os fariseus, se mostraram egoístas, ambiciosos e por fim, violentos. Era exatamente como aqueles religiosos judeus (fariseus etc) tinham se tornado.
 No texto de Mateus, o homem que planta a vinha e arrenda suas terras aos lavradores, é chamado de pai de família. Tanto em Mateus, como em Marcos e em Lucas, este personagem se refere a Deus. Seus servos são os profetas e o seu filho, é Jesus. 
A seguir, Jesus cita Isaías (5 1-7), sobre a ingratidão do povo eleito: os construtores que rejeitam a pedra são os religiosos corruptos como os do judaísmo da época em que Jesus andou pela Terra. Estes mesmos construtores que rejeitam a pedra, são os vinhateiros que rejeitam os enviados do senhor, são os religiosos que rejeitam os profetas que trazem os ensinamentos sobre o bem - a palavra de Deus. 
Por fim, nada é do povo eleito, nem do ser humano. Nenhuma terra ou construção deveria pertencer a determinados grupos ou a determinadas pessoas. Tudo pertence a Deus onipresente e onipotente, como mencionado no trecho “Vosso é o Reino, o Poder e a Glória, agora e para sempre”. Amar a Deus é amar o próximo e a si mesmo, é amar a todos e a tudo; é querer o bem de todos, sem possessividade. 
Platão, em obras como Górgias e Apologia de Sócrates, mostra como o filósofo Sócrates não temia os poderosos na Terra. Na 1ª obra mencionada aqui, Sócrates mostra ao retórico (orador) Górgias, como é importante buscar e priorizar a justiça e o bem. O filósofo mostra para Górgias e seus apoiadores, como eles estavam enganados ao se apagarem a ideia de que podiam tudo na Terra: Usavam da persuasão para criar crendices nas pessoas, buscando viver uma vida incontida cheia de status e riquezas materiais. Sócrates menciona que a alma injusta e enganosa, na verdade é infeliz e que neste caso, essa infelicidade se propaga além da vida na Terra. Além disto, sutilmente, Sócrates indica que esta infelicidade fica no íntimo da alma (psiquê) do enganador, ou seja, a infelicidade existe no inconsciente da pessoa mentirosa. Na 2ª obra mencionada, Sócrates aparece respondendo ao seus acusadores, em um julgamento injusto, mostrando destemor diante a morte, pois lutava constantemente pelo que era justo e bom, criticando aqueles que lutam por dinheiro ou por status. 

 

segunda-feira, 10 de março de 2025

Diálogo sobre "Cura de Bartimeu/ O cego de nascença"

A seguir trago as passagens sobre a cura do(s) cego(s) realizada por Jesus; Na bíblia, tal passagem, parece ser tratada por Mateus, Marcos e Lucas como se fossem praticamente a mesma história; enquanto a passagem do cego de nascença mencionada no evangelho de João é tratada como uma outra história. Aqui as 4 estão unidas como uma possível interpretação de uma única passagem da vida de Jesus:
LegendasMateus: Azul, Marcos: verde, Lucas: Vermelho, João: Amarelo; Mais de 1 autor: Preto

Cura de Bartimeu em Jericó/ O cego de nascença (Mateus, Marcos, Lucas, João) 
Chegaram a Jericó. Ao sair dali, Jesus seguido pelos apóstolos e uma grande multidão, viu um homem cego de nascença. (Ali) estavam dois cegos assentados junto do caminho, mendigando. (Um deles) era o filho de Timeu
 Ouvindo passar a multidão, perguntou que era aquilo e disseram-lhe que Jesus Nazareno passava. Bartimeu (filho de Timeu), sabendo que era Jesus, clamou, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! 
E os que iam passando repreendiam-no para que se calasse; mas ele clamava ainda mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim! 
E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? 
Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus. 
Convém que eu faça as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo. 
Então Jesus, parando, mandou que lho trouxessem; e, chegando ele, perguntou-lhe, Dizendo: Que queres que te faça? E ele disse: Senhor, que eu veja. 
Tendo dito isto, cuspiu na terra, e com a saliva fez lodo, e untou com o lodo os olhos do cego. E Jesus lhe disse: Vai, lava-te no tanque de Siloé (que significa o Enviado). Vê; a tua fé te salvou. Foi, pois, e lavou-se, e voltou vendo. E todo o povo, vendo isto, dava louvores a Deus. 
Então os vizinhos, e aqueles que dantes tinham visto que era cego, diziam: Não é este aquele que estava assentado e mendigava? 
Uns diziam: É este. E outros: Parece-se com ele. Ele dizia: Sou eu. 
 Diziam-lhe, pois: Como se te abriram os olhos? 
Ele respondeu, e disse: O homem, chamado Jesus, fez lodo, e untou-me os olhos, e disse-me: Vai ao tanque de Siloé, e lava-te. Então fui, e lavei-me, e vi. 
Disseram-lhe, pois: Onde está ele? Respondeu: Não sei. 
Levaram, pois, aos fariseus o que dantes era cego. 
E era sábado quando Jesus fez o lodo e lhe abriu os olhos. 
Tornaram, pois, também os fariseus a perguntar-lhe como vira, e ele lhes disse: Pôs-me lodo sobre os olhos, lavei-me, e vejo. 
Então alguns dos fariseus diziam: Este homem não é de Deus, pois não guarda o sábado. Diziam outros: Como pode um homem pecador fazer tais sinais? E havia dissensão entre eles. 
Tornaram, pois, a dizer ao cego: Tu, que dizes daquele que te abriu os olhos? E ele respondeu: Que é profeta. 
Os judeus, porém, não creram que ele tivesse sido cego, e que agora visse, até chamarem os pais do que agora via. E perguntaram-lhes, dizendo: É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Como, pois, vê agora? 
Seus pais lhes responderam, e disseram: Sabemos que este é o nosso filho, e que nasceu cego; Mas como agora vê, não sabemos; ou quem lhe tenha aberto os olhos, não sabemos. Tem idade, perguntai-lho a ele mesmo; e ele falará por si mesmo. 
Seus pais disseram isto, porque temiam os judeus. Porquanto já os judeus tinham resolvido que, se alguém confessasse ser ele o Cristo, fosse expulso da sinagoga. 
Por isso é que seus pais disseram: Tem idade, perguntai-lho a ele mesmo. 
Chamaram, pois, pela segunda vez o homem que tinha sido cego, e disseram-lhe: Dá glória a Deus; nós sabemos que esse homem é pecador. 
Respondeu ele pois, e disse: Se é pecador, não sei; uma coisa sei, é que, havendo eu sido cego, agora vejo. 
E tornaram a dizer-lhe: Que te fez ele? Como te abriu os olhos? 
Respondeu-lhes: Já vo-lo disse, e não ouvistes; para que o quereis tornar a ouvir? Quereis vós porventura fazer-vos também seus discípulos? 
Então o injuriaram, e disseram: Discípulo dele sejas tu; nós, porém, somos discípulos de Moisés. Nós bem sabemos que Deus falou a Moisés, mas este não sabemos de onde é. 
O homem respondeu, e disse-lhes: Nisto, pois, está a maravilha, que vós não saibais de onde ele é, e contudo me abrisse os olhos. 
Ora, nós sabemos que Deus não ouve a pecadores; mas, se alguém é temente a Deus, e faz a sua vontade, a esse ouve. 
Desde o princípio do mundo nunca se ouviu que alguém abrisse os olhos a um cego de nascença. Se este não fosse de Deus, nada poderia fazer. 
Responderam eles, e disseram-lhe: Tu és nascido todo em pecados, e nos ensinas a nós? E expulsaram-no. 
Jesus ouviu que o tinham expulsado e, encontrando-o, disse-lhe: Crês tu no Filho de Deus? 
Ele respondeu, e disse: Quem é ele, Senhor, para que nele creia? 
E Jesus lhe disse: Tu já o tens visto, e é aquele que fala contigo. 
Ele disse: Creio, Senhor. E o adorou, e seguia-o, glorificando a Deus 
E disse-lhe Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não vêem vejam, e os que vêem sejam cegos. 
E aqueles dos fariseus, que estavam com ele, ouvindo isto, disseram-lhe: Também nós somos cegos? 
Disse-lhes Jesus: Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece. 

 Por alguma razão que considerou importante, somente Marcos citou o nome do cego, que significa Filho de Timeu. Certamente um nome raro, já que é a mistura de um nome judaico com grego. 
 Seria o cego de nascença citado por João, um dos 2 citados por Mateus? Seria o mesmo citado por Lucas e Marcos (Bartimeu)? Seriam "todos eles" um só personagem? Não se sabe, afinal Jesus curou muitas pessoas e esta torna-se mais uma questão de menor importância dos evangelhos. O que pode indicar que o cego de nascença e Bartimeu sejam a mesma pessoa, é o fato de que "ambos cegos" são descritos como mendigo(s) e também o seguinte trecho do evangelho de João: “Ele (o ex-cego) disse: Creio, Senhor. E o adorou.” É possível que este ato de adorar se refira ao ato de seguir Jesus, como o cego de nascença fez. 
 Esta passagem traz mais uma demonstração que a verdadeira gratidão envolve uma mudança de postura: Bartimeu passou a seguir Jesus em sua missão, e louvar a Deus. 
Já os religiosos (judeus fariseus etc) são claramente arrogantes como mostra João, o Evangelista, nesta passagem: Eles não se conformavam com o cego ter sido curado e afirmavam que Deus conversava com Moisés, mas não com pecadores. O primeiro problema desta afirmação é a clara tentativa de se auto afirmarem como os escolhidos de Deus, ou os únicos verdadeiros religiosos (fato que ainda vemos em certas igrejas neste início de século 21); O segundo problema é: Se Jesus é o escolhido de Deus (ou o próprio Deus encarnado), ele conversa com os pecadores! Esses pecadores arrependidos em diversas passagens não são curados nem ouvidos por Jesus porque eles passaram a seguir uma suposta religião do mesmo - Não há prova clara que Jesus tivesse uma religião, pois ele não construiu igreja e pregava mais nas ruas do que em sinagogas. Os pecadores são ouvidos e curados porque Jesus vivia o amor divino para com toda a criação de Deus, ou seja, o amor por toda a vida. Os ensinamentos de Jesus então certamente são uma prática espiritual, um sentido de vida ético pautado pelo amor universal.
O fato é que Jesus ao priorizar o amor piedoso e equitativo por todos, enfrentava claramente os costumes ritualísticos e materialistas das seitas judaicas corruptas; Curava os doentes, os tocava chegando a utilizar saliva e barro, além de ajudar os necessitados nos dias de sábado. Isto é praticar a lei divina de amor enfrentando os mentirosos e desmascarando-os, pois esta é a melhor forma de combater o egoísmo, a opressão e a mentira: Praticando o bem, trabalhando a empatia e espalhando equidade. 
 Também é importante notar que o cego citado no evangelho de João não enxergava desde seu nascimento e que os discípulos perguntaram a Jesus: “… quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?”. O argumento que o pecado dos pais poderia punir o filho com uma vida miserável e/ou difícil é derrubado pelo profeta Ezequiel muitos anos antes de Cristo, então é possível que os discípulos de Jesus entendiam a possibilidade do cego ter pecado antes de nascer, ou seja, em outra encarnação. Isto parece o indício de uma espiritualidade ou religião reencarnacionista (como o druidismo celta, o platonismo, a espiritualidade yoruba, o hinduísmo entre outras). O espiritismo, que é uma filosofia que busca unir o cristianismo com a ciência, explica outros trechos da bíblia onde é possível entender a relação da reencarnação com os ensinamentos de Jesus. 

 

segunda-feira, 3 de março de 2025

Jesus ensina toda a humanidade, sem priorizar nação alguma

As 3 passagens seguintes podem parecer tratar temas distintos entre si, mas em algum nível todas indicam que os ensinamentos de Jesus, pautados pelo piedoso amor universal, eram para todos seres humanos de todas as culturas e nacionalidades diferentes entre si (fossem judeus, romanos ou qualquer outro povo). Sendo assim, Jesus não veio salvar um povo escolhido ou "predestinado" e em suas caminhadas pregando o amor universal entre todas as pessoas, ele sabia que incomodaria os mais gananciosos e os mais intolerantes. Ele sabia que seria perseguido e punido por tal tipo de gente sedenta por poder e/ ou por riquezas materiais.

 Parábola do fariseu e do publicano (Lucas) 
E disse (Jesus) também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e desprezavam os outros: 
Dois homens subiram ao templo, para orar; um, fariseu, e o outro, publicano.
O fariseu, estando em pé, orava consigo desta maneira: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano.
Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.
O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!
Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque qualquer que a si mesmo se exalta será humilhado, e qualquer que a si mesmo se humilha será exaltado.

 As aparências pouco importam: Ainda hoje, passado mais de 2000 anos desde que Jesus pregou seus ensinamentos na Terra, é possível ver muitos líderes religiosos falsos: Fingem-se fiéis fervorosos do cristianismo, quando na verdade estão interessados só em seus ganhos materiais. O fariseu da parábola citada por Jesus, aparece como o religioso preconceituoso que julga os diferentes (chamando todos de cultura e religião diferentes da sua própria, de ladrões, pecadores etc) e se acha melhor do que os outros, exibindo-se de seus esforços.
O publicano não representa apenas o indivíduo discreto, mas também o estrangeiro, que em sua maioria tinha fé diferente da judaica / cristã e que em comparação ao sacerdote hipócrita (seja pastor, padre, bispo etc), é uma pessoa mais sincera, mais humilde e mais fiel a Deus. 
Na época de Jesus, o Império Romano tinha como religião principal seu politeísmo (pagão), sendo o monoteísmo praticamente uma religião particular dos judeus e talvez de outras minorias. Afinal o cristianismo só foi definitivamente aceito no Império Romano no ano de 313 depois de Cristo e as primeiras igrejas cristãs começaram a ser construídas nesta época. Nota-se então que Jesus que viveu 3 séculos antes da propagação do monoteísmo; Em sua época, entre os anos 1 e 33 d.C. e antes disto, os povos falantes das línguas aramaica e hebraica, chamavam o Criador de Javé, ou mais precisamente Yahveh, pois o nome Deus é do idioma latim, ou seja, a língua dos romanos que eram politeístas em sua maioria...
Jesus indica que o publicano, mesmo sendo de uma cultura muito diferente, era mais humilde e mais fiel do que aquele que pertencia à religião "original", ensinada por Moisés, Abraão e os demais profetas (monoteísta, que crê em apenas um Deus). O ensinamento de Jesus é assim porque a verdadeira fé em Deus e em sua lei de amor, não pertence a uma determinada religião, nem a um determinado povo! Não deve-se preferir então, um determinado culto, templo ou nação: Para Deus, todos os seres humanos são seus filhos, os quais ele piedosamente espera no reino dos céus. Como a lei divina é de amor, obviamente o orgulhoso se afasta de Deus, que é piedoso, enquanto o humilde se aproxima.
Fica evidente que os ensinamentos de Jesus tinham uma ética universal como base. A ética do amor piedoso a todas as coisas; 
Ética universal não era uma exclusividade de Jesus, pois já existia na Helade (Grécia) poucos séculos antes da expansão do Império Romano; A filosofia ocidental fundada por Platão e seu mestre Sócrates não citava o amor da forma que Jesus citava, mas era pautada pela ética alicerçada em valores universais como a justiça, a coragem, a moderação e o bem (bondade)/ belo (kalos). Além disto, tal ética era tema central da filosofia que construía conhecimento em diálogo com o naturalismo de filósofos anteriores e com a espiritualidade das cidades/ estado gregas; Fosse essa espiritualidade o politeísmo da cosmogonia (mitologia) homérica-hesiódica, a religião órfica, o "misticismo" pitagórico ou as profecias/ oráculos das pitonisas. Em seus textos éticos que dialogavam com a espiritualidade, Platão mostrou que possivelmente seu mestre Sócrates mencionava o Deus, como entidade única e suprema (criadora de todas as coisas). Embora alguns estudiosos (como André Malta) afirmem que esse deus de Sócrates seja Apolo, é possível que o filósofo grego tenha entendido Deus a partir de Nous, a mente cósmica, conforme Anaxágoras, um de seus mestres, ensinava: Nous seria a mente criadora por trás de toda a harmonia do universo e essa mente seria chamada de inteligência divina por Platão, possivelmente sendo sinônimo do Demiurgo (o Arquiteto criador de todas as coisas). Na obra Fédon, Sócrates aparece discursando como ele entende que essa mente por trás da harmonia do universo, é boa e busca a melhor forma das coisas serem. Assim o Deus citado por Sócrates (e Platão) certamente era justo e bondoso, pois em seus diálogos, Sócrates mostrou-se mais piedoso e mais comprometido com a verdade e com o bem do que religiosos de seu tempo como Eutífron, que empregava um significado falso para a palavra piedade. Apesar da humildade e da sinceridade de Sócrates, ele acabou julgado e condenado à morte pelos seus opositores, uma classe de pessoas constituída por ricos e religiosos de sua cultura e época (a Grécia do ano 399 a.C.).

 Opinião dos judeus sobre Jesus (João) 
Então alguns dos de Jerusalém diziam: Não é este o que procuram matar? 
E ei-lo aí está falando abertamente, e nada lhe dizem. Porventura sabem verdadeiramente os príncipes que de fato este é o Cristo? 
Todavia bem sabemos de onde este é; mas, quando vier o Cristo, ninguém saberá de onde ele é. Clamava, pois, Jesus no templo, ensinando, e dizendo: Vós conheceis-me, e sabeis de onde sou; e eu não vim de mim mesmo, mas aquele que me enviou é verdadeiro, o qual vós não conheceis. Mas eu conheço-o, porque dele sou e ele me enviou. 
Procuravam, pois, prendê-lo, mas ninguém lançou mão dele, porque ainda não era chegada a sua hora. 
E muitos da multidão creram nele, e diziam: Quando o Cristo vier, fará ainda mais sinais do que os que este tem feito? 
Os fariseus ouviram que a multidão murmurava dele estas coisas; e os fariseus e os principais dos sacerdotes mandaram servidores para o prenderem. 
Disse-lhes, pois, Jesus: Ainda um pouco de tempo estou convosco, e depois vou para aquele que me enviou. Vós me buscareis, e não me achareis; e onde eu estou, vós não podeis vir. 
Disseram, pois, os judeus uns para os outros: Para onde irá este, que o não acharemos? Irá porventura para os dispersos entre os gregos, e ensinará os gregos? Que palavra é esta que disse: Buscar-me-eis, e não me achareis; e: Aonde eu estou vós não podeis ir? 
E no último dia, o grande dia da festa, Jesus pôs-se em pé, e clamou, dizendo: Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. 
Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre. 
E isto disse ele do Espírito que haviam de receber os que nele cressem; porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado. 
Então muitos da multidão, ouvindo esta palavra, diziam: Verdadeiramente este é o Profeta. 
Outros diziam: Este é o Cristo; mas diziam outros: Vem, pois, o Cristo da Galiléia? 
Não diz a Escritura que o Cristo vem da descendência de Davi, e de Belém, da aldeia de onde era Davi? 
Assim entre o povo havia dissensão por causa dele. E alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém lançou mão dele. 
E os servidores foram ter com os principais dos sacerdotes e fariseus; e eles lhes perguntaram: Por que não o trouxestes? 
Responderam os servidores: Nunca homem algum falou assim como este homem. 
Responderam-lhes, pois, os fariseus: Também vós fostes enganados? 
Creu nele porventura algum dos principais ou dos fariseus? 
Mas esta multidão, que não sabe a lei, é maldita. 
Nicodemos, que era um deles (o que de noite fora ter com Jesus), disse-lhes: 
Porventura condena a nossa lei um homem sem primeiro o ouvir e ter conhecimento do que faz? Responderam eles, e disseram-lhe: És tu também da Galiléia? Examina, e verás que da Galiléia nenhum profeta surgiu. 
E cada um foi para sua casa. 

 As seitas judaicas como os saduceus e os fariseus se apegavam a diversas questões supérfluas, principalmente aos argumentos materialistas. Um dos motivos para recusarem Jesus e seus ensinamentos é porque entenderam que ele nasceu na Galiléia. O local preciso do nascimento de Jesus então, se mostra mais um tema insignificante, cujas discussões em torno só servem para gerar separatividade, discórdia e conflito. Tais seitas priorizavam locais, rituais e posses, diminuindo a importância da equidade, do amor, da humildade e de outros ensinamentos de Cristo. 
 Estas questões materiais sobre Jesus são algumas das causas das dissensões como mencionada nesta passagem escrita por João e também nas cartas de Paulo. 

 Terceiro anúncio da paixão (Mateus, Marcos, Lucas) 
 E, tomando consigo os doze, disse-lhes: Eis que subimos a Jerusalém, e se cumprirá no Filho do homem tudo o que pelos profetas foi escrito; 
Pois há de ser entregue aos gentios, e escarnecido, injuriado e cuspido; E, havendo-o açoitado, o matarão; e ao terceiro dia ressuscitará. 
Eles nada disto entendiam, e esta palavra lhes era encoberta, não percebiam o que se lhes dizia.

 Os ensinamentos de Jesus são centrados no amor que se manifesta de modo sereno, amigável e piedoso - tudo isto irritava os infelizes, principalmente os gananciosos que nunca estavam satisfeitos com suas posses e bens. Jesus obviamente sabia disto, pois seus ensinamentos priorizavam a humildade e a equidade, que são coisas impensáveis e insuportáveis para os ricos e os poderosos.

 

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Leitura Ecumênica sobre os injustos e a justiça de Deus

Aqui trago uma passagem de Lucas e duas atribuídas a Felipe, sendo estas duas últimas não aceitas nas igrejas católicas e protestantes (evangélicas);

Parábola do juiz iníquo (Lucas) 
 E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer, Dizendo: Havia numa cidade um certo juiz, que nem a Deus temia, nem respeitava o homem. 
 Havia também, naquela mesma cidade, uma certa viúva, que ia ter com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário.
 E por algum tempo não quis atendê-la; mas depois disse consigo: Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens, Todavia, como esta viúva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte, e me importune muito.
 E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz.
 E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?
 Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?
 Se até mesmo uma autoridade arrogante e injusta pode fazer justiça às vezes, porque Deus, que é o piedoso criador, não faria justiça? A viúva pediu tanto ao juiz, que este acabou cedendo, portanto o fiel que ora pedindo justiça, certamente alcançará a justiça. A dúvida que Jesus deixa no fim da parábola é: As pessoas manterão sua fé? Serão fiéis à lei divina que é justa?

 O Espírito Santo age até mesmo sobre os malignos (Filipe)
 "O Pai" e "o Filho" são nomes únicos; "o Espírito Santo" é um nome duplo. Pois eles estão em toda parte: estão em cima, estão em baixo; eles estão no oculto, eles estão no revelado. O Espírito Santo está no revelado: está abaixo. Está no oculto: está acima.
 Os santos são servidos por poderes malignos, pois (os poderes malignos) são cegados pelo Espírito Santo a pensar que estão servindo a um homem (comum) sempre que o fazem pelos santos. Por causa disso, um discípulo pediu um dia ao Senhor algo deste mundo. Ele lhe disse: "Peça à sua mãe, e ela lhe dará das coisas que são de outro".
 Esta explicação de Filipe está em acordo com o espiritismo e com religiões que lidam com espíritos frequentemente, como a umbanda por exemplo. Os espíritos benignos, são servos de Deus e são naturalmente mais expansivos, mais puros e portanto, superiores aos espíritos malignos, agindo sobre estes para que sirvam à lei divina. Isto também explica a parábola do juiz iníquo, que apesar de ser uma pessoa egoísta, foi usado para o bem.

 O Espírito Santo age em segredo desde o princípio (Filipe)
 Antes de Cristo vir, não havia pão no mundo, assim como o Paraíso, o lugar onde estava Adão, tinha muitas árvores para alimentar os animais, mas nenhum trigo para sustentar o homem. O homem se alimentava como os animais, mas quando Cristo veio, o homem perfeito, trouxe pão do céu para que o homem pudesse se alimentar com o alimento do homem. Os governantes pensavam que era por seu próprio poder e vontade que estavam fazendo o que faziam, mas o Espírito Santo em segredo estava realizando tudo por meio deles como desejava. A verdade, que existia desde o princípio, é semeada em todos os lugares. E muitos o vêem sendo semeado, mas poucos são os que o vêem sendo ceifado.

 A linguagem de Filipe pode ser considerada mística neste trecho, pois ele se refere a Cristo (Jesus) não encarnado, existente desde antes da raça humana habitar a Terra. Da mesma forma ele se refere a Adão, para exemplificar que houve uma era distante no passado em que o ser humano não sabia plantar trigo nem fazer pão. 
 Deus transcende nossa realidade, pois Ele vai além do espaço-tempo. Ele tudo sabe pois é “o começo e o fim”, afinal ele é o Criador do universo. Sua ação é sutil, por isso poucos vêem os resultados de sua obra e a sua lei é de amor, por isso ele nos deu o livre arbítrio e ainda assim cuida de nós, permitindo-nos progredir ao longo das eras.

 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Leitura sobre Perdão, Arrependimento e Humildade

Parábola da moeda perdida (Lucas) 
 "Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma dracma, não acende a candeia, e varre a casa, e busca com diligência até a achar?
 E achando-a, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: Alegrai-vos comigo, porque já achei a dracma perdida.
 Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende."
 Perdão, tolerância e esperança são temas centrais nos ensinamento de Jesus e portanto no cristianismo em sua origem: Esta é mais uma passagem que mostra que Deus e o reino dos céus, com todos seus anjos, não punem e sim, pacientemente aguardam que todos se arrependam de seus pecados. Eles não forçam pessoa alguma, nem impõem, oprimem ou intimidam, pois Deus deu o livre arbítrio a todos seres humanos. 
Arrepender-se dos pecados é enxergar as próprias impurezas de pensamento, sentimento e atitudes e então deixá-las para trás. Não é um rigor cego e ignorante, pois requer refletir sobre si mesmo e mudar para seguir a lei divina de amor, ou seja, para ser humilde, solidário e esperançoso.

 Parábola do filho pródigo (Lucas) 
  E Jesus disse: Um certo homem tinha dois filhos;
 E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me pertence. E ele repartiu por eles a fazenda.
 Poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente.
 Havendo ele gastado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a padecer necessidades. Então chegou-se a um dos cidadãos daquela terra, o qual o mandou para os seus campos, a apascentar porcos. Desejava encher o seu estômago com as bolotas (vagens) que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada. E, tornando em si, disse: Quantos jornaleiros (empregados) de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!
 Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti; Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros.
 E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.
 E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa; e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e alparcas nos pés; E trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos; Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se.
 O seu filho mais velho estava no campo; e quando veio, e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças. E, chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo.
 Ele lhe respondeu: Veio teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou, e não queria entrar.
 E saindo o pai, instava com ele. Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos; Vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado.
 E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas;
 Mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e achou-se.
 Esta parábola mostra como o filho mais novo se arrependeu de seus erros e como seu pai nunca deixou de amá-lo. O pai, como qualquer pessoa que se devotou ao bem de alguém além de si mesmo e teve amizade com outra pessoa, esteve pronto para perdoar seu filho. Com admiração e alegria de reencontrar o filho mais novo, deu-lhe uma festa, também continuando a amar o seu filho mais velho, confiando neste que sempre esteve ao seu lado. Deus não rejeita seus filhos, não se afasta dos seres humanos - são estes que quando erram, ou seja, quando pecam, que se afastam do Criador. 
 Interessante também é notar que esta parábola indica que Deus sempre perdoa (este ato de sempre perdoar também é mostrado no diálogo entre Jesus e Nicodemos, citado por João). e que nas sociedades humanas, este amor que sempre perdoa é mais comum nas mulheres - particularmente nas mães em relação a seus filhos e filhas. Possivelmente a dificuldade de entender e aplicar tais ensinamentos se deve à predominância do patriarcado nas civilizações humanas e a sua propagação de machismo. Após a morte de Jesus, as guerras por motivos religiosos predominaram na Europa por cerca de 1600 anos! O machismo então demorou mais 350 anos (aproximadamente) para começar a ser questionado e derrubado. Apesar desta demora milenar, a importância do perdão e do acolhimento começa a ficar socialmente mais perceptível… Deus nos espera, assim como a mãe espera que seus filhos desaparecidos voltem para sua casa.

 Parábola do administrador infiel (Lucas) 
 E dizia também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo (administrador); e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens.
 E ele, chamando-o, disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua mordomia (administração), porque já não poderás ser mais meu mordomo.
 E o mordomo disse consigo: Que farei, pois que o meu senhor me tira a mordomia? Cavar (lavrar), não posso. De mendigar, tenho vergonha... Eu sei o que hei de fazer, para que, quando for desapossado da mordomia, me recebam em suas casas.
 Chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor?
 E ele respondeu: Cem medidas de azeite. O mordomo disse-lhe: Toma a tua obrigação, e assentando-te já, escreve cinqüenta.
 Disse depois a outro: E tu, quanto deves? Ele respondeu: Cem alqueires de trigo. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e escreve oitenta.
 E louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz.
 E eu vos digo: Granjeai amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos.
 Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito.
 Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras?
 E, se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?
 Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom.
 E os fariseus, que eram avarentos, ouviam todas estas coisas, e zombavam dele.
 E disse-lhes: Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece os vossos corações, porque o que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação.
 A lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o reino de Deus, e todo o homem emprega força para entrar nele.
 E é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til da lei.
 Qualquer que deixa sua mulher, e casa com outra, adultera; e aquele que casa com a repudiada pelo marido, adultera também.
 Quem é fiel nas coisas pequenas também o é nas coisas grandes e assim também é com o infiel, que trai nos assuntos supérfluos e nos assuntos importantes. 
 Esta parábola não está entre as mais simples, pois requer entender o contexto de sua época: O administrador típico do século 1 cobrava uma taxa a mais sobre os clientes - Algo que o personagem da parábola abdicou: Ele preferiu manter as amizades do que ganhar dinheiro/ lucro. 
 Não devemos nos apegar a coisas materiais, nem priorizá-las diante a possibilidade de fazer amizades sinceras, pois o mundo material é passageiro. Fazer o bem, é deixar de ser mesquinho, é ser solidário, é buscar equidade - Tudo isto é mais humano e, portanto, mais importante do que juntar dinheiro e buscar lucro. O lucro, ou seja, a obtenção de vantagens em relação ao próximo, gera e perpetua competitividade e rixas, enquanto a solidariedade gera amizades e perpetua a paz.

 Lição de Humildade (Lucas)
 E qual de vós terá um servo a lavrar ou a apascentar gado, a quem, voltando ele do campo, diga: Chega-te, e assenta-te à mesa?
 E não lhe diga antes: Prepara-me a ceia, e cinge-te, e serve-me até que tenha comido e bebido, e depois comerás e beberás tu?
 Porventura dá graças ao tal servo, porque fez o que lhe foi mandado? Creio que não.
 Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer.
 Nessa passagem, Jesus não está incentivando a oprimir o servo nem os empregados ou qualquer pessoa em situação parecida com esta. Ele dá um exemplo da sociedade de sua época, onde a servidão era aceita na lei e pela maioria do povo. Assim, ele compara os fiéis aos servos, indicando que a humildade deve ser o caminho natural: Aqueles que servem a lei divina de amor, devem servir ao próximo e a Deus, praticando o bem. O servo que tem orgulho, vaidade, inveja ou rancor, por exemplo, não tem humildade, pois esta postura é um dos pré-requisitos do cristão.
 
O leproso agradecido (Lucas)
 Indo Jesus a Jerusalém, passou pelo meio de Samaria e da Galiléia;
 Entrando numa certa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe; E levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós.
 Jesus, vendo-os, respondeu-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. 
 E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos.
 Um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz;
 Caiu aos pés de Jesus, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano.
 E, respondendo Jesus, disse: Não foram dez os limpos? E onde estão os nove?
 Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?
 E disse-lhe: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou. 
 A passagem mostra o quanto é necessário sermos gratos pelas coisas boas que nos acontecem e que nos dão. A gratidão neste caso é um indicativo de mudança de postura em vida: O homem que voltou e agradeceu a Jesus, glorificando a Deus, mostrou-se humilde e interessado na bondade de Jesus. Os demais leprosos, ao não agradecerem nem louvarem a Deus, mostraram-se indiferentes ao bem recebido e certamente não foram nem humildes nem verdadeiramente gratos. Também é notável que o agradecido não era judeu, nem da mesma "nacionalidade" ou "etnia" de Jesus: era um estrangeiro. Isto mostra que os ensinamentos de Jesus nada tem a ver com nacionalidade, seja israelita, judia, hebraica ou qualquer outra.

 

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Leitura sobre A Festa de Bodas e Sal na Terra/ Luz no Mundo

Parábola do Grande Banquete/ da Festa de Bodas (Tomé, Mateus, Lucas
 Porém, Jesus lhe disse: Um certo homem (rei) fez uma grande ceia (celebrava as bodas de seu filho), e convidou a muitos. 
 E à hora da ceia mandou o(s) seu(s) servo(s) dizer(em) aos convidados: Vinde, que já tudo está preparado. E todos à uma começaram a escusar-se. 
 Disse-lhe o primeiro: Comprei um campo, e importa ir vê-lo; rogo-te que me hajas por escusado. O servo foi até outro e disse: Meu mestre o convidou.' E o segundo respondeu: Comprei cinco juntas de bois (uma casa), e vou experimentá-los; rogo-te que me hajas por escusado. 
 Então ele foi até outro e lhe disse: 'Meu mestre o convida.' E o (terceiro) convidado lhe disse: Casei, e portanto não posso ir. Por fim, o servo foi até outro e disse: 'Meu mestre o convidou.' E ele respondeu: 'Tenho reclamações contra alguns comerciantes. Eles estão vindo para mim esta noite. Devo ir e dar-lhes minhas ordens. Peço para ser dispensado do jantar. 
 Outros lançaram mão de seus servos, insultaram-os e mataram (alguns deles). 
 E, voltando aquele servo, anunciou estas coisas ao seu senhor. Então o (rei) pai de família, indignado, disse ao seu servo: Sai depressa pelas ruas (encruzilhadas) e bairros da cidade, e traze aqui (todos quantos achardes) os pobres, e aleijados, e mancos e cegos. 
 E disse o servo: Senhor, feito está como mandaste; e ainda há lugar. 
 E disse o senhor ao servo: Sai pelos caminhos e valados, e força-os a entrar, para que a minha casa se encha. 
 Porque eu vos digo que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia. E os servos, saindo pelos caminhos, ajuntaram todos quantos encontraram, tanto maus como bons; e a festa nupcial foi cheia de convidados. 
 O rei, entrando para ver os convidados, viu ali um homem que não estava trajado com veste de núpcias. E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo vestes nupciais? E ele emudeceu. Disse, então, o rei aos servos: Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes. Empresários e comerciantes não entrarão nos Lugares de Meu Pai.
 Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos. 

 Nesta parábola, Jesus compara o reino dos céus a um festim, onde tudo é alegria e ventura. Os que deram desculpas para não irem ao festim, representam as pessoas que, ao longo da história, priorizaram as rotinas da vida terrestre (negócios etc) e acabaram pouco se importando com a lei divina de amor. Os que atacaram e mataram servos do Rei (os profetas de Deus), são os líderes corruptos das sociedades, que abominam a bondade, a justiça, a verdade e a equidade. 
 Muitos dos hebreus/ judeus acreditavam que quando Deus prometeu que a posteridade de Abraão iria cobrir toda a Terra, ele estava prometendo um domínio político e terrestre. Antes da vinda de Cristo, com exceção dos judeus, praticamente todos os povos eram politeístas e idólatras, sendo poucos indivíduos que haviam concebido a unidade de Deus, o onipresente criador. Assim, esta ideia foi mantida por minorias de iniciados que ocultavam tais conhecimentos das massas, que em sua maioria, não aceitava ou não entendia o monoteísmo, nem a ideia de um criador onipresente. Mas a promessa de Deus a Abraão se referiu a uma posteridade espiritual, ou seja de fé e de atitudes que priorizam a lei divina, que por sua vez, prioriza a vida e toda a criação. 
 Portanto Jesus indica que Deus espera que todos os seres humanos pratiquem a solidariedade e o perdão, pois não basta dizer-se cristão, nem apenas ir às missas, aos cultos e templos. Aqueles que desprezam a lei divina de amor, serão abandonados e aqueles que a repelem, sofrem as consequências de suas obras egoístas e horríveis. Afinal mentir a Deus, o onipresente criador de todas as coisas, é um grande erro, portanto é ridículo tentar enganá-lo para conseguir qualquer recompensa após a vida na Terra, como adentrar o reino dos céus. 

 Sal na Terra e luz no mundo (Mateus, Marcos, Lucas) 
Vós sois o sal da terra; o sal é coisa boa; mas se perder o sabor (o sal for insípido), com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens; nem para adubo servirá. 
 Tendes sal em vós, e viveis em paz uns com os outros. 
 Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.
 Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus. 
Que vos parece? Um homem possui 100 ovelhas e uma delas se desgarra. Não deixa ele as 99 na montanha para ir buscar aquela que desgarrou? Assim é a vontade de vosso Pai celeste, que não se perca um destes pequeninos. 

 Jesus mostra que quem o ouve, deve viver para o próximo. O sal existe para salgar algo, a luz, para iluminar algo e a cidade para ser habitada por alguém, sendo que nenhuma destas coisas existem para ficar escondidas. Viver para o próximo praticando os ensinamentos de Jesus, é propagar o bem, é praticar caridade e solidariedade glorificando a Deus e não a si mesmo. Ensinar às pessoas que a humildade, o amor e a solidariedade resolvem praticamente todos os problemas da humanidade, evitando ser rude e priorizando boas emoções ao invés da severidade.
 Considerando que o sal nunca perde seu sabor, é possível que Jesus também esteja dizendo que somos espiritualmente imortais, ou seja, nossa alma não só continua além da vida na Terra, como existe para resplandecer a luz, ou seja, propagar a lei divina do amor.

 

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Leitura Ecumênica da Misericórdia e Solidariedade de Jesus

Pedido dos filhos de Zebedeu/ Discussão entre discípulos (Mateus, Marcos, Lucas
 "Aproximaram-se dele (a mãe de) Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: Mestre, queremos que nos faças o que te pedirmos. 
 E ele (Jesus) lhes disse: Que quereis que vos faça? 
 Eles lhe disseram: Concede-nos que na tua glória nos assentemos, um à tua direita, e outro à tua esquerda. 
 Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o cálice que eu bebo, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? 
 E eles lhe responderam: Podemos. 
 Jesus, porém, disse-lhes: Em verdade, vós bebereis o cálice que eu beber, e sereis batizados com o batismo com que eu sou batizado; Mas, o assentar-se à minha direita, ou à minha esquerda, não me pertence a mim concedê-lo, mas isso é para aqueles a quem está reservado. 
 E os dez, tendo ouvido isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João. 
 Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios (pagãos), deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre eles e se denominam benfeitores
 Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal; 
 Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? 
Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve.  E vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas tentações. E eu vos destino o reino, como meu Pai mo destinou, Para que comais e bebais à minha mesa no meu reino, e vos assenteis sobre tronos, julgando as doze tribos de Israel. 
 E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. 
 Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos." 
 O verdadeiro cristão não almeja poder sobre o povo, sejam fiéis, seja uma ou mais nações. Exercer poder sobre os outros é contra os ensinamentos de Cristo, pois o cristão vive para praticar a solidariedade, ou seja, para servir e não para ser servido. Obviamente isto não significa servir o mal, e sim, mantendo-se humilde, buscar fazer o bem. Afinal Deus criou o universo e tudo mais, não para si mesmo, mas para sua própria criação, para os seres vivos. 
 Sócrates indica que o verdadeiramente maior sempre serve o que lhe é submisso, o que lhe é inferior. O governo para ser bom teria que ser assim, pois esta é uma lei natural perceptível na natureza e em todas ocupações do ser humano: Astros como o Sol serve a vida, a natureza da Terra serve todos seus seres vivos, o médico que exerce sua profissão serve o paciente ao garantir-lhe saúde, o pedreiro que realiza suas obras serve seu cliente ao construir-lhe uma morada etc. Se a mente mais desenvolvida ou elevada busca o bem maior, ela naturalmente acaba buscando servir os mais humildes, os menos desenvolvidos etc. 

 O óbulo da viúva (Marcos, Lucas) 
 "Estando Jesus sentado defronte do gazofilácio (cofre de oferendas), a observar de que modo o povo lançava ali o dinheiro, viu que muitas pessoas ricas o deitavam em abundância. – Nisso, veio também uma pobre viúva que apenas deitou duas pequenas moedas do valor de dez centavos cada uma. – Chamando então seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu muito mais do que todos os que antes puseram suas dádivas no gazofilácio; – por isso que todos os outros deram do que lhes sobra, ao passo que ela deu do que lhe faz falta, deu mesmo tudo o que tinha para seu sustento." 
 Muita gente alega não poder fazer todo o bem que deseja, por falta de recursos suficientes, e, se desejam possuir riquezas, dizem que é para lhes dar boa aplicação. A intenção de alguns pode até ser sincera, mas será completamente desinteressada em todos? Não haverá quem, desejando fazer bem aos outros, muito estimaria poder começar por fazê-lo a si próprio, por proporcionar a si mesmo mais prazeres, por usufruir do supérfluo que lhe falta, dando aos pobres só o resto? Esta segunda intenção, que esses tais porventura dissimulam aos seus próprios olhos, mas que se lhes depararia no fundo dos seus corações, anula o mérito do intento, visto que, com a verdadeira caridade, o homem pensa nos outros antes de pensar em si. O ponto válido da caridade, nesse caso, estaria em procurar ele no seu trabalho, pelo emprego de suas forças, de sua inteligência, de seus talentos, os recursos de que carece para realizar seus generosos propósitos. 
 Haveria nisso o sacrifício que mais agrada ao Senhor. Infelizmente, a maioria vive a sonhar com os meios de se enriquecer mais facilmente, rapidamente e sem esforço, buscando a descoberta de tesouros, um favorável excedente aleatório, o recebimento de inesperadas heranças etc. Que dizer dos que esperam encontrar nos Espíritos auxiliares que os apoiem na conquista de tais objetivos? Certamente não conhecem, nem compreendem a sagrada finalidade do Espiritismo e, menos ainda, a missão dos Espíritos a quem Deus permite que se comuniquem com os homens. Daí vem o serem punidos pelas decepções, (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, nos 294 e 295.) 
 Aqueles cuja intenção está isenta de qualquer idéia pessoal, devem consolar-se da impossibilidade em que se vêem de fazer todo o bem que desejariam, lembrando-se de que o óbolo do pobre, do que dá privando-se do necessário, pesa mais na balança de Deus do que o ouro do rico que dá sem se privar de coisa alguma, Grande seria realmente a satisfação do primeiro, se pudesse socorrer, em larga escala, a indigência; mas, se essa satisfação lhe é negada, submeta-se e se limite a fazer o que possa. Aliás, será só com o dinheiro que se podem secar lágrimas e dever-se-á ficar inativo, desde que se não tenha dinheiro? Não: Todo aquele que sinceramente deseja ser útil a seus irmãos, encontrará de realizar o seu desejo. Procure-as e elas aparecerão; se não for de um modo, será de outro, porque não há alguém em plena posse de suas faculdades, não possa prestar um serviço qualquer, dar um consolo, aliviar um sofrimento físico ou moral, fazer um esforço útil. Não dispõem todos, à falta de dinheiro, do seu trabalho, do seu tempo, do seu repouso, para de tudo isso dar uma parte ao próximo? Também aí está a dádiva do pobre, o óbolo da viúva. 

 Ajuda aos necessitados. Dar sem esperar retribuição (Lucas) 
 "Aconteceu num sábado que, entrando ele em casa de um dos principais dos fariseus para comer pão, eles o estavam observando. 
 Eis que estava ali diante dele um certo homem hidrópico. 
 E Jesus, tomando a palavra, falou aos doutores da lei, e aos fariseus, dizendo: É lícito curar no sábado? 
 Eles, porém, calaram-se. 
Jesus, tomando-o, o curou e despediu. E respondendo-lhes disse: Qual será de vós o que, caindo-lhe num poço, em dia de sábado, o jumento ou o boi, não o tire logo? 
 E nada lhe podiam replicar sobre isto. 
 E disse aos convidados uma parábola, reparando como escolhiam os primeiros assentos, dizendo-lhes: 
 Quando por alguém fores convidado às bodas, não te assentes no primeiro lugar; não aconteça que esteja convidado outro mais digno do que tu; 
 E, vindo o que te convidou a ti e a ele, te diga: Dá o lugar a este; e então, com vergonha, tenhas de tomar o derradeiro (último) lugar. 
 Mas, quando fores convidado, vai, e assenta-te no derradeiro lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, sobe mais para cima. Então terás honra diante dos que estiverem contigo à mesa. 
 Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado. 
 E dizia também ao que o tinha convidado: Quando deres um jantar, ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem vizinhos ricos, para que não suceda que também eles te tornem a convidar, e te seja isso recompensado. 
 Mas, quando fizeres convite, chama os pobres, aleijados (estropiados), coxos (mancos) e cegos, E serás bem-aventurado; porque eles não têm com que to recompensar; mas recompensado te será na ressurreição dos justos. 
 Ouvindo isto, um dos que estavam com ele à mesa, disse-lhe: Feliz o que comer pão no reino de Deus!" 
 No início desta passagem, ao curar um doente no sábado, Jesus mostrou que a prática da religiosidade (da espiritualidade) é a solidariedade e isto é mais importante do que ritos e normas de qualquer “espiritualidade” ou religião. 
 “Quando derdes um festim, disse Jesus, não convideis para ele os vossos amigos, mas os pobres e os estropiados.” Estas palavras, estranhas se tomadas ao pé da letra, são sublimes, se lhes buscarmos o espírito. Talvez Jesus haja pretendido que, em vez de seus amigos, alguém reúna à sua mesa os mendigos da rua, embora Kardec considerou que Jesus apenas serviu-se de imagens fortes, para dar ênfase em seu ensinamento. O âmago do seu pensamento se revela nesta proposição: “E sereis ditosos por não terem eles meios de vo-lo retribuir.” Quer dizer que não se deve fazer o bem tendo em vista uma retribuição, mas apenas pelo prazer de o praticar. Usando de uma comparação vibrante, disse: Convidai para os vossos festins os pobres, pois sabeis que eles nada vos podem retribuir. Por festins deveis entender, não as refeições propriamente ditas, mas a participação na abundância de que desfrutais. 
 Todavia, aquela advertência também pode ser aplicada em sentido mais literal. Quantos não convidam para suas mesas apenas os que podem, como eles dizem, fazer-lhes honra, ou, a seu turno, convidá-los! Outros, ao contrário, encontram satisfação em receber os parentes e amigos menos felizes. Ora, quem não os conta entre os seus? Dessa forma, grande serviço, às vezes, se lhes presta, sem que o pareça. Aqueles, sem irem recrutar os cegos e os estropiados, praticam a máxima de Jesus, se o fazem por benevolência, sem ostentação, e sabem dissimular o benefício, por meio de uma sincera cordialidade.

 

Jesus: seriamente austero ou esperançosamente alegre?

 Após ler um texto do fundador do espiritismo, Allan Kardec, onde este analisa a obra de outro autor, chamado Renan, decidi escrever este te...